FALÊNCIA
Eu poderia colocar aqui o que me aconteceu no dia 20 de janeiro(em TODO o dia), mas seria uma extravagância necessária apenas a quem quer saber da minha vida. Cá pra nós, quem quiser saber da minha vida, entra com aquele famoso “como tu tá?” no msn, que eu digo na hora, sem problemas. Já falei sobre isso, então pouco interessa o que me aconteceu nem o que vai acontecer.
=-=-=-=-=-
Meus pais se separaram quando eu ainda tinha pouca idade pra chegar a algum tipo de conclusão definitiva. Justamente por este motivo, sempre observei de perto os relacionamentos dos outros. Quem sabe um pecado, porque certamente nunca parei para conferir os meus relacionamentos. Só quando eles acabaram, de uma certa maneira.
Engraçado isso. A memória passada é bem mais sóbria, lógica e visível do que os fatos presentes. Odeio frases feitas, mas concordo com os clichês-que só viram clichês porque são de uso comum, são aplicados à regra. O presente não é valorizado, o momento é perdido. E resta uma grande memória de tudo que se viveu.
No momento em que meus relacionamentos acabaram, eu tratava de culpar as outras pessoas pelo meu fracasso pessoal. Sem perceber que havia um motivo para que houvesse aquela rejeição, não conseguia perceber meus erros.
Com o passar do tempo, consegui adquirir esta autocrítica. Sempre há um motivo quando se acaba algo e geralmente quem falha é o chutado. Regra. Se virou monotonia, não é a culpa de uma pessoa só. Se aconteceu o chifre, é porque tu não era tão bom assim quanto tu pensava. Se ela não te quis mais, simplesmente tu não conseguiu suprir as necessidades que a pessoa precisava para o momento. E eu falo em qualquer área(até “falta de perspectiva”, termo bastante usado por aqui).
Crescer é perder. Amadurecer é saber lidar com as perdas. Quanto mais passa o tempo, mais elas acontecem. No meu caso, nenhuma ex-namorada foi injusta. Se foi, quem desencadeou esta reação fui eu mesmo. Afinal, se houve um pacto de relação, ele foi quebrado por perda de sentimento. E se eu causei isso, falhei.
É estranho enxergar os relacionamentos desta forma. Particularmente, me considero extremamente divertido, engraçado, aceitavelmente sociável, inteligente e bem articulado. Acho que preencho vários quesitos daquele manual básico do “mulher solteira procura”. No entanto, a convivência maciça proporciona à pessoa saber dados a mais a respeito do outro. É impossível ter todos estes requisitos o tempo todo. Eu sou mal humorado, estúpido, grosseiro, autoritário, preconceituoso, arrogante, descontrolado, idiota. Não sempre. Mas também não sempre divertido, engraçado, aceitavelmente sociável, inteligente e bem articulado. Pacote vem completo. A junção destas coisas fazem de mim uma bomba atômica pronta pra explodir. E quando explode, se agüenta uma, duas, três vezes. Na quarta, a convivência se torna um teste de paciência e aí, a falha. Deu. Acabou.
É complicadíssimo aceitar o pacote completo. É preciso muita intimidade, muito carinho, respeito e, principalmente, paciência e compreensão. E nem todo mundo tem isso.
Aplicando os meus defeitos para os relacionamentos dos outros(e principalmente dos mais velhos), se nota duas situações em casamentos duradouros hoje em dia: os que deram certo de fato e os que deram certo de direito(pra aplicar um termo jurídico explicado posteriormente).
Relacionamentos que deram certo de fato
Para que isto aconteça, tem que haver um recurso básico na relação: afinidade, intimidade e pontos em comum. Há casais de longa data que ainda estão juntos e se nota, de primeira, que eles nasceram um para o outro. Houve paciência e compreensão além da conta, justamente porque o lado ruim do pacote completo foi digerido, tolerado e, em raros casos, transformado em admiração. Conheço casais assim. Meu avô falecido e minha avó foi um exemplo. Havia defeitos em ambos lados, mas isso era tolerado em nome de momentos felizes maravilhosos que faziam com que as porcarias fossem esquecidas em nome de um bem estar conjunto.
Não gosto de citações também, mas há uma cena em especial de um filme que, ao meu ver, é bem meia boca, apesar de toda a badalação em torno dele. Em “Uma Mente Brilhante”, o professor esquizofrênico recebe um Nobel, já idoso. Na platéia, a mulher, que o apoiou durante toda a vida, apostando na felicidade verdadeira, mesmo com diversos problemas enfrentados. Pra mim, foi a única coisa marcante do filme. Foi quando eu pensei em quem poderia estar comigo aos 65 anos. Alguém teria condições de agüentar o pacote, ou será que a força de vontade terá que ser minha para corrigir meus problemas crônicos de imbecilidade?
Relacionamentos que deram certo de direito
Durante as observações, percebe-se uma falta de paciência e uma implicância mútua do casal na maioria das vezes. A convivência foi tão grande, tão junta, que o que resta ao casal é se suportar. Nada mais do que isso. Não há carinho, não há manifestações de carinhos. Só lembranças de quando fulano “ERA ISSO” e pequenos contratempos e ranços esporádicos. Em geral, o casal já se odeia, mas não se separam por diversos motivos, sendo que na maioria das vezes é um puro costume chato, já que a troca de rotina é um dos grandes incentivadores à depressão. A maioria dos casais com mais de 20 anos de relação vive este tipo de realidade. Não há mais a paciência. E pior: perde-se o lado bom do pacote completo, o lado que fez um se apaixonar pelo outro.
Relacionamentos amorosos acontecem, geralmente, da mesma forma sempre: o flerte, o frio na barriga, as indiretas, a primeira saída, a ficada, a seqüência, o namoro e os três primeiros meses. Três meses é o tempo suficiente pra já saber do pacote. Não há maravilha depois dos três meses. Há é um intenso vai e vem cerebral que diz “FICO OU NÃO”. Até virar costume ou consolidar um amor(que vem logo na seqüência). Ouvi a frase nesta semana: “Relacionamentos deveriam durar só três meses. Depois fica uma merda.” Essa pessoa tem razão até certo ponto. Isso acontece nos “relacionamentos que deram certo de direito”. Nos “relacionamentos que deram certo de fato”, o que mais se lembra é a intimidade. A relação íntima, a cumplicidade e o amor verdadeiro.
Contrariando o início do texto, há um clichê que precisa ser desmontado: opostos não se atraem. O que solidifica um “relacionamento que dá certo de fato” é a afinidade. Só a afinidade segura com sinceridade as relações. Claro, a não ser quando a pessoa se dá conta de que a paciência e a compreensão são fatores essenciais na relação. Ou então, e isso precisa de milagre, a pessoa se molda à outra, aceitando seus próprios erros, consertando-os, e gostando do resultado. Mas isso é tão complicado. Afinal, somos tão individualistas e tão perfeitos, certo?
Há outras diversas vertentes e ramificações nos relacionamentos, mas eu só quis citar estas porque são os casos vividos e/ou observados por mim. No meu caso, geralmente, a história se repete.
Mas, sabe como é, nunca digam que eu não avisei. Eu tenho prazo de validade. Ele costuma se esgotar com três meses. Depois disso, só a tolerância faz com que a minha convivência seja possível.
=-=-=
Somente duas pessoas eu vislumbrei como possíveis mãe dos meus filhos. Só duas. Acho que elas não me imaginavam como pai dos filhos delas.
Já começo a acreditar que os relacionamentos têm uma equação básica para que sejam duradouros e sinceros. São as variantes explicadas acima. Fora isso, não há carinho, gentileza, talento, inteligência, beleza que segure todo o lado ruim do pacote. Só, mesmo, se houver um poço de compreensão do outro lado. E, comigo, isso é difícil, complicadíssimo. Mesmo.
Quem sabe eu deva mudar. Mas pra isso, primeiro, tenho que mudar a idéia de que relacionamentos nasceram para falir. E é nesta idéia, infelizmente, que eu me apóio hoje.