Verborragia sem concessões

April 26, 2006

NÃO É QUE O IVO PITANGUY TEM UMA ILHA?

Filed under: comportamento, repercutindo notícia - Carlos @ 3:35 pm

Então parece que a Angélica tem um programa onde invade a intimidade de ESTRELAS. No último sábado, eis que a sra. Luciano Huck visitou o cirurgião plástico Ivo Pitanguy. A visita não foi simplesmente à casa de campo, de praia, ao apartamento, à superfazenda, às terras vastas de Ivo Pitanguy. O cara simplesmente tem uma ILHA. É, uma ilha, porção de terra cercada de água, uma ilha, no litoral fluminense, só pra ele. Ele é dono de uma ilha, como a CARAS é, como tantos outros empresários são.
Eu não tenho nada contra o Ivo Pitanguy. Aliás, parece que tudo que ele obteve até agora foi graças à sua competência profissional. É o melhor cirurgião plástico do país, merece todos os méritos, batalhou, suou, estudou, pesquisou e hoje merece este patamar.
O que me chama a atenção é o fato dele ter uma ilha. Ele tem barcos pra chegar até à ilha, mas isso é demais, uma ILHA. E o pior, não pensaram ainda: IVO PITANGUY tem uma ILHA graças à VAIDADE HUMANA.

O maior medo do ser humano é o de ficar feio. Não fosse assim, academia de ginástica não seria um grande negócio, certo? E não me venha falar em saúde, porque 90% dos que freqüentam querem simplesmente ficar mais bonitos que são. Os produtos light não existiriam, porque todos sabemos que seus similares engordantes são bem melhores. Não gastaríamos vinte contos num simples corte de cabelo, e tem gente que gasta mais.

É absolutamente normal estes gastos com a aparência. Até é normal, também, quando alguém mais velho quer parecer jovem e apela para o sr. Pitanguy. Mas olha o ponto em que chegamos: dar uma ILHA para um cara graças à nossa própria vaidade!

O ser humano é tão vaidoso que não consegue medir esforços para corrigir as próprias imperfeições. É a corrida em busca do “eu” perfeito. Se tem gordurinha, taca lipo. Se tem raiz aparecendo, taca tinta. Se tá muito sem sal, taca tatuagem. Se tá na moda, taca piercing. E assim vamos, escravos do style, ao enriquecimento deliberado de gente que nos corrige. Sem contar o lado “interno” da situação: se tá com problemas, taca fluoxetina.

Gosto do Daniel Galera. Na resenha de ZH sobre seu novo livro, ele diz que “personalidade é uma ilusão”. Eu concordo com ele. O objetivo de vida do ser humano passou a ser a “busca pelo novo eu” diário. Ninguém mais gosta inteiramente de si mesmo. Sempre tem um porém, que se resolve no cabelereiro, no psiquiatra ou no cirurgião plástico. Nada está no lugar, tudo precisa ter uma alteração. Estamos vivendo a geração das metamorfoses ambulantes, camaleões constantes em busca de um objetivo próximo: mudar, mudar as estações, sair daqui, tirar o que é errado. Queremos e precisamos do complexo de deus grego: necessitamos da perfeição, da melhoria diária, e não mais nos conscientizamos de limites e do contentar-se com o pouco. A ambição virou megalomania, e realmente acreditamos que sempre precisamos melhorar. Melhorar no quê, cara pálida? Por acaso, é uma competição com todos os bilhões de habitantes do planeta? Temos que ser melhores do que eles?

É a cultura do mais: o mais bonito, o mais inteligente, o mais capacitado, o mais alto cargo, o que manda mais, o que evolui mais, o que tem mais talento, o que pega mais mulher, o que joga mais bola, o melhor do mundo em todos os tempos, o melhor amigo, o mais confiável, o mais, o mais, o melhor. O teu blog é melhor que o meu. Tu escreve mais. Eu sou mais viajado. Eu quero o mundo. Porto Alegre é um cu. É pequena demais pra mim. Eu quero mais, mais, mais, mais, consumo, chegar ao limite. Ninguém mais se contenta em simplesmente fazer o seu e voltar pra casa com o dever cumprido. É uma imposição generalizada de que isso é pouco demais.

A nossa geração chegou a um vazio tão grande, tão grande, que não se prende mais a nenhum objetivo considerado, ao meu ver nobre: a constituição de uma família, à solidificação de amizades, ao esforço diário de ser reconhecido, trabalhar, ser valorizado e subir ali por méritos, tendo posteriormente uma lembrança maravilhosa de como foi a tua evolução, sem que houvesse atropelamentos. O pra hoje é pra ontem e o que é de ontem, não existe mais. E o que é pra amanhã, tem que ser pra agora.

Que vazio desesperador, meu deus do céu. O que falta? Hein? E quanto sobra? Sobra? Falta? O nosso objetivo passou a não gostar da gente e mirabolar alterações nos nossos próprios rumos, tentando criar a fórmula perfeita da felicidade a cada minuto do dia. E esta fórmula perfeita nunca é “manter o que temos”. Sempre é “mais que isso”. Sempre tem uma correção a fazer e é tão triste conviver com imperfeições, que às vezes, são proporcionadas pela própria natureza, não?

O verdadeiro estado de espírito da felicidade humana não é abrir mão da ambição e aceitar o desapego completo como forma de camuflar tuas frustrações. Não há o perfeito. Há o imperfeito, e aí está a essência humana. Gostar da gente, com imperfeições e agir honestamente com os nossos próprios sentimentos, é o segredo. E aí, o objetivo vem bem mais fácil.

Na verdade, eu escrevi que Pitanguy tem uma ilha graças à nossa vaidade. Eu errei. Ele tem uma ilha graças ao nosso vazio. O vazio cotidiano que nos consome, não nos norteia e nos estabelece um objetivo por hora, depois alterado pra outro, é claro. O vazio tá dando ilha pro Pitanguy. Daqui a pouco, algum psiquiatra vai ter a sua. E a Angélica vai mostrar tudo no programa dela. Eu não vou perder esta.

April 25, 2006

DOSSIÊ CERVEJA NO CÉREBRO

Filed under: cachaça - Carlos @ 7:51 pm

Geralmente, há passos durante o consumo de cerveja, desde o primeiro gole até o estado de embriaguez total. Cada cerveja representa uma alteração considerável no cérebro.
Por isso, aqui estamos com este dossiê.

1) REGRAS
1.1 - Pessoa de 25 anos, sem problemas de saúde, com 1,80 de altura e peso ideal.
1.2- Inicia-se o consumo a partir da noite, ou seja: todas as refeições do dia foram realizadas, sem excesso e sem carências.
1.3- Estado físico ideal: sem cansaço, sem compromissos e com a mente absolutamente liberada de qualquer preocupação.
1.4- Sem pressa: aqui o que vale é quantidade, sem que se determine um tempo hábil para isso.
1.5- Costume: a pessoa já bebe há pelo menos 10 anos socialmente, e com um hábito de beber uma vez por semana.
1.6- Passado: esta pessoa já tomou pelo menos 20 porres grotescos, o que faz dela um exemplo típico exemplar para a experiência.
1.7- Situação em que será bebida a cerveja: não é numa festa(onde movimentos e gasto de calorias maiores). É num bar, sentado.
1.8- Não há interesse algum em beber a cerveja(como por exemplo, uma pessoa na qual você está interessado). Aqui, a concentração é na bebida, única e exclusivamente.
1.9- Dinheiro não é problema. É um experimento e vamos fingir que é por conta da casa.
1.10- Tomaremos como padrão a POLAR. Porque é mais popular, não é maravilhosa nem péssima.
1.11- As doses são de 350 ml(uma lata, uma long neck ou meia garrafa).
1.12- Para o experimento, recomendamos que um parceiro teu das antigas te acompanhe. Que a cobaia seja divertida. Mas atenção: deve ser um PARCEIRO, no qual você confia, para conversar, arranjar distração durante o consumo. Não pode ser mulher, não pode ser alguém que não beba. Isso desvia o caráter experimental.
1.13- Sem petiscos durante a bebedeira. Sem outros líquidos. Nem água. Só cerveja. Cigarro pode. Nenhuma outra droga.
1.14- Banheiro à disposição sempre. Perto, de preferência.
1.15- Escolha qualquer bar, desde que seja movimentado.

2) PRIMEIRA CERVEJA
Neste caso, a primeira impressão é sempre a que fica. Estando legal de saúde e tendo feito refeições decentes, sem exageros, o primeiro gole dita o que será a noite de mamação. Se ele vier com o “gostinho de quero mais”, é bucha: tu vai ficar mamado. O primeiro gole é o boi da boiada. Passando por ele como ele deve ser, ou seja, tenro, macio, cremoso, saboroso e provocante, a boiada passa sem problemas(até certo ponto). A primeira cerveja nunca te deixa mamado, deixa apenas com vontade. E ninguém toma UMA cerveja apenas, correto?

3) A SEGUNDA CERVEJA
É o termômetro do primeiro brilho. Após a ingestão da segunda cerveja, você poderá dirigir corretamente, ainda articula frases com precisão, mas um leve desvio nos lábios começará a aparecer. Ainda longe da euforia, apenas uma descontração gostosa.

4) A TERCEIRA CERVEJA
Tem como importância manter o estado da segunda, com um leve atenuante. Ela não é decisiva nas alterações mentais. É a ceva da transição: do “quero mais” para o “brilho perfeito”. Ainda não é hora de ir no banheiro e estamos plenamente convictos de nossos pensamentos.

5) A QUARTA CERVEJA
De acordo com os experimentos, esta é a dose mais importante. Com ela, vem o chamado “brilho”. Ela também vai te proporcionar a primeira ida ao banheiro. A partir daí, o fato mais importante: todas tuas convicções serão mudadas. Elas passam a se transformar, tua credibilidade começa a morrer e, com um orgulho extremo, olhe para o espelho do banheiro e diga: “TÔ MAMADO”. Aí, se ri de qualquer bobagem e se pensa em realizar confissões que jamais poderíamos enquanto sóbrios. Se fôssemos entregar um troféu para “A CEVA DA MAMAÇÃO”, certamente iria para a quarta.

6) A QUINTA CERVEJA
Entramos aí no brilho profundo. A quinta cerveja é a transição para a seguinte, que não é ainda a que vai acabar. No entanto, com a bebedeira se tornando costumeira, ela já não desce tão rápido assim. Começam idéias mirabolantes, pensamentos utópicos e risadas ridículas. Uma ida ao banheiro. Uma olhada no espelho. A pessoa começa a falar com ela mesma.

7) A SEXTA CERVEJA
Brilho intenso. Você já poderia cantar alto músicas do Bon Jovi, dançar pagode com estranhos e abraçar um conhecido dando-lhe um beijo no rosto que nada seria mal interpretado. É decisiva, pois é a linha tênue do brilho para o fiasco. Duas idas ao banheiro. O garçom é teu bruxo. Convicção? Já era. Mas importante: você ainda sabe de tudo o que está fazendo. Toda essa lembrança, a da sexta cerveja, não apagará. Ainda é pouco para se ter ressaca no dia seguinte. Importante: a partir daí, mantenha-se longe de um telefone celular. Ligações sempre acontecem neste período e elas nem sempre terão uma boa receptividade(principalmente por quem é sóbrio).

8) A SÉTIMA CERVEJA
Entramos aí em outra fase de transição: do mamado para o bêbado. É mais uma cerveja que te mantém com brilho, mas um passo pequeno para cometer cagadas históricas.

9) A OITAVA CERVEJA
Parabéns, você está bêbado! Você pode até achar que não, mas lhe dou todos os sintomas para provar que isso é verdade. Não pára de rir? Fala sem parar? Consegue ficar sério, comprimindo os lábios, sem evitar que uma gargalhada exploda? Já pensa em fazer cagada? Faria cagada? Isso aí, compadre, tá bêbado. Claro, você ainda consegue andar em linha reta, mas já canta Bon Jovi alto demais. É a fase da parceria geral: o garçom já é teu IRMÃO, as pessoas do bar são teus amigos e o brilho está passando para se tornar algo perigoso. Dá pra dirigir, mas não pra fazer longa viagem. Umas quatro idas ao banheiro.

10) A NONA CERVEJA
É quando você se dá conta de que precisa se fazer algo além de ficar ali bebendo com teu amigo. Você está completamente mamado e o brilho já passou. É outra ceva de transição: já foi o brilho, já veio a euforia, agora vem a depressão. Depois dessa.

11) A DÉCIMA CERVEJA
Depois da quarta, é a mais importante. Cientificamente, chamamos ela de “A CEVA QUE MATA”. É esta aí que vai te derrubar. O gosto já não passa a ser tão bom assim. Ela já desce lentamente, como se o organismo pedisse alguma outra coisa pra balancear. Você se torna o bêbado chato, enrola a língua, vê tudo embaçado e não consegue mais formular teorias. As cagadas prometidas só serão realizadas se tu realmente conseguir se levantar do bar. A vontade já não é tanta. Mas a insistência do experimento ainda te mantém vivo.

12) A DÉCIMA PRIMEIRA CERVEJA
Pura insistência. Já não vale mais a pena. Porque passou toda a parte boa e agora vem lamentações. Sobre passado, sobre o que você não fez, sobre aquela mulher que está longe. Depressão graúda iniciando. Língua torpe.

13) A DÉCIMA SEGUNDA CERVEJA
Ou você arranja uma coisa pra fazer ou está se encaminhando para a falência total de sanidade. Ainda há uns 10% de movimento e articulação. Já está morto, a ressaca já é inevitável e o gosto já tá uma merda. Todos já são teus amigos e agora tu não quer nem olhar mais pra cara deles. Pensa na tua cama e ela parece aconchegante. Resumindo: você não agüenta mais beber, de forma alguma. Ah, e nem adianta tentar se recuperar na noite: já era.

14) A DÉCIMA TERCEIRA CERVEJA
Nestas condições apresentadas, raramente o cidadão chega à décima terceira cerveja(estabelecendo 350 ml por dose). Mas se chegar, passa pelo penúltimo estágio: de deprimido a digno de pena.

15) A DÉCIMA QUARTA CERVEJA
Não dirija. Não fale com estranhos. Não conte segredos a ninguém. Aliás, você mal consegue falar. Só está ali, olhando ao teu redor, esperando que uma alma caridosa te diga: PARE! Se encontrar conhecidos, pelo amor de deus, finja que não os conheça. A memória fica extremamente comprometida e não há qualquer movimento que denote coordenação motora.

16) A DÉCIMA QUINTA CERVEJA
Você está chegando a SEIS LITROS de cerveja no organismo. É um estado que desperta atenção e gravidade. Já é o se acabar por se acabar. Por favor, desista. Este é o estado em que seus amigos começam a pensar em te carregar. O vômito já é uma realidade, ou ao menos a ânsia.

17) A DÉCIMA SEXTA CERVEJA
Você já vomitou três vezes, não consegue mais caminhar sem ajuda, impossível dirigir, e só há um movimento possível nesta hora: pegar a cabeça, jogar sobre a mesa, tapar com os braços, mentalizar para não enjoar, e apagar.

18) A DÉCIMA SÉTIMA CERVEJA
Nas condições expostas acima, de acordo com peso, idade e situação, não é verificado que alguém consiga beber DEZESSETE CERVEJAS. Mas, se houver, chama a ambulância que tu tá indo pro coma.

19) A DÉCIMA OITAVA CERVEJA
Coma.

20) CONCLUSÃO
Seis long necks nesta situação é um número ideal. Numa festa, esse índice aumenta, pela variação de ambientes e de possibilidades. Se for ocasião especial, também muda a história.
Eu duvido que alguém consiga desmentir estes índices. Aceito cobaias. Eu já fui. Várias vezes(mesmo sem pensar que poderia ser um experimento).
Obrigado.

April 24, 2006

DIVERSÃO GARANTIDA

Filed under: porto alegre - Carlos @ 2:50 am

Melhor coisa pra se fazer em Porto Alegre no momento: ver de que ponto são os táxis da capital. Tem escrito na lateral dos carros.
É idiota, mas é divertido.
Mas é a minha opinião também, né.

PLANO PERFEITO

Filed under: cinema - Carlos @ 2:48 am

Já faz umas semanas que eu vi, mas eu acabei me esquecendo de comentar a respeito desta pequena obra prima concebida por Spike Lee.
“O Plano Perfeito” é o filme policial mais bem acabado dos últimos dez anos. A temática remete ao espetacular “Um Dia de Cão”, de 1975, com o Al Pacino, mas as semelhanças são somente no fato de se passar durante um assalto a banco com reféns.
Dalton Russel é o personagem masculino mais foda da história do cinema. Aliás, Clive Owen é o melhor ator do cinema no momento.
No filme, ele, o ladrão de banco, projeta um plano perfeito. E em nenhum momento ele vê qualquer fator externo como ameaça, prevendo cada movimento da polícia e tendo a convicção de que tudo vai ser do jeito que ele planejou. Dalton Russel, com isso, desbanca John McLane, personagem de Bruce Willis em “Duro de Matar” como o maior personagem masculino do cinema na história(já falei isso, mas é bom repetir). Aliás, o Spike Lee se mostrou um puta diretor de filmão. Cinema é isso: espetáculo. Já sabíamos que o cara tem a manha em filmes engajados, mas no cinemão, deu de relho em um monte de gente que tentou fazer esse tipo de filme nos últimos tempos(talvez o Michael Mann chegue perto). Além da trama em si, sem buracos, sem defeitos e extremamente bem acabada e encaixada, Spike Lee coloca na tela um filme onde TODOS OS PERSONAGENS são prepotentes. Cada um na sua. E isso ainda aumenta mais o charme de “O Plano Perfeito”.

Pra mim, melhor filme de 2006 até o momento.

“Pay strict attention to what I say because I choose my words carefully and I never repeat myself. Why? Because I CAN.”

É o melhor
Melhor filme de 2005

April 15, 2006

P.S. DE TUDO

Filed under: fuçando pra aprender - Carlos @ 3:24 am

Mas que blogue DENSO, não????
Textos longos, sérios, melancólicos.
Eu avisei que seria assim, avisei.
Aqui não tem comédia.
E olha que eu sei fazer rir, hein!

VIVA EL MEXICO, CABRÓN

Filed under: turismo - Carlos @ 3:22 am

Meus sonhos de consumo turísticos são completamente diferentes dos desejos dos outros. Se formos considerar uma lista de “lugares que sonho conhecer”, pessoas entre 20 e 30 anos, com uma situação econômica e graduação semelhantes, escolheriam provavelmente algo que não sairia entre Londres, Roma, Paris. Nova Iorque, ok. Surfistas, Austrália, Califórnia. Intelectualóides, leste europeu. Eu quero conhecer estes lugares. Quero conhecer todos os lugares. Mas eu tenho alguns locais específicos no planeta que me fariam muito feliz em conhecê-los.

Sou um nacionalista irritante, sou apaixonado pelo Brasil. Acho meu país a coisa mais linda do mundo e o nosso povo absolutamente espetacular. A diversidade deste país me causa um transtorno tão grande e um fascínio absurdo. Sou repetitivo a respeito da minha tour nordestina em 2003, eu sei, mas aquela viagem de 20 dias de ônibus de Fortaleza a Salvador, absolutamente sozinho, me traz memórias incríveis. Mais do que o pôr do sol em Jericoacoara, do que as piscinas naturais de Porto de Galinhas, da Praia da Pipa(citada no texto anterior) ou do que as ruas de Salvador.

Muitas das lembranças daquela viagem me remetem ao povo brasileiro. Tenho uma sensação estranhíssima, e que me vem até hoje, quando me recordo da chegada do ônibus Fortaleza-Jericoacoara em uma cidadezinha do sertão cearense. A cidade, com postes de luz fraquinhos, casas modestas, jegues e habitantes usando chapéus de palha, as crianças correndo atrás do ônibus fazendo festa, e atacando os gringos pra vender rapadura. Acho que aquilo foi a coisa mais linda que eu vi na viagem. A descoberta de que, bem longe daqui, ou bem perto daqui, existe uma simplicidade ingênua, uma pintura lúdica, um minimalismo belíssimo de um retrato de um povo que consegue extrair de uma simples chegada de um ônibus toda uma felicidade no meio de muitos problemas. Como se o ônibus cheio de branquelo vermelho do sol, torrando grana comprimida do euro, fosse um sinal de esperança, uma sinfonia de que novos tempos podem chegar. Só a simples chegada de um ônibus.

Viagens para mim têm um sentido muito mais amplo do que um simples refúgio turístico. É a possibilidade de enxergar num horizonte completamente distante o que o nosso umbigo esconde no cotidiano. Eu não falo na arte, não falo na história. Não falo em praias, não falo em vales, em cachoeiras e montanhas paradisíacas. Falo do povo, da diversidade que só é possível quando se dá o fora do nosso próprio ninho. Somos de várias espécies, todas bem diferentes, mas que não conseguimos enxergar, afinal, a brutalidade monstruosa de nosso dia a dia só nos permite enxergar semelhantes e atrasar nosso próprio crescimento. É muito bom passar um tempão sem olhar para o espelho, e ver que há coisas bem maiores do que a nossa própria imagem. Na volta, ela parece menos distorcida.

Corrigindo uma falha de currículo, assisti a “E Sua Mãe Também”, maravilhoso filme mexicano, do qual todo mundo tem referência(principalmente as groupies modernosas) porque tem o tampinha sem graça do Gael Garcia Bernal. O filme é maravilhoso. Além da história ser fantástica, tratando da descoberta, abordando amizades e todas as complicações que envolvem relações entre amigos, mostra um pouco do que é o México. As intervenções do narrador, em off sem background, são perfeitas, colocando um pouco da paisagem mexicana na nossa cara.

Quero conhecer o México. Assistindo ao filme, percebi uma semelhança incrível do México com o Brasil. A pobreza, a dificuldade de um povo que vive à margem, em estradas sorrateiras, localidades massacradas pela poeira, uma vigilância extrema na contravenção. E praias lindas, contrastando um avanço natural que devasta toda a pureza que possa existir na beleza natural mais rica do país(no caso, a expansão dos resorts, tomando conta de áreas que deveriam ser de convívio público). Quero o México, mas quero mais ainda o Brasil.

Ainda sobre viagens: eu sou o único ser(ao menos que eu mesmo conheço, claro) que gosta mais de Rodoviárias do que de Aeroportos. Nas rodoviárias, as pessoas se multiplicam. Elas não vão apenas para São Paulo, Rio, Curitiba, Brasília. Elas vão para São Luiz Gonzaga, elas pegam um pinga pinga até Teutônia, vão no madrugadão pra São Miguel do Oeste, fazem conexão pra Cascavel pra ir até Ponta Porã. Gente simples, passagem barata. Despedidas, projeções de viagens longas, preparações, concentração no sono. E a vista, a vista de cada vilarejo que se pode ter ao longo da jornada. A chegada em uma nova rodoviária, a renovação dos passageiros, a parada para fazer lanche, caras de sono tentando se recuperar do cansaço, uma cachacinha pra acordar, uma lembrança para um ente querido.

A sensação que eu tive no Ceará, a sensação que eu tive da janela do Recife-Salvador ao cruzar a divisa de Alagoas com Sergipe e passar pelo São Chico, qualquer parada no Japonês em Sombrio nas várias viagens de ônibus para Santa Catarina, são sentimentos que eu nunca vou me esquecer.

Antes do México, antes de Nova Iorque, antes da Europa, antes da civilização mais avançada, eu quero repetir isso tudo. No verão, na BR-101, cruzei com o PELOTAS-FORTALEZA, o ônibus de maior trajeto no país. Talvez um dia eu pegue, só pra matar, em uma dose cavalar, toda essa vontade. Não penso em sair fora. Só quero ir, ver e aprender. E voltar. Pra poder olhar pro espelho de uma maneira diferente.

April 12, 2006

VENDENDO MILHO NA PIPA

Filed under: relações sociais, brasil - Carlos @ 4:30 pm

Fiquei sabendo que não há milho verde para vender em Pipa(RN). Confesso que esta falha gastronômica na praia não foi notada por mim quando estive por lá, exatamente nos dias 13 e 14 de dezembro de 2003. Pipa, naquele final de semana, foi uma ida de van do albergue de Natal, uma noite num lugar chamado(talvez) Candango, contatos com sul-africanos, israelenses e argentinos, estréia da Nova Schin comercialmente(e um trago de destilados, por conseqüência), turistas bêbados, pousada espelunca de dez reais, passeio pela rua, descanso debaixo de coqueiro, mar, tentativa de ver golfinhos, ressaca curada ao cheiro de cana de açúcar na volta a Natal, chegada, Ponta Negra e sono.

Pipa lembra Bombinhas(SC) em alguns aspectos: uma rua principal, cortada por várias perpendiculares menores, a faixa estreita de areia, um certo congestionamento no final do dia, algumas galerias, bares, restaurantes e uma infinidade de lojinhas de roupas e artesanato local. Jamais iria reparar no maldito milho verde que falta em Pipa. Mas, descobri, não tem milho verde para vender. Tem tapioca, açaí na tigela, suco de frutas locais, camarão no espeto, mas falta milho.

Pipa pertence a Timbaú do Sul, que tem a chamada Baía dos Golfinhos. De acordo com o IBGE, Timbaú do Sul tem 8.867 habitantes fixos. Na alta temporada, apenas Pipa deve abrigar 50 mil pessoas. Nos finais de semana, com o movimento nômade que vem de Natal e João Pessoa, esse número deve aumentar. Ainda há um fator considerável: como não chove, como é quente quase todo o ano, o fluxo turístico é permanente, diminuindo um pouco na baixa temporada.

Aí está a visão empreendedora: se não tem milho verde em Pipa, pois que se comece a vender milho verde em Pipa. Milho verde alimenta, é saudável, não pesa e agrada aos gringos. Não precisa de grande infra-estrutura. É só comprar uma carrocinha, um fogareiro, água, caprichar na escolha dos milhos e colocar um que outro lance de marketing pra que funcione o esquema.

“Liberdade é o sentimento que ninguém sabe explicar, mas todo mundo entende”
(Ilha das Flores)

Não é muito fácil falar sobre liberdade, ainda mais porque não há uma definição exata sobre isso. Sentir-se livre é algo que volta e meia acontece com a gente. Ser livre, isso nunca ocorreu.
Lembro de dezembro de 2003. Lembro de Pipa, da falta de milho verde e da caminhada que fazia enquanto ouvia músicas duvidosas num walkman, olhando para o mar, pisando na areia, sem olhar no relógio, sem dar nenhum tipo de satisfação, com um despreendimento único e a sensação de que o mundo pode ainda ser pequeno para as tuas pretensões.

Isso é se sentir livre. São sentimentos passageiros, que às vezes duram um pouco mais, mas que logo ali, acabam sumariamente. E são duas as coisas que fulminam o sentimento de liberdade: a intimidade nos relacionamentos, que demandam exigências posteriores, e o sistema em si, que nos enfia goela abaixo uma vigilância e uma prestação de contas.

Sou a favor de qualquer intimidade. Não somos sozinhos, somos seres sociais, e logo estas relações, interações, são necessárias para uma convivência saudável. No entanto, a partir do momento em que se tem uma relação íntima com uma pessoa, temos igualmente uma sensação de obrigação com ela. Como se fôssemos obrigados a dizer a estas pessoas o que estamos fazendo, sob pena dela aprovar ou reprovar. Somos todos vigilantes do nosso próprio círculo.

Se formos bem cruéis, rudes, grotescos, chegamos à conclusão de que as agressões pessoais e emocionais(não físicas, financeiras), as chamadas injúrias, calúnias, difamações, em um contexto público, não afetariam o ser humano fosse ele um ser desprovido de qualquer intimidade. Logo, é subjetiva a afirmação de que a gente não possa fazer determinada situação em nome da integridade moral do colega ao lado. Tanto é verdade que, em maioria dos casos, quando isso acontece, é superado. Mas aí entra a seguinte questão: como seres coletivos, somos ensinados a ter uma determinada “ética moral”, uma penca de “questões de bom senso”, uma variação de “costumes que são utilizados”. Não há, neste caso, uma simples liberdade de ir e vir. É aquela história: liberdade termina quando afeta o próximo. Ou acaba quando a própria moral é abalada. É uma questão normal, e de princípios. E o certo é deixar a consciência em paz, porque certamente, essa é uma liberdade que trará conseqüências marcantes na tua própria moral e ética.

Já o sistema fuzila tua liberdade pela imposição natural das situações históricas e culturais. Qual vida você prefere? A de vendedor de milho verde na praia da Pipa ou a de jornalista? Numa, você tem um sol, um mar, uma desopilada de meia em meia hora pra tomar um banho, uma iminência de praticar exercícios físicos a qualquer momento, mas os compromissos não páram: dificuldades em manter um padrão alto de vida, dívidas freqüentes, razoáveis condições de moradia, uma desistência quase que completa de tecnologias novas, abandono de diversos sonhos de consumo e nenhuma aspiração maior do que apenas aumentar o negócio. Ou ir pra “capital”. Ou ter o sonho de ter a outra vida. A vida do jornalista, por exemplo, onde não se tem tempo, não se tem grandes dinheiros, onde se está num círculo vicioso irritante, de joguetes, de mesquinharia, de alta tensão o tempo todo, de pouquíssima qualidade de vida, mas um padrão econômico-social bem melhor do que o de vendedor de milho verde em Pipa.

Eu levo a segunda vida, e com todas as restrições de liberdade que ela pode ter. Éticas, morais e de sistema. Não somente eu, todos nós. Ou quem não gostaria simplesmente de matar o trabalho, um dia, só por pura e simples vontade? Mas o compromisso, a responsabilidade, fala mais alto. Então, a gente imagina a liberdade. Pipa é o meu estado de liberdade. Minha vontade, meu despreendimento total. Meu olhar no pôr do sol, meu refúgio. Meu imaginário. Minha ilusão. Pipa é minha utopia, o impossível que nunca vai dar certo, simplesmente porque Pipa fica muito longe e porque não sei se daria exatamente certo vender milho por lá. É um ponto de interrogação gostoso. É um desejo.

É muito gostoso se sentir livre. É bom por uns poucos instantes do dia ficar pensando nas areias de Pipa. Em como seria a logística do milho verde. No sol queimando a pele, na atividade que poderíamos exercer, em criar filhos com nomes curtos e simples, na vida simples, nas amizades simples e nas brigas simples. É bom demais fugir dessa complicação e, do nada, ser teletransportado para a areia de Pipa e ter como preocupações coisas tão diferentes das que eu tenho hoje. Com a consciência limpa, o pulmão limpo e a liberdade introjetada.

Seria bem mais fácil se eu desistisse dessa idéia, abandonasse esse estado de espírito e fosse agora pagar minhas contas. Mas eu faço isso depois. Dá tempo pra tudo. Pra sonhar, pra ter os pés no chão e pra não se preocupar com o dia seguinte. Dá pra ser responsável e ser livre. Não sempre, mas por um momento. Acabar com o sonho de Pipa seria uma definição, uma conclusão, um fim. Deixa Pipa entrar, por mais ilusório que possa parecer.

Eu tenho umas quinze páginas pra escrever hoje. Ainda tenho um programa sobre a Copa do Mundo e um programa especial de uma hora e meia no sábado sobre o Campeonato Brasileiro. Produzo e apresento. Tem a Boca do Lixo. Tem Volta Redonda x 15 de Campo Bom, estou no jogo. Tenho que pagar o Renner. Se as coisas apertarem, eu penso novamente na Praia da Pipa. Mesmo sabendo que este lugar, tão complicado de ser alcançado, está a quilômetros longe de mim. Mas eu imagino. E faz bem. Bem. Bem. Vou imaginando Praia da Pipa até me dar conta de que é impossível de ter essa vida. Até o dia em que a gente possa definir situações. Por enquanto? É bem melhor não definir as coisas. Sem definições.

April 5, 2006

SONHO BOM

Filed under: saudosismo - Carlos @ 6:37 pm

Eu sou profundamente incentivado por sonhos no cotidiano. Em algumas oportunidades, eles é que me dão o ritmo necessário para o andamento do dia, seja bom ou ruim.
Nesta quarta-feira, durante meu cochilo vespertino de duas horas(sempre das 13h às 15h, agüenta depois até a uma de pé pra acordar às sete se tu consegue… não, não durmo no final de semana porque eu trabalho), eu sonhei com a Sandra Rocco.

Nesta longa jornada de estudante - e excedente, certamente - eu cruzei com diversos professores excepcionais. Não dá pra esquecer do Hector, de Matemática, no primeiro ano do João Paulo, o único cara que me fez entender da matéria. Ou o Kaplan, de História, um absoluto gênio. Já na FAMECOS, Sérgio Stosch, um professor de rádio da prática. Ou o Luiz Adolfo, cara que me ensinou a diagramar páginas quando eu tomava meu partido, bradando que diagramar páginas não era função de jornalista. Ou então, destaco ainda nosso vice-governador Antonio Hohlfeldt, um dos mais letrados mestres deste Estado. Faço justiça ainda à Bernadete, professora de Inglês no primeiro grau, e seu método pouco ortodoxo, mas muito eficiente de ensinar a língua, adaptando aos jovens contextos do que eles sabem, como filmes e música(até obrigar uma turma toda, aos 12 anos, a ouvir Alice In Chains, Metallica e Slayer(?!) nas lições de aula). Cito ainda Cláudio Mércio, Glênio Póvoas(meu orientador) e Ana Cláudia Nascimento, na FAMECOS, passando por Miguel, Gilberto e Marcos Bondan(apesar de pedante, era um puta professor de literatura) no João Paulo, e pela professora Denise, da terceira série, que me ensinou a escrever certinho e a gatinhar na arte da palavra. De alguma forma, igualmente, cruzei com muito professor bundão por aí, de quem eu não levei absolutamente nada de aprendizado. Normal. Existem os bons e os ruins, sempre.

Mesmo com tanta gente boa e com tanta gente que me ensinou muito, ninguém se compara à Sandra Rocco. Ela foi minha professora da quarta à oitava série. Professora de português. Tinha lá seus trinta e poucos anos na época(isso de 89 a 93). Ela era bem peculiar: segurava o giz de uma forma estranha, tinha uma voz bastante rouca(sem trocadilhos com o sobrenome), levemente adocicada, uma escrita ágil e uma didática correta. A Sandra Rocco conhecia cada um de seus alunos. Não bastasse, ainda sabia quem eram os pais e a árvore familiar, numa impressionante interação com seus comandados. Usava umas pulseiras na época, e a cada riscada dela no quadro negro, elas balançavam com o andar das letras, fazendo um ruído que me soa familiar e confortante até hoje. A aula da Sandra Rocco era até convencional, não fugia da regra de professora de Português, e sabíamos que ela não podia fazer isso num colégio luterano na época e cheio de convenções(como no dia do impeachment do Fernando Collor, quando fomos proibidos de sair à rua na data mais importante do nosso tempo, provavelmente).

Bom, vamos à descrição do sonho, e depois eu comento a importância dela na minha vida. Sonhei que eu fui ao Salvador. Motivo: pegar meu histórico escolar(?!). Sonhos não se explicam. O colégio estava igual ao que era no meu tempo, e eu sei que isso mudou. A entrada, pela R. Mathilde Trein Renner, bairro Jardim Itati, Zona Norte, POA. Um zelador sentado ao lado da porta e a entrada principal aberta. Fui à secretaria e preenchi uns documentos. Perguntei à moça da secretaria, que a essa altura era uma estranha, onde poderia achar a Sandra. Nisso, na pequena escada, que eu nem sei se existe mais, ela desce, trazendo os alunos pequenos para o recreio. Eu olho e ela me reconhece. Conversamos, dou aquela divulgada no meu TRABALHO, e digo a importância que ela teve pra mim. Ela estava como em 93, daquele jeito. Acordo com uma sensação muito interessante: um misto de nostalgia absurda com um contentamento sublime. Uma sensação de dever cumprido até o momento. Uma sensação de que tudo o que eu fiz até agora foi o certo, foi a minha trajetória programada, com alguns percalços, mas sem decepcionar. Uma história feita com dignidade, com esforço, mas acima de tudo, sem censurar nenhum dos meus talentos.

Sétima série. Redação. Sandra Rocco corrige, me devolve. Não lembro da nota. Acaba a aula e ela me chama em um canto:
- Carlos, já te falei que escreves muito bem? Onde foi que aprendestes a escrever assim com essa idade? Vou te dar uma dica: sejas jornalista. Tu serás muito bom, não tenho dúvidas. Com 12 anos, tu já tens este texto, esta criatividade para contar estórias. Jornalista, eu assino embaixo.

As palavras da Sandra Rocco naquele dia, só eu e ela, numa sala localizada no segundo andar do Colégio do Salvador, junto à classe dos professores sempre martelaram a minha cabeça durante todo esse tempo.

Acho que ela não se lembra mais de mim. Eu me lembro dela muito bem. Acho que não te decepcionei, professora. Minha missão está sendo cumprida e tu tinhas toda a razão. Obrigado pela dica e muito obrigado por estar no meu sonho num momento em que a desmotivação beira o descontrole. Vou trabalhar sabendo que é isso que eu sou. Nasci com esse dom e eu não posso sabotá-lo, por mais que eu tente bastante.

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Ela é a do meio, cercada por alunos. É sua única foto na web, provavelmente. Acho que quem procurá-la pelo Google, vai encontrar esse texto aqui. Devo agradecê-la na minha monografia. Antes, farei uma visita ao Salvador, para reencontrá-la, rever aquele colégio, ver se a cancha interna ainda é aquele cimento duro, conferir se ainda existe aquela sala embaixo, do lado da secretaria, onde foi minha oitava série. Se o tio do Bar já cortou a unha, se ainda existem os mesmos professores da época, se o banheiro ainda tem o cheiro de Pinhosol com mijo, se tem fila para o bebedor, se existem cartazes com trabalhos de alunos do primário, se tudo aquilo, aquele clima, aquele ambiente, ainda vive.

Às vezes eu me pego sentindo o cheiro daquele colégio. Eu lembro do cheiro, lembro do som dele em horários diferentes, da luminosidade de cada canto, da textura dos móveis, da rua superlotada na hora da saída dos alunos, do quintal empoeirado logo no hall de entrada, cheio de buracos para todos jogarem bolita. Da cancha de fora, das primeiras descobertas, das melhores amizades e da jura eterna de amor que fizemos uns aos outros, mas que se dissipou pelos quatro cantos do mundo. E pelo comprometimento que eu tive com aquele colégio.

Não hesito em dizer que foi a melhor época da minha vida. Nunca fui tão feliz, e nunca fui tão sabedor de que eu não sabia que eu era tão feliz. Mas, quer saber, nem precisava. Quando se é feliz, não se pensa, se vive. Eu preferi viver. Deixei pra pensar depois.

Vou lá cumprir minha jornada diária, levando o Salvador e a Sandra Rocco comigo, e tendo a verdadeira noção de que eles participarão de alguma forma no texto sobre a Copa de 70 que eu preciso acabar. Na verdade, eles estão comigo todo o dia. E esta é uma das minhas principais influências, posso lhes garantir.

April 2, 2006

SOL NO ROSTO TOMANDO CHIMARRÃO

Filed under: comportamento - Carlos @ 3:56 pm

Quanto vale passar um domingo de folga? Quanto eu pagaria para conseguir isto? O reconhecimento é bom até que ponto? É melhor ser reconhecido ou não ter problemas com contas? A qualidade de vida é um fator a se pesar? O que vale mais? A qualidade de vida ou ser conhecido?

Caminhei na Redenção este domingo. Estou repensando várias idéias.
Mão na massa só depois da Copa e do 5 de agosto.

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