Verborragia sem concessões

May 14, 2006

FONTES FALAM POR MIM ou EU AINDA NÃO SOU UMA ILHA

Filed under: amor(?) - Carlos @ 7:11 am

Já que eu falei tanto do Salvador, vou falar aqui de uma colega que não vejo há mais de dez anos e que soltou a grande pérola do momento, que será transcrita logo mais.
A Camila foi minha colega no Salvador, no primeiro grau. Com a proximidade proporcionada por esta BOSTA VICIANTE chamada orkut, encontrei virtualmente a Camila. Conversamos por msn.
A Camila mora há 3 anos nos Estados Unidos e atualmente está residindo no Hawaii. A ilha, segundo ela, é pequena, dá pra se atravessar de carro tranqüilamente. Já adaptada à cultura da ilha, estávamos conversando sobre como um brasileiro enxerga seu país natal de longe.
Sobre os diversos problemas do Brasil, Camila soltou a seguinte pérola:

… um dos maiores problemas do Brasil, ao meu ver, nao eh politica, nao eh corrupcao ou nada disso… eh essa putaria que eh normal pra todo mundo

Veja bem, é um comentário feito por alguém que mora nos Estados Unidos, há algum tempo, e que não convive com o dia-a-dia normal de jovens brasileiros nos últimos anos. E este é o comentário dela. Ela, aos 26 anos, longe de casa, independente, não consegue entender a banalização da putaria entre a gente.

Eu pego pesado quando falo na palavra putaria. Na real, digamos que seja a banalização de relações que “não significam nada”, ou, conforme já falei, “a diversão a qualquer custo”. Ou, como me disseram, simplesmente o “rolou”.

A Priscila fez uma matéria para a ZH sobre “gírias de ficantes”, com garotos de 13, 14 e 15 anos. Me impressionei quando ela falou que é normal uma prática entre eles: o chamado DOUBLE ou TRIPLE. Assim: um cara que fica com uma menina pega a guria que tá ficando com o outro cara, e vice-versa. Entenderam? Pega três casais e relaciona todas as relações heterossexuais possíveis entre eles. Putaria juvenil. Have fun, contabiliza pra lista e vambóra.

A prática seria extremamente saudável, não fosse em alguns casos a presença de sentimento. Ainda não estamos em um estágio onde uma pessoa pode conseguir ter uma relação física com quinhentas sem que pelo menos com uma delas aconteça alguma forma de sentimento. É impossível.

Uma outra pessoa(e essa pediu para ter a identidade resguardada) disse que eu faço parte dos 5% dos homens que acreditam nas relações afetivas mais íntimas como sentimento na acepção da palavra. O resto acha absolutamente normal esse tipo de situação mais dantesca, essa explosão de diversão, em detrimento de coisas que, ao meu ver, são bem mais sinceras.

Os outros 95% são formados pelos que querem justificar o uso das próprias bolas. A necessidade de conquistar, levar e contabilizar é gritante. Vício pela conquista, pela satisfação intensa de saber que um troféu foi levantado graças ao talento(?) das táticas do flerte. Nada de sentimento, apenas uma incrível sensação de que o dever masculino foi cumprido com louvor. Palmas dos amigos, auto estima lá em cima e um olhar narcisista para o próprio pau, num momento Boogie Nights total. “Tu é foda, meu velho”. A supervalorização da raça masculina graças a uma alimentação de ego completa por parte de meninas que, se divertiram, mas, mais do que isso, injetaram orgulho pra misturar com a testosterona da galera, transformando gente, que tecnicamente SENTE, em colecionadores de calcinha.

Outra fonte, resguardada também, em afirmação pessoal: “Tem gente que faz qualquer coisa pra pegar uma boceta”. É, qualquer coisa vale nessa altura do campeonato. O sentimento é algo absolutamente descartável.

Antes de mais nada, gostaria de dizer que eu falo - e muito - em putaria. Meu trabalho de conclusão é sobre a Boca do Lixo, eu analiso “A Ilha dos Prazeres Proibidos”. Acho interessante o assunto. Eu brinco com um monte de gente a respeito desse tipo de assunto. Putaria, todo mundo se querendo, essas coisas. Mas acima de tudo, prezo pelo sentimento. O mesmo cara que fala sobre putaria é aquele que quer ver “10 Coisas que eu odeio em você” e achar um baita filme. Para alguns, patético. Para mim, autêntico.

Viro para o lado e observo, definindo: a gurizada quer se divertir e a gurizada tem medo de sentir. Sentir acarreta sofrimento, mas uma euforia absolutamente ímpar, pertencente tão e somente àqueles que conseguem visualizar o próprio sentimento e aplicá-lo com coração. Diversão é mais fácil e gera, na pior das hipóteses, um arrependimento que passa no terceiro mês e um auto-questionamento nem sempre respondido. Mais fácil, talvez até mais saudável. Mais junkie, menos soft. O hard te dá adrenalina e talvez desgosto. O soft te traz construção, maturidade, respeito e noção de consideração.

Só pra citar mais duas fontes: dois colegas de 50 e poucos anos discutindo sobre “a arte da putaria” versus “a intensidade da paixão”. Um deles admite que sempre optou pela putaria, já que, pagando, rola suruba, diversidade e novas experiências. O outro argumentou que nunca recorreu a uma prostituta e que em todas suas relações sofreu barbaridades, mas que viveu intensamente cada uma delas. Quero seguir o caminho do segundo. Quero chegar aos 50 anos e lembrar de cada data em que eu realmente senti. E também as que eu realmente sofri.

Até porque, se o que fica são lembranças, eu não conseguiria me lembrar das datas onde simplesmente a coisa “rolou”.

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