Verborragia sem concessões

September 27, 2006

A GARAGEM DO PARQUE MINUANO

Filed under: saudosismo - Carlos @ 8:08 pm

Tudo se define entre os 12 e os 15 anos. A gente não consegue ser muito diferente do que se formou nesta época, por mais que a gente pense que sim. A distinção se dá basicamente pela idade. Éramos adolescentes, somos adultos, é impensável que sejamos os mesmos. Crescemos, tomamos, demos, nos perdemos, nos achamos, mudamos. Mas a essência, aquela essência, a formação de uma personalidade sólida, tudo isso acontece neste período.

É curioso a forma com que cresceram os nascidos no triênio 78/79/80. Não pegamos a explosão dos oitenta, apenas admirávamos os mais velhos, hoje com trinta e poucos, terem coragem de usar cabelos e roupas que nossos pais não deixavam na época. Não somos geração anos 80, definitivamente. Mas tivemos a glória de passar nossa infância nos 80, e mesmo sem personalidade pra se formar, pegamos um pouquinho da fissura, do êxtase e do repé dessa década chata. Vendo tudo de longe.

Um guri pré adolescente morador da Zona Norte no início dos anos 90 só tinha três coisas pra se divertir: jogar bola, jogar videogame e um terceiro hobby. Uns escolhem luta, outros ir pra praia toda semana, houve aqueles que escolheram até o TRÁFICO. Eu escolhi a música.

Acho que tudo começou naquela reunião dançante. Na casa do Mister, no Parque Minuano. A primeira vez que eu tive contato próximo com uma menina. Não beijei, só dancei. Mas hoje eu lembro do perfume dela, adocicado, na medida certa. Lembro da roupa dela, uma blusa branca, bonita, combinando com uma saia preta. Lembro exatamente do local da garagem em que estávamos. E lembro da música que estava tocando. “Patience”, Guns N’Roses. Na seqüência, a dica de quem botava o som: “Vai que essa é longa”. “Stairway to Heaven”, Led Zeppelin. Eu fui, claro.

Estas baladas me encantavam. Foi um pouco antes de existir “Smells Like Teen Spirit” e da minha descoberta do pote de ouro com o show do Faith No More no Rock In Rio II (1991). Eram as baladas, malditas, que cortavam meu coração e fizeram eu aprender um lá, um mi e um ré em 1990, pra depois conseguir tocar minha primeira música na seqüência, um sol, um ré e um dó, Knocking on Heaven’s Door.

Aos 12, eu tive minha primeira manifestação sexual, solitária, claro. Vendo pornochanchada na Sessão das Dez escondido. Aos 12, aprendi a tocar, deixei meu cabelo crescer. Pesava uns 40 kg, tinha bom vigor físico, jogava futebol direitinho e conseguia tocar toda a introdução de “Fade to Black”, do Metallica, sem errar. Passei a ir ao estádio com freqüência (time não revelado, por questões éticas). Me apaixonei platonicamente, tive algumas desilusões, beijei quem eu não quis, tive medo, deixei de ter. Desejava, sofria em silêncio. Depois, sofri falando.

No final das contas, tudo se encaixa. Se eu tenho todas estas referências, tenha certeza, elas começaram ali, naquela garagem do Parque Minuano, dançando Patience e tomando refri. Foi o buraco do início da década ou aquela vontade de ter o mundo, sem saber direito que vontade era essa. Era a época em que eu tinha o mundo e eu conseguia ser do mundo apenas caminhando alguns passos na Assis Brasil.

Mas agora, se forem culpar alguma coisa pelo que eu sou hoje, por favor, culpem as grandes baladas da história. O pontapé inicial de tudo. Acho que ali eu comecei. Naquela reunião dançante, no Parque Minuano, aos doze.

September 26, 2006

O PROCESSO DE DESMORALIZAÇÃO DOS POETAS - ATO II

Filed under: música - Carlos @ 5:35 am

Estrelando: desmoralizando os BAIANOS.

Cara, o Gilberto Gil fez “Aquele Abraço”, o que dá pra respeitar e muito. Caetano, porra, concebeu TRANSA, o disco do exílio. E tem uma série de músicas no repertório.

A história musical dos dois faz com que a crítica releve alguns impompérios proferidos pela dupla ao longo dos tempos. E que alguns consideram genial.

Vou listar, gosto de listas. A seguir, as 10 maiores pérolas sem sentido dos baianos.

10- Meia Lua Inteira (Carlinhos Brown)

São dim, dom, dão são bento, grandes homens de movimento
Martelo do tribunal sumiu na mata adentro
Foi pego sem documento no terreiro regional

Alguém entendeu isso? Pois com esta música, Carlinhos Brown foi apontado em 1989 como a SALVAÇÃO DA MPB. Eita poesia.

9- Divino Maravilhoso (Caetano Veloso)

Atenção
Tudo é perigoso
Tudo é divino maravilhoso
Atenção para o refrão
É preciso estar atento e forte
Não temos tempo de temer a morte

Tudo é perigoso, tudo é divino maravilhso, e o que mais porra?

8- Palco (Gilberto Gil)

Subo nesse palco, minha alma cheira a talco
Como bumbum de bebê, de bebê
Minha aura clara, só quem é clarividente pode ver
Pode ver

Qual é a moral dessa porra? AURA CLARA, só quem é CLARIVIDENTE pode ver. Humberto Gessinger daria de dez no trocadilho infame do Gil.

7- Back In Bahia (Gilberto Gil)

Tanta saudade preservada num velho baú de prata dentro de mim
Digo num baú de prata porque prata é a luz do luar

Tá, ele quis preservar a saudade num baú de prata pq prata é a cor do luar. Hmm, entendi.

6- Vaca Profana (Caetano Veloso)

Dona das divinas tetas
Derrama o leite bom na minha cara
E o leite mau na cara dos caretas

Cara dos caretas é FODA.

5- Os Mais doces bárbaros (Caetano Veloso)

Alto astral, altas transas, lindas canções
Afoxés, astronaves, aves, cordões
Avançando através dos grossos portões
Nossos planos são muito bons

Hein? Que ácido, hein CAÊ!

4- A Namorada (Carlinhos Brown)

A namorada…………….
TEM NAMORADA!

E fez sucesso esta BOSTA.

3- Vamos Fugir (Gilberto Gil)

Uma banda de MAÇÃ!
Outra banda de reggae

O que é uma BANDA DE MAÇÃ? ME DIZ!!!!!

2- Odara (Caetano Veloso)

Deixa eu dançar
Pro meu corpo ficar ODARA

E sem sentido algum, foi composto o primeiro axé da história.

1- Realce (Gilberto Gil)
Esta pérola vai na íntegra:

Não se incomode O que a gente pode, pode O que a gente não pode explodirá
A força é bruta E a fonte da força é neutra
E de repente a gente poderá
Realce, realce Quanto mais purpurina melhor
Realce, realce Com a cor-do-veludo, com amor
Com tudo de Real teor de beleza
Realce, realce, realce, realce Realce, realce, realce, realce

Não se impaciente O que a gente sente, sente
Ainda que não se sente afetará
O afeto é fogo E o modo do fogo é quente
E de repente a gente queimará
Realce, realce Quanto mais parafina melhor
Realce, realce Com a cor-do-veludo, com amor
Com tudo de Real teor de beleza
Realce, realce, realce, realce Realce, realce, realce, realce

Não desespere Quando a vida fere, fere
E nenhum mágico interferirá
Se a vida fere Com a sensação do brilho
De repente a gente brilhará
Realce, realce Quanto mais serpentina melhor
Realce, realce Com a cor-do-veludo, com amor
Com tudo de Real teor de beleza
Realce, realce, realce, realce

Realce nos anos 70 é o mesmo que COCAÍNA. Apologia. Mas alguém ENTENDEU?

Próximo capítulo: desmoralizando os reis do trocadilho na MPB.

ROMANTISMO DE ARAQUE

Filed under: comportamento, amor(?) - Carlos @ 5:05 am

O Richard Linklater é um dos meus diretores preferidos. Claro, muito se deve ao fato dele ter concebido Antes do Amanhecer/Por do Sol, o baluarte do romantismo moderno do cinema.

Junto com “Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças”, eles representam a síntese da vida moderna aplicada ao romance. Tudo morre, quem sabe numa noite. Se dá um até logo, um valeu e uma promessa que nunca vem. Ou então, se dura, o melhor pra varrer a decepção pra debaixo do tapete é apagar da memória tudo de uma vez.

“Brilho Eterno…” é também uma amostra do que realmente mata um relacionamento. São os pequenos detalhes. Quando o Joel Barish vai apagar Clementine, ele grava na fita coisas relativas aos hábitos dela. Não reclama de falta de solidariedade, de ausência, de negligência ou de infidelidade. Ele fala sobre o modo dela comer, do suéter dela, da troca de cor de cabelo, do palavreado, da carência de cultura apurada. São todos os pequenos detalhes que ele foi conhecendo ao longo do relacionamento. Foi tudo gota a gota, que encheu o copo, entornou tudo e vazou. Pá, esse é o ponto que eu queria chegar.

É uma faca de dois gumes. A noite perfeita só existe quando não se conhece a pessoa? Ou dá pra repetir uma série de noites perfeitas, eternamente? Será? O fato é que o que realmente destrói qualquer relacionamento no século XXI são os detalhes. Nenhum ser humano consegue uma convivência freqüente com alguém sem que os pequenos defeitos sejam tolerados. Vivemos na era da tolerância zero, e esta se estende ao nível afetivo. Eu tenho a convicção que, daqui a uns 50 anos, as pessoas não vão mais comemorar bodas. Bodas serão como bondes, coisa de antigamente. Que a gente vai achar lindo quando nossos avós celebravam 50 anos de casado, mas que vira peça de museu. Deixa no passado, mas não leva pra casa. E quem conseguir esta façanha, será tachado para sempre como retrógado, infeliz, ultrapassado. Um peixe fora d’água, alguém que não tenha vivido as experiências que hoje nós valorizamos.

É, a pós modernidade está aí. Ao contrário do que o Belchior dizia, nossos ídolos não são mais os mesmos. Nossos pais, avós, bisavós não são nossos espelhos. Nossos espelhos, minha gente, são os malditos filmes de romance e os vídeos do youtube. Nosso espelho é o Joel Barish tentando apagar da memória e lutando pra que algum resquício de AMOR permaneça, passando por cima dos maus hábitos do parceiro. Ou o Jesse e a Celine e sua inacreditável história de uma noite só e que ficaria um saco caso eles permanecessem juntos.

Estamos fadados ao ROMANTISMO DE ARAQUE. O que é bonito na tela dos cinemas mas que na vida real não suporta “aquele maldito tom de voz que ele faz e me irrita”. Nos anos da tolerância-zero, tudo irrita. Boca cheia, bebedeira, modos, uma roupa feia, um tênis furado, um cabelo mal cortado, uma amizade indesejada.

É isso que deveríamos suportar. Quando a gente estabelece a lista ideal do nosso companheiro, nunca está “saber usar talheres” ou “pagar contas em dia”. Não. Divertido, engraçado, atraente, isso sim. Mas o divertido, engraçado e atraente pode usar uma roupa que você não gosta e isso vai te irritar profundamente. Só que, o seguinte: que mal tem se ELE gosta de usar a roupa? Que mal tem se ele fala de boca cheia? Se ele grita? Ou se ele é apático? Será que as qualidades inerentes à pessoa não superam estes pequenos lapsos de comportamento?

Infelizmente, não pensamos mais assim. E inacreditavelmente podamos a liberdade alheia de cometer mínimos desvios de etiqueta. Os relacionamentos seriam bem mais duradouros caso a cor de cabelo fosse só um acessório. Questão de compreensão. Ele fala alto, passa vergonha, mas não pode ser motivo para uma quebra de laços. Falta tolerância pra comemorar bodas. E vai seguir faltando.

No final das contas, somos todos românticos de araque. Achamos lindo nos filmes, mas se ele tá puxando minhas cobertas demais, eu vou mijar e quem sabe dar umas duas semanas de castigo sem dormir comigo. Todos somos. Somos a geração dos românticos das telas. Quando chega a vida real, os defeitos idiotas destroem tudo. E tá aí a solução mágica pro fim do teu namoro: ele acabou porque você não soube respeitar o fato dele ter excentricidades que não são compatíveis com as tuas. Irritação daqui e de acolá. Uma junção de fatos miúdos que formam uma bomba sem volta.

Eu acho que eu tenho razão. Afinal, eu não posso admitir que fumar, beber, falar alto, comer sem modos e usar roupas velhas sejam fatores determinantes para fim de uma relação. Esse aí ó, que faz tudo isso, é o mesmo que preenchia todas as suas condições quando você estava solteira, lembra? Em princípio, você até aceitava isso no pacote. Depois, não dá pra aceitar o fato dele gostar de OVELHA NA BRASA e de você ser vegetariana? Hmm, ruim né. Acaba logo e coloca isso na lista. Até perceber que o próximo ronca demais. E assim vai, vivendo vários “Antes do Amanhecer”, acumulando defeitos, largando fora e vendo as bodas parar num antiquário.

O azar dessa bosta de geração é que não tem a Lacuna Inc. pra apagar tudo isso.

September 18, 2006

O PROCESSO DE DESMORALIZAÇÃO DOS POETAS - ATO I

Filed under: literatura - Carlos @ 6:37 am

Poeta é idiota, pra começar.
Mais: qualquer um pode ser poeta.

Em uma roda de amigos, já ouvi quinhentas mil frases maravilhosas que seriam eternamente perpetuadas na existência das sentenças geniais da história.

Esta campanha tem como objetivo desmascarar estes fraudulentos que receberam mil e uma homenagens por meia dúzia de palavras babacas e que não significaram absolutamente nada.

Neste primeiro ato, vamos derrubar Mário Quintana. Um colega meu proferiu a seguinte frase após soltar um arroto depois de um daqueles goles enormes de coca cola gelada:

“Um arroto não significa nada se não for acompanhado por um sopro profundo.”

Genial, não? Se fosse um Paulo Leminski, estaria presente em 200 perfis no orkut, especialmente dessas minas de cabelo curto e vermelho, ou desses caras que usam piercing atravessado na orelha. Essa gente que leu uns livros e fica três horas de pé no Ossip, chineleando a Padre Chagas, quando o objetivo de todos eles, seja na Cidade Baixa ou no Moinhos de Vento é o mesmo: PEGAR GENTE.

O meu colega, infelizmente, não freqüenta o Ossip. Mas proferiu uma sentença original, bem acabada e com um fundamento absolutamente poético.

Aí, comparem com o centenário Mário Quintana. Um velho chato, mau humorado, ranzinza e que, propositalmente, num marketing pré-internet, construiu sua alma de cult morando em um HOTEL no CENTRO DE PORTO ALEGRE, jogando damas na PRAÇA DA ALFÂNDEGA e estabelecendo uma melancolia programada para reforçar a aura de POETA.

“Eles passarão. Eu, passarinho.”

Que diabos é isso? Uma frase que beira o nonsense mais absurdo de todos. Não venham me dizer do seu anseio em ser solto por aí, dos desejos de voar, algo que denota liberdade, nah, não me venham com essa, senão eu comparo à frase anterior.

Ser poeta é questão de marketing inconsciente. O poeta vale mais pela figura construída a respeito dele do que propriamente pela obra construída. Junta a boemia, uma certa fixação por jazz ou música clássica, muito trago, uns vícios normais e põe, mas põe melancolia pra acabar com tudo.

Agora, frase por frase, sou mais a do meu colega. E se poeta é isso, este sim, é um verdadeiro poeta.

No próximo capítulo:
Desmascarando Gilberto Gil.

O EGO É O VILÃO DA HISTÓRIA

Filed under: comportamento - Carlos @ 6:20 am

Eu sou uma repetição de fatos desde 1986, quando pela primeira vez eu fui expulso de uma sala de aula. Fui precoce. Eu aprendi a ler com dois anos. Eu era o mini-fenômeno do Salvador. Eu lia para os outros. De graça. Nunca tive talento pra economizar dinheiro, deveria ter cobrado. Extorsão infantil feita por uma própria criança não é crime, certo? E ninguém vai pra FEBEM com 5 anos. Eu era o mini-fenômeno, mas nem era tão esperto assim. Eu sabia ler, escrevia antes dos outros, mas, por exemplo, não tinha coordenação motora.

Eu fui expulso porque eu mijei no canto da aula. Não me deixaram ir ao banheiro e eu falava sério. Na primeira série, não se mija muito, ao que parece, e aí a ida ao banheiro é confundida com matação de aula. Pelo menos em colégio LUTERANO as coisas funcionam assim. Mijei e fui o primeiro aluno da primeira série a freqüentar a sala do diretor. Ele era boa praça e eu lembro como se fosse hoje. Uma sala arejada, cheia de plantas, uns salmos pendurados nas paredes, a cruz acima da cadeira e umas poltronas bem confortáveis pra tomar o laço com elegância. Eu sempre mijei muito, até hoje. Sou um assíduo freqüentador de banheiros, de todos os tipos. Vale poste, árvore, copo de plástico, rua. Cama não, ainda bem.

Ele me disse que eu era o melhor aluno da primeira série, mas que tinha certos desvios de comportamento. Não me diagnosticaram como hiperativo, só fizeram isso quando eu tinha 24 anos. Um aluno com potencial a ser desenvolvido, mas que deve brecar a impulsividade, melhorar o comportamento e acalmar as coisas. Passei o primeiro ano tirando ótimas notas e o segundo com facilidade. Peguei recuperação em Educação Artística na sexta série e só. Eu falei, eu não tenho coordenação motora.

Durante esse tempo, recebi advertências, suspensões e fui chamado inúmeras vezes ao SOE, SOP, o caralho a quatro. Garoto difícil. O discurso era o mesmo: “Explora esse potencial, mas tem que se enquadrar”. De uma certa forma, eu gostava de ouvir isso. Era crueldade, mas me dava um prazer imenso ver colegas se matando pra provas que eu realizava com facilidade. Ou quando eu passava todo mundo no terceiro ano fazendo redações pros outros e dando aulas de inglês. Eu tomava injeção pro ego desde que me conheço por gente. Utilizava esse recurso que eu tinha: o de ter facilidade em compreender as coisas. Eu não era muito esperto, volta e meia fui enganado, mas eu convivia com isso muito bem, desde que eu soubesse que eu era melhor do que quem me enganava. Eu era.

Acho que eu ainda sou. Mas eu não sei exatamente onde que eu me atrasei. O tempestuoso, arrogante, louco, desequilibrado, ganha menos do que muita gente medíocre e que gastou um tempinho puxando as bolas mais poderosas. Ao contrário, eu brigava com os donos dessas bolas e, de vez em quando, até aprontava pra cima deles. Essa sabotagem era inconsciente. Meu desejo pela confusão era muito maior do que isso. Mas de alguma forma, sempre relevaram. O POTENCIAL está acima de qualquer bobagem que ele seria capaz de fazer ali na frente. Quase um EDMUNDO de um cotidiano rasteiro: causa problemas, mas dentro de campo, resolve.

O que ninguém sabe é que a célebre frase tem um complemento: “Não quero ele pra casar com a minha filha, quero que ele ganhe os jogos pra mim”. Trocando em miúdos: não confia nesse cara, só deixa ele agir que a gente dá um jeito de controlar. O meu ego, por incrível que pareça, agradecia. Este foi o meu atraso. Fui traído pelo meu ego. Ao mesmo tempo, isso denota uma falta de esperteza gritante. Caso eu usasse esse tempo perdido, estaria hoje ganhando melhor. O que importa, cá entre nós, é a grana, não? Um burro, com o aval do ego, superestimado pelo próprio espelho, inflado por quem me elogia. Estes sim, espertos, que passaram de ano sem saber escrever, mas que hoje contratam mini-fenômenos de primeira série para serem seus subordinados.

Um ex-colega meu, uma das figuras mais burras que eu conheci, vai ser pai. Parece que ele pode sustentar a família, sendo, assim, uma espécie de micro empresário vislumbrando uma prosperidade em seu empreendimento. Eu não tenho nem um bem, sequer empreendimento. Eu tenho um Palio cuja porta lateral não abre, pois tentaram arrombar. Moro com a minha mãe e certamente se alguém engravidar de mim, vai tirar o filho no dia seguinte, achando que eu não teria condições de criar e sustentar. Eu sou uma farsa material.

Mas eu sou o cara da crônica, a promessa do rádio, o talento da produção. Eu te emociono com quinze minutos de conversa. Eu sei falar, falo bem mesmo. Melhor do que eu escrevo. Eu entendo de rap nacional e ando pesquisando algo sobre o reggae brasileiro. Eu entendo de futebol, compreendo política, construo bem um texto e converso sobre tudo. Mas eu não tenho o menor TINO pra ser bem sucedido. Não tenho vocação pra ser esperto. Eu tenho idéias, mas não penso.

Eu sou o cara que acertava todos os ditados de 20 palavras na primeira série. Mas depois, mijava no canto da aula e levava zero mesmo tendo gabaritado. A construção para uma posterior destruição. Você compraria isso? Ou prefere aquele nota 6 que nunca vai comprometer, mas até carrega direitinho o piano.

Isso foi há 20 anos e nada mudou. Só os termos. De “superdotado problemático” para “gênio folclórico”. Cascas mais duras, instintos mais desenvolvidos, cobranças mais rígidas, crueldade mais exacerbada.

Culpem meu ego, diabo maldito, que vivia dizendo que eu sou esperto, mas não me ensinou como ter jogo de cintura pra escapar de dar calote na Claro, já que o dinheiro acaba antes.

September 14, 2006

OS 20 MAIORES DO RAP NACIONAL

Filed under: música - Carlos @ 5:45 am

Observei algumas listas nos últimos tempos e passei duas tardes/noites pesquisando coisas.
Vou colocar uma lista de discos, um guia natural, baseado no meu conhecimento e utilizando como fonte sites, revistas, livros e papos com amigos.

A minha primeira lista é sobre o rap nacional. Eu acho o estilo absolutamente fantástico. Contundente, gritante e, ao contrário do que pensam, musicalmente riquíssimo.

A primeira lista é sobre os 20 maiores discos de rap nacional em todos os tempos. Não coloquei o Jair Rodrigues, que inaugurou o estilo com “Deixe Isso pra lá”, em 1965, porque aquele disco não era de rap.

Essa é a primeira lista. Os 20 maiores discos da história do rap nacional, em ordem de relevância.

1 - Racionais MCS - Sobrevivendo no Inferno (1997)
O disco mais popular do rap brasileiro. “Sobrevivendo no Inferno” é uma obra prima. Nunca a união periferia-sucesso popular foi tão evidenciada como neste disco absolutamente perfeito. Uma sinfonia da favela, que começa com Jorge da Capadócia e toma de assalto na terceira faixa, a sensacional “Capítulo 4, Versículo 3″. “Sobrevivendo…” foi o primeiro grande boom de pirataria que se tem notícia. Vendeu 500 mil cópias oficialmente, mas há uma idéia de que a vendagem ultrapasse os 2 milhões de discos. O povo teve acesso, graças à cópias vendidas no mercado negro. Tudo para entender o recado de Mano Brown, Edy Rock, Ice Blue e KL Jay. Letras impressionantes, que até os chamados “playboys” conseguiam perceber e identificar. “Sobrevivendo no Inferno” é o disco mais importante do rap nacional e que elevou os Racionais à categoria de super banda. E ainda tem “Diário de um Detento”, que todo mundo conheceu.

2- Fausto Fawcett - Fausto Fawcett e os Robôs Efêmeros (1987)
Um dos maiores picaretas, vagabundos e gênios do baixo Rio, Fausto Fawcett sempre teve um pé na subversão. Na metade dos anos 80, quando se enchiam de teclados e linhas de baixo copiada, no auge do rock nacional, o cara traz ao público esta pérola da bagaceirada carioca. E é hip hop dos bons. A imortal “Kátia Flávia” está aí até hoje pra provar. Suíngue absoluto, rimas sujas e um dos clássicos da discografia brasileira.

3- Hip Hop Cultura de Rua - Coletânea (1988)
Produzido por Nasi e Edgard Scandurra, do IRA, a coletânia Hip Hop Cultura de Rua é o cartão de visitas do rap paulistano. Do gueto e para o gueto, lançou Thaíde e DJ Hum e permanece atual até os dias de hoje.

4 - Gabriel O Pensador - Gabriel o Pensador (1992)
Quando o rap vira pop, os méritos são enormes. Gabriel o Pensador foi o primeiro rapper brasileiro. Branco, da zona sul e com berço, isso pouco importa. Letrista de mão cheia, acertou bonito com clássicos como “Lôraburra”, “Retrato de Um Playboy” e “175-Nada Especial”. Caiu nas FMS e finalmente um rap brasileiro estava sendo ouvido pelas massas.

5- Racionais MCS - Raio X Brasil (1993)
Se “Sobrevivendo no Inferno” foi fenômeno de massa, “Raio X Brasil” é o marco no rap nacional. “Fim de Semana no Parque” foi cantada em qualquer rodinha em 1994. A periferia estava sendo ouvida, e os Racionais passavam a comandar a massa dos subúrbios paulistanos. E tem uma epopéia chamada “O Homem na Estrada”. Um clássico.

6- Thaíde e DJ Hum - Preste Atenção (1996)

Pais do rap no Brasil, os veteranos lançaram seu primeiro álbum apenas em 96. “Preste Atenção” torna-se o disco de rap mais bem produzido até então. Musicalidade aguçada, bases diversificadas fazem com que a dupla tenha uma diferença em relação aos seus companheiros na época. Afinal, eles ensinaram que é possível letra contundente e sonoridade rica.

7- Marcelo D2 - À Procura da Batida Perfeita (2003)
Bezerra da Silva com Black Eyed Peas, Dicró e Wu Tang Clan, Corcovado e Brooklyn. D2 mixou todas suas experiências sonoras e fez um discão. “Qual é?” é o maior hit do hip hop brasileiro até hoje. E olha que ele mal fala em maconha!

8- MV Bill - Traficando Informação (1998)
Criado na Cidade de Deus, MV Bill é o maior nome do rap carioca. O impressionante trabalho de estréia dele é um estouro. Fuzil, metralhadora e a luta pela sobrevivência numa cidade desigual são mostrados de uma forma arrebatadora.

9- Planet Hemp - Usuário (1995)
Uns achavam que era só apologia às drogas. Ledo engano. Um guitarrista seguro, um puta MC e peso nas rimas dão a “Usuário” o status de elevar o Planet Hemp a uma das melhores bandas dos anos 90. É rock, mas é rap também. E dos bons.

10- Rap Brasil 1 - Coletânea (1995)

Se o gangsta americano surgiu na Califórnia, somente um lugar ensolarado pra carcar de vez o gangsta brasileiro. Rap Brasil 1 traz MC Júnior, MC Leonardo, MC Doca e uma leva de comandantes que os paulistas odiavam. Dizem que é funk, mas não. É rap, é gangsta, é o descompromisso com as questões sociais, é a conquista pela gatinha perfeita, é a diversão no morro em forma de letra e melodia. Pobre? Pode até ser. Mas é bem mais divertido.

11- De Menos Crime - São Mateus Pra Vida (1999)
“E aí, como é que é… é FOGO NA BOMBA”. Um hit diz tudo sobre este trabalho do “De Menos Crime”. Todo mundo cantou isso em 99 e só por esta música, já vale o disco.

12- Sabotage - Rap é Compromisso (2001)
Talvez o maior MC da história do rap nacional. Sabotage é um rimador nato, um homem que conseguia tirar de cada palavra o necessário para estabelecer no bom sentido um mal estar em sua música. Contando com uma linha de produtores das boas, o único trabalho do cara é uma obra a ser admirada, e ficará imortalizada.

13- Xis - Seja Como For (2000)

Saído do DMN, Xis é a personificação do rap paulista. Da periferia, corintiano, brasileiro, e mais: entende de música. Flerta com o jazz e com Jorge Ben. De quebra, criou um dos hits mais criativos do rap brasileiro: “Us Mano e as mina”.

14- Rappin Hood - Sujeito Homem (2001)
Um dos baluartes da periferia, Rappin Hood surpreende em seu disco de estréia. Prioriza as sonoridades brasileiras e chama gente como Leci Brandão pra dividir o microfone. Termina em uma deliciosa mistura de MPB com hip hop, dando, talvez pela primeira vez, uma autenticidade ao hip hop nacional. Já não era necessário pegar as bases de fora.

15 - Claudinho e Buchecha - Claudinho e Buchecha (1996)

“Conquista”, “Nosso Sonho”, “Tempos Modernos”. Os ensinamentos do Rap Brasil 1 são colocados à exaustão na estréia da dupla. Vendeu 1 milhão de cópias e fez todo mundo cantar. Acham brega, mas é rap do puro, leve e gostoso de se ouvir. Merecidamente, fez sucesso.

16- Thaíde e DJ Hum - Assim Caminha a Humanidade (1998)
“Que tempo bom, que não volta nunca mais…”. “Senhor Tempo Bom” é o tributo a todos que fizeram a cultura black, na faixa mais dançante do rap nacional. Realmente, Thaíde tem a manha.

17- Faces do Subúrbio - Faces do Subúrbio (1998)
Embolada com rap? Pois os pernambucanos do Faces do Subúrbio conseguiram mexer nesta batida complicada. E o resultado foi o melhor possível: admirados pelos grandes da MPB, meteram a mão na massa e fizeram este disco, já fora de catálogo.

18- De Falla - Miami Rock 2000 (2000)
Eles já foram roqueiros, já previram o futuro no início dos anos 90, já foram metaleiros, posers, covers de Marilyn Manson e resolveram avacalhar tudo. “Melô da Popozuda”, um pancadão falado, bagaceiro, mal construído, e o principal sucesso do verão de 2000. Rap pro baixo clero e, de tão duvidoso, chega a ser excelente.

19- Planet Hemp - A Invasão do Sagaz Homem Fumaça (1999)
Depois que D2 lançou seu primeiro disco solo, Eu Tiro é Onda (98), as guitarras do Planet foram dando lugar ainda maior para as bases pré programadas. Resultado: a banda faz seu disco mais rapper, e foi muito feliz. Para muitos, o melhor do Planet. O embrião do que D2 faria anos depois, em sua carreira solo.

20- Potencial 3 - O Melhor ainda está por vir (2001)
A união de Rappin Hood e Xis com uma sofisticação sonora impressionante faz desse disco desconhecido uma das grandes surpresas do rap brasileiro. Pega carona no Naughty by Nature, colocando umas bases espertas e a produção caprichada de João Marcelo Bôscoli. Algo a ser conferido.

Considerações finais
Qualquer dúvida sobre o critério adotado para rotular um disco como de RAP ou NÃO, falar com a direção.

Na próxima edição: a lista dos 200 maiores discos do pop rock do Brasil, primeira parte. Das posições 200 a 101.

Vai dar trabalho, mas eu tenho ajuda pra fazer.

September 8, 2006

O DIA DA INDEPENDÊNCIA

Filed under: alegria - Carlos @ 2:40 pm

Dos feriados, o que eu mais gosto é o 7 de setembro. Costumo trabalhar, assim como nos outros. Mas é um feriado que me dá satisfação em vivê-lo intensamente, e certamente há vários motivos em questão.

Primeiro, é aniversário da minha vó. Completou 80 anos ontem. Além disso, o 7 de setembro é o que abre uma seqüência de feriados até o final do ano: 20 de setembro, eleições, 12 de outubro, finados, 15 de novembro, Natal, ano novo. Logo, é o marco necessário para que se faça a contagem regressiva até a troca do ano.

Não me lembro de ter chovido em algum 7 de setembro. Com certeza, desde 98 não chove. Mesmo ainda sendo tecnicamente inverno, o 7 de setembro é um corte brusco na estação. Parece que na data há a transição exata do inverno para a primavera, e se forem pensar, já dá pra observar após os dias de frio intenso, um ar primaveril nas ruas. Gosto da primavera. É minha estação preferida. É por causa das pessoas. A primavera traz um boom de disposição, um despertar violento após dias chatos, intermináveis e murrinhas do inverno.

O 7 de setembro sempre foi o meu agente motivador. Não sei explicar. Ontem deu de novo. Saí pelas 18h e vi o entardecer. Já está anoitecendo mais tarde em Porto Alegre. Gosto de feriado em Porto Alegre. Principalmente nessa hora, quando o sol se põe, antes da noite chegar. Um ar de melancolia toma conta da cidade, já que os carros não passam tão rápido assim e a cor está num lusco-fusco que te aperta o coração e ao mesmo tempo conforta tuas necessidades. A cidade estava assim ontem e eu, de repente, indo pra ver minha vó, fui tomado por uma sensação de conforto, e deu até vontade de ficar por aqui.

O verão está chegando e com ele a esperança de que novos rumos sejam tomados. Sempre acontece alguma coisa a partir do 7 de setembro. Aconteceu muita coisa em 2006, logo não sei se este final de ano terá o movimento que teve o restante da temporada. Certamente mudará a disposição e isso é culpa da estação. E tendo disposição, o resto a gente empurra com alegria.

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