A BANALIZAÇÃO DA SAUDADE
O caso é verídico, mas obviamente não citarei nomes, velha história de preservar identidades e ocultar fontes. Defeito pra uns, qualidade pra outros(afinal, consigo me manter informado), eu sou um dos grandes fuxiqueiros do orkut. Verificando alguns scraps, eu consigo perceber uma sinalização quase patética de algumas pessoas em afirmarem a amizade com as outras por base de palavras de incentivo que beiram a babaquice. Vou explicar.
Eu sou um cara simpático até certo ponto. Não tenho vocação que algumas pessoas têm de ser o que eu chamo de “Rainha da Festa da Uva”. Saca, a princesa gringa polenteira, vermelha, maquiagem já borrada, tendo que ser atenciosa com todos, abanando pra multidão com um sorriso forçado? É, não sou assim. Às vezes, há uma falta de compreensão no modo com que encaro minhas relações. Eu sou legal a princípio, mas não gosto de encher as pessoas de elogios descabidos apenas pra comprovar, de fato, que eu gosto dela. Não é comigo. Então, o que eu escrevo ou falo a respeito, vem com uma sinceridade absurda.
Também sou um profundo crítico das relações e das pessoas que me cercam. Afinal, a gente realmente anda com quem quer? Ou simplesmente se move porque precisamos? Na verdade, é simples, e mesmo assim, é encarado por todos como defeito: se eu não gosto, não demonstro. Não preciso tratar mal, não tem porque romper as coisas. Só não gosto e ponto final. Sempre haverá um motivo(afinal, quem é unânime?). Às vezes é pura antipatia à primeira vista, pode ser uma rejeição da outra pessoa pelas tuas condutas, ou, em algum caso, a pessoa te tratar mal ou ter feito algo bastante grave a ti. Nestes últimos casos, elas abrem precedentes pra que eu fale mal delas.
Pelo lado positivo, não gosto mesmo de declarações diárias de amor, de elogios enlouquecidos aos outros, esse tipo de coisa. Prefiro somente ser legal, tratar bem, sorrir e ser solidário. Aí está a palavra chave. Solidariedade. Os atos de espontênea vontade que têm como intenção ajudar o próximo são bem menos valorizados do que as palavras de carinho. Quer dizer, ajudar é bem pior do que puxar o saco, simplificando a situação. Babar o ovo segura amizade sim senhor. Bajular, encher a bola, passar a mão, tudo isso conta bem mais do que apontar erros, indicar direções, criticar buscando um aperfeiçoamento.
É quando a honestidade é deixada de lado em troca da política de boa vizinhança. É como se apaixonar por um político pelo número de beijos em crianças que ele dá na campanha. É preferir quem esconde o próprio sentimento buscando não interferir(e nem contribuir para a melhora) do ambiente do que estourar e nisso acontecer um resultado que todos aproveitem.
Toda essa desconfiança nas relações se reflete em atos basicamente de pura carência de sentimentos. É preciso provar a todos que eu gosto dele, dela, e vice-versa. E mais, pra que ele/ela acredite nisso, é melhor contar pra todo mundo. Eu até entendo quando as pessoas trocam recadinhos diários jurando amor eterno em alguns casos, como casais que estão começando namoro ou casais apaixonados ou ainda quando se está a fim de ir às chamadas “vias de fato” com alguém. O “te amo”, “te adoro” e “saudade” tem sua importância e até é fundamental para a consolidação da imagem para com o outro, já que é preciso solidificar a relação e fortalecer o convívio.
No caso de amizades recentes, tem dois casos: ou é hipocrisia ou é deslumbramento. O deslumbramento é fácil de identificar. É óbvio que na nossa trajetória a gente cruza com pessoas extremamente interessantes. E não necessariamente pessoas que despertariam nosso interesse sexual ou amoroso, mas pessoas que a gente admira ou gosta de estar. Por que diabos então, não demonstrar isso com atitudes discretas, com a doação de sentimentos? Por que temos que confirmar o “te adoro” o tempo todo? Acreditem, amizades que começam com um “te adoro” constante em todo momento não duram. Pelo menos comigo, não colou. Deslumbramento, que passa. Normal. Hipocrisia é quando o “te adoro” tem como intenção se valer da pessoa para seu próprio bem. Tirar algum proveito, usar da boa vontade para suprir uma carência, que não se sabe lá de onde vem.
Agora, a manifestação mais hipócrita de todas é a “Saudade”. Dizer “saudade” para alguém que eu vi há dois dias é de uma falsidade gritante. É meio frio esse pensamento, eu sei. Talvez até amargo, e de se pensar que eu não tenha saudade. É claro que eu tenho. Todo o tempo, de várias pessoas, de situações, de fatos. Mas eu não me sinto a vontade em colocar isso publicamente. Para os outros. Não, isso não existe.
Então, pensem bem quando forem manifestar saudade pra alguém. Ou um sincero “Eu te amo”. É preciso convivência, é preciso cumplicidade e conhecimento completo da pessoa para que estes sentimentos existam. No resto, ou se quer CONQUISTAR a pessoa ou é deslumbramento puro. Já passei da fase de me deslumbrar com as pessoas. Por mais que haja uma simpatia impressionante logo de entrada, jamais sairia dizendo a ela que estou com saudades e que o convívio com ela é viciante. A saudade só se torna palpável quando se tem uma longa estrada percorrida de intimidades e vivências.
E o mais interessante: quando é o deslumbramento, enquanto mais se convive, menos manifestações ocorrem. Ou mais: quando alguém que antigamente pertencia a esta “panelinha”, é simplesmente deixado de fora porque não conseguiu se deslumbrar. Ou apenas porque foi sincero. É, sincero, honesto e comedido na troca de afetos. Para se inserir no contexto, é preciso “dar a graça”.
Eu até pareço antipático, mas meus amigos não acham. Eles me conhecem e sabem que quando precisar, vou estar apto a elogiá-los, auxiliá-los e ser gentil com eles. Ser humano: às vezes estamos bem, outras vezes estamos mal. Quando se trata alguém que se ama bem o tempo todo, é porque alguma coisa está errada. E até o teu amigo saberá perceber que não é o teu dia, e ele irá ajudá-lo na maior sinceridade do mundo.
Uma última sobre estas pessoas: elas são pouquíssimo interessantes. Necessitam da atração dos outros por motivos basicamente imbecis. Não têm o mínimo charme, um sarcasmo necessário para que haja o interesse, são sem sal, sem gosto e sem paladar. Saudade? Por que? Por que ela te deixa com saudade? Porque é legal! Ah… ok. E ainda, são voláteis. Hoje, a saudade, amanhã, difamação geral por falta de compreensão do erro humano. Afinal, é preciso manter a boa vizinhança, correto? É preciso manter o “ti adoruuu”, a “saudadeee”, e se isso acaba, já é um motivo certo para que a relação morra. Viva a falsidade, não?
Meu ponto de vista provavelmente seja amargo demais e isso poderá gerar uma compreensão errada dos fatos. Mas tudo bem, não estou aqui pra fazer média com ninguém. Ódio, rancor, amargura? Nada disso. Somente o olhar de fora, de espectador, feito por alguém que não acredita que as relações sociais estejam no PAÍS DAS MARAVILHAS. Já pensei diferente. Hoje, estou me doando a quem está adepto à cumplicidade e à honestidade. E, ao contrário do que possam imaginar, gosto muito de conhecer novas pessoas e fortalecer novas amizades. Sem bajular. Só conquistar por méritos próprios, por empatia e atos. Pra que, depois de um longo tempo, eu possa sentir e afirmar, em letras garrafais, que eu estou com SAUDADE dessa pessoa. Antes? Como? Se eu mal a conheço.
Sempre coerente, honesto, ácido e verdadeiro.
Por isso que ler os teus textos é refletir sobre a condição humana. =)
bjs
Comment by Nessita! — April 2, 2006 @ 1:24 pm