Verborragia sem concessões

October 10, 2011

NADA

Filed under: fuçando pra aprender - Carlos @ 3:56 am

As pessoas se dão realmente muito mais importância do que deveriam. Um amigo sentenciou que no fundo, todos nós somos um grande NADA. Nossas funções cerebrais misturadas com um instinto absolutamente idêntico a de um cavalo ou de um coelho nos dá a possibilidade de aferir equilíbrio numa sociedade desorganizada.

Acho que no fundo somos coelhos, talvez. Essa organização, pressuposto condizente aos humanoides, na boa e velha duplinha telencéfalo altamente desenvolvido + polegar opositor, junto com uma atroz sociedade cristã, que nos permite pecar, desde que depois tua consciência tome um banho de bíblia, dá a nós uma série de ledos enganos que no fundo são balela pra preencher páginas e vender livros.

Que diabos de organização a gente tem, se no fundo, o que importa é a MESMA COISA que importa aos coelhos: beber, fumar, comer, cagar, são as leis da natureza e ninguém vai poder mudar. O resto é matéria de quinta série, cagaçada de pau na infância ou livro de autoajuda, não me importa muito.

Os cachorros são atraídos para a fêmea pelo olfato. Período do cio, de acordo com algum cheiro que o macho sinta de diferente lhe dá o que chamamos vulgarmente de tesão. No mundo humanoide, o olfato se estende para os outros sentidos. A soma deles nos dá tesão. Geralmente quando um sentido não bate, o macho rejeita a fêmea e vice-versa. Na maioria das vezes, é a fêmea que rejeita o macho, mas só porque culturalmente (ó a culpa cristã) ficou determinado que o papel da genitora seria puro, a maçã, o paraíso, lembra?

E o pior é que todo mundo vive pra isso. Ninguém é feliz sem o desenvolvimento completo dos instintos. Nem quem é rico. Quem é rico compra instinto, inclusive. O dinheiro só é um mecanismo para se tornar mais agradável diante dessa circunstância animal: ficar mais bonito, mais cheiroso, mais atraente e usufruir os próprios sentidos em coisas mais prazerosas. Até o paladar é que nem contador de notas: acredite, tuas papilas gustativas sabem distinguir um bife de 2 e outro de 100 reais.

Depois de uma vida produtiva, em que TODO MUNDO peca e depois TODO MUNDO absolve sua própria consciência, neguinho vai pra vala igual. No fundo, somos todos iguais, uns com mais capacidade cognitiva, outros com aprendizados diferentes que lhes proporcionam experiências diferentes. Um escritor não é mais ou menos inteligente do que aquele cara que montou um prédio. Ou do que o que te serviu a comida, ou do que o que te conduz no trânsito. Os caminhos se tornaram diferentes só porque as aptidões/oportunidades/direcionamentos foram diferentes.

Se pensar, a utilidade de um livro é igual à utilidade de quem serve comida, de quem dirige, e por aí vai. E imagino que, com ausência de vícios adquiridos, TODOS têm a condição de aprender TUDO, a MESMA COISA. O que nos torna meio comuns, melhor, comuns não, iguais.

Numa sociedade organizada, todos têm as suas funções bem delineadas. O zangão, a rainha e as operárias. Nossa colmeia é idêntica, com milhões de microcosmos (família, repartições) que seguem a mesma linha das abelhas. Elas produzem mel, que é útil ao homem. O homem produz merda, que é útil para o solo. O solo produz pasto, que é útil ao boi, que serve de carne ao homem, que de decompõe e vira alimento de bactérias. Uma cadeia alimentar certinha, normatizada pela única lei que realmente importa nesse universo: seleção natural.

E no fundo, somos só mais um item dessa cadeia. Parece pensar pouco, mas acho que se todo mundo pensasse assim, grandes problemas seriam solucionados e grandes ideias seriam criadas. Se “desimportar” é o verdadeiro caminho para a felicidade.

Conheço muita gente que só conseguiu ser feliz quando pagou o foda-se. Conheço muita gente que deixou de ser feliz quando passou a se importar. Se serve de consolo, abstrai, pensa na cadeia alimentar, o teu instinto e na tua completa ausência de capacidade pra fazer a diferença. Aí tu vai pegar o fio da meada. Aí tu vai ser feliz.

E quando conseguir mentalizar tudo isso que eu escrevi na prática, me ensina a fazer o mesmo.

February 22, 2011

A VOLTA DO TORTO

Filed under: saudosismo - Carlos @ 2:13 pm

Eu não escrevo porque 75% dos textos desse blog são ruins. De verdade, são vazios, meio fúteis, alguma coisa sem sentido que beira a piada interna que só um entende - no caso eu, e olha, tem que fazer esforço.

Também porque, de uns tempos pra cá, as preocupações da vida adulta considerada e consagrada me tomaram de assalto e não tive muito tempo pra mimimi sobre desilusões amorosas, chororôs, listinhas sem razão e divagações que beiram um adolescente de 12, absolutamente não-condizentes com um homem de ## anos.

Não é porque ninguém lê. Eu não quero plateia e certamente não avisarei a ninguém sobre este texto. Apenas o publico como um bônus de risco, manja? Aquela história de eu não quero que ninguém leia, mas ele tá lá, publicado, quero ver se alguém o encontra por acaso ou se alguém ainda visita meu blog antigo, aquele muro de lamentações e de textos nonsense endereçados do papa ao gari. E eu não quero que leiam o texto porque eu não estou escrevendo sobre rigorosamente nada, a não ser sobre o ofício de escrever, ou o ex-ofício de escrever e o que eu perdi, ganhei ou nem fedi nem cheirei com a perda do blog. Parece até um exercício de tédio, mas não é.

É que também eu não consigo mais ser tão sincero, aberto, irresponsável e sem peso nas costas como eu era. Acho tudo isso tão incompatível, 140 caracteres são suficientes, ninguém para pra ler profundidade, mas eu não quero que ninguém leia, só quero escrever pra ainda imaginar que um dia aquele dom (??) ainda está presente.

Reli alguns textos e alguns são rasteiros. Pobres de forma e conteúdo. Mas alguns são brilhantes. Momentos de inspiração profunda, causados pela não obrigação de se resguardar, de ser político, correto e sensato. Fui brilhante onde eu tinha de ser, visceral, pura tempestade em copo d’água, grandiloquente, imaginário, visionário.

Era uma fase, sabe, onde eu precisava dar a cara a bater. Exercitar minha escrita e meu poder de transcrição era juntar o útil ao agradável, matar dois coelhos numa só porrada. E sobrou porrada pra coelho, chefe, namorada, amigo e espelho. Não cortei ninguém, a não ser eu mesmo, internamente, sem reflexo na vida prática. Descobri que a vida prática é muito menos atraente que essa vida de blog, onde todos “carpe diem; viva o dia de hoje como se fosse o último; o que importa é a felicidade”. Bobagem. Todos fazem a mesma coisa e os que não fazem têm pais ricos e gastam o dinheiro deles à lá vontê, mas um dia o bolso deles vai arder como um cu e aí vão parar com essa de “viver como se fosse o último dia” no momento que o código de barras passar no leitor do banco.

Se divertir na vida adulta é uma espécie de utopia. (SE FOSSE O CARPINEJAR SERIA RETUITADO, EU SEI). Uma utopia social. Adulto não serviu pra se divertir. É bem coisa da culpa cristã. Serviu pra servir, ser o provedor, o trabalhador honrado, ainda moldado por uma sociedade-DO-BEM que exige que você acorde cedo, almoce no horário, volte, brinque com o filho e no máximo jogue bola com os amigos e tome uma cerveja volta e meia, pra dormir cedo e acordar cedo e seguir tudo de novo, sem parar.

Por isso eu voltei a escrever. Tô cagando se eu não for lido. Não estou interessado se meu texto não for lido, se minha ideia não for retuitada, se meu pensamento não for disseminado, se meu sentimento não for correspondido. Eu não tô interessado em nenhuma teoria, em nenhuma fantasia nem no algo mais. Minha alucinação é suportar o dia a dia, meu delírio é experiência com coisas reais. Belchior, amigo, lhe digo, assim, a vida é muito pior, mas ainda, e você sabe disso, é muito bom escrever. É terapêutico. E é real ó, eu tenho um tempo, exercito minha capacidade de raciocínio e estimulo neurônios e alguma outra coisa que a ciência me diz.

Mas o principal é que só voltei porque estava preparado. Ou melhor, motivado. Eu sentia saudades de escrever, como se fosse um jogador de tênis amador ruim. Sou uma bosta de escritor, mas eu gosto de ser uma bosta de escritor. O que importa é o hábito. Era algo que eu gostava, como ver filmes incessantemente, como ouvir músicas enlouquecidamente ou como correr na Redenção, caminhar sozinho e participar mais de atividades onde o lúdico eu se encontrava com o maldito eu. Algo que só quem é um bipolar não-patológico entenderia.

January 28, 2009

A PROFISSÃO DO FUTURO

Filed under: comportamento - Carlos @ 3:09 am

No mundo moderno, conforto é sinônimo de isolamento. O que um carro oferece de comodidade? Ar-condicionado, para que as janelas fiquem fechadas, oferecendo a sensação de que o mundo ao redor do carro é à parte. Não há interação como o vento, a poluição, o barulho das ruas, o flanelinha vendendo amendoim, uma buzida desavisada.

Os melhores sons para os carros são os que vem com mp3. Nada de rádio, de conexão com as paradas, de informação sobre o trânsito. Numa bolha, o ar condicionado e os seus mp3, uma seleção feita por você - só você.

Os melhores celulares são aqueles que te entregam a mágica de resolver tudo sem precisar passar perto de ninguém. O contato é feito por telefone, de longe, sem um aperto de mão, um toque. Só um abraço falado e vamos pro próximo. Isso quando não é um Att escrito.

Se eu fosse indicar alguma profissão para o meu filho, em primeiro lugar seria jogador de futebol. Em segundo lugar, modelo. Isso não morre nunca, o futebol e o culto pela beleza. Em terceiro lugar, psiquiatra. Não tenho mais dúvidas que o psiquiatra, psicanalista, terapeuta ou o raio que o parta de definição com suas vertentes/posologias (sim, é ironia) é a profissão do futuro.

Os psiquiatras vão enriquecer. Nem o Bill Gates terá tão sucesso por causa da tecnologia. Aliás, parece que a Microsoft demitiu umas cabeças. O psiquiatra não vai mais ter agenda.

Culpem a tecnologia. Culpe a internet, cada vez mais rápida, logo logo três ponto zero, culpe os carros com ar condicionado protegidos do mundo real e de tudo que há de ruim e bom nele, culpe os celulares iphones com mil e uma funções, culpe o GPS, que vai terminar com o singelo ato de perguntar para um nativo uma localização.

Tanto isolamento é fruto de comodismo, de consumo e de medo. A interação social é cada vez mais complicada. É menos gentil, mais afobada. Mais ríspida, mais perene. Não há mais espaço para melhores amigos, a não ser que seja pelo msn.

Por isso que os psiquiatras vão enriquecer. Vão precisar deles quando estourar. Se bem que, do jeito que as coisas se desenvolvem, já vão inventar terapia por webcam.

September 16, 2008

O GLOSSÁRIO MAIS DETESTÁVEL DE TODOS

Filed under: fuçando pra aprender - Carlos @ 3:43 am

Jornalista de TV se acha estrela pop.
Jornalista de rádio se acha mais versátil.
Jornalista de internet se acha mais esperto.

Jornalista de jornal se acha mais pop que os da TV
Jornalista de jornal se acha mais versátil que os de rádio
Jornalista de jornal se acha mais esperto que os de internet

Jornalista de jornal se acha mais inteligente que todos os outros (quiçá, JUNTOS).

E eles têm um glossário, meu amigo, que é a coisa mais irritante do mundo. Aí vão as cinco expressões utilizadas por este pessoal que, enfim, se acha mais supremo que qualquer outro profissional de qualquer outra área (detalhe: mesmo que seja uma guria recém saída do segundo grau em Arroio do Meio, feia pra burro e muito chata)

GRAXA: é o refeitório. pra maioria dos trabalhadores brasileiros, um banquete. eu sei, porque me alimentei por ali por oito anos. mas pros adoradores de coxinha de galinha do Natalício, é graxa.

FIRMA: pra não falar o nome da empresa, adotam este código simpático e irritante.

MEIÃO: denominação para o pessoal que trabalha no meio da redação, geralmente menininhas de 20 anos que viram colírio para os olhares viagrados daqueles colunistas das antigas.

CASE: em português, caso. é realmente um caso, alguém que tenha vivido determinada história e sirva para uma matéria. O ruim é quando até no msn eu leio: “ALGUÉM SABE UM CASE DE NÃO SEI O QUÊ”. Não, eu não sei e tome no cu, obrigado.

FECHAMENTO: o horário em que (eu ouvi uma vez) NENHUM JORNALISTA PODE FAZER NADA. É ali pelas 19h. Eu sou jornalista e trabalho até às 18h. Logo, às 19h eu posso fazer alguma coisa sim.

Tem mais um monte de palavras, mas deixei só as cinco mais irritantes. É, o rádio é mais honesto. Bem mais.

September 10, 2008

CUSPINDO NA CERTA

Filed under: comportamento - Carlos @ 3:47 am

Eu ando escrevendo pouco porque meus textos estão uma merda. É sério. Já escrevi muita coisa boa, mas hoje eles não fazem nem cosquinha naquilo que eu colocava, aqui mesmo no blog.

Meu sarcasmo anda contido, e era meu forte. Minha adjetivação exagerada anda pequenina. Meus superlativos estão ponderados. Prefiro a esquiva à minha cara a tapa.

É o preço da maturidade, sem dúvidas. Mas eu acho que o que anda bloqueando a minha impetuosidade de outros tempos é o fato de eu entrar numa época em que cada vez mais é necessário minimizar os erros.

Quando a gente tem vinte e BEM poucos, dá pra errar que tem um backup, que tem uma segunda, uma terceira chance. A permissão para errar vai se esvaindo conforme o nosso crescimento. Agora, a gente só vai na certa. Na boa. Sem cair de cabeça em qualquer coisa que a gente possa duvidar. O preço pelo erro pode ser irreversível.

Confesso que aprendi muito com alguns pequenos e magistrais golpes que andei tomando por aí. A velha história da confiança é a mais pura verdade. Confiar é um ato de prova contínua. Quando há uma ruptura nisso, não tem mais volta. E é uma recíproca constante, eu certamente devo ter desapontado alguém.

É esse medo de errar que faz com que eu “trate melhor as pessoas”, por incrível que pareça. Brigar tem seu preço. Aliás, absolutamente tudo tem seu preço. Então, vamos fazer que nem os velhos fazem. Tratar com a chamada educação moderada todo mundo, ser gentil sem entrar na casa da pessoa. É mais fácil e mais superficial.

Acho que é por isso que meus textos andam sem graça. Tem tanta coisa importante pra se irritar, como o trânsito, as contas e o cansaço, que a gente perde a vontade de usar o sarcasmo como arma. É melhor usar a responsabilidade. Lá se vai um encanto, mas alguém venceu na vida sem os pés no chão?

É, os textos não são os melhores. Foi-se o tempo que a metralhadora verbal disparava contra todo mundo. Pra não ser pego, deixa ela atirar num alvo certeiro.

INVERNO É PRA GENTE CHATA

Filed under: porto alegre - Carlos @ 3:35 am

Minha avó fez aniversário no último dia 7 de setembro. Aliás, o aniversário da minha vó é uma marca sempre muito esperada por mim. É a data que marca a melhor fase do ano na minha opinião. O chamado “resto do ano”.

Pensem bem sobre o 7 de setembro. Os primeiros dois meses são de atividade parcial em praticamente tudo. Por mais que a gente negue, as coisas ainda giram em torno das crianças, pelo menos aqui em Porto Alegre. Sem aulas, a cidade não é tão viva. E mesmo que a gente não tire férias, sempre se dá um jeito de fugir da rotina dos dias de folga saindo para o litoral. Dois meses atípicos, uma eterna alta temporada.

Março e abril são os meses de despedida do calor, para a imersão em um inverno absolutamente catastrófico, como sempre é o nosso. Chuvas, um frio lamentável, pessoas carrancudas, aquela velha depressão que só as pessoas tristes e sem alma gostam, que é o inverno. Ah, lindo pra dormir juntinho e pra engordar. Péssimo pra qualquer outra atividade. Uma simples ida à esquina te deixa com os pés molhados. Inverno pra mim continua sendo pra gente sem alma, sempre foi.

Essa aflição dura maio, junho, julho e agosto. Quando chega setembro, agora, pelo meio, as árvores florescem, os pássaros cantam, os bichos sorriem e tudo passa a ter mais cor, mais saúde, mais vida. É incrível esta diferença. Uma movimentação saudável que espera o fim do ano.

Além disso, é o início de uma seqüência excelente de feriados, que só termina no ano que vem. Ave, o verão tá chegando e eu não canso de dizer: inverno é pra gente chata.

August 17, 2008

O SURTO QUE IRRITA

Filed under: comportamento - Carlos @ 4:03 am

A internet me irrita. Me irrita profundamnte. É um monte de gente que simplesmente decidiu poupar a capacidade de raciocínio para se enfiar na frente de um computador pra fazer não sei o quê.

Eu gostava da internet no início. Hoje, eu só uso por pura necessidade. Na verdade, a internet tem basicamente duas funções, primordiais para o ser humano: masturbação e flerte. Sendo que a masturbação vem em primeiro lugar disparado.

A punheta cibernética se dá das mais diversas formas. Talvez a mais corriqueira seja a punheta habitual. É estudo, os sites mais pesquisados no mundo são os sites de putaria. Putaria visual via internet é a glória para qualquer pervertido - ou curioso. É confortável, de certo modo segura (bem mais segura do que qualquer trepadinha de final e semana), relativamente barata e extremamente imaginativa. Qualquer fetiche que deixaria um cidadão com a consciência pesada feito um touro é realizado com dois cliques, num exercício de possibilidades que num mundo real ele jamais acharia (afinal, é difícil um pervertido se revelar).

As outras formas de masturbação virtual são mais doentias e bem menos prazerosas. Principalmente quando alguns se revelam viciados no bagulho. É doença, não é legal, sabe. Aliás, qualquer manifestação de orgulho às avessas me irrita.

E não é que dia desses descobri que tem gente que SURTA (sim, o termo é esse, SURTA) quando fica offline. É, quando dá alguma pane, quando falta luz, quando, sei lá, a tia quer usar o computador, a pessoa SURTA (o termo é esse).

Hmm, deixa eu ver por aqui… Uma colega da minha mãe descobriu que a filha está com leucemia. Um amigo meu foi demitido e recém estava para se casar, sendo que agora vai ter que esperar, pois falta dinheiro. Colegas meus trabalham 15 horas por dia para poder chegar a uma grana legal no final do mês. Cada vez menos nossos amigos têm avós e cada vez mais nossos amigos são pais. Os impostos aumentam. Uma empresa tem uma carga tributária enorme, e isso conta quando é uma micro-empresa, que só quer prestar seviços. Ou melhor, só quer manter uma forma para receber a grana. Esse tempo tá uma merda. Esse trânsito tá uma merda. Essa gente tá uma merda.

Mas eu não vi ninguém surtando. Agora, esse bando de nerd e feio, que passa o tempo todo na internet pra suprir a frustração de uma vida pessoal absolutamente medícore, que possuem uma incapacidade de ter qualquer tipo de carisma nas relações sociais, que não conseguem encarar de frente uma vida real. É, mas eles surtam quando ficam offline. SURTAM.

Eu surto, mas não por isso. E quando eu surto, eu também não fujo, não vou para fora do país. Quando eu surto, eu volto depois, percebendo que o termo SURTAR deve ser preservado para ser utilizado num momento bem mais “surtável”. E quando há algum “surto”, depois eu me dou conta que é ridículo. Que é uma merda, as contas, a carga horária, as dores, a falta de grana, o mau humor. Mas que tudo isso passa, que tem uns colos tão bons pra gente deitar a cabeça e acalmar, por mais que fiquem magoados com a gente. Que gostar, amar, ser feliz, compensa estes eventuais surtos ridículos que acontecem.

Agora, se for pra surtar, que seja por algo que mereça. Por ficar offline? Difícil entender. A não ser que esse pessoal seja pervertido virtual. Aí até vale. Se bem que é compreensível né… deve ser difícil pra essa gente comer alguém na vida real.

August 14, 2008

PLANTÃO SEM IR AO AR

Filed under: jornalismo, saudosismo - Carlos @ 8:48 am

Quando eu resolvi fazer jornalismo, eu queria escrever. Jamais me via como um jornalista do rádio. Para mim, o rádio ainda era um mercado exclusivo para aqueles vozeirões absurdos, com anos de treinamento, até chegar ao microfone. Também não queria fazer televisão. Confesso que quando entrei na faculdade, ainda nos anos noventa, repórter televisivo para mim tinha que ser um pouco artista. Tem gente que confunde o cara que aparece na TV com um ator da Globo. Aposto que o Caco Barcelos dá mais autógrafo que o Márcio Kieling. E ele, em tese, tem a mesma profissão que eu, guardando as devidas proporções. É óbvio que ele tem muito mais talento que eu.

Eu ouvia esses caras há muito tempo. Hoje, eu brigo com eles, tomo cerveja com eles, e até mando em alguns. Jamais pensei que seria assim. E jamais pensei que eu teria este dom de empresário/empreendedor/gestor. Mas eu comecei a juntar as peças e acho que minha trajetória não poderia ser outra a não ser esta.

Dias desses olhei pastas antigas. Campeonato Brasileiro de 1993. Ninguém sabe, mas eu anotava tudo sobre os jogos. Com listas dos melhores. Por puro prazer pessoal. Aos 13 anos, eu já era plantão esportivo sem ir ao ar. E pasmem: meu método de organização não mudou em nada desde então. É a mesma coisa, as estatísticas, a organização funcional, as anotações. E tudo isso numa era em que não havia internet. Descobri que inconscientemente atuo profissionalmente numa metodologia empregada quando era ainda amador.

E de repente, eu senti que minha profissão foi definida aos 13 anos. Aquilo que eu fazia como hobby seria meu ganha-pão quinze anos depois. O engraçado é que aquela brincadeira nunca chegou a ser cogitada como profissão. Na minha cabeça, seria um repórter musical, alguma coisa do tipo. Eu nem sei se eu seria bom nisso porque eu jamais tentei, de fato.

É engraçado como as coisas acontecem quando a gente nem percebe. E como os sonhos, as brincadeiras, as diversões, te dão uma base para direcionar tua trajetória. Engraçado mesmo.

Ah, eu volto a ter vida social dia 24/08. Até lá, esse horário.

July 28, 2008

DE VOLTA AOS 80

Filed under: comportamento, brasil - Carlos @ 4:02 am

Os anos 80 foram a década da ressaca. Com a Guerra Fria em decadência, com a paz e o amor fora de moda, com a sexualidade em geral banalizada, veio a porrada na mente daqueles que mudaram o mundo. Tudo tem seu preço. A década de 80 tratou de afundar de vez qualquer idéia de mudança. Aquele garoto que queria mudar o mundo passou a assistir a tudo em cima do muro. E a culpa não foi dele. Ao invés do descompromisso, do amor entre os seres, o mundo entrou em um individualismo doentio, a necessidade de consumir, consumir tudo, da explosão dos eletrodomésticos, à disseminação da televisão em doses perigosas, do ímpeto americanóide da Wall Street, das doses largas de uísque e cocaína executivos, do orgulho em afrouxar a gravata no final do dia sabendo que fez tudo pela carreira e nada pela vida. Década desgraçada, em tudo. As pessoas eram mais feias, a moda era patética, a música foi uma merda, as relações se deterioraram. Tudo o que eles lutavam contra a ditadura chegava numa esfera piorada.

No Brasil, por exemplo, essa ressaca foi evidente. Começou ainda com o resquício da putaria da disco, infernizada pela popularidade das boates, do pó e da Dancing Days. Ensaiou uma esperança morta, com as Diretas (que foi a maior derrota política nacional), com a ousadia das telenovelas e com a eleição de Tancredo Neves. Há de se ter um mártir, não? Tancredo morre, o país vai à falência, se fazem planos econômicos e se elege um santo milagroso que é a cara dos anos 80: Collor.

Eu só não apago esta década porque considero que ela exerce o mesmo fascínio dos anos 60. Há toda uma riqueza de desgraças que encanta e assusta. Assusta porque eu não quero voltar aos anos 80. E temo que isso, em breve, possa acontecer. E o pior: com uma revolução em nome do nada. Há um paralelo estranho entre os tempos que vivemos e os anos 80. O individualismo se manifesta nas horas exageradas que, virtualmente, compramos, desejamos, nos comunicamos, nos informamos. Um “free love” se estabelece numa nítida relação de liberade excessiva com que os jovens crescem hoje. O esclarecimento nos permitiu diminuir as fronteiras entre os tabus. Há um “ninguém é de ninguém” que é uma tentação para qualquer pessoa em formação. Há também uma facilidade nas pessoas acharem que são muito mais do que elas realmente são.

Se há alguns anos isso era necessário para quebrar uma caretice, hoje mais parece uma simples banalização. O importante é se divertir, custe o que custar.

Sou favorável ao equilíbrio. “Disciplina é liberdade”, dizia o cara lá nos anos 80. Vinte anos depois, onde está a tal disciplina? Acho que voltamos a viver como há vinte anos atrás.

July 26, 2008

A GRANA, A FAMA, O QUINTAL E O RELÓGIO

Filed under: saudosismo - Carlos @ 4:13 am

Dizem que quanto mais velho a gente fica, mais a gente se apega em qualquer coisa que não seja o que a gente pensava antes.

Cheguei a pensar que um dia eu pudesse viver de renda. Hoje a minha renda norteia a minha vida de uma maneira que não era exatamente aquela que eu imaginava.

Cheguei a pensar que um dia eu seria famoso. Hoje, sei que fama não bota gasolina no posto.

Cheguei a pensar que aqueles amigos seriam meus amigos pra sempre, que quando eu tivesse 30 anos, eu estaria com eles, as esposas, os filhos, num quintal esplendoroso, fazendo churrasco ao ar livre e tomando cerveja num domingo de tarde. Bom, eu já não falo com nenhum destes amigos. Alguns deles estão solteiros. Nenhum tem quintal. E eu também não tive por muito tempo domingos à tarde.

Cheguei a pensar que eu ganharia aquele relógio de dez anos de serviços prestados. Hoje, eu até posso contratar alguém pra prestar serviços pra mim. E meu relógio eu comprei.

É, acho que eu esqueci de planejar as reviravoltas desse mundo. As minhas e as deles.

Entendo certamente que todas estes desvios de percurso são naturais. Toda aquela magia, aquela ilusão sonhadora da renda, da fama, do quintal e do relógio, esbarram em obstáculos bem mais fortes, que a gente com 15 anos, nem pensa. Para ter renda, é preciso negociar. Para ter fama, é preciso puxar (o saco ou o tapete). Para ter um quintal, é preciso fugir. Para ganhar o relógio, é preciso apanhar. Eu não negocio, não puxo nem fumo, moro em apartamento e resolvi revidar. É, fiquei sem grana, sem fama, sem quintal e sem relógio.

E se eu quisesse tudo isso? Se eu quisesse a concretização daquele meu sonho de menino? E o meu sonho de pré-adolescente? E meu sonho de adolescente? E meu sonho adulto? Seria somente voltar a alguma data antes dos acontecimentos se dispersarem?

Aí entra o tal do Efeito Borboleta, cpmo naquele filme. Para cada mudança de rumo significativa, há uma data que marca este feito. O início aparente das coisas não é o começo de tudo. É só o lançamento do foguete. A decisão dele ter sido lançado vem muito antes.

Há uns dias, foi 13 de julho. No dia 13 de julho de 2007, ninguém imagina, mas foi quando tudo começou. E pior: não tive culpa. Mas aquele ato, aparentemente impensado, gerou uma série de conseqüências morais e (sim) profissionais. Eu tenho certeza absoluta que eu não estaria aqui se não fosse pelo dia 13 de julho. Nem aqueles dois estariam onde estão. Nem os outros que nem estavam ali. Minha vida mudou pela última vez no dia 13 de julho. E não no dia 11 de fevereiro, como a maioria pensa que foi.

Não tenho nenhuma vontade em voltar no tempo pra mudar o dia 13 de julho. A data tratou de romper com absolutamente tudo que me envolvia. Eu deixo a minha parte como está, até porque, mesmo sem tudo isso, sem a grana, sem a fama, sem o quintal e sem o relógio, a gente dá um jeito e encontra a felicidade em coisas que eu nem teria se não fosse o 13 de julho. Palavra.

Fora que eu já não tinha a grana, a fama e o quintal. Eu ainda poderia ter o relógio. Mas quer saber? O que eu comprei é muito melhor que o deles.

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