Verborragia sem concessões

April 15, 2006

P.S. DE TUDO

Filed under: fuçando pra aprender - Carlos @ 3:24 am

Mas que blogue DENSO, não????
Textos longos, sérios, melancólicos.
Eu avisei que seria assim, avisei.
Aqui não tem comédia.
E olha que eu sei fazer rir, hein!

VIVA EL MEXICO, CABRÓN

Filed under: turismo - Carlos @ 3:22 am

Meus sonhos de consumo turísticos são completamente diferentes dos desejos dos outros. Se formos considerar uma lista de “lugares que sonho conhecer”, pessoas entre 20 e 30 anos, com uma situação econômica e graduação semelhantes, escolheriam provavelmente algo que não sairia entre Londres, Roma, Paris. Nova Iorque, ok. Surfistas, Austrália, Califórnia. Intelectualóides, leste europeu. Eu quero conhecer estes lugares. Quero conhecer todos os lugares. Mas eu tenho alguns locais específicos no planeta que me fariam muito feliz em conhecê-los.

Sou um nacionalista irritante, sou apaixonado pelo Brasil. Acho meu país a coisa mais linda do mundo e o nosso povo absolutamente espetacular. A diversidade deste país me causa um transtorno tão grande e um fascínio absurdo. Sou repetitivo a respeito da minha tour nordestina em 2003, eu sei, mas aquela viagem de 20 dias de ônibus de Fortaleza a Salvador, absolutamente sozinho, me traz memórias incríveis. Mais do que o pôr do sol em Jericoacoara, do que as piscinas naturais de Porto de Galinhas, da Praia da Pipa(citada no texto anterior) ou do que as ruas de Salvador.

Muitas das lembranças daquela viagem me remetem ao povo brasileiro. Tenho uma sensação estranhíssima, e que me vem até hoje, quando me recordo da chegada do ônibus Fortaleza-Jericoacoara em uma cidadezinha do sertão cearense. A cidade, com postes de luz fraquinhos, casas modestas, jegues e habitantes usando chapéus de palha, as crianças correndo atrás do ônibus fazendo festa, e atacando os gringos pra vender rapadura. Acho que aquilo foi a coisa mais linda que eu vi na viagem. A descoberta de que, bem longe daqui, ou bem perto daqui, existe uma simplicidade ingênua, uma pintura lúdica, um minimalismo belíssimo de um retrato de um povo que consegue extrair de uma simples chegada de um ônibus toda uma felicidade no meio de muitos problemas. Como se o ônibus cheio de branquelo vermelho do sol, torrando grana comprimida do euro, fosse um sinal de esperança, uma sinfonia de que novos tempos podem chegar. Só a simples chegada de um ônibus.

Viagens para mim têm um sentido muito mais amplo do que um simples refúgio turístico. É a possibilidade de enxergar num horizonte completamente distante o que o nosso umbigo esconde no cotidiano. Eu não falo na arte, não falo na história. Não falo em praias, não falo em vales, em cachoeiras e montanhas paradisíacas. Falo do povo, da diversidade que só é possível quando se dá o fora do nosso próprio ninho. Somos de várias espécies, todas bem diferentes, mas que não conseguimos enxergar, afinal, a brutalidade monstruosa de nosso dia a dia só nos permite enxergar semelhantes e atrasar nosso próprio crescimento. É muito bom passar um tempão sem olhar para o espelho, e ver que há coisas bem maiores do que a nossa própria imagem. Na volta, ela parece menos distorcida.

Corrigindo uma falha de currículo, assisti a “E Sua Mãe Também”, maravilhoso filme mexicano, do qual todo mundo tem referência(principalmente as groupies modernosas) porque tem o tampinha sem graça do Gael Garcia Bernal. O filme é maravilhoso. Além da história ser fantástica, tratando da descoberta, abordando amizades e todas as complicações que envolvem relações entre amigos, mostra um pouco do que é o México. As intervenções do narrador, em off sem background, são perfeitas, colocando um pouco da paisagem mexicana na nossa cara.

Quero conhecer o México. Assistindo ao filme, percebi uma semelhança incrível do México com o Brasil. A pobreza, a dificuldade de um povo que vive à margem, em estradas sorrateiras, localidades massacradas pela poeira, uma vigilância extrema na contravenção. E praias lindas, contrastando um avanço natural que devasta toda a pureza que possa existir na beleza natural mais rica do país(no caso, a expansão dos resorts, tomando conta de áreas que deveriam ser de convívio público). Quero o México, mas quero mais ainda o Brasil.

Ainda sobre viagens: eu sou o único ser(ao menos que eu mesmo conheço, claro) que gosta mais de Rodoviárias do que de Aeroportos. Nas rodoviárias, as pessoas se multiplicam. Elas não vão apenas para São Paulo, Rio, Curitiba, Brasília. Elas vão para São Luiz Gonzaga, elas pegam um pinga pinga até Teutônia, vão no madrugadão pra São Miguel do Oeste, fazem conexão pra Cascavel pra ir até Ponta Porã. Gente simples, passagem barata. Despedidas, projeções de viagens longas, preparações, concentração no sono. E a vista, a vista de cada vilarejo que se pode ter ao longo da jornada. A chegada em uma nova rodoviária, a renovação dos passageiros, a parada para fazer lanche, caras de sono tentando se recuperar do cansaço, uma cachacinha pra acordar, uma lembrança para um ente querido.

A sensação que eu tive no Ceará, a sensação que eu tive da janela do Recife-Salvador ao cruzar a divisa de Alagoas com Sergipe e passar pelo São Chico, qualquer parada no Japonês em Sombrio nas várias viagens de ônibus para Santa Catarina, são sentimentos que eu nunca vou me esquecer.

Antes do México, antes de Nova Iorque, antes da Europa, antes da civilização mais avançada, eu quero repetir isso tudo. No verão, na BR-101, cruzei com o PELOTAS-FORTALEZA, o ônibus de maior trajeto no país. Talvez um dia eu pegue, só pra matar, em uma dose cavalar, toda essa vontade. Não penso em sair fora. Só quero ir, ver e aprender. E voltar. Pra poder olhar pro espelho de uma maneira diferente.

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