SÓ FALTA SABER DANÇAR
Apresentei sábado um programa de quatro horas da praia. O Super Sábado não é um programa somente de esportes. Abre espaço para outras coisas, como show ao vivo, convidados, piadistas, no maior estilo popular rádio AM.
Entre os convidados, estava uma banda de pagode. De uns anos pra cá, eu acabei descobrindo que quando chega a estação mais quente do ano, os estilos mais abomináveis do mundo não soam tão ruins pra mim. Resumindo: dá pra ouvir pagode, axé e funk no verão e até suportar um pouco.
No entanto, neste ano, eu resolvi entrar na dança. Durante a semana em que eu fiquei na praia, pela primeira vez ouvi falar num grupo paulistano chamado Inimigos da HP. É mais um daqueles discos ao vivo de pagode universitário, que consiste, basicamente em um movimento que pega playboys sarados de academia, geralmente BRANCOS, que se reúnem pra fazer um compasso básico de samba e dizer que é pagode. Detestável, não fosse o verão. Os tais Inimigos da HP são horríveis, mas com o passar do tempo e o volume incessante do vizinho, me fizeram até decorar alguma coisa das músicas e não achar tão desprezível assim.
Parei de acompanhar surgimento de bandas novas há uns três anos. Não sei exatamente por qual razão, deve ser porque eu não conseguia achar nada de interessante. Nada que valesse a pena. Nada que superasse “(White Man) In Hammersmith Palais”, do Clash, “The Needle and the Damage Done”, do Neil Young, “Touch Too Much”, do AC/DC ou “Gigantic”, do Pixies. Só pra citar umas das minhas 100 músicas favoritas.
E também porque já descobri as quinhentas mil facetas do rock disponíveis. Já invadi o soul, o jazz, a praga do post rock, o country, o metal(em todas suas vertentes), a MPB tradicional, o samba de raiz, o samba intelectualóide, o pop grudento, mais quinhentos mil estilos. Cansei, já descobri, já formei um gosto, já sei o que é, e raramente tem uma novidade interessante.
Também funciona assim com as novas bandas gaúchas. Em geral, todas são uma merda. Parei de ir a shows de bandas gaúchas faz uns dois anos. Eles não rendem.
Foi quando eu resolvi abrir os ouvidos pros Inimigos da HP. Vamos desconsiderar o sofrível padrão musical e pegarmos só o astral. Afinal(mesmo que eu tivesse relutado por muito tempo), é o astral que importa na música. Os Beatles ensinaram isso, o Sex Pistols aperfeiçoou, os Ramones foram phd em astral. Astral, sentimento. O astral dos Inimigos da HP é o ponto forte. É uma espécie de vitamina, que se une ao calor e faz bem para os ouvidos, sendo até razoável dançar.
Em matéria de astral, no entanto, ninguém supera a Ivete Sangalo. A onda de axé começou de uma maneira interessante. No início dos anos 90, a indústria fonográfica brasileira estava em plena decadência. Com a Era Collor, diminuiu o poder aquisitivo, graças a um confisco arbitrário nas poupanças dos brasileiros. Sem dinheiro, não havia como lançar discos, nem como vendê-los. Veio a estagnação cultural e as duplas sertanejas pegaram a maior fatia do mercado. Junto, um marasmo criativo das bandas de rock que estouraram nos anos 90. Restava ao brasileiro que estava interessado em qualidade e, também, em astral(música sertaneja, definitivamente, não tem ASTRAL). Em 1991, Daniela Mercury lançou seu primeiro disco. Invadiu novela, pista, rádio. O primeiro disco de Daniela Mercury é um dos vinte melhores dos anos 90, na minha opinião. É a obra necessária para fugir da estagnação. Na esteira de Daniela, vieram milhares de bandas da Bahia, e entre elas, a Banda Eva, de Ivete Sangalo.
Ivete foi à luta para carreira solo para se tornar hoje, com inclusive o aval dos puristas, a maior cantora brasileira em atividade. Sem a pretensão de Marisa Monte(que tem um filho chamado MANO WLADIMIR e lança um projeto chamdo TRIBALISTAS sem fazer shows), sem os cacoetes sapatões-nova MPB(Cássia Eller primeiro, agora Zélia Duncan e Ana Carolina), sem arranjos sofisticados e idealização de ser diva(Maria Rita), sem ser falsa virgem(Sandy e Wanessa Camargo), e sem ser veterana-lançadora-de-novos-talentos-na-composição(Gal, Betânia), Ivete Sangalo superou todas elas com o maior carisma em um artista brasileiro.
Ivete canta bem. É simpática e tem um puta domínio de palco. Sabe emplacar hits, e certamente não é uma tarefa fácil. E o mais importante: tem alto astral. E ainda já provou ser boa intérprete quando colocou em seu repertório músicas mais sérias.
Ainda assim, as músicas dela só duram um verão. Depois, vem outras. É assim, o verão é feito disso: alto astral. Por isso, eu gosto da Ivete Sangalo. Pode ser o verão, mas acho que é um pouco mais que isso. É me tornar capaz de ser contagiado pela felicidade geral que se tem quando se ouve suas músicas. Fora isso, há uma transmissão bem mais saudável quando se escuta esse tipo de música do que em outros ambientes.
Quando o inverno chegar, talvez eu mude de idéia. Se bem que tem o Carnaval antes, não?