Verborragia sem concessões

January 13, 2006

PESSOAS, CARA. PESSOAS.

Filed under: relações sociais - Carlos @ 3:40 am

A solidariedade é o grande antidepressivo para a consciência, vai dizer. Numa relação menos abrangente, vamos falar sobre caridade. A caridade é o grande sentimento humano.
É engraçado, mas raramente nos sentimos mal quando temos pena por outra pessoa. A pena é o mal necessário para a cura. Sentindo pena, se tem dois caminhos: um é ligar o “foda-se” - aliás, como anda fácil ligar um “foda-se” ultimamente, sem qualquer preocupação com o outro. O outro é investir na mais pura caridade e aí vem o banho na consciência, a limpeza oficial de todos os males que possam atingir nossa capacitação universal de percepção e sentimento. A caridade salvará, irmão.
Ainda há , num campo mais profundo, a solidariedade íntima. A relação entre amigos, entre namorados, entre profissionais. Eu realmente acredito que todas as relações pessoais são baseadas, única e exclusivamente no interesse. Ninguém se dá conta, mas o único objetivo da sobrevivência é passar da melhor forma possível o período que abrange a tomada de consciência do ser(que se dá na formação da personalidade, ou no início dela, na pré-adolescência) até os dias finais(e um pouco antes, quando se percebe quanta merda a gente fez e quanta coisa boa a gente deixou de fazer). E este passar da melhor forma, pelo menos para a minha geração, consiste em “fazer o que se gosta” e “usar o tempo livre para diversão com os amigos”.
Qual o conceito de amizade? Quem ultimamente anda se preocupando contigo? Amor existe? Ou é só uma necessidade básica de ficar com alguém que lhe traz bons momentos, a dita diversão? Ou então, é simplesmente uma alimentação graúda para o ego, lhe dando admiração das outras pessoas.
Seria bem mais honesto se o ser humano desistisse de tentar parecer bondoso. O ato falho vem na seqüência. Afinal, ser bondoso vai contra o “usar o tempo livre para diversão” diversas vezes. Ou até no “fazer o que gosta”. Isso, mais longe, quando a generosidade é quebrada pela própria estratégia de sobrevivência, que é a linha coerente de todos os planos que foram traçados.
Conviver com a injustiça e achar natural é a praga distribuída para todos nós. Elogios, congratulações e agradecimentos nada passam de um cerimonial para parecermos um pouco mais civilizados do que somos. E quando, no meio de toda essa hipocrisia que virou a relação social nos anos 00, alguém comete um ato sublime de generosidade aparente(que no fundo é a chamada limpeza de consciência), deve ter algum interesse por trás(nem que seja a própria limpeza de consciência).
Pois assim, meus caros, funcionam as relações humanas. Um potente e vibrante equalizador de utilização pessoal. Duvidem? Então pensem: qual o último “como tu tá?” que foi dito sem ser por educação? Deve ter sido em um momento de pena. E se você foi ajudado, pode ter certeza que foi mais pela inconsciente limpeza de consciência da outra pessoa do que por pura preocupação a teu respeito.
Justamente por isso, acho que seria mais justo que os seres humanos tivessem relações instintivas apenas. Imagine o seguinte exercício: faça uma lista de todos teus supostos amigos e coloque ao lado exatamente pra quê ele serve. Não o que ele representa, não o que você acha dele, mas sim, por qual razão ele faz parte da sua vida. Interesse sexual, porque ele é engraçado, porque te ajuda no trabalho, porque conversa sobre diversos assuntos, porque passou bons momentos contigo. Pegue tudo isso e exclua ele de suas relações. Certamente, cada um fará falta. Mas aí é que está a grande descoberta: você não estará preocupado com ele, a não ser que ele esteja na pior. Bingo. Pena.
Acho que o grande aprendizado da vida é saber se virar sozinho, no fundo. Ou então, fazer dinheiro, comprar tudo que se tem vontade e trocar todos eles por objetos materiais que te façam passar o tempo. Do jeito que estão as coisas, acho que cada amigo seu teria o mesmo valor que um objeto, correto?
De repente, fui tomado por um momento de intensa crueldade, achando que eu valho muito pouco e que todos são iguais a mim. Ou talvez eu esteja certo e isso tudo seja o verdadeiro gostar de alguém. Acho que as coisas me tornaram a primeira opção: um grande egoísta filho da puta que pensa no próprio umbigo e que as pessoas que eu gosto são as que fazem alguma diferença pra mim. Ou já é a segunda opção: o gostar.
Eu sigo sem entender e pensando em outro tipo de relação. Enquanto eu fico imaginando uma forma de como seria o gostar ideal, em nome da educação e dos bons costumes, continuarei cantando parabéns a todos e agradecendo os votos de feliz ano novo para mim.
Se tá tudo bem comigo? Tá ótimo! Obrigado, e contigo?

Pessoas, cara. Como nós somos engraçados, não é?

PS: favor excluir família disso tudo. Laços sangüíneos são sagrados e jamais devem ser mexidos, contestados, difamados ou duvidados.

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