O EGO É O VILÃO DA HISTÓRIA
Eu sou uma repetição de fatos desde 1986, quando pela primeira vez eu fui expulso de uma sala de aula. Fui precoce. Eu aprendi a ler com dois anos. Eu era o mini-fenômeno do Salvador. Eu lia para os outros. De graça. Nunca tive talento pra economizar dinheiro, deveria ter cobrado. Extorsão infantil feita por uma própria criança não é crime, certo? E ninguém vai pra FEBEM com 5 anos. Eu era o mini-fenômeno, mas nem era tão esperto assim. Eu sabia ler, escrevia antes dos outros, mas, por exemplo, não tinha coordenação motora.
Eu fui expulso porque eu mijei no canto da aula. Não me deixaram ir ao banheiro e eu falava sério. Na primeira série, não se mija muito, ao que parece, e aí a ida ao banheiro é confundida com matação de aula. Pelo menos em colégio LUTERANO as coisas funcionam assim. Mijei e fui o primeiro aluno da primeira série a freqüentar a sala do diretor. Ele era boa praça e eu lembro como se fosse hoje. Uma sala arejada, cheia de plantas, uns salmos pendurados nas paredes, a cruz acima da cadeira e umas poltronas bem confortáveis pra tomar o laço com elegância. Eu sempre mijei muito, até hoje. Sou um assíduo freqüentador de banheiros, de todos os tipos. Vale poste, árvore, copo de plástico, rua. Cama não, ainda bem.
Ele me disse que eu era o melhor aluno da primeira série, mas que tinha certos desvios de comportamento. Não me diagnosticaram como hiperativo, só fizeram isso quando eu tinha 24 anos. Um aluno com potencial a ser desenvolvido, mas que deve brecar a impulsividade, melhorar o comportamento e acalmar as coisas. Passei o primeiro ano tirando ótimas notas e o segundo com facilidade. Peguei recuperação em Educação Artística na sexta série e só. Eu falei, eu não tenho coordenação motora.
Durante esse tempo, recebi advertências, suspensões e fui chamado inúmeras vezes ao SOE, SOP, o caralho a quatro. Garoto difícil. O discurso era o mesmo: “Explora esse potencial, mas tem que se enquadrar”. De uma certa forma, eu gostava de ouvir isso. Era crueldade, mas me dava um prazer imenso ver colegas se matando pra provas que eu realizava com facilidade. Ou quando eu passava todo mundo no terceiro ano fazendo redações pros outros e dando aulas de inglês. Eu tomava injeção pro ego desde que me conheço por gente. Utilizava esse recurso que eu tinha: o de ter facilidade em compreender as coisas. Eu não era muito esperto, volta e meia fui enganado, mas eu convivia com isso muito bem, desde que eu soubesse que eu era melhor do que quem me enganava. Eu era.
Acho que eu ainda sou. Mas eu não sei exatamente onde que eu me atrasei. O tempestuoso, arrogante, louco, desequilibrado, ganha menos do que muita gente medíocre e que gastou um tempinho puxando as bolas mais poderosas. Ao contrário, eu brigava com os donos dessas bolas e, de vez em quando, até aprontava pra cima deles. Essa sabotagem era inconsciente. Meu desejo pela confusão era muito maior do que isso. Mas de alguma forma, sempre relevaram. O POTENCIAL está acima de qualquer bobagem que ele seria capaz de fazer ali na frente. Quase um EDMUNDO de um cotidiano rasteiro: causa problemas, mas dentro de campo, resolve.
O que ninguém sabe é que a célebre frase tem um complemento: “Não quero ele pra casar com a minha filha, quero que ele ganhe os jogos pra mim”. Trocando em miúdos: não confia nesse cara, só deixa ele agir que a gente dá um jeito de controlar. O meu ego, por incrível que pareça, agradecia. Este foi o meu atraso. Fui traído pelo meu ego. Ao mesmo tempo, isso denota uma falta de esperteza gritante. Caso eu usasse esse tempo perdido, estaria hoje ganhando melhor. O que importa, cá entre nós, é a grana, não? Um burro, com o aval do ego, superestimado pelo próprio espelho, inflado por quem me elogia. Estes sim, espertos, que passaram de ano sem saber escrever, mas que hoje contratam mini-fenômenos de primeira série para serem seus subordinados.
Um ex-colega meu, uma das figuras mais burras que eu conheci, vai ser pai. Parece que ele pode sustentar a família, sendo, assim, uma espécie de micro empresário vislumbrando uma prosperidade em seu empreendimento. Eu não tenho nem um bem, sequer empreendimento. Eu tenho um Palio cuja porta lateral não abre, pois tentaram arrombar. Moro com a minha mãe e certamente se alguém engravidar de mim, vai tirar o filho no dia seguinte, achando que eu não teria condições de criar e sustentar. Eu sou uma farsa material.
Mas eu sou o cara da crônica, a promessa do rádio, o talento da produção. Eu te emociono com quinze minutos de conversa. Eu sei falar, falo bem mesmo. Melhor do que eu escrevo. Eu entendo de rap nacional e ando pesquisando algo sobre o reggae brasileiro. Eu entendo de futebol, compreendo política, construo bem um texto e converso sobre tudo. Mas eu não tenho o menor TINO pra ser bem sucedido. Não tenho vocação pra ser esperto. Eu tenho idéias, mas não penso.
Eu sou o cara que acertava todos os ditados de 20 palavras na primeira série. Mas depois, mijava no canto da aula e levava zero mesmo tendo gabaritado. A construção para uma posterior destruição. Você compraria isso? Ou prefere aquele nota 6 que nunca vai comprometer, mas até carrega direitinho o piano.
Isso foi há 20 anos e nada mudou. Só os termos. De “superdotado problemático” para “gênio folclórico”. Cascas mais duras, instintos mais desenvolvidos, cobranças mais rígidas, crueldade mais exacerbada.
Culpem meu ego, diabo maldito, que vivia dizendo que eu sou esperto, mas não me ensinou como ter jogo de cintura pra escapar de dar calote na Claro, já que o dinheiro acaba antes.
Colégio luterano é tudo a mesmo coisa.
Comment by Bonato — September 19, 2006 @ 4:55 am