Teve show da Marisa Monte ontem aqui em Porto Alegre. Ótima cantora, Marisa peca pelos excessos. Cada lançamento de disco é um acontecimento de marketing do ano. Ela pode, porque adquiriu um público para isso. Este público, curiosamente, é formado na maioria por jovens, que, durante o verão, bailaram à la loca no verão com o MC Leozinho. Mas claro, vem a Marisa e aí voltamos a ser inteligentes.
Tirando questionamentos com os fãs da Marisa, em geral, ela é a artista mais superestimada da MPB. Já viram alguma crítica contra algum trabalho dela? E não me digam que ela é uma cantora perfeita, sem reparos, que aí eu me jogo. Nem os Beatles escaparam das críticas em álbuns menos inspirados(Beatles for Sale), nem Frank Sinatra teve esta honra. Marisa falha em seus discos, mas a mídia não critica e o público deixa passar, talvez encantados com a aveludada voz da moça.
Mesmo superestimada, com o status de maior cantora brasileira dos últimos vinte anos, Marisa Monte tem atributos fantásticos. Por exemplo, é um sucesso comercial isolado da música popular brasileira propriamente dita, no meio dessa década de 00, de tão pouca inspiração por parte de nossos artistas. Outro mérito: ela, ao lado dos Los Hermanos, da Maria Rita e do Seu Jorge, é grande responsável pelo resgate da MPB propriamente dita ao universo jovem, depois de muito tempo. Hoje, a garotada tá conhecendo a MPB graças a estes artistas, depois desse nicho ter sido cem por cento dominado pelo rock(e em alguns casos de qualidade discutível) e pela música estrangeira, além dos modismos comuns e aceitáveis.
No entanto, quem diz gostar de MPB, acaba pecando pela falta de conhecimento. Todos os artistas coincidem e é ignorada uma gama enorme de renegados que foram absolutamente geniais na nossa história. Na verdade, acabam se dividindo entre algumas vertentes na MPB: a do samba rock(Jorge Ben, Tim Maia), a dos baianos(Caetano, Gil, Gal), a do samba de morro(Beth Carvalho, Cartola- mestre redescoberto pela massa recentemente), a da bossa nova(Tom, Vinícius, Toquinho), a dos “novos criativos”(Cordel do Fogo Encantado, Los Hermanos), a da MPB clássica dos anos 70(João Bosco, Elis Regina), os saudosistas da dor de cotovelo(Noel Rosa, Lupicínio) e, claro, os chicobuarquistas.
Por isso, faço aqui a lista dos VINTE mais subestimados artistas da MPB. Não exatamente subestimados, mas menos valorizados. Ou menos conhecidos pelos jovens. É, com minha pretensão habitual, um guia para os novos de grandes nomes da MPB que, claro, vocês conhecem muito pouco.
1- BELCHIOR
Se este cidadão fosse norte-americano, seria comparado somente a Bob Dylan, talvez. Como aqui no Brasil, os únicos nordestinos que prestam são os baianos, e o cara é cearense, feio e bigodudo, ele é basicamente um qualquer um para a maioria das pessoas. Não é. Belchior é um dos cinco maiores compositores do Brasil nos últimos cinqüenta anos. Não deve nada para Caetano, por exemplo. Enquanto o baiano enfeitado investe em alegorias, trocadilhos, poesia abstrata e carnavalização da música, Belchior é concreto, real e seco. É o retirante que chega na cidade grande e, encantado e assustado com as belezas e terrores da metrópole, sintetiza em sua poesia toda sua aflição. Em 1976, concebeu uma obra prima: “Alucinação” é, pra mim, seguramente, um dos dez maiores discos de todos os tempos feitos no Brasil. Um começo arrebatador, com “Apenas um rapaz latino americano”, “Velha roupa colorida” e “Como Nossos Pais”. O disco ainda tem “A Palo Seco” e “Alucinação”. Faz trinta anos em 2006 e permanece com uma atualidade assustadora. Clássico. Coisa de gênio. Coisa de Belchior.
Dica da direção: faixa 6 - Alucinação. Os Engenheiros do Hawaii fizeram uma versão, mas preste atenção na versão do Belchior, com letra ampliada. A letra dessa música, por sinal, é espetacular.
2- RENATO TEIXEIRA
Se Belchior está para o Bob Dylan, este rapaz está para o Neil Young. Caipira até não poder mais, Renato Teixeira é um desconhecido absoluto para a maioria das pessoas. No entanto, ele é, nada mais nada menos, do que o compositor de “Romaria”, uma das músicas mais lindas produzidas no país. Renato Teixeira lançou trabalhos maravilhosos nos anos 70, que hoje estão perdidos pelo tempo. A música caipira brasileira, por sinal, é a mais subestimada de todas. De um lirismo ímpar, de uma capacidade melódica comovente, ela é riquíssima em todos os aspectos: letras, harmonia, compassos, interpretação vocal. É singela, doce, bonita demais. Esse cara aí, ao lado da dupla Pena Branca e Xavantinho, foi o que melhor soube fazer a música caipira.
Dica da direção: faixa 3 do CD “Romaria”, de 1978: Viola arriada. Chore.
3- ERASMO CARLOS
Todo mundo ama o Roberto, depois que ele virou cult. Aliás, todo mundo ama o Roberto até setenta e poucos, mas depois rejeita o que o Rei fez na seqüência(desconhecendo pérolas como “Guerra dos Meninos”, “Outra Vez” e “Caminhoneiro”). Agora, alguém fala do Erasmo? Em primeiro lugar, ele é responsável por metade das grandes composições interpretadas pelo Roberto. Logo, méritos pro cara. Mas Erasmo é mais do que o parceiro e muito mais do que aquela figura patética do Rock In Rio I, quando, cantando “Pega na Mentira”, vestido de metaleiro, sofreu uma estrondosa vaia. Erasmo é o compositor único de “Sentado à Beira do Caminho”, um clássico da música brasileira. E mais: em 1971, subverteu a ordem e concebeu “Carlos, Erasmo”, pra encerrar com a vez a Jovem Guarda e colocar um pouco de psicodelia na ordem. Se compõe com o Rei, tá taco a taco com ele. Só que é mais um subestimado.
Dica da direção: Sentado à beira do caminho, do disco “Erasmo Carlos e os Tremendões”, de 1970. Faixa 6.
4- ZÉ RAMALHO
Os mais recentes lembram do Zé Ramalho trilha de novela, com “Entre a Serpente e a Estrela”. Os mais antigos vão lembrar de “Avohai”. Eu sou recente, mas busquei na antiguidade deste cidadão a sua verdadeira essência. Voltaremos a 1978, quando ele lançou “Zé Ramalho”, que contém “Chão de Giz”, linda de chorar. Ou então, vamos a 1979, quando Zé Ramalho se auto-rotula MALDITO e lança “A peleja do diabo com o dono do céu”, disco que tem “Admirável Gado Novo”. Dois clássicos em menos de um ano, suficiente pra fazê-lo um dos subestimados.
Dica da direção: “Chão de Giz”, faixa 3 de “Zé Ramalho”(1978)
5- LUIZ GONZAGA
Se hoje você acha que sabe dançar forró, aprenda uma coisa: o teu gingado não existiria se não fosse esse cidadão. Luiz Gonzaga é o rei do baião, mas pode ser considerado também o rei do forró, do bate-coxa, da sacanagem musical nordestina, da ingenuidade do agreste, da sanfona. É influência direta na alteração dos carnavais pelo país. Em 50 anos de carreira, lançou 65 discos e deixou um legado que até hoje perdura, fazendo com que brote Falamansas e Calypsos por todos os lados. “Cintura Fina”, “Xote das Meninas”(ela só quer, só pensa em namorar), “Baião de Dois”, e é claro, “Asa Branca”, a epopéia nordestina cantada por ele em 1947.
Dica da direção: qualquer versão do véio de Asa Branca. Ou pega tua mina e chama junto no Xote das Meninas.
6- GONZAGUINHA
Filho do Luiz Gonzaga, esse cara faleceu jovem, mas foi uma voz extremamente ativa nos anos 70, quando os queridos baianos estavam exilados e cabia a jovens como ele colocar a cara a bater na ditadura, pedindo abertura, anistia e fim da porrada. Você provavelmente escuta o cara de seis em seis meses, quando alguém coloca “Viver, e não ter a vergonha de ser feliz… Cantar e cantar e cantar(…)” numa colação de grau de formatura. Gonzaguinha compôs realmente esta bonita canção, mas ele também fez “É”, um hino protesto contra o arrocho do Governo Sarney e a decepção da segunda metade dos anos 80, a brochura geral pós esperança de Diretas, a perda total de tesão num ano em que plano Cruzado te tirava todo o poder de compra, em que políticos se revelavam, em que Brasil perdia copa de um jeito lamentável, em que o rock brasileiro entrava em status de megalomania completa, tempos difíceis em que a gente não tinha cara de babaca. Mas Gonzaguinha fez ainda, nos anos 70, “Redescobrir”, a música mais linda cantada pela Elis.
Dica da direção: “Redescobrir, do disco Elis Regina no show Saudades do Brasil(1980)”
7- JAIR RODRIGUES
Hoje, ele é motivo de piada. É até reconhecido por alguns, mas SÓ porque fez o primeiro rap do Brasil(”Deixe que diga, que pense, que fale”). Mas Jair Rodrigues, em 1966, botou o pulmão, a garganta e o coração à exaustão na interpretação ao vivo mais linda que o Brasil teve notícia na segunda metade do século XX. Assistir a Jair Rodrigues cantar “Disparada” no Festival da Record de 1966 sem se arrepiar é não ter coração. Meio crooner, meio negro norte-americano, o cara arrepiou, cantando em tons inalcançáveis e arrebatando o primeiro lugar. Jair Rodrigues é um dos pilares da nossa música, mas agora ele virou folclórico. Mas tem que dar mão à palmatória. É um intérprete de primeira.
Dica da direção: arranje algum vídeo do Festival da Record de 1966 e veja o cara cantar “Disparada”, de Geraldo Vandré e Theo de Barros. Impressionante. A música é linda.
8- FÁGNER
Antes dele querer ser um peixe para em teu límpido aquário mergulhar, fazer borbulhar de amor ao te encontrar e querer saciar toda a loucura dele dentro de ti, ele foi mestre. Em 1973, compõe “Mucuripe”, fazendo parte do time de nordestinos que invadia os centros para mostrar sua música. No ano seguinte, realiza “Manera Frufru”, o disco nordestino mais impactante da década. É a seca em vinil. Ele já foi foda, mas novela dá grana e o cara se perdeu.
Dica da direção: “Mucuripe”, na versão original
9- DANIELA MERCURY
A Ivete é legal pra dançar, porque é simpática e até canta bem. A Daniela Mercury, para muitos, é o lado brega da Ivete Sangalo. Pois saiba você que esta menina, no início dos anos 90, quando a música era dominada pelos brega-nejos, fez dois discos de uma importância excepcional para a música brasileira. “Daniela Mercury” e “O Canto da Cidade” trouxeram de volta à falida música brasileira a alegria, o suíngue genuíno, a verdadeira essência do que é a MPB. Sofre preconceito porque popularizou o axé, mas eu lembro que o Caê queridão também deu a maior força. Daniela Mercury foi de fato a primeira grande cantora dos anos 90, mas ninguém fala nela com o respeito que ela merece.
Dica da direção: te acaba dançando com “O Canto da Cidade”(1992)
10- TEIXEIRINHA
Esqueça todas as merdas de versões que fizeram com as músicas deste gênio. Junto com Lupicínio Rodrigues(reconhecido por todos como compositor maravilhoso), é o maior artista do Rio Grande do Sul. Teixeirinha é simplesmente ignorado por um povo que se diz tradicionalista e politizado. E que ouve Nei Lisboa achando que é o máximo. Que se diz apegado às raízes ouvindo bostas como Elton Saldanha, Rui Biriva e Osvaldir e Carlos Magrão. Teixeirinha é o autor de “Coração de Luto”, e conseguiu relativo sucesso no país. Foi um poeta do nosso povo, o único desta terra pobre culturalmente, que insiste em ser (plagiando)”longe demais das capitais”. Viva Teixeirinha, conheça os discos do cara e leve um pouco consigo as verdadeiras origens do Rio Grande do Sul. Tradicionalismo moderno é ridículo. Tradicionalismo com Teixeirinha até se torna gostoso.
Dica da direção: “Coração de Luto”, óbvio.
OS OUTROS DEZ
11- ELOMAR
12- SÁ, RODRIX E GUARABIRA
13- OSWALDO MONTENEGRO
14- LÔ BORGES
15- JORGE MAUTNER
16- WILSON SIMONAL
17- GILDO DE FREITAS
18- DE FALLA
19- PENA BRANCA E XAVANTINHO
20- TAIGUARA
Não sabem quem são? Já dei a dica para os dez primeiros. Mas vá atrás destes também. Merecem toda a reverência.