Verborragia sem concessões

January 9, 2006

DEBUT. OU A VOLTA.

Filed under: comportamento - Carlos @ 1:37 am

Existem algumas coisas, alguns lugares, datas, meses, fatos, que possuem um único interesse devido à relação afetiva que se têm a respeito. Definitivamente, o litoral gaúcho é um destes lugares.
Os gaúchos são estranhos. O litoral do Rio Grande do Sul é o mais feio do mundo. Mesmo que em 2006 a água não esteja tão fria e que se consiga enxergar os pés numa profundidade aceitável, ainda assim é o pior litoral do mundo. É um risco, reto, de Torres ao Chuí, sem corte, com um vento Nordeste pra comedor de areia e nenhuma fauna/flora que embeleze de alguma maneira suas praias. É a mesma praia, o tempo todo. Logo, como justificar os 100 mil carros que se deslocam toda a sexta pra usufruir três dias(ou dois e meio) de sol num lugar que é tão feio?
Há alguns fatores, claro. Fugir do calor porto-alegrense é um deles. Mas acredito que a maioria das pessoas faz esta verdadeira preserpada pela mesma razão que eu: a relação afetiva.
Eu tenho um grande carinho pelo litoral gaúcho. Até os 19 anos, eu passava dois meses em Atlântida Sul, tornando-me parte da evolução daquela praia e aquela praia sendo, claro, de fundamental importância para a minha própria evolução. Foi onde eu aprendi a andar de bicicleta, onde eu aprendi a mergulhar, onde eu virei Street Fighter, onde brincava de polícia e ladrão, foi onde eu saí sozinho de noite pela primeira vez e passei da meia noite na rua; foi onde tomei meu primeiro porre e onde tomei minha primeira - e única até agora - injeção de glicose. Foi onde eu dei meu segundo beijo(quase o primeiro), onde eu briguei pela primeira e única vez na vida, onde eu aprendi a dirigir na prática. Onde eu fui goleador de um campeonato, quando me quebrei, onde eu tomei cachaça pura pela primeira vez e onde eu quase me afoguei. Foi também onde eu desisti de aproveitar o mar gaúcho, depois que eu realmente percebi como ele era feio. E mesmo tendo conhecido algumas das praias mais bonitas do Brasil, eu ainda preciso passar pelo menos uma semana em Atlântida Sul. É a relação afetiva. Ela que me faz não querer vender nunca aquela casa na Guarujá, por maior que seja a proposta. E se um dia eu tiver que fazer, certamente será por um motivo nobre ou, pior, desesperador, urgente.
Gosto dos vínculos. De alguma forma sinto necessidade de estar relacionado com alguém de forma íntima. Talvez por isso ainda não saí de casa. E, de alguma forma, esta grande paixão de sentir-se bem com os vínculos sociais se estendeu para os vínculos materiais. Quando eu troquei o Uninho pelo Palio, chorei. Quando eu troquei de casa, chorei. Quando meus relacionamentos acabaram, mesmo quando eu fui o responsável, eu também chorei. Dias desses liguei pro 3341-0660, meu telefone por 24 anos, e atendeu um outro cara. Quase mandei à merda, afinal, este número me pertencia, era meu.
Não acho que seja conservadorismo, mas enfim. É só uma relação de extremo carinho por aquilo que, mesmo material, fez parte dos episódios mais importantes da minha vida.
É como o anger is a gift. Ele foi o espaço onde eu desabafei, critiquei, impliquei, enchi o saco, listei, comentei, expliquei, coloquei, escrevi, postei, durante quase três anos. Inegavelmente, estabeleci um vínculo com ele, que foi desfeito em outubro do ano passado. E foi olhando os arquivos, que são disponíveis apenas para mim, que resolvi voltar. Acho que eu ainda posso encher o saco, implicar, criticar, explicar, colocar, desabafar, escrever, postar. Por isso, resolvi criar este endereço, que ainda engatinha, ainda tá feio, mas que pretende ser o espaço daqueles poucos leitores que eu tive durante esses anos todos.
Blogs são como o litoral gaúcho ou o msn: uma merda. Mas quando se percebe, já há um vínculo com todas estas merdas. E por isso, aqui estou de volta. Não é pela escrita, não é pela implicância com os outros, não é por achar que eu tenho algo a contribuir, não é porque eu quero manifestar opinião, e nem pela micro/macro exposição, ou por qualquer tipo de pretensão. Volto a ter um blog como volto todos os anos a Atlântida Sul. Volto pela relação afetiva. Nada mais.

Aproveitem o novo endereço, comentem, mas não cobrem tanta atualização. Não exijam textos curtos nem um visual bonito. É só pra ler. Ou não ler. Estou fazendo por mim.

Grato, a direção.

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