Verborragia sem concessões

October 18, 2006

O FUTURO TÁ NO GANGSTA

Filed under: música - Carlos @ 7:01 pm

As tendências do rock são estranhas. As mais de cem ramificações do estilo não morrem, simplesmente. Elas estão aí, por vezes underground, por vezes mainstream. Mas o rock sobrevive mesmo é do choque esporádico que ocorre ao longo da história. Os estilos permanecem, evoluem, mudam, mas o choque, ah, o choque, esse precisa estar vivo. Ele precisa acontecer, arrebatar, arrebentar.

O primeiro deles foi com Elvis Presley, em 1955. Matou. Aquele cara bonitão, dançando com roupas justíssimas, causando um frenesi nas garotas, soltando um vozeirão que sobressaía à harmonia simples, de acordes idênticos, uns três ou quatro, contrapondo à idéia jazzística de improviso e estudo, e introduzindo carisma à arte blueseira do sul norte-americano. Sim, Elvis foi um choque, ganhou o posto de rei do rock and roll e trouxe na esteira uma série de semi-deuses, como Chuck Berry, Jerry Lee Lewis e Little Richard. Os negrões começaram a partir para a condução das coisas, e aí o mestre de cerimônias é James Brown, que chuta tudo pra cima e manda o soul pra mente, sem escalas. O rock começou assim: sem distinção de cor, de localização, sem preconceito: machista, curto e grosso. O que esses caras queriam era simplesmente comer mulher e dirigir carrão.

Com os Beatles, a coisa ficou um pouco mais sutil. A ingenuidade de início de carreira deu lugar a uma urgência de transgredir aquele iê-iê-iê que estava sacal. No fundo, foi o primeiro chute contra o pop. Foi dos Beatles, que sacaram que o rockabilly com fins comerciais também era descartável. Os Beatles colocaram psicodelia, tornaram-se músicos, falaram com um cara chamado Robert Zimmermann e mandaram pro mundo o segundo choque que o rock precisava: a partir dali, qualquer experimentação era válida. Os Beatles, os bonitões do rock, fizeram aqueles discos, então qualquer um poderia fazer.

A partir daí, os choques poderiam ser assimilados de uma forma mais racional. Em 1967, a profusão de gêneros inspirados pela criatividade assustadora que acontecia no mundo, veio a dilacerar o estilo e criar vertentes variadas. Vocês sabem quais são.

Mas eu ouso dizer que depois dos Beatles só vieram dois choques consideráveis: Sex Pistols (1977) e Nirvana (1991). Houve fenômenos e introdutores de competência, como Velvet Underground, David Bowie, Led Zeppelin, The Clash, Bob Marley, Marvin Gaye, Pink Floyd, Jimi Hendrix, Run DMC, Guns N’Roses, Oasis, Chili Peppers, Strokes, Eminem e White Stripes. Cada um com seu motivo, sua razão. Mas CHOQUE, só com Sex Pistols e Nirvana. O choque é como se fosse um chute no que está em vigor, rasgando tudo que foi concebido e iniciand uma nova concepção de como pensar o estilo. Chega e diz: isso é possível, isso é plausível e assim que vai ser. E assim foi, de fato. Há quem simplesmente não goste de Nirvana, mas se não fosse a banda, não haveria essa multiplicidade de informação pra gente simplesmente escolher o que a gente quer. O Nirvana colocou o alternativo como centro, e não precisava ter outros requisitos para vingar. Choque.

A imprensa, principalmente, procura um novo choque, volta e meia. Sob o título de salvação do rock. Strokes foi, por umas semanas, mas acho que passou. Foi importante pelo fato de que uma série de bandas seguiram suas iniciativas. Mas longe de ser um choque.

O rock, ou o pop, porque o rock é pop, segue por três vertentes básicas, independente dos outros estilos, que ainda se mantém: o emo, que creio eu, passa em três anos; o rock cru, que creio eu, passa em cinco anos; e o gangsta rap.

Dos três, eu acredito mais no gangsta. Ao contrário das afetações homossexuais do emocore e da produção maciça em não se produzir do “rock simples” (vide bandas que começam com THE alguma coisa), o gangsta é mais autêntico, por incrível que pareça.

O gangsta é simples: negrões cheio de jóias, até nos dentes, mandam rimas sobre mulheres gostosas, drogas e carrões. Falam palavrões, não abrem concessões para as censuras ainda existentes nos FUCK que a MTV faz, não choram, não se emocionam, usam armas, são briguentos, levam tiro, se chapam. E mais: musicalmente são mais ricos do que qualquer uma dessas bandas novas. Recorrem a bases absolutamente fantásticas, mantém comprometimento com o próprio gueto, são apegados às raízes. O gangsta tem produção, mas a produção deles é ensinada quando se tem cinco anos. Ao contrário dos emos, essa androginia repentina de “ah, vou ser isso”, ou dos próprios “roqueiros” brancos, esses os que mais se auto-produzem. Aliás, por onde andam The Hives e The Vines, as duas salvações de 2002?

E por incrível que pareça, da onda britânica, a mais autêntica das “novas” ainda é Coldplay. Pelo menos o cara é bom moço. A cena inglesa é quase patética. Comparando com as compatriotas do início dos anos 90, como Happy Mondays, Stone Roses, Primal Scream e Blur, é uma piadinha de neném. Sem essa.

Reproduzo um trecho do início do texto:

O rock começou assim: sem distinção de cor, de localização, sem preconceito: machista, curto e grosso. O que esses caras queriam era simplesmente comer mulher e dirigir carrão.

Não é o rap?

Portanto, viva o gangsta rap e seus negões bagaceiros. A melhor música dos anos 00 se chama “Hey Ya”, do Outkast. Impecável. O Black Eyed Peas é a melhor novidade da década. O Eminem é branco, mas escreve rap como ninguém. Um brinde pra eles, e que venha um choque desse lado. Do outro, ou doS outroS, eu não espero muita coisa.

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