Verborragia sem concessões

October 3, 2006

SAÍDA PELA DIREITA

Filed under: política - Carlos @ 5:13 am

Ele era poeta. Mas não vou desmoralizar esse cara, em hipótese alguma. Mas ele escreveu isso nos anos 20 e nunca me pareceu tão atual, oitenta anos depois:

“O Brasil é uma República Federativa cheia de árvores e de gente dizendo adeus.”

Oswald de Andrade tinha a manha, até dando uma de Nostradamus na parada.

Aí vieram as eleições. Fernando Collor retorna a Brasília. Um terço dos denunciados nos escândalos do mensalão e dos sanguessugas renunciaram aos cargos e são eleitos novamente. Paulo Maluf, o velho cacique, é o deputado federal mais votado em São Paulo. Lula aceita o apoio de Collor. Clodovil Hernandes, do PTC, tem votação expressiva. O cantor de forró Frank Aguiar tá na Câmara Federal. Uma pessoa bem humilde que eu conheço votou na Manuela só porque ela é bonita.

Pensando bem: quantos pesquisaram realmente o que cada deputado fez nas eleições pra votar corretamente? Foram as eleições que trouxeram uma desesperança e um sentimento de “nada muda” impressionantes. Inércia.

E por incrível que pareça, estou aqui para absolver todos os políticos. A repetição dos erros anula qualquer culpa. Eles fizeram, foi comprovado, mas foram inocentados pelo povo, no grande processo democrático.

Hoje, eu conheço mais gente que mora no exterior do que pessoas que vivem em outros estados da nação, por exemplo. Obviamente, não sou ingênuo de pensar que essa debandada seja por culpa da corrupção e da impunidade. É uma matemática simples: é MELHOR morar fora daqui. Se GANHA mais, se tem mais oportunidades, e em último caso, é mais divertido. O Brasil virou uma Pátria onde, infelizmente, não se tem prazer em viver. O nosso sonho de consumo é somente dar o fora daqui.

Junte-se a isso o fato de que pertencemos à geração mais covarde de todos os tempos. Votar é obrigação, não prazer. Militância virou fanatismo. E os não militantes simplesmente não confiam em absolutamente ninguém. Com razão.

Agora, há um fenômeno que me preocupa. Com toda essa lambança deste pleito, o brasileiro está passando a não confiar no próprio povo. Somos uma nação sem dono aprendendo a se guiar pelas próprias pernas. Individualmente falando, claro. Quando se olha pro lado, não se tem um braço pra se puxar, vai dizer.

Pela política, pela diversão ou pelo medo. Estamos dizendo ADEUS a nós mesmos, para quem sabe, podermos nos encontrar em algum lugar na Europa. Mas o pior de tudo é o nosso próprio desencontro. Nossa vontade foi completamente usurpada pela descrença. Acreditar é preciso. Mas em quem? Nos nossos semelhantes? Quem nos lidera? A quem devemos prestar hierarquia? Quem a gente precisa do nosso lado?

E o mais gritante: a gente não luta mais. A luta, de fato, não é lá uma grande virtude desta nossa geração. Somos a geração da fuga. Ou da falta de comprometimento. Lavamos as mãos e não encaramos o que a gente tem convicção. Se é que a gente tem convicção, pois a falta dela se refletiu nessas eleições. Acabou a ideologia, acabou o ideal. Sobrou um sentimento xoxo de incapacidade de alterar qualquer coisa.

No final das contas, só sobra a fuga. Pra fora, pra escapar de responsabilidade, pra sair desse cenário molenga que a gente vive no país. É tudo uma questão de medo da decepção futura. Vamos fugir, pra outro lugar, baby, sem banda de maçã, por favor.

E, por entre as árvores da nossa República Federativa, cada vez mais a gente vai dando ADEUS. Porque se der merda, a culpa não vai ser nossa mesmo. A gente vai estar bem longe daqui, longe dessa responsabilidade e lavando as mãos, nos inocentando. Infelizmente, ao contrário da ditadura, ao contrário das primeiras eleições diretas, atualmente a felicidade consiste em não se incomodar.

Assim chegamos à conclusão da palavra mágica para ter a consciência limpa: FUGA.
É muito melhor quando a gente não tem nada a ver com isso, não?

1 Comment »

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  1. faz aí uma lista com as piores bandas gaúchas huhhu

    Comment by marina — October 5, 2006 @ 10:42 pm

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