Verborragia sem concessões

March 25, 2006

A HISTÓRIA DO BRASIL APLICADA À BOCA DO LIXO

Filed under: fuçando pra aprender, jornalismo - Carlos @ 4:33 am

Devido ao trabalho de conclusão de curso, que aborda a produção da Boca do Lixo, movimento cinematográfico paulista que durou quase três décadas, mergulhei profundamente no período histórico brasileiro que compreende principalmente o período 64-85, os anos de chumbo do Brasil.
Quando comecei este trabalho, que recém está com 30 páginas, acreditava que iria deter meu foco, sendo curto e grosso, na PUTARIA. Afinal, é fácil linkar a Boca do Lixo com a pornochanchada, com o erotismo, com o mulher pelada + palavrão.

No entanto, as pesquisas e descobertas me levaram a um panorama muito mais rico. Além de desmentir completamente meus conhecimentos(que, admito agora, ainda são superficiais) sobre a Boca do Lixo, tive que enfrentar novamente toda a riqueza do período histórico da época. Confesso que minhas expectativas estão sendo superadas.

Ao iniciar um trabalho de monografia, geralmente a gente pensa que o troço é um pé no saco. Ou então, vamos escolher um assunto que a gente domina pra que seja fácil. No meu caso, nenhum dos dois se confirmou. Escolhi o assunto, mas ele é bem mais complexo e interessante do que parecia. A Boca do Lixo começa com um filme chamado “A Margem”, que é uma obra prima no contexto do Cinema Marginal brasileiro. Junto com “A Margem”, dirigido por Ozualdo Candeias, chegam “Filme Demência”, de Carlos Reichenbach e, principalmente, “O Bandido da Luz Vermelha”, de Rogério Sganzerla. As três obras são a antítese da pornochanchada e, logo, não se vislumbra nada do que parece ser a Boca do Lixo. É o submundo mostrado numa crueza que impressiona. Aliás, acho que alguns nomezinhos do cinema atual deveriam assistir a estes filmes. É choque, busca, loucura generalizada. Cortes bruscos, interpretações improvisadas, fotografia saturada, diálogos desconexos, narrativa sem pé nem cabeça.

O ano chave é 1968, o ano de surgimento da Boca(”Bandido” foi o primeiro inteiramente rodado na Boca). Afora questões estéticas, e extremamente intrigantes, tive que reler “1968 - O Ano que Não terminou”, de Zuenir Ventura. A história do Brasil, e principalmente a história republicana recente, é absolutamente fascinante. Rica em todos os detalhes, forte em todos os movimentos. Realmente se atingia. Realmente se fazia algo.

Vi, pois, o final de JK. Eu achei uma bosta completa, considerando vários clichês compreensíveis(há de se ter toda uma adaptação para o FOLHETIM, já que a audiência gosta da choradeira), como todas as reconciliações possíveis no funeral, a galera cantando “Peixe Vivo” em côro, a Sara Kubitchek debruçada sobre o caixão, o perdão e a comoção popular. É mal dirigido, mas, enfim, é minissérie global, devemos entender. Apesar disso(e por incrível que pareça, foi o ÚNICO capítulo que assisti), dá pra se ter uma idéia do que acontecia com o Brasil na época.

Eu queria estar lá. Queria ver a ditadura de perto. Queria sentir tudo o que rolava nos anos setenta, fazer parte, ser testemunha ocular da história. Não sei se eu teria colhões pra fazer algo, pra realizar algo importante. Toda essa pesquisa me transmite esta vontade. Queria mesmo.

Há de se desmentir alguns mitos. Glauber Rocha foi o grande gênio da época, mas nem ele estava tão preparado assim. Quando do lançamento de “A Margem”, o baiano torceu o nariz. Nem ele acreditava no poder daquele filme completamente absurdo produzido por um cara de vinte e poucos anos, sem qualquer conhecimento cinematográfico, e rodado numa zona de putas e traficantes de drogas. Outro paradoxo: os “marginais” Sganzerla, Candeias, Reichenbach e Neville D’Almeida(Matou a Família e Foi ao Cinema) criticaram duramente a postura da Boca nos anos 70, quando, pela metade da década, nomes como Jean Garret, Ody Fraga e David Cardoso começaram a pegar pesado na putaria, produzindo três filmes por ano sem qualquer qualidade ou conexão com o que eles pretendiam com o movimento.

Tá sendo legal. Irei publicá-la assim que der. O mais interessante é que a gente pensa que conhece, quando na verdade, o furo é bem mais embaixo.

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