SÍNDROME DE PETER PAN
E então, vamos falar um pouquinho sobre intensidade. O que significa intensidade? O que é ser intenso?
Vi mais uma vez “Finding Neverland” e descobri que as crianças são intensas. Talvez não na hora de estudar, mas também não sei se é tão importante para as crianças que elas levem a sério os estudos. É bom pra questão de sobrevivência futura, quando já não se é mais tão intenso assim. Mas eu não lembro de algumas coisas quando era criança. O sofrimento infantil só se assemelha ao adulto na questão da perda. No mais, tudo muda. Por aqui, há um tédio, a cobrança, o limite, diversas regras e concessões que somos obrigados a fazer na busca por um bem comum maior. Crianças não são assim. São proibidas de brincar depois das nove, mas aí elas deitam a cabeça no travesseiro e imaginam. E voltam a brincar, e a jogar, e a encarar desafios virtuais tão gostosos e distantes dos nossos desafios diários. E, cá pra nós, bem menos dolorosos.
Crianças são intensas. A intensidade livra o tédio, rompe limites, cruza a fronteira do real com um mundo cheio de possibilidades imaginárias, que elas pensam que serão verdades absolutas quando crescerem, mas mal sabem o que espera.
Adulto intenso é conto. Adulto não é pra ser intenso, não é pra imaginar. Adulto não tem sonho, tem meta. Tem desejo, tem objetivo, tem busca por algo. Não se sabe o quê, a longo prazo, mas é aquela balela de sempre. Quando não é isso, o adulto apenas diz: viver. Viver, claro, ótimo, cara pálida. E ah, ser intenso a cada momento. Me mostra a tua intensidade então. Nah, é trova. Adulto feliz é aquele que estabelece de fato sua meta, a fim de cumprí-la o mais rápido possível. Geralmente vem uma meta por mês, e a bola de neve vem com dinheiro na conta e menos dinheiro três dias depois.
Ultimamente, confundem intensidade com porra-louquisse. Não é a melhor postura (conduta) a se exercer. Quer saber o que é um adulto feliz? O que fez as coisas certas sem derrapar na curva. O que estudou, trabalhou, já fez filhos e se estabilizou. O resto quer ser intenso, mas aí se percebe que já não é criança pra ser intenso e vira um punhado de clichês folclóricos, coleciona inimigos pelo simples prazer de se achar importante pra eles, acumula uma porrada de histórias que não levaram a lugar nenhum e acaba vendo filme de madrugada, sozinho, ou quem sabe, colocando os pés pelas mãos e perdendo pessoas importantes.
O adulto interessante é o convicto. Tipo um amigo meu. Dentista, vai casar. Ele não fez crônica alguma que não rendeu nada além de inflar um ego abalado. Ele toma café, vai trabalhar, volta pra casa e vai ter filhos. Vê a novela das oito, joga futebol com os parceiros do trabalho, vai pra praia no final de semana e retoma uma rotina de ambições, mas não obsessões. E pior, ausente de obsessões a respeito do próprio ego. É seguro. Só os anônimos são seguros.
Muita luz pode deixar a gente cego. A vontade de estar na luz já traz seus efeitos colaterais: uma ressaca filha da puta, uma pesquisa no google sobre preço de passagem aérea pra Europa e saber quando vai ser a próxima festa no Ocidente. Sai da luz, mete água nos olhos e aí tu enxerga alguma coisa. Enquanto isso, fora da luz, eles estão se divertindo como gente real. E você, intenso, está no meio dessa solidão, numa noite fria, coberto de remorso e indecisão.
E aí, tudo que eu quero é ser este sujeito, que tá indo pra Mostardas pescar no sábado, vai ser pai no ano que vem e toma iogurte pra dormir às dez da noite.