A PARK AVENUE FICA NO LARGO DA EPATUR
Tem que ter envergadura pra se achar Cinderella. Não basta chegar, colocar o sapatinho de cristal e sair no pinote numa carruagem de abóbora. Desconfie de mudanças súbitas nas pessoas. Não confie em quem tente contrariar a própria essência.
É complicado evitar um deslumbramento natural quando se tem pela frente o que eu chamo de Admirável Mundo Novo. Na verdade, todo jovem passa pelo complexo de rejeição tipicamente high school americana, exceto quando se é popular. Mas aí é considerado burro pelos outros e a vingança do grupinho fodão é quando se descobre que o seu algoz do segundo ano tá entregando pizza, ou algo assim.
Entretanto, no fundo, o CDF bem sucedido de hoje em dia ainda quer ser o Aílton da final do Brasileiro de 96 e gritar para os que pegavam todas no colégio: “Eu sou foda. Batam palmas pra mim agora, porra”. É uma questão de honra mostrar para os outros que você, de alguma forma, e de acordo com os valores deles, venceu na vida.
Aí, é legal observar quando que a vingança se MATERIALIZA. O exemplo X, motivo deste texto, é o “case” (pra usar uma palavra jornalística corriqueira em blogs, e que eu acho palha, nojenta e pretensiosa) da questão. Pessoa sai do interior, cidade pequena, carregando um punhado de síndromes. Interior é foda. Além da questão existente da popularidade, eles valorizam coisas absurdas como sobrenome, dinastia, função, genealogia, berço, sangue. Somatiza as situações e se tem alguém relativamente traumatizado.
Talento pra escrita, algum senso de esperteza, meia dúzia de autores latino-americanos na cabeceira, parte pra Cidade Baixa e tem o impacto. A SÍNDROME DO INTERIOR vira SÍNDROME DO RETIRANTE. Vai pro jornalismo e o Admirável Mundo Novo te escancara as pernas. Você conhece nomes. Nomes bem mais interessantes, que não possuem o sangue necessário para ser reconhecido na sua cidade. Mas veja só, ele também leu Saramago, Cortázar, recita Neruda. Pessoas com uma visão pouco original das coisas, o que é normal na Cidade Baixa principalmente. Um punhado de referências HABITUAIS e já vem o encanto junto. Tsc, tsc, tsc. Não é assim não. Mas tá, te dou um desconto, você veio de um buraco no meio do mato e não conhece muito bem como as coisas são de verdade.
Aí, resulta na perda da essência. Você era boa, mas, putz, como resistir à tanta tentação. Aí se torna basicamente um personagem de novela interpretado pelo TUCA ANDRADA: aquele que se vende por pouco, o rasteiro, o mau caráter de pouco talento. Não é um Vito Corleone, tampouco um Michael. É o Tuca Andrada, ou o Taumaturgo Ferreira, volta e meia beirando o Oscar Magrini. Pinta o cabelo de vermelho, mete umas fotos posadas e conhecem, ah, conhecem alguém interessante, certo? Aquele como você. Tão outrora perdedor, aparentemente um gênio, mas que não tem o vital, o plus: um sarcasmo, uma pungência, uma intensidade. Comum, mas que por essas bandas, oh, é O CARA. Faltou exigência, eu sei, mas como pedir exigência pra alguém com horizonte tão próximo.
Tá, não vamos culpar, afinal, é ingenuidade apenas. A ingenuidade que fode, como diria um amigo meu. “Foi por bem que eu fiz”, te fode com boa intenção. Como o teu trauma é de ter sido rejeitada, provavelmente a amiga que tu ajudou com a boa intenção é a mesma que seria trocada por qualquer coisa a mais que você precisa. No momento.
Ah, não falei nas roupas e nas descobertas 12 anos feitas aos vinte e poucos: te disseram que há sensualidade nesse corpinho, então, gasta tua grana em roupas novas, deixa tudo nos trinques e seja esperta.
Afinal, tu tá no New York Times, mora na Times Square, toma capuccino na Starbucks e usa bolsa Prada.
Não? É verdade, não. Relaxa. Faz a PAUTA, prepara o passaporte pro tour londrino, entra no msn e vai pro Bell’s encher a cara pra conhecer a pessoa mais interessante do mundo na última semana. Nem precisa ser original: ele vai pensar como você. É o senso comum. É o comum.