Verborragia sem concessões

February 24, 2006

CAMA DE GATO

Filed under: comportamento, relações sociais, cinema - Carlos @ 11:24 pm

A proposta narrativa de “Cama de Gato” é a simplicidade, metalinguagem e tosqueira das cenas. Talvez o diretor, Alexandre Stockler, quisesse dar um realismo maior ao que é colocado na tela. Como o Dogma 95, ele denomina o filme como sendo do movimento TRAUMA, a versão tupiniquim da corrente gringa. Justamente por este tipo de artifício, poderia haver um choque gigantesco quando se assiste ao filme.
Particularmente, sou avesso a tais inovações cinematográficas. Pelo menos as novidades “estéticas” que o cinema apresenta, volta e meia. Não gosto do minimalismo na tela. Prefiro as inovações nos roteiros do que na condução dos quadros. Gosto mesmo da TELA CHEIA. Orson Welles, por exemplo, provou isso, em vários de seus filmes, caracterizando a grande revolução cinematográfica do século. Logo, não houve choque. Nem na falada cena do estupro.

O que menos me impressionou, portanto, em “Cama de Gato”, foi a estética. Já vi isso, não choca, não é impactante, e poderia até mesmo ter sido contato de outra forma.
Ele fala sobre três rapazes de classe média que aparentemente fazem a mesma coisa que qualquer um de nós faz: estudar, não se importar e se divertir. Ao longo de um dia, a irresponsabilidade e a inconseqüência vão tornando os acontecimentos trágicos, até o final da trama.
O filme é bom. Eu gostei. A minha justificativa será apresentada abaixo, para que entendam do que eu estou falando. Acompanhem.

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Até onde vai o limite para a nossa diversão?
O que estamos aptos a fazer em troca da diversão?
O que você daria em troca de diversão?

A nossa geração virou escrava da DIVERSÃO. Nada é mais absoluto, mais grandioso e que valha mais a pena do que a DIVERSÃO. É uma ditadura das luzes. A felicidade só é alcançada através da diversão, custe o preço que custar.
O fenômeno da DIVERSÃO A QUALQUER CUSTO se dá pela falta de identidade que a nossa geração passa. Acreditem, os anos noventa acabaram, mas esta ausência de personalidade nossa ainda faz com que estejamos vivos na década passada. As gerações anteriores tinham um monstro bem vivo para se lutar contra. Ditadura, esperança, descobertas, medos relativamente novos. Nos 50, a rebeldia juvenil. Nos 60, a liberação sexual. Nos 70, a luta contra a opressão. Nos 80, o medo da AIDS. O que sobrou para os 90? E o que restou para os 00? Consolidação de uma identidade formada ao longo dos tempos? Para quem viveu estas décadas, talvez. Mas para nós, que crescemos nos 90? E ainda: para os JOVENS de hoje, os que começaram a descobrir as coisas a partir do início deste novo milênio?
Não nos restou nada para fazer. Um profundo vazio, uma sensação de que nada incomoda e nada satisfaz. A esperança numa convivência melhor é completamente obstruída por um consumismo desenfreado. Uma valorização do EGO, do EU. Uma competitividade cruel, e a única forma de se sobressair é colocando o umbigo acima de todas as coisas.
Logo, nunca vai haver a sensação de dever cumprido. Nós não temos um monstro para enfrentar. Se existe o monstro, a gente não conhece a cara dele. É a história das necessidades e possibilidades. A nossa geração possui uma gama completa de possibilidades, ao contrário das outras. Anteriormente, havia muito mais necessidades. Necessidade da mulher se expressar, necessidade de uma liberdade de falar e ser ouvido, necessidade de controlar desejos por causa de uma epidemia, necessidade de ser simplesmente aceito. Ainda temos estas? Não. Isso nos dá possibilidades de fazermos mais coisas, realizarmos objetivos próprios e atingirmos metas mais complicadas. O SONHO ESTÁ AO NOSSO ALCANCE. Motivo: MENOS NECESSIDADES. MAIS POSSIBILIDADES.
No entanto, com menos necessidades, cresce a angústia. Do quê eu preciso? Qual é a nossa esperança? Angústia que vira vazio e a resposta para achar o pote de ouro é essa que vem na tua cabeça: ORA, SE NEM TEMOS NADA PARA NOS PREOCUPAR, SE NOSSO LEGADO É SÓ IR A FAVOR DA MARÉ… VAMOS NOS DIVERTIR!!!

O ser humano é insasciável por natureza. Com tantas possibilidades, há muito o que fazer. E com tanto vazio, um objetivo é achar estas possibilidades. A preocupação com a diversão seria inofensiva, não fosse o efeito colateral disso tudo. Estas mil possibilidades referidas por mim fazem com que uma certa sensação de impunidade paire sobre a gente. Como não há nada que impeça, viva a diversão, e a gente só para quando algum limite chegar. Como jovens não conhecem limites, e essa livre consciência dão esta impressão, a coisa vai ficar preta quando REALMENTE houver uma necessidade.

O limite é cruzado normalmente. Ao ponto de o cara que sai se cuidando pra não dirigir bêbado ser chamado de, simplesmente, “VELHO”. Ou o outro carinha que trabalha como um condenado ser sugerido pelo “AMIGO” de largar o emprego pra “CURTIR A VIDA”. É, “CURTIR A VIDA” tem sido engraçado pra nós, não é mesmo? Ou o cara que comeu a mulher do melhor amigo, mas que fez isso em nome da diversão, desconsiderando o fator amizade. O fator família então, este é pisado, passado por cima. As relações se deterioram conforme o andar da carruagem, ou conforme quantas tequilas a gente tomou, ou qual a droga a gente ingeriu. Em nome da diversão, vale o MOMENTO. Sem grandes preocupações futuras. Sem dramas passados. Aí, a gente faz o seguinte: pega a consciência, deixa em casa antes de sair pra rua, toma uns trecos pra não se lembrar de que ela ficou em casa, e só se deixa levar. Pelo momento, tudo no momento: a música do momento, a droga do momento, os falsos amigos do momento, a buceta do momento, a pica do momento. Ali, aqui, agora. Impune. I´m a golden god. EU. FODA. Ao meu redor, nada.
No que acreditar? Qual a razão da luta? Em nome do quê? Da DIVERSÃO. E para atingí-la, para me sentir no topo dos felizes por um minuto, vale tudo.

Vocês acham que eu exagerei? Que tipo de contestação real se encontra na maioria dos blogs? O que é mais corriqueiro a não ser postar foto do que se quer comprar, do resumo das férias e de fotinhos felizes com turminha razoavelmente bêbada feliz em fotolog colorido?

Talvez a desesperança é tão velada e inconsciente que a gente anda acreditando que a vida é cor de rosa. Então, que a gente vá se divertindo. Indo pra cá, indo pra lá, tomando umas, outras, sem orientação, sem rumo, sem limite. Agora tá tudo bem. Mas, sinceramente, eu temo que essa falta de consistência, de profundidade, que essa supervalorização do ego, do presente, do momento e da falta de respeito completa e absurda com todo mundo, tenha algum pesar sigfnificativo no futuro. DIVERSÃO é PARTE DA VIDA, nunca o objetivo final. A gente ainda tem a necessidade de solidificar este momento. Não é com a falta de limites, mas com a disciplina necessária pra marcarmos alguma coisa na história, mais do que sermos testemunhas oculares de um milhão de pessoas vendo os Stones. A história também passa por nós.

Quem tem 14 anos já não pensa como a gente. Quer dizer, até pensa, mas de um jeito piorado. E aí, meu velho, se continuar assim, quando a gente for tentar se segurar em alguma coisa que realmente importa quando apertar… corremos o risco de agarrar o vento.

Eu ainda tenho que escrever sobre a dos jovens hoje em dia e sobre a postura da Igreja Católica com relação aos chamados tabus. Mas como o post tá longo, fica pra próxima.

2 Comments »

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  1. o filme só é meio bom acompanhado do teu post. sozinho, é teatro de colégio feito pelos membros do grupo de jovens religiosos do estabelecimento.

    Comment by felipeta — February 25, 2006 @ 4:33 pm

  2. Acha que tá faltando um desafio para a juventude? Na tua cidade não tem crime? Não tem pobre necessitado? Não tem injustiça?

    Quem sabe os jovens precisem de iniciativa para tentar resolver problemas, como a fome, violência, educação, por exemplo, invés de simplesmente ficar gastando dinheiro com coisas fúteis.

    Talvez a juventude de hoje seja mais acomodada e iludida, porque ainda existem muitos problemas para serem resolvidos.

    Comment by eduardo jose closs — March 3, 2006 @ 2:42 pm

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