SE É PRA SER ASSIM, FICO ENTRE A PADRE CHAGAS OU O XIS TARECO
Só tinha ido no Beco uma vez, numa formatura. Fui pela segunda vez e particularmente achei uma merda. Sim, uma grande bosta.
Não foi o estranhamento não. Para um freqüentador do Garagem Hermética no período 1997-2002, nenhum inferninho pós moderno poderia provocar choque. Ou então quem já esteve nos mais profundos BURACOS da cidade, considerando algumas poeiras fodidas, como o Sabrina’s Drinks, o falecido JACARÉ, no Sarandi (onde a GRASPA custava vinte centavos) e o Xis Tareco certamente acha uma agüinha com açúcar algumas coisas.
Entretanto, estou fora do circuito. De fato, a noite não é mais a minha. Não saio há algum tempo e me sinto um peixe fora d’água em alguns lugares. Eram outros tempos, eu cresci, criei barriga, fiquei velho, um pouco amargo e sem qualquer ritmo de jogo que possa acompanhar um bando de indies emergentes anfetaminados.
Restou pra mim analisar. Já falei, sou crítico profissional. E a noite do Beco foi um prato cheio pra análises dessa parte. E aqui vamos traçar um perfil do que é ser pós moderno no paralelo trinta em 2006. É fácil, bem fácil.
1) Os pós modernos pregam a (neologismo) dessexualização. Ninguém tem sexo definido e são todos assexuados e supersexuados. Em um futuro imaginado por eles, os PÓS/POST, tudo se funde em uma androginia divina, maravilhosa, em que o homem pode e DEVE ser afeminado e a mulher pode e TEM OBRIGAÇÃO de tomar as rédeas. Quanto mais mulher o homem, mais sexy ele será.
2) Pós moderno gosta de música ruim. Uma mescla de eletrônica sem melodia com essas bandinhas novas de baixo reto, guitarra repetida e voz sufocada. Qualquer coisa antes de 2001 soa como velha e obsoleta, mesmo que essas bandas chupem até as bolas de coisas geniais, como The Stooges, por exemplo. O que vale é o novo, numa estética comprada, pré-fabricada, nojenta.
3) O pós moderno só sabe conversar sobre internet. E usa termos de internet como se fosse o pão francês da esquina ou o trânsito ou o tempo. Eles só falam sobre isso. Como a maioria passa a maior tempo em casa, permeia suas relações sociais através do msn. O monitor é a bola de futebol do moleque das antigas.
4) O pós moderno se diz aberto, mas condenaria profundamente qualquer playboy que lá fosse com camisa abotoada até o pescoço, cabelinho com gel até as fuças e sapato combinando com o cinto. Ou então, eles são mais sutis: quanto mais esquisito e mais “PÓS”, melhor. Ah, eles não gostam de gordos, desaprovam a normalidade visual e fazem questão em reparar nisso o tempo todo.
5) O pós moderno é visual. Ele não consegue estabelecer um diálogo sincero, simples e simpático. Ele olha mais do que faz. Olha, repara e desaprova. Ou aprova.
6) O pós moderno é o tipo de pessoa que escolhe a amizade pelo que a pessoa REPRESENTA e não pelo que a pessoa é. É legal ter amigo viado? O pós moderno vai fazer questão em ser amigo do viado muito mais do que de outro. É legal ter amiga sapata? Ah, nem brinca, já é minha parceira.
7) O pós moderno macho precisa parecer viado. Ele não gosta de homem, mas quer que todo mundo pense isso porque, afinal, a pós moderna fêmea tem queda por quem parece viado. Androginia, babe, tempos modernos. Quanto mais houver a negação do próprio gênero, melhor.
8) O pós moderno é como o novo rico. Enquanto mija em banheiro com merda na porta, sai dele arrotando que sabe falar francês, que baixou a discografia completa do Arctic Monkeys e que hospedou um vídeo no youtube. Enquanto se vangloria de todos esses feitos patrocinados pela família, a bunda tá toda assada de sentar numa patente fudida e mal ter se limpado com o papel.
9) O pós moderno é um hipocondríaco por estilo. Adoriaria ter as seguintes doenças: miopia, pra comprar um óculos de aro grosso e ter estilo; anorexia, pra ficar seco, e magrelos são hype, na língua deles; vitiligo ou albinismo, pra ficar branco o ano todo e não poder ver o sol; e claro, não poderia faltar, a número um: DEPRESSÃO. Afinal, pós moderno que se preze toma fluoxetina como se fosse água.
10) Por fim, pós moderno que se preze tem que ter uma verve de profeta. Alguns já estão aderindo à moda de usar o cabelo estilo Chitãozinho e Xororó anos 2010, antecipando uma tendência. Além das camisetas ultracurtas, das calças justíssimas e de munhequeiras sem sentido, ainda há as pós modernas, que, DE FORMA ALGUMA, deixam seu cabelo comprido e escorrido, ou com franja. Por mais lindas que as mulheres fiquem desse jeito (na minha opinião), elas picotam o cabelo de um jeito amador e tiram toda a sensualidade existente em um lindo cabelo longo. É a androginia mais uma vez, quando mulheres ficam mais “homenzinhos”.
Enfim, o pós moderno nada mais é do que um indie emergente. Como, repito, já estou nessa palhaçada há algum tempo, eu mais acho graça do que levo a sério. Os dez itens são obrigatórios para os novatos se enquadrarem no “admirável novo mundo indie” da CENA.
Talvez eu seja mal humorado e chato. Talvez se estivesse com um grupo grande de amigos, acharia bem diferente. Mas não foi assim e eu, claro, até gostei da minha análise. Alguns vão se irritar, não vão gostar e vão criticar.
Pra fechar a noite com chave de ouro, recorri ao antídoto pra tudo isso: ouvi na seqüência dez sambas-enredo históricos e percebi que gosto de carnaval. Até me deu saudade do Ibiza. Antigamente, eu chegava em casa e soltava um MINISTRY pra refrigerar os ouvidos.
Melhor parar por aqui. Eu realmente estou ficando velho.
Adorei esse post. Muito bom, mesmo.
Comment by Vica — November 1, 2006 @ 2:00 pm
Bah meu… muito bom!!! xarope mesmo!!!
Comment by Gustavo — October 26, 2007 @ 9:54 pm