NADA
As pessoas se dão realmente muito mais importância do que deveriam. Um amigo sentenciou que no fundo, todos nós somos um grande NADA. Nossas funções cerebrais misturadas com um instinto absolutamente idêntico a de um cavalo ou de um coelho nos dá a possibilidade de aferir equilíbrio numa sociedade desorganizada.
Acho que no fundo somos coelhos, talvez. Essa organização, pressuposto condizente aos humanoides, na boa e velha duplinha telencéfalo altamente desenvolvido + polegar opositor, junto com uma atroz sociedade cristã, que nos permite pecar, desde que depois tua consciência tome um banho de bíblia, dá a nós uma série de ledos enganos que no fundo são balela pra preencher páginas e vender livros.
Que diabos de organização a gente tem, se no fundo, o que importa é a MESMA COISA que importa aos coelhos: beber, fumar, comer, cagar, são as leis da natureza e ninguém vai poder mudar. O resto é matéria de quinta série, cagaçada de pau na infância ou livro de autoajuda, não me importa muito.
Os cachorros são atraídos para a fêmea pelo olfato. Período do cio, de acordo com algum cheiro que o macho sinta de diferente lhe dá o que chamamos vulgarmente de tesão. No mundo humanoide, o olfato se estende para os outros sentidos. A soma deles nos dá tesão. Geralmente quando um sentido não bate, o macho rejeita a fêmea e vice-versa. Na maioria das vezes, é a fêmea que rejeita o macho, mas só porque culturalmente (ó a culpa cristã) ficou determinado que o papel da genitora seria puro, a maçã, o paraíso, lembra?
E o pior é que todo mundo vive pra isso. Ninguém é feliz sem o desenvolvimento completo dos instintos. Nem quem é rico. Quem é rico compra instinto, inclusive. O dinheiro só é um mecanismo para se tornar mais agradável diante dessa circunstância animal: ficar mais bonito, mais cheiroso, mais atraente e usufruir os próprios sentidos em coisas mais prazerosas. Até o paladar é que nem contador de notas: acredite, tuas papilas gustativas sabem distinguir um bife de 2 e outro de 100 reais.
Depois de uma vida produtiva, em que TODO MUNDO peca e depois TODO MUNDO absolve sua própria consciência, neguinho vai pra vala igual. No fundo, somos todos iguais, uns com mais capacidade cognitiva, outros com aprendizados diferentes que lhes proporcionam experiências diferentes. Um escritor não é mais ou menos inteligente do que aquele cara que montou um prédio. Ou do que o que te serviu a comida, ou do que o que te conduz no trânsito. Os caminhos se tornaram diferentes só porque as aptidões/oportunidades/direcionamentos foram diferentes.
Se pensar, a utilidade de um livro é igual à utilidade de quem serve comida, de quem dirige, e por aí vai. E imagino que, com ausência de vícios adquiridos, TODOS têm a condição de aprender TUDO, a MESMA COISA. O que nos torna meio comuns, melhor, comuns não, iguais.
Numa sociedade organizada, todos têm as suas funções bem delineadas. O zangão, a rainha e as operárias. Nossa colmeia é idêntica, com milhões de microcosmos (família, repartições) que seguem a mesma linha das abelhas. Elas produzem mel, que é útil ao homem. O homem produz merda, que é útil para o solo. O solo produz pasto, que é útil ao boi, que serve de carne ao homem, que de decompõe e vira alimento de bactérias. Uma cadeia alimentar certinha, normatizada pela única lei que realmente importa nesse universo: seleção natural.
E no fundo, somos só mais um item dessa cadeia. Parece pensar pouco, mas acho que se todo mundo pensasse assim, grandes problemas seriam solucionados e grandes ideias seriam criadas. Se “desimportar” é o verdadeiro caminho para a felicidade.
Conheço muita gente que só conseguiu ser feliz quando pagou o foda-se. Conheço muita gente que deixou de ser feliz quando passou a se importar. Se serve de consolo, abstrai, pensa na cadeia alimentar, o teu instinto e na tua completa ausência de capacidade pra fazer a diferença. Aí tu vai pegar o fio da meada. Aí tu vai ser feliz.
E quando conseguir mentalizar tudo isso que eu escrevi na prática, me ensina a fazer o mesmo.