Verborragia sem concessões

September 18, 2006

O PROCESSO DE DESMORALIZAÇÃO DOS POETAS - ATO I

Filed under: literatura - Carlos @ 6:37 am

Poeta é idiota, pra começar.
Mais: qualquer um pode ser poeta.

Em uma roda de amigos, já ouvi quinhentas mil frases maravilhosas que seriam eternamente perpetuadas na existência das sentenças geniais da história.

Esta campanha tem como objetivo desmascarar estes fraudulentos que receberam mil e uma homenagens por meia dúzia de palavras babacas e que não significaram absolutamente nada.

Neste primeiro ato, vamos derrubar Mário Quintana. Um colega meu proferiu a seguinte frase após soltar um arroto depois de um daqueles goles enormes de coca cola gelada:

“Um arroto não significa nada se não for acompanhado por um sopro profundo.”

Genial, não? Se fosse um Paulo Leminski, estaria presente em 200 perfis no orkut, especialmente dessas minas de cabelo curto e vermelho, ou desses caras que usam piercing atravessado na orelha. Essa gente que leu uns livros e fica três horas de pé no Ossip, chineleando a Padre Chagas, quando o objetivo de todos eles, seja na Cidade Baixa ou no Moinhos de Vento é o mesmo: PEGAR GENTE.

O meu colega, infelizmente, não freqüenta o Ossip. Mas proferiu uma sentença original, bem acabada e com um fundamento absolutamente poético.

Aí, comparem com o centenário Mário Quintana. Um velho chato, mau humorado, ranzinza e que, propositalmente, num marketing pré-internet, construiu sua alma de cult morando em um HOTEL no CENTRO DE PORTO ALEGRE, jogando damas na PRAÇA DA ALFÂNDEGA e estabelecendo uma melancolia programada para reforçar a aura de POETA.

“Eles passarão. Eu, passarinho.”

Que diabos é isso? Uma frase que beira o nonsense mais absurdo de todos. Não venham me dizer do seu anseio em ser solto por aí, dos desejos de voar, algo que denota liberdade, nah, não me venham com essa, senão eu comparo à frase anterior.

Ser poeta é questão de marketing inconsciente. O poeta vale mais pela figura construída a respeito dele do que propriamente pela obra construída. Junta a boemia, uma certa fixação por jazz ou música clássica, muito trago, uns vícios normais e põe, mas põe melancolia pra acabar com tudo.

Agora, frase por frase, sou mais a do meu colega. E se poeta é isso, este sim, é um verdadeiro poeta.

No próximo capítulo:
Desmascarando Gilberto Gil.

2 Comments »

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  1. Quanto azedume nesse coraçãozinho… credo… não posso concordar com nada do que disseste sobre o Mário Quintana, eu moro no centro desde sempre, passava sempre por ele na rua quando pequena e ele era adorável. Nada de mau humor. Quem parece estar de mau humor é tu. Relax, a vida é bela.

    Comment by Vica — September 20, 2006 @ 9:10 pm

  2. Carlos e suas polêmicas…adora criar uma confusão :P
    Mas acho o Quintana um saco mesmo!
    Aguardamos o baiano “too much”.

    Comment by alessandra — September 26, 2006 @ 12:52 am

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