O PROCESSO DA CONQUISTA
Atlântida Sul. Domingo, 12 de fevereiro de 2006.
Local: Av. Saquarema esquina R.Guarujá.
Já os brindei com os prazeres e com o turbilhão de memórias boas que a praia de Atlântida Sul me traz. Moro na Guarujá, a duas quadras do Centrinho da praia. A terceira casa depois que se entra na avenida principal, que é, por acaso, a Saquarema. Logo, ao deitar na rede que fica na varanda da casa, consigo uma visão bastante privilegiada desta avenida principal. Dá pra acompanhar o movimento, observar o fluxo de carros ou enxergar a aproximação de alguém ao longe. Vou contar uma historinha, mas ela é bem banal. O local você já sabe.
23h12min
Sentam no parapeito da Avenida Saquarema um menino e uma menina. Ambos devem ter uns 14, no máximo 15. Podem ter 13, sabe como é, adolescentes crescem rapidamente hoje em dia.
Ela sentou primeiro. Ele sentou depois. Aí, o grande nada pra fazer praiano, numa noite de domingo, tendo que dormir cedo pra pegar estrada rumo a SC no dia seginte, se manifestou. Passei a observar os dois.
Ela olha pro lado oposto. Ele também. Ele fala algo, sem olhar. Ela responde, mas dá uma olhadinha. Vira o rosto. Ele olha quando ela não está olhando, e ela se faz, não olha. Mas sabe que ele está olhando. Aí trocam um olhar. Dura um segundo. Ela fala. Ele fala. Não se olham. Ele ri. Ela também. Comentam alguma coisa sobre o transeunte do momento. Olham-se. Dão risada, mas viram o rosto. Ela ajeita o cabelo. Uma, duas, três vezes. Ele coça a cabeça, na parte traseira. Ela se ajeita. Ele pega uma vareta e rabisca o chão, como se fizesse algum desenho. Ela fala algo. E ele concorda. Olham-se e tornam a virar para o lado oposto. Silêncio. Uns trinta segundos de silêncio. Sem se olhar. Ele vira e pergunta algo. Ela responde. Aí, a maior troca de olhares, mas a conversa não desenvolve muito. Alguém fala algo engraçado. Dão risada. Ou nem é tão engraçado, mas resolvem rir só para evitar o embaraço. Olham-se e tornam a virar para o lado oposto…(segue)
0h23min
Silêncio. Ele olha e ela olha. O olhar dura algum tempo. Ele passa a mão no cabelo dela. Ela fica envergonhada. Ela baixa a cabeça. Ele se aproxima. Ela levanta a cabeça. Olham-se. Ele segue com a mão no cabelo. Aproxima-se do rosto dela. Fecha os olhos. Ela também. Eles se beijam.
0h25min
Eles saem do parapeito sujo, desconfortável e sem atrativos da Saquarema e vão em direção ao centrinho. De mãos dadas. Missão cumprida.
A história aconteceu. E provavelmente ela já ocorreu com algum de nós, quando tínhamos essa idade. Observem: eles ficaram no parapeito por um único motivo: privacidade. Libertação dos olhares capisciosos de amigos, fuga da iluminação do centrinho e do ruído de caixas de som com funk e pagode e do burburinho acumulado de conversas paralelas. Mais de uma hora conversando naquela esquina. Tudo por um único objetivo: o beijo.
Teria graça se esse tempo todo durasse dois minutos? Ou se fosse no meio de todo mundo, de um jeito normal e simples? Ou se fosse em algum outro lugar, como uma festa, onde, nessa idade, pegar gente é quase obrigação?
Mas foi ali, no cordão da calçada, no escuro, sem gente, só sob o olhar do desocupado, que eles ficaram pela primeira vez. Pode ter sido a única, não sei. Mas também pode ter sido a primeira de várias.
O processo da conquista é, talvez, o momento mais inesquecível de todo um relacionamento(dure ele cinco minutos ou vinte anos). Se foi válido(e eu acredito que para os dois era, afinal, ninguém fica UMA HORA dedicado a uma única coisa, por livre e espontânea vontade, não fosse VONTADE), é inesquecível. Aquela uma hora antes tornou o beijo mais desejado, mais gostoso. Ou então, foi frustrante, decepcionante. Mas o processo da conquista, mesmo sendo ruim, foi extremamente importante para criar a quebra de uma expectativa. Um copo de água que foi se enchendo, até esvaziar, numa tacada só. Uma aceleração constante, uma adrenalização corporal angustiante, para o grand finale. Superação ou quebra de expectativa. Não sei. Mas foi graças a este processo que certamente aquele beijo ganhou muito mais importância.
Deu vontade de levantar da rede, baixar o volume da música, caminhar vinte metros e dizer aos dois: “Meu nome é Carlos e vocês vão se lembrar desse momento pra sempre”.
Achariam graça, provavelmente. Mas dez anos depois, eles jamais iriam me esquecer.