Verborragia sem concessões

April 5, 2006

SONHO BOM

Filed under: saudosismo - Carlos @ 6:37 pm

Eu sou profundamente incentivado por sonhos no cotidiano. Em algumas oportunidades, eles é que me dão o ritmo necessário para o andamento do dia, seja bom ou ruim.
Nesta quarta-feira, durante meu cochilo vespertino de duas horas(sempre das 13h às 15h, agüenta depois até a uma de pé pra acordar às sete se tu consegue… não, não durmo no final de semana porque eu trabalho), eu sonhei com a Sandra Rocco.

Nesta longa jornada de estudante - e excedente, certamente - eu cruzei com diversos professores excepcionais. Não dá pra esquecer do Hector, de Matemática, no primeiro ano do João Paulo, o único cara que me fez entender da matéria. Ou o Kaplan, de História, um absoluto gênio. Já na FAMECOS, Sérgio Stosch, um professor de rádio da prática. Ou o Luiz Adolfo, cara que me ensinou a diagramar páginas quando eu tomava meu partido, bradando que diagramar páginas não era função de jornalista. Ou então, destaco ainda nosso vice-governador Antonio Hohlfeldt, um dos mais letrados mestres deste Estado. Faço justiça ainda à Bernadete, professora de Inglês no primeiro grau, e seu método pouco ortodoxo, mas muito eficiente de ensinar a língua, adaptando aos jovens contextos do que eles sabem, como filmes e música(até obrigar uma turma toda, aos 12 anos, a ouvir Alice In Chains, Metallica e Slayer(?!) nas lições de aula). Cito ainda Cláudio Mércio, Glênio Póvoas(meu orientador) e Ana Cláudia Nascimento, na FAMECOS, passando por Miguel, Gilberto e Marcos Bondan(apesar de pedante, era um puta professor de literatura) no João Paulo, e pela professora Denise, da terceira série, que me ensinou a escrever certinho e a gatinhar na arte da palavra. De alguma forma, igualmente, cruzei com muito professor bundão por aí, de quem eu não levei absolutamente nada de aprendizado. Normal. Existem os bons e os ruins, sempre.

Mesmo com tanta gente boa e com tanta gente que me ensinou muito, ninguém se compara à Sandra Rocco. Ela foi minha professora da quarta à oitava série. Professora de português. Tinha lá seus trinta e poucos anos na época(isso de 89 a 93). Ela era bem peculiar: segurava o giz de uma forma estranha, tinha uma voz bastante rouca(sem trocadilhos com o sobrenome), levemente adocicada, uma escrita ágil e uma didática correta. A Sandra Rocco conhecia cada um de seus alunos. Não bastasse, ainda sabia quem eram os pais e a árvore familiar, numa impressionante interação com seus comandados. Usava umas pulseiras na época, e a cada riscada dela no quadro negro, elas balançavam com o andar das letras, fazendo um ruído que me soa familiar e confortante até hoje. A aula da Sandra Rocco era até convencional, não fugia da regra de professora de Português, e sabíamos que ela não podia fazer isso num colégio luterano na época e cheio de convenções(como no dia do impeachment do Fernando Collor, quando fomos proibidos de sair à rua na data mais importante do nosso tempo, provavelmente).

Bom, vamos à descrição do sonho, e depois eu comento a importância dela na minha vida. Sonhei que eu fui ao Salvador. Motivo: pegar meu histórico escolar(?!). Sonhos não se explicam. O colégio estava igual ao que era no meu tempo, e eu sei que isso mudou. A entrada, pela R. Mathilde Trein Renner, bairro Jardim Itati, Zona Norte, POA. Um zelador sentado ao lado da porta e a entrada principal aberta. Fui à secretaria e preenchi uns documentos. Perguntei à moça da secretaria, que a essa altura era uma estranha, onde poderia achar a Sandra. Nisso, na pequena escada, que eu nem sei se existe mais, ela desce, trazendo os alunos pequenos para o recreio. Eu olho e ela me reconhece. Conversamos, dou aquela divulgada no meu TRABALHO, e digo a importância que ela teve pra mim. Ela estava como em 93, daquele jeito. Acordo com uma sensação muito interessante: um misto de nostalgia absurda com um contentamento sublime. Uma sensação de dever cumprido até o momento. Uma sensação de que tudo o que eu fiz até agora foi o certo, foi a minha trajetória programada, com alguns percalços, mas sem decepcionar. Uma história feita com dignidade, com esforço, mas acima de tudo, sem censurar nenhum dos meus talentos.

Sétima série. Redação. Sandra Rocco corrige, me devolve. Não lembro da nota. Acaba a aula e ela me chama em um canto:
- Carlos, já te falei que escreves muito bem? Onde foi que aprendestes a escrever assim com essa idade? Vou te dar uma dica: sejas jornalista. Tu serás muito bom, não tenho dúvidas. Com 12 anos, tu já tens este texto, esta criatividade para contar estórias. Jornalista, eu assino embaixo.

As palavras da Sandra Rocco naquele dia, só eu e ela, numa sala localizada no segundo andar do Colégio do Salvador, junto à classe dos professores sempre martelaram a minha cabeça durante todo esse tempo.

Acho que ela não se lembra mais de mim. Eu me lembro dela muito bem. Acho que não te decepcionei, professora. Minha missão está sendo cumprida e tu tinhas toda a razão. Obrigado pela dica e muito obrigado por estar no meu sonho num momento em que a desmotivação beira o descontrole. Vou trabalhar sabendo que é isso que eu sou. Nasci com esse dom e eu não posso sabotá-lo, por mais que eu tente bastante.

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Ela é a do meio, cercada por alunos. É sua única foto na web, provavelmente. Acho que quem procurá-la pelo Google, vai encontrar esse texto aqui. Devo agradecê-la na minha monografia. Antes, farei uma visita ao Salvador, para reencontrá-la, rever aquele colégio, ver se a cancha interna ainda é aquele cimento duro, conferir se ainda existe aquela sala embaixo, do lado da secretaria, onde foi minha oitava série. Se o tio do Bar já cortou a unha, se ainda existem os mesmos professores da época, se o banheiro ainda tem o cheiro de Pinhosol com mijo, se tem fila para o bebedor, se existem cartazes com trabalhos de alunos do primário, se tudo aquilo, aquele clima, aquele ambiente, ainda vive.

Às vezes eu me pego sentindo o cheiro daquele colégio. Eu lembro do cheiro, lembro do som dele em horários diferentes, da luminosidade de cada canto, da textura dos móveis, da rua superlotada na hora da saída dos alunos, do quintal empoeirado logo no hall de entrada, cheio de buracos para todos jogarem bolita. Da cancha de fora, das primeiras descobertas, das melhores amizades e da jura eterna de amor que fizemos uns aos outros, mas que se dissipou pelos quatro cantos do mundo. E pelo comprometimento que eu tive com aquele colégio.

Não hesito em dizer que foi a melhor época da minha vida. Nunca fui tão feliz, e nunca fui tão sabedor de que eu não sabia que eu era tão feliz. Mas, quer saber, nem precisava. Quando se é feliz, não se pensa, se vive. Eu preferi viver. Deixei pra pensar depois.

Vou lá cumprir minha jornada diária, levando o Salvador e a Sandra Rocco comigo, e tendo a verdadeira noção de que eles participarão de alguma forma no texto sobre a Copa de 70 que eu preciso acabar. Na verdade, eles estão comigo todo o dia. E esta é uma das minhas principais influências, posso lhes garantir.

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