Observei algumas listas nos últimos tempos e passei duas tardes/noites pesquisando coisas.
Vou colocar uma lista de discos, um guia natural, baseado no meu conhecimento e utilizando como fonte sites, revistas, livros e papos com amigos.
A minha primeira lista é sobre o rap nacional. Eu acho o estilo absolutamente fantástico. Contundente, gritante e, ao contrário do que pensam, musicalmente riquíssimo.
A primeira lista é sobre os 20 maiores discos de rap nacional em todos os tempos. Não coloquei o Jair Rodrigues, que inaugurou o estilo com “Deixe Isso pra lá”, em 1965, porque aquele disco não era de rap.
Essa é a primeira lista. Os 20 maiores discos da história do rap nacional, em ordem de relevância.
1 - Racionais MCS - Sobrevivendo no Inferno (1997)
O disco mais popular do rap brasileiro. “Sobrevivendo no Inferno” é uma obra prima. Nunca a união periferia-sucesso popular foi tão evidenciada como neste disco absolutamente perfeito. Uma sinfonia da favela, que começa com Jorge da Capadócia e toma de assalto na terceira faixa, a sensacional “Capítulo 4, Versículo 3″. “Sobrevivendo…” foi o primeiro grande boom de pirataria que se tem notícia. Vendeu 500 mil cópias oficialmente, mas há uma idéia de que a vendagem ultrapasse os 2 milhões de discos. O povo teve acesso, graças à cópias vendidas no mercado negro. Tudo para entender o recado de Mano Brown, Edy Rock, Ice Blue e KL Jay. Letras impressionantes, que até os chamados “playboys” conseguiam perceber e identificar. “Sobrevivendo no Inferno” é o disco mais importante do rap nacional e que elevou os Racionais à categoria de super banda. E ainda tem “Diário de um Detento”, que todo mundo conheceu.
2- Fausto Fawcett - Fausto Fawcett e os Robôs Efêmeros (1987)
Um dos maiores picaretas, vagabundos e gênios do baixo Rio, Fausto Fawcett sempre teve um pé na subversão. Na metade dos anos 80, quando se enchiam de teclados e linhas de baixo copiada, no auge do rock nacional, o cara traz ao público esta pérola da bagaceirada carioca. E é hip hop dos bons. A imortal “Kátia Flávia” está aí até hoje pra provar. Suíngue absoluto, rimas sujas e um dos clássicos da discografia brasileira.
3- Hip Hop Cultura de Rua - Coletânea (1988)
Produzido por Nasi e Edgard Scandurra, do IRA, a coletânia Hip Hop Cultura de Rua é o cartão de visitas do rap paulistano. Do gueto e para o gueto, lançou Thaíde e DJ Hum e permanece atual até os dias de hoje.
4 - Gabriel O Pensador - Gabriel o Pensador (1992)
Quando o rap vira pop, os méritos são enormes. Gabriel o Pensador foi o primeiro rapper brasileiro. Branco, da zona sul e com berço, isso pouco importa. Letrista de mão cheia, acertou bonito com clássicos como “Lôraburra”, “Retrato de Um Playboy” e “175-Nada Especial”. Caiu nas FMS e finalmente um rap brasileiro estava sendo ouvido pelas massas.
5- Racionais MCS - Raio X Brasil (1993)
Se “Sobrevivendo no Inferno” foi fenômeno de massa, “Raio X Brasil” é o marco no rap nacional. “Fim de Semana no Parque” foi cantada em qualquer rodinha em 1994. A periferia estava sendo ouvida, e os Racionais passavam a comandar a massa dos subúrbios paulistanos. E tem uma epopéia chamada “O Homem na Estrada”. Um clássico.
6- Thaíde e DJ Hum - Preste Atenção (1996)
Pais do rap no Brasil, os veteranos lançaram seu primeiro álbum apenas em 96. “Preste Atenção” torna-se o disco de rap mais bem produzido até então. Musicalidade aguçada, bases diversificadas fazem com que a dupla tenha uma diferença em relação aos seus companheiros na época. Afinal, eles ensinaram que é possível letra contundente e sonoridade rica.
7- Marcelo D2 - À Procura da Batida Perfeita (2003)
Bezerra da Silva com Black Eyed Peas, Dicró e Wu Tang Clan, Corcovado e Brooklyn. D2 mixou todas suas experiências sonoras e fez um discão. “Qual é?” é o maior hit do hip hop brasileiro até hoje. E olha que ele mal fala em maconha!
8- MV Bill - Traficando Informação (1998)
Criado na Cidade de Deus, MV Bill é o maior nome do rap carioca. O impressionante trabalho de estréia dele é um estouro. Fuzil, metralhadora e a luta pela sobrevivência numa cidade desigual são mostrados de uma forma arrebatadora.
9- Planet Hemp - Usuário (1995)
Uns achavam que era só apologia às drogas. Ledo engano. Um guitarrista seguro, um puta MC e peso nas rimas dão a “Usuário” o status de elevar o Planet Hemp a uma das melhores bandas dos anos 90. É rock, mas é rap também. E dos bons.
10- Rap Brasil 1 - Coletânea (1995)
Se o gangsta americano surgiu na Califórnia, somente um lugar ensolarado pra carcar de vez o gangsta brasileiro. Rap Brasil 1 traz MC Júnior, MC Leonardo, MC Doca e uma leva de comandantes que os paulistas odiavam. Dizem que é funk, mas não. É rap, é gangsta, é o descompromisso com as questões sociais, é a conquista pela gatinha perfeita, é a diversão no morro em forma de letra e melodia. Pobre? Pode até ser. Mas é bem mais divertido.
11- De Menos Crime - São Mateus Pra Vida (1999)
“E aí, como é que é… é FOGO NA BOMBA”. Um hit diz tudo sobre este trabalho do “De Menos Crime”. Todo mundo cantou isso em 99 e só por esta música, já vale o disco.
12- Sabotage - Rap é Compromisso (2001)
Talvez o maior MC da história do rap nacional. Sabotage é um rimador nato, um homem que conseguia tirar de cada palavra o necessário para estabelecer no bom sentido um mal estar em sua música. Contando com uma linha de produtores das boas, o único trabalho do cara é uma obra a ser admirada, e ficará imortalizada.
13- Xis - Seja Como For (2000)
Saído do DMN, Xis é a personificação do rap paulista. Da periferia, corintiano, brasileiro, e mais: entende de música. Flerta com o jazz e com Jorge Ben. De quebra, criou um dos hits mais criativos do rap brasileiro: “Us Mano e as mina”.
14- Rappin Hood - Sujeito Homem (2001)
Um dos baluartes da periferia, Rappin Hood surpreende em seu disco de estréia. Prioriza as sonoridades brasileiras e chama gente como Leci Brandão pra dividir o microfone. Termina em uma deliciosa mistura de MPB com hip hop, dando, talvez pela primeira vez, uma autenticidade ao hip hop nacional. Já não era necessário pegar as bases de fora.
15 - Claudinho e Buchecha - Claudinho e Buchecha (1996)
“Conquista”, “Nosso Sonho”, “Tempos Modernos”. Os ensinamentos do Rap Brasil 1 são colocados à exaustão na estréia da dupla. Vendeu 1 milhão de cópias e fez todo mundo cantar. Acham brega, mas é rap do puro, leve e gostoso de se ouvir. Merecidamente, fez sucesso.
16- Thaíde e DJ Hum - Assim Caminha a Humanidade (1998)
“Que tempo bom, que não volta nunca mais…”. “Senhor Tempo Bom” é o tributo a todos que fizeram a cultura black, na faixa mais dançante do rap nacional. Realmente, Thaíde tem a manha.
17- Faces do Subúrbio - Faces do Subúrbio (1998)
Embolada com rap? Pois os pernambucanos do Faces do Subúrbio conseguiram mexer nesta batida complicada. E o resultado foi o melhor possível: admirados pelos grandes da MPB, meteram a mão na massa e fizeram este disco, já fora de catálogo.
18- De Falla - Miami Rock 2000 (2000)
Eles já foram roqueiros, já previram o futuro no início dos anos 90, já foram metaleiros, posers, covers de Marilyn Manson e resolveram avacalhar tudo. “Melô da Popozuda”, um pancadão falado, bagaceiro, mal construído, e o principal sucesso do verão de 2000. Rap pro baixo clero e, de tão duvidoso, chega a ser excelente.
19- Planet Hemp - A Invasão do Sagaz Homem Fumaça (1999)
Depois que D2 lançou seu primeiro disco solo, Eu Tiro é Onda (98), as guitarras do Planet foram dando lugar ainda maior para as bases pré programadas. Resultado: a banda faz seu disco mais rapper, e foi muito feliz. Para muitos, o melhor do Planet. O embrião do que D2 faria anos depois, em sua carreira solo.
20- Potencial 3 - O Melhor ainda está por vir (2001)
A união de Rappin Hood e Xis com uma sofisticação sonora impressionante faz desse disco desconhecido uma das grandes surpresas do rap brasileiro. Pega carona no Naughty by Nature, colocando umas bases espertas e a produção caprichada de João Marcelo Bôscoli. Algo a ser conferido.
Considerações finais
Qualquer dúvida sobre o critério adotado para rotular um disco como de RAP ou NÃO, falar com a direção.
Na próxima edição: a lista dos 200 maiores discos do pop rock do Brasil, primeira parte. Das posições 200 a 101.
Vai dar trabalho, mas eu tenho ajuda pra fazer.