Verborragia sem concessões

September 27, 2006

A GARAGEM DO PARQUE MINUANO

Filed under: saudosismo - Carlos @ 8:08 pm

Tudo se define entre os 12 e os 15 anos. A gente não consegue ser muito diferente do que se formou nesta época, por mais que a gente pense que sim. A distinção se dá basicamente pela idade. Éramos adolescentes, somos adultos, é impensável que sejamos os mesmos. Crescemos, tomamos, demos, nos perdemos, nos achamos, mudamos. Mas a essência, aquela essência, a formação de uma personalidade sólida, tudo isso acontece neste período.

É curioso a forma com que cresceram os nascidos no triênio 78/79/80. Não pegamos a explosão dos oitenta, apenas admirávamos os mais velhos, hoje com trinta e poucos, terem coragem de usar cabelos e roupas que nossos pais não deixavam na época. Não somos geração anos 80, definitivamente. Mas tivemos a glória de passar nossa infância nos 80, e mesmo sem personalidade pra se formar, pegamos um pouquinho da fissura, do êxtase e do repé dessa década chata. Vendo tudo de longe.

Um guri pré adolescente morador da Zona Norte no início dos anos 90 só tinha três coisas pra se divertir: jogar bola, jogar videogame e um terceiro hobby. Uns escolhem luta, outros ir pra praia toda semana, houve aqueles que escolheram até o TRÁFICO. Eu escolhi a música.

Acho que tudo começou naquela reunião dançante. Na casa do Mister, no Parque Minuano. A primeira vez que eu tive contato próximo com uma menina. Não beijei, só dancei. Mas hoje eu lembro do perfume dela, adocicado, na medida certa. Lembro da roupa dela, uma blusa branca, bonita, combinando com uma saia preta. Lembro exatamente do local da garagem em que estávamos. E lembro da música que estava tocando. “Patience”, Guns N’Roses. Na seqüência, a dica de quem botava o som: “Vai que essa é longa”. “Stairway to Heaven”, Led Zeppelin. Eu fui, claro.

Estas baladas me encantavam. Foi um pouco antes de existir “Smells Like Teen Spirit” e da minha descoberta do pote de ouro com o show do Faith No More no Rock In Rio II (1991). Eram as baladas, malditas, que cortavam meu coração e fizeram eu aprender um lá, um mi e um ré em 1990, pra depois conseguir tocar minha primeira música na seqüência, um sol, um ré e um dó, Knocking on Heaven’s Door.

Aos 12, eu tive minha primeira manifestação sexual, solitária, claro. Vendo pornochanchada na Sessão das Dez escondido. Aos 12, aprendi a tocar, deixei meu cabelo crescer. Pesava uns 40 kg, tinha bom vigor físico, jogava futebol direitinho e conseguia tocar toda a introdução de “Fade to Black”, do Metallica, sem errar. Passei a ir ao estádio com freqüência (time não revelado, por questões éticas). Me apaixonei platonicamente, tive algumas desilusões, beijei quem eu não quis, tive medo, deixei de ter. Desejava, sofria em silêncio. Depois, sofri falando.

No final das contas, tudo se encaixa. Se eu tenho todas estas referências, tenha certeza, elas começaram ali, naquela garagem do Parque Minuano, dançando Patience e tomando refri. Foi o buraco do início da década ou aquela vontade de ter o mundo, sem saber direito que vontade era essa. Era a época em que eu tinha o mundo e eu conseguia ser do mundo apenas caminhando alguns passos na Assis Brasil.

Mas agora, se forem culpar alguma coisa pelo que eu sou hoje, por favor, culpem as grandes baladas da história. O pontapé inicial de tudo. Acho que ali eu comecei. Naquela reunião dançante, no Parque Minuano, aos doze.

1 Comment »

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  1. O resto da geração anos 90 é exatamente assim. Só faltava confessar.

    “Vai que essa é longa”. “Stairway to Heaven”, Led Zeppelin. Eu fui, claro.

    Vaca profana é uma ótima música. Ótima!

    Comment by ap — April 7, 2007 @ 8:17 pm

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