Verborragia sem concessões

January 25, 2006

SÓ FALTA SABER DANÇAR

Filed under: música - Carlos @ 3:03 am

Apresentei sábado um programa de quatro horas da praia. O Super Sábado não é um programa somente de esportes. Abre espaço para outras coisas, como show ao vivo, convidados, piadistas, no maior estilo popular rádio AM.
Entre os convidados, estava uma banda de pagode. De uns anos pra cá, eu acabei descobrindo que quando chega a estação mais quente do ano, os estilos mais abomináveis do mundo não soam tão ruins pra mim. Resumindo: dá pra ouvir pagode, axé e funk no verão e até suportar um pouco.
No entanto, neste ano, eu resolvi entrar na dança. Durante a semana em que eu fiquei na praia, pela primeira vez ouvi falar num grupo paulistano chamado Inimigos da HP. É mais um daqueles discos ao vivo de pagode universitário, que consiste, basicamente em um movimento que pega playboys sarados de academia, geralmente BRANCOS, que se reúnem pra fazer um compasso básico de samba e dizer que é pagode. Detestável, não fosse o verão. Os tais Inimigos da HP são horríveis, mas com o passar do tempo e o volume incessante do vizinho, me fizeram até decorar alguma coisa das músicas e não achar tão desprezível assim.
Parei de acompanhar surgimento de bandas novas há uns três anos. Não sei exatamente por qual razão, deve ser porque eu não conseguia achar nada de interessante. Nada que valesse a pena. Nada que superasse “(White Man) In Hammersmith Palais”, do Clash, “The Needle and the Damage Done”, do Neil Young, “Touch Too Much”, do AC/DC ou “Gigantic”, do Pixies. Só pra citar umas das minhas 100 músicas favoritas.
E também porque já descobri as quinhentas mil facetas do rock disponíveis. Já invadi o soul, o jazz, a praga do post rock, o country, o metal(em todas suas vertentes), a MPB tradicional, o samba de raiz, o samba intelectualóide, o pop grudento, mais quinhentos mil estilos. Cansei, já descobri, já formei um gosto, já sei o que é, e raramente tem uma novidade interessante.
Também funciona assim com as novas bandas gaúchas. Em geral, todas são uma merda. Parei de ir a shows de bandas gaúchas faz uns dois anos. Eles não rendem.
Foi quando eu resolvi abrir os ouvidos pros Inimigos da HP. Vamos desconsiderar o sofrível padrão musical e pegarmos só o astral. Afinal(mesmo que eu tivesse relutado por muito tempo), é o astral que importa na música. Os Beatles ensinaram isso, o Sex Pistols aperfeiçoou, os Ramones foram phd em astral. Astral, sentimento. O astral dos Inimigos da HP é o ponto forte. É uma espécie de vitamina, que se une ao calor e faz bem para os ouvidos, sendo até razoável dançar.
Em matéria de astral, no entanto, ninguém supera a Ivete Sangalo. A onda de axé começou de uma maneira interessante. No início dos anos 90, a indústria fonográfica brasileira estava em plena decadência. Com a Era Collor, diminuiu o poder aquisitivo, graças a um confisco arbitrário nas poupanças dos brasileiros. Sem dinheiro, não havia como lançar discos, nem como vendê-los. Veio a estagnação cultural e as duplas sertanejas pegaram a maior fatia do mercado. Junto, um marasmo criativo das bandas de rock que estouraram nos anos 90. Restava ao brasileiro que estava interessado em qualidade e, também, em astral(música sertaneja, definitivamente, não tem ASTRAL). Em 1991, Daniela Mercury lançou seu primeiro disco. Invadiu novela, pista, rádio. O primeiro disco de Daniela Mercury é um dos vinte melhores dos anos 90, na minha opinião. É a obra necessária para fugir da estagnação. Na esteira de Daniela, vieram milhares de bandas da Bahia, e entre elas, a Banda Eva, de Ivete Sangalo.
Ivete foi à luta para carreira solo para se tornar hoje, com inclusive o aval dos puristas, a maior cantora brasileira em atividade. Sem a pretensão de Marisa Monte(que tem um filho chamado MANO WLADIMIR e lança um projeto chamdo TRIBALISTAS sem fazer shows), sem os cacoetes sapatões-nova MPB(Cássia Eller primeiro, agora Zélia Duncan e Ana Carolina), sem arranjos sofisticados e idealização de ser diva(Maria Rita), sem ser falsa virgem(Sandy e Wanessa Camargo), e sem ser veterana-lançadora-de-novos-talentos-na-composição(Gal, Betânia), Ivete Sangalo superou todas elas com o maior carisma em um artista brasileiro.
Ivete canta bem. É simpática e tem um puta domínio de palco. Sabe emplacar hits, e certamente não é uma tarefa fácil. E o mais importante: tem alto astral. E ainda já provou ser boa intérprete quando colocou em seu repertório músicas mais sérias.
Ainda assim, as músicas dela só duram um verão. Depois, vem outras. É assim, o verão é feito disso: alto astral. Por isso, eu gosto da Ivete Sangalo. Pode ser o verão, mas acho que é um pouco mais que isso. É me tornar capaz de ser contagiado pela felicidade geral que se tem quando se ouve suas músicas. Fora isso, há uma transmissão bem mais saudável quando se escuta esse tipo de música do que em outros ambientes.
Quando o inverno chegar, talvez eu mude de idéia. Se bem que tem o Carnaval antes, não?

January 21, 2006

FALÊNCIA

Filed under: amor(?) - Carlos @ 4:03 am

Eu poderia colocar aqui o que me aconteceu no dia 20 de janeiro(em TODO o dia), mas seria uma extravagância necessária apenas a quem quer saber da minha vida. Cá pra nós, quem quiser saber da minha vida, entra com aquele famoso “como tu tá?” no msn, que eu digo na hora, sem problemas. Já falei sobre isso, então pouco interessa o que me aconteceu nem o que vai acontecer.
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Meus pais se separaram quando eu ainda tinha pouca idade pra chegar a algum tipo de conclusão definitiva. Justamente por este motivo, sempre observei de perto os relacionamentos dos outros. Quem sabe um pecado, porque certamente nunca parei para conferir os meus relacionamentos. Só quando eles acabaram, de uma certa maneira.
Engraçado isso. A memória passada é bem mais sóbria, lógica e visível do que os fatos presentes. Odeio frases feitas, mas concordo com os clichês-que só viram clichês porque são de uso comum, são aplicados à regra. O presente não é valorizado, o momento é perdido. E resta uma grande memória de tudo que se viveu.
No momento em que meus relacionamentos acabaram, eu tratava de culpar as outras pessoas pelo meu fracasso pessoal. Sem perceber que havia um motivo para que houvesse aquela rejeição, não conseguia perceber meus erros.
Com o passar do tempo, consegui adquirir esta autocrítica. Sempre há um motivo quando se acaba algo e geralmente quem falha é o chutado. Regra. Se virou monotonia, não é a culpa de uma pessoa só. Se aconteceu o chifre, é porque tu não era tão bom assim quanto tu pensava. Se ela não te quis mais, simplesmente tu não conseguiu suprir as necessidades que a pessoa precisava para o momento. E eu falo em qualquer área(até “falta de perspectiva”, termo bastante usado por aqui).
Crescer é perder. Amadurecer é saber lidar com as perdas. Quanto mais passa o tempo, mais elas acontecem. No meu caso, nenhuma ex-namorada foi injusta. Se foi, quem desencadeou esta reação fui eu mesmo. Afinal, se houve um pacto de relação, ele foi quebrado por perda de sentimento. E se eu causei isso, falhei.
É estranho enxergar os relacionamentos desta forma. Particularmente, me considero extremamente divertido, engraçado, aceitavelmente sociável, inteligente e bem articulado. Acho que preencho vários quesitos daquele manual básico do “mulher solteira procura”. No entanto, a convivência maciça proporciona à pessoa saber dados a mais a respeito do outro. É impossível ter todos estes requisitos o tempo todo. Eu sou mal humorado, estúpido, grosseiro, autoritário, preconceituoso, arrogante, descontrolado, idiota. Não sempre. Mas também não sempre divertido, engraçado, aceitavelmente sociável, inteligente e bem articulado. Pacote vem completo. A junção destas coisas fazem de mim uma bomba atômica pronta pra explodir. E quando explode, se agüenta uma, duas, três vezes. Na quarta, a convivência se torna um teste de paciência e aí, a falha. Deu. Acabou.
É complicadíssimo aceitar o pacote completo. É preciso muita intimidade, muito carinho, respeito e, principalmente, paciência e compreensão. E nem todo mundo tem isso.
Aplicando os meus defeitos para os relacionamentos dos outros(e principalmente dos mais velhos), se nota duas situações em casamentos duradouros hoje em dia: os que deram certo de fato e os que deram certo de direito(pra aplicar um termo jurídico explicado posteriormente).

Relacionamentos que deram certo de fato
Para que isto aconteça, tem que haver um recurso básico na relação: afinidade, intimidade e pontos em comum. Há casais de longa data que ainda estão juntos e se nota, de primeira, que eles nasceram um para o outro. Houve paciência e compreensão além da conta, justamente porque o lado ruim do pacote completo foi digerido, tolerado e, em raros casos, transformado em admiração. Conheço casais assim. Meu avô falecido e minha avó foi um exemplo. Havia defeitos em ambos lados, mas isso era tolerado em nome de momentos felizes maravilhosos que faziam com que as porcarias fossem esquecidas em nome de um bem estar conjunto.
Não gosto de citações também, mas há uma cena em especial de um filme que, ao meu ver, é bem meia boca, apesar de toda a badalação em torno dele. Em “Uma Mente Brilhante”, o professor esquizofrênico recebe um Nobel, já idoso. Na platéia, a mulher, que o apoiou durante toda a vida, apostando na felicidade verdadeira, mesmo com diversos problemas enfrentados. Pra mim, foi a única coisa marcante do filme. Foi quando eu pensei em quem poderia estar comigo aos 65 anos. Alguém teria condições de agüentar o pacote, ou será que a força de vontade terá que ser minha para corrigir meus problemas crônicos de imbecilidade?

Relacionamentos que deram certo de direito
Durante as observações, percebe-se uma falta de paciência e uma implicância mútua do casal na maioria das vezes. A convivência foi tão grande, tão junta, que o que resta ao casal é se suportar. Nada mais do que isso. Não há carinho, não há manifestações de carinhos. Só lembranças de quando fulano “ERA ISSO” e pequenos contratempos e ranços esporádicos. Em geral, o casal já se odeia, mas não se separam por diversos motivos, sendo que na maioria das vezes é um puro costume chato, já que a troca de rotina é um dos grandes incentivadores à depressão. A maioria dos casais com mais de 20 anos de relação vive este tipo de realidade. Não há mais a paciência. E pior: perde-se o lado bom do pacote completo, o lado que fez um se apaixonar pelo outro.

Relacionamentos amorosos acontecem, geralmente, da mesma forma sempre: o flerte, o frio na barriga, as indiretas, a primeira saída, a ficada, a seqüência, o namoro e os três primeiros meses. Três meses é o tempo suficiente pra já saber do pacote. Não há maravilha depois dos três meses. Há é um intenso vai e vem cerebral que diz “FICO OU NÃO”. Até virar costume ou consolidar um amor(que vem logo na seqüência). Ouvi a frase nesta semana: “Relacionamentos deveriam durar só três meses. Depois fica uma merda.” Essa pessoa tem razão até certo ponto. Isso acontece nos “relacionamentos que deram certo de direito”. Nos “relacionamentos que deram certo de fato”, o que mais se lembra é a intimidade. A relação íntima, a cumplicidade e o amor verdadeiro.

Contrariando o início do texto, há um clichê que precisa ser desmontado: opostos não se atraem. O que solidifica um “relacionamento que dá certo de fato” é a afinidade. Só a afinidade segura com sinceridade as relações. Claro, a não ser quando a pessoa se dá conta de que a paciência e a compreensão são fatores essenciais na relação. Ou então, e isso precisa de milagre, a pessoa se molda à outra, aceitando seus próprios erros, consertando-os, e gostando do resultado. Mas isso é tão complicado. Afinal, somos tão individualistas e tão perfeitos, certo?

Há outras diversas vertentes e ramificações nos relacionamentos, mas eu só quis citar estas porque são os casos vividos e/ou observados por mim. No meu caso, geralmente, a história se repete.
Mas, sabe como é, nunca digam que eu não avisei. Eu tenho prazo de validade. Ele costuma se esgotar com três meses. Depois disso, só a tolerância faz com que a minha convivência seja possível.
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Somente duas pessoas eu vislumbrei como possíveis mãe dos meus filhos. Só duas. Acho que elas não me imaginavam como pai dos filhos delas.
Já começo a acreditar que os relacionamentos têm uma equação básica para que sejam duradouros e sinceros. São as variantes explicadas acima. Fora isso, não há carinho, gentileza, talento, inteligência, beleza que segure todo o lado ruim do pacote. Só, mesmo, se houver um poço de compreensão do outro lado. E, comigo, isso é difícil, complicadíssimo. Mesmo.
Quem sabe eu deva mudar. Mas pra isso, primeiro, tenho que mudar a idéia de que relacionamentos nasceram para falir. E é nesta idéia, infelizmente, que eu me apóio hoje.

January 13, 2006

PESSOAS, CARA. PESSOAS.

Filed under: relações sociais - Carlos @ 3:40 am

A solidariedade é o grande antidepressivo para a consciência, vai dizer. Numa relação menos abrangente, vamos falar sobre caridade. A caridade é o grande sentimento humano.
É engraçado, mas raramente nos sentimos mal quando temos pena por outra pessoa. A pena é o mal necessário para a cura. Sentindo pena, se tem dois caminhos: um é ligar o “foda-se” - aliás, como anda fácil ligar um “foda-se” ultimamente, sem qualquer preocupação com o outro. O outro é investir na mais pura caridade e aí vem o banho na consciência, a limpeza oficial de todos os males que possam atingir nossa capacitação universal de percepção e sentimento. A caridade salvará, irmão.
Ainda há , num campo mais profundo, a solidariedade íntima. A relação entre amigos, entre namorados, entre profissionais. Eu realmente acredito que todas as relações pessoais são baseadas, única e exclusivamente no interesse. Ninguém se dá conta, mas o único objetivo da sobrevivência é passar da melhor forma possível o período que abrange a tomada de consciência do ser(que se dá na formação da personalidade, ou no início dela, na pré-adolescência) até os dias finais(e um pouco antes, quando se percebe quanta merda a gente fez e quanta coisa boa a gente deixou de fazer). E este passar da melhor forma, pelo menos para a minha geração, consiste em “fazer o que se gosta” e “usar o tempo livre para diversão com os amigos”.
Qual o conceito de amizade? Quem ultimamente anda se preocupando contigo? Amor existe? Ou é só uma necessidade básica de ficar com alguém que lhe traz bons momentos, a dita diversão? Ou então, é simplesmente uma alimentação graúda para o ego, lhe dando admiração das outras pessoas.
Seria bem mais honesto se o ser humano desistisse de tentar parecer bondoso. O ato falho vem na seqüência. Afinal, ser bondoso vai contra o “usar o tempo livre para diversão” diversas vezes. Ou até no “fazer o que gosta”. Isso, mais longe, quando a generosidade é quebrada pela própria estratégia de sobrevivência, que é a linha coerente de todos os planos que foram traçados.
Conviver com a injustiça e achar natural é a praga distribuída para todos nós. Elogios, congratulações e agradecimentos nada passam de um cerimonial para parecermos um pouco mais civilizados do que somos. E quando, no meio de toda essa hipocrisia que virou a relação social nos anos 00, alguém comete um ato sublime de generosidade aparente(que no fundo é a chamada limpeza de consciência), deve ter algum interesse por trás(nem que seja a própria limpeza de consciência).
Pois assim, meus caros, funcionam as relações humanas. Um potente e vibrante equalizador de utilização pessoal. Duvidem? Então pensem: qual o último “como tu tá?” que foi dito sem ser por educação? Deve ter sido em um momento de pena. E se você foi ajudado, pode ter certeza que foi mais pela inconsciente limpeza de consciência da outra pessoa do que por pura preocupação a teu respeito.
Justamente por isso, acho que seria mais justo que os seres humanos tivessem relações instintivas apenas. Imagine o seguinte exercício: faça uma lista de todos teus supostos amigos e coloque ao lado exatamente pra quê ele serve. Não o que ele representa, não o que você acha dele, mas sim, por qual razão ele faz parte da sua vida. Interesse sexual, porque ele é engraçado, porque te ajuda no trabalho, porque conversa sobre diversos assuntos, porque passou bons momentos contigo. Pegue tudo isso e exclua ele de suas relações. Certamente, cada um fará falta. Mas aí é que está a grande descoberta: você não estará preocupado com ele, a não ser que ele esteja na pior. Bingo. Pena.
Acho que o grande aprendizado da vida é saber se virar sozinho, no fundo. Ou então, fazer dinheiro, comprar tudo que se tem vontade e trocar todos eles por objetos materiais que te façam passar o tempo. Do jeito que estão as coisas, acho que cada amigo seu teria o mesmo valor que um objeto, correto?
De repente, fui tomado por um momento de intensa crueldade, achando que eu valho muito pouco e que todos são iguais a mim. Ou talvez eu esteja certo e isso tudo seja o verdadeiro gostar de alguém. Acho que as coisas me tornaram a primeira opção: um grande egoísta filho da puta que pensa no próprio umbigo e que as pessoas que eu gosto são as que fazem alguma diferença pra mim. Ou já é a segunda opção: o gostar.
Eu sigo sem entender e pensando em outro tipo de relação. Enquanto eu fico imaginando uma forma de como seria o gostar ideal, em nome da educação e dos bons costumes, continuarei cantando parabéns a todos e agradecendo os votos de feliz ano novo para mim.
Se tá tudo bem comigo? Tá ótimo! Obrigado, e contigo?

Pessoas, cara. Como nós somos engraçados, não é?

PS: favor excluir família disso tudo. Laços sangüíneos são sagrados e jamais devem ser mexidos, contestados, difamados ou duvidados.

January 9, 2006

DEBUT. OU A VOLTA.

Filed under: comportamento - Carlos @ 1:37 am

Existem algumas coisas, alguns lugares, datas, meses, fatos, que possuem um único interesse devido à relação afetiva que se têm a respeito. Definitivamente, o litoral gaúcho é um destes lugares.
Os gaúchos são estranhos. O litoral do Rio Grande do Sul é o mais feio do mundo. Mesmo que em 2006 a água não esteja tão fria e que se consiga enxergar os pés numa profundidade aceitável, ainda assim é o pior litoral do mundo. É um risco, reto, de Torres ao Chuí, sem corte, com um vento Nordeste pra comedor de areia e nenhuma fauna/flora que embeleze de alguma maneira suas praias. É a mesma praia, o tempo todo. Logo, como justificar os 100 mil carros que se deslocam toda a sexta pra usufruir três dias(ou dois e meio) de sol num lugar que é tão feio?
Há alguns fatores, claro. Fugir do calor porto-alegrense é um deles. Mas acredito que a maioria das pessoas faz esta verdadeira preserpada pela mesma razão que eu: a relação afetiva.
Eu tenho um grande carinho pelo litoral gaúcho. Até os 19 anos, eu passava dois meses em Atlântida Sul, tornando-me parte da evolução daquela praia e aquela praia sendo, claro, de fundamental importância para a minha própria evolução. Foi onde eu aprendi a andar de bicicleta, onde eu aprendi a mergulhar, onde eu virei Street Fighter, onde brincava de polícia e ladrão, foi onde eu saí sozinho de noite pela primeira vez e passei da meia noite na rua; foi onde tomei meu primeiro porre e onde tomei minha primeira - e única até agora - injeção de glicose. Foi onde eu dei meu segundo beijo(quase o primeiro), onde eu briguei pela primeira e única vez na vida, onde eu aprendi a dirigir na prática. Onde eu fui goleador de um campeonato, quando me quebrei, onde eu tomei cachaça pura pela primeira vez e onde eu quase me afoguei. Foi também onde eu desisti de aproveitar o mar gaúcho, depois que eu realmente percebi como ele era feio. E mesmo tendo conhecido algumas das praias mais bonitas do Brasil, eu ainda preciso passar pelo menos uma semana em Atlântida Sul. É a relação afetiva. Ela que me faz não querer vender nunca aquela casa na Guarujá, por maior que seja a proposta. E se um dia eu tiver que fazer, certamente será por um motivo nobre ou, pior, desesperador, urgente.
Gosto dos vínculos. De alguma forma sinto necessidade de estar relacionado com alguém de forma íntima. Talvez por isso ainda não saí de casa. E, de alguma forma, esta grande paixão de sentir-se bem com os vínculos sociais se estendeu para os vínculos materiais. Quando eu troquei o Uninho pelo Palio, chorei. Quando eu troquei de casa, chorei. Quando meus relacionamentos acabaram, mesmo quando eu fui o responsável, eu também chorei. Dias desses liguei pro 3341-0660, meu telefone por 24 anos, e atendeu um outro cara. Quase mandei à merda, afinal, este número me pertencia, era meu.
Não acho que seja conservadorismo, mas enfim. É só uma relação de extremo carinho por aquilo que, mesmo material, fez parte dos episódios mais importantes da minha vida.
É como o anger is a gift. Ele foi o espaço onde eu desabafei, critiquei, impliquei, enchi o saco, listei, comentei, expliquei, coloquei, escrevi, postei, durante quase três anos. Inegavelmente, estabeleci um vínculo com ele, que foi desfeito em outubro do ano passado. E foi olhando os arquivos, que são disponíveis apenas para mim, que resolvi voltar. Acho que eu ainda posso encher o saco, implicar, criticar, explicar, colocar, desabafar, escrever, postar. Por isso, resolvi criar este endereço, que ainda engatinha, ainda tá feio, mas que pretende ser o espaço daqueles poucos leitores que eu tive durante esses anos todos.
Blogs são como o litoral gaúcho ou o msn: uma merda. Mas quando se percebe, já há um vínculo com todas estas merdas. E por isso, aqui estou de volta. Não é pela escrita, não é pela implicância com os outros, não é por achar que eu tenho algo a contribuir, não é porque eu quero manifestar opinião, e nem pela micro/macro exposição, ou por qualquer tipo de pretensão. Volto a ter um blog como volto todos os anos a Atlântida Sul. Volto pela relação afetiva. Nada mais.

Aproveitem o novo endereço, comentem, mas não cobrem tanta atualização. Não exijam textos curtos nem um visual bonito. É só pra ler. Ou não ler. Estou fazendo por mim.

Grato, a direção.

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