ROMANTISMO DE ARAQUE
O Richard Linklater é um dos meus diretores preferidos. Claro, muito se deve ao fato dele ter concebido Antes do Amanhecer/Por do Sol, o baluarte do romantismo moderno do cinema.
Junto com “Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças”, eles representam a síntese da vida moderna aplicada ao romance. Tudo morre, quem sabe numa noite. Se dá um até logo, um valeu e uma promessa que nunca vem. Ou então, se dura, o melhor pra varrer a decepção pra debaixo do tapete é apagar da memória tudo de uma vez.
“Brilho Eterno…” é também uma amostra do que realmente mata um relacionamento. São os pequenos detalhes. Quando o Joel Barish vai apagar Clementine, ele grava na fita coisas relativas aos hábitos dela. Não reclama de falta de solidariedade, de ausência, de negligência ou de infidelidade. Ele fala sobre o modo dela comer, do suéter dela, da troca de cor de cabelo, do palavreado, da carência de cultura apurada. São todos os pequenos detalhes que ele foi conhecendo ao longo do relacionamento. Foi tudo gota a gota, que encheu o copo, entornou tudo e vazou. Pá, esse é o ponto que eu queria chegar.
É uma faca de dois gumes. A noite perfeita só existe quando não se conhece a pessoa? Ou dá pra repetir uma série de noites perfeitas, eternamente? Será? O fato é que o que realmente destrói qualquer relacionamento no século XXI são os detalhes. Nenhum ser humano consegue uma convivência freqüente com alguém sem que os pequenos defeitos sejam tolerados. Vivemos na era da tolerância zero, e esta se estende ao nível afetivo. Eu tenho a convicção que, daqui a uns 50 anos, as pessoas não vão mais comemorar bodas. Bodas serão como bondes, coisa de antigamente. Que a gente vai achar lindo quando nossos avós celebravam 50 anos de casado, mas que vira peça de museu. Deixa no passado, mas não leva pra casa. E quem conseguir esta façanha, será tachado para sempre como retrógado, infeliz, ultrapassado. Um peixe fora d’água, alguém que não tenha vivido as experiências que hoje nós valorizamos.
É, a pós modernidade está aí. Ao contrário do que o Belchior dizia, nossos ídolos não são mais os mesmos. Nossos pais, avós, bisavós não são nossos espelhos. Nossos espelhos, minha gente, são os malditos filmes de romance e os vídeos do youtube. Nosso espelho é o Joel Barish tentando apagar da memória e lutando pra que algum resquício de AMOR permaneça, passando por cima dos maus hábitos do parceiro. Ou o Jesse e a Celine e sua inacreditável história de uma noite só e que ficaria um saco caso eles permanecessem juntos.
Estamos fadados ao ROMANTISMO DE ARAQUE. O que é bonito na tela dos cinemas mas que na vida real não suporta “aquele maldito tom de voz que ele faz e me irrita”. Nos anos da tolerância-zero, tudo irrita. Boca cheia, bebedeira, modos, uma roupa feia, um tênis furado, um cabelo mal cortado, uma amizade indesejada.
É isso que deveríamos suportar. Quando a gente estabelece a lista ideal do nosso companheiro, nunca está “saber usar talheres” ou “pagar contas em dia”. Não. Divertido, engraçado, atraente, isso sim. Mas o divertido, engraçado e atraente pode usar uma roupa que você não gosta e isso vai te irritar profundamente. Só que, o seguinte: que mal tem se ELE gosta de usar a roupa? Que mal tem se ele fala de boca cheia? Se ele grita? Ou se ele é apático? Será que as qualidades inerentes à pessoa não superam estes pequenos lapsos de comportamento?
Infelizmente, não pensamos mais assim. E inacreditavelmente podamos a liberdade alheia de cometer mínimos desvios de etiqueta. Os relacionamentos seriam bem mais duradouros caso a cor de cabelo fosse só um acessório. Questão de compreensão. Ele fala alto, passa vergonha, mas não pode ser motivo para uma quebra de laços. Falta tolerância pra comemorar bodas. E vai seguir faltando.
No final das contas, somos todos românticos de araque. Achamos lindo nos filmes, mas se ele tá puxando minhas cobertas demais, eu vou mijar e quem sabe dar umas duas semanas de castigo sem dormir comigo. Todos somos. Somos a geração dos românticos das telas. Quando chega a vida real, os defeitos idiotas destroem tudo. E tá aí a solução mágica pro fim do teu namoro: ele acabou porque você não soube respeitar o fato dele ter excentricidades que não são compatíveis com as tuas. Irritação daqui e de acolá. Uma junção de fatos miúdos que formam uma bomba sem volta.
Eu acho que eu tenho razão. Afinal, eu não posso admitir que fumar, beber, falar alto, comer sem modos e usar roupas velhas sejam fatores determinantes para fim de uma relação. Esse aí ó, que faz tudo isso, é o mesmo que preenchia todas as suas condições quando você estava solteira, lembra? Em princípio, você até aceitava isso no pacote. Depois, não dá pra aceitar o fato dele gostar de OVELHA NA BRASA e de você ser vegetariana? Hmm, ruim né. Acaba logo e coloca isso na lista. Até perceber que o próximo ronca demais. E assim vai, vivendo vários “Antes do Amanhecer”, acumulando defeitos, largando fora e vendo as bodas parar num antiquário.
O azar dessa bosta de geração é que não tem a Lacuna Inc. pra apagar tudo isso.
Vou emoldurar e colocar na parede =D
Comment by alessandra — September 26, 2006 @ 7:11 pm
Tri revelador este teu post. Eu gosto. Mas que tu tá azedo, isso tu tá.
Comment by Vica — October 2, 2006 @ 4:48 pm