EU SOU UM CAIPIRA DOS BONS
Passei a noite da sexta-feira gripado e matando o tédio dividindo minhas atenções com episódios do Pica Pau no Boomerang, zapeando pro 66 pra assistir a alguns trechos de CAÇADAS ERÓTICAS, clássico da Boca.
Desisti da TV e fui pra rede pesquisar a respeito da minha nova paixão musical. Já tinha algum conhecimento de alt-country, muito pelo Wilco, fase Summerteeth e Being There. Já há algum tempo sou fã do Neil Young, que não passa de um caipira. Talvez ele seja meu único ídolo musical de fato e de direito, algo conquistado com muito louvor após uma reciclagem na minha própria exigência. Pra mim, é mestre, algo inalcançável em termos de genialidade e relevância. O maior deles.
O country pra mim era antes Johnny Cash. E o que representaria o sertanejo pros rednecks seriam Garth Brooks, Dixie Chicks e Shania Twain, mas eu dispenso eles.
O estudo sobre o country e o alt-country é mais difícil do que possa parecer. Entender o country é sacar um pouco da história norte-americana, que é riquíssima. O embate sul/norte, leste/oeste. Berço de grandes mentes e de uma trajetória muito parecida com a brasileira. Uma história recente, de quatro séculos pra cá. Não tem toda a tradição européia, mas talvez seja mais intrigante por isso mesmo. Uma trajetória de racismo, de preconceito e de uma civilização que cresceu com as próprias pernas, até a consolidação de uma superpotência que hoje causa repulsa, mas que se deu por uma construção belíssima.
Talvez eu seja mais fã dos Estados Unidos do que da Europa. Não desse americanismo ufanista e imbecilóide, mas sim de como eles se tornaram assim. A música é uma boa pra ter uma idéia disso tudo. Estudar o rap, a cultura do gueto, a forma falada da manifestação negra moderna. Estudar o jazz e o blues, o primeiro talento bruto dos negros, uma fusão de aptidões que só eles conseguiram ter e que foram um embrião para o rock. E estudar o country, a música branca, que fala de ranchos, amores perdidos e de uma solidão singela no meio de fazendas enormes na pobreza que era o sul do país até a explosão industrial dos anos 50.
Acho que no fundo, os Estados Unidos se perderam ao longo do tempo. Uma civilização rica, no PIB, mas bitolada no final das contas. E, vejam só, com uma história riquíssima. Um amontoado de acontecimentos fantásticos na história recente e um efeito colateral causado pelo vazio de uma educação fajuta e de uma segregação absurda que se dá pelo complexo de superioridade e megalomania. Resultado: dá-lhe neguinho entrando em colégio e mandando ver com tiro.
Hoje, há, na minha geração, um fanatismo exacerbado pela Inglaterra, por conhecer a Inglaterra. Os EUA são ah, os Estados Unidos, a ex-land of the free. Mas a maioria que pensa assim foi pra Disney aos 15. Eu ganhei uma guitarra aos 15 e toquei You Shook Me All Night Long, do AC/DC, pra batizar. O AC/DC vem da Austrália, mas não tem nada a ver com o que eu tava falando. O fato é que a Inglaterra é uma saída mais “atraente” pra nossa geração. E, fora a Disney e Nova York, talvez LA e San Francisco, não se faz turismo nos EUA. Se vai pro maldito Leste Europeu, pra Riviera Francesa, pro não-vai-a-lugar-nenhum do Caminho de Santiago, mas não há registros (ao menos massificados) de visitar turísticas à Route 66, a Memphis, a New Orleans, a Dallas, às Montanhas Rochosas, ao Grand Canyon, tampouco a Las Vegas. E são lugares extremamente atraentes, com excelente potencial turístico.
Mas vamos voltar à musica. De forma alguma vou diminuir a importância do Reino Unido para o rock. A Inglaterra teve os Beatles e o Clash (sim, mesmo nível, bate depois). Teve o Led Zeppelin, o Pink Floyd e o Sex Pistols. Depois, Smiths, The Cure e U2 (pego o Reino Unido).
Mas peraí, os EUA são os pais de um Hank Williams, este gênio subestimado do country. É o berço do jazz, de Miles Davis, Charlie Parker, Coltrane, Chet Baker, Ella Fitzgerald. Depois, pega Bob Dylan, Jimi Hendrix, por deus, HENDRIX. E antes de tudo o cara que fez com que os próprios Beatles existissem: Elvis Presley, claro.
É difícil estabelecer uma prioridade, mas quero fazer justiça a este país maravilhoso, com gente espetacular e uma riqueza musical ímpar. E é a terra do country, e de toda sua sutileza.
Só não digo que os EUA têm vantagem por causa do CLASH, maior banda de rock já surgida. E inglesa. Eu falo sério.
Ah, o Neil Young é canadense, o que já coloca o país em terceiro lugar na história de relevância para o rock.
E uma última: tanto o sotaque CAIPIRA americano quanto o sotaque dos NEGÃO são bem melhores que o sotaque britânico.
E mais uma vez: eu falo sério.
=-=-=-=-=-=-=-=-=-=-=-=-=-=-=-=-=-=-=-=-=-==-=-=-=-=-=-=-=-=-=-=-=-=-=-=
Pra quem ficou curioso e quiser saber um pouco da música BRANCA americana, aí vão 10 opções bem boas para quem quiser saber do que eu estava falando. Dez artistas obrigatórios quando se fala em country (e suas derivações, que ainda estão em pesquisa).
E depois, cinco músicas de chorar do chamado alt-country. Pé na estrada.
10 NOMES FUNDAMENTAIS DO COUNTRY E SEUS DERIVADOS
Johnny Cash
Hank Williams
Gram Parsons
Flying Burrito Brothers
The Band
Lynyrd Skynyrd
Blackfoot
Allman Brothers
Juice Newton
Grateful Dead
CINCO INDICAÇÕES PARA INICIANTES NO ALT-COUNTRY
Ryan Adams - Come Pick me Up
Wilco & Billy Bragg - California Stars
Blue Rodeo - Lost Together
Uncle Tupelo - Whiskey Bottle
Will Oldham - I see a Darkness
Prometo em breve dissecar mais ainda este ritmo, em duas derivações complicadas, como o bluegrass, o honkey-tonk, o Nashville Sound, o Outlaw Country e o Appalachian.
Mas aí é FODA.
1) Do “alto” do meu raso conhecimento musical, sempre achei que os EUA e o Brasil tivessem muito em comum na produção musical. São locais ímpares, onde a mistura de raças e culturas produziu as melhores coisas, as mais originais e interessantes da música ocidental.
2) De onde que o Caminho de Santiago é “não-vai-a-lugar-nenhum”? É porque o Paulo Coelho atrelou seu nome à rota? O Caminho não tem culpa. Palavra de quem fez: vale MUITO a pena.
Comment by Bonato — October 7, 2006 @ 11:59 pm
acho esse papo muito 2001.
ou 2003.
não lembro.
vai escutar swayzak, amigo.
Comment by aline — October 9, 2006 @ 11:42 am
wilco eh foda…
ai ai
quero ir num xou deles
nem q seja na disney
Comment by Amelie — October 13, 2006 @ 6:22 am