NÃO PERCA A 60B. MAS PODE OLHAR PARA O CÉU.
Eu não olho pro céu em Porto Alegre. Eu pego o carro, trabalho e volto. Saio de noite, com amigos. Mas às vezes, só às vezes, eu saio a pé. Eu desço a Protásio e vou até a Redenção. Aí eu olho pro céu, pra todos aqueles desenhos de nuvens que a gente enxerga quando é criança. E, de certa forma, eu renasço. Eu me fortaleço, abro um sorriso no rosto e vejo três jovens tocando violão sentados e tomando chimarrão. Um cachorro bonito e duas senhoras caminhando. Um guri de 9 anos tentando imitar o Ronaldinho Gaúcho. Dois namorados andando de pedalinho. Ou dois executivos engravatados também parando, só um pouquinho, para tomar um chope, enquanto descarregam suas pastas em cima da mesa. É quando meu sorriso fica maior ainda e eu aumento o volume do meu ipod e coloco numa música que vai me lembrar aquilo para o resto da vida. E eu olho para o céu e tudo volta a fazer sentido.
Os tempos são difíceis, eu sei. Mas aí eu pego o carro e vejo o Rio. Ou eu caminho no centro de Porto Alegre, até o Guaíba, e me sento numa mesa que eu nunca sentei antes. Deito no meio da Praça da Matriz, desço o viaduto da Borges e chego até o Rio. Conto histórias. Ouço uma música. Vejo as pessoas caminhando, tomo uma água. O sol bate no rosto, anunciando que é tão simples ser agradável ou feliz. E se amanhã for difícil, a gente inventa, ah, a gente inventa.
Pego o carro e vou pra praia sozinho. Vejo aquele bar em Capão da Canoa. Vejo aquele vendedor de quinquilharias, no mesmo lugar, com a barraquinha do lado daquele mesmo crepe que eu comi uma vez. Vejo minha casa em Atlântida Sul, o centro comercial, algumas casas que eu freqüentei, uns lugares onde bebi, umas pessoas que eu conhecia. Chego no mar, olho para o céu. O mar tá revolto, e o vento te enche de areia. A areia não suja, te deixa vivo, absolutamente seguro de que ali é o teu lugar.
De vez em quando eu tenho saudades. Aí eu pego uma foto ou lembro de uma data. Ou escuto uma música e sei exatamente onde eu estava quando aquela música estava tocando. Lembro do que aconteceu e eu fico bem mais uma vez. Eu escuto aquela música e, de alguma forma, bate um conforto imenso que me acolhe maravilhosamente. Eu fico bem. Não eufórico, nem melancólico. Apenas bem. Só com a lembrança. E aí, repentinamente, a memória de um sonho bom, de um dia perfeito, de uma música espetacular, de uma história contada, tudo isso, vira um outro momento. Pronto. E mais uma vez olho para o céu.
Às vezes os dias são cansativos. Aí eu saio, pego o carro, uma cerveja e basta. Eu, minha música, uns goles e uma noite onde cada personagem que está nela vai ter uma trajetória completamente diferente da tua. Olhando na rua, aquele cara pode conhecer a mulher da vida dele. Aquela menina vai beijar alguém que nunca será dela. Os namorados vão brigar. Os pedintes vão continuar pedindo. A guria vai tomar um trago inesquecível. Aquele sujeito vai vivenciar o melhor aniversário da vida dele. Eles estão se casando. É o primeiro encontro deles. Ou talvez esta noite, para muitos, seja mais uma noite, não mais do que uma data que nunca será lembrada. Mas eu lembro das minhas noites, das minhas datas, e depois de um dia ruim, eu volto a olhar para o céu e eu noto a lua. E estrelas. Ou até nuvens. Mas eu fico bem, mais uma vez.
Dizem que eu faço minha vida parecer um filme. É a mais pura verdade. Esta é a minha bengala. Não preciso de terapia. Pra mim, basta uns litros de gasolina, uns cigarros, um pouco de movimento, talvez uma cerveja e uma paisagem. Tudo fica bem. A vida é muito curta, às vezes é preciso parar e dar uma olhada no que tá rolando. Um auto-encontro. Eu, eu mesmo, um sol, com planetas independentes girando ao meu redor e fazendo coisas independente de mim.
É como na viagem de Elizabethtown. Ele, a música e as lembranças. E bons lugares. Bastou para ele, sozinho, ter os melhores minutos de sua vida. Mesmo que lá fora, nos planetas, as coisas não estavam tão bem assim. É como um retorno pra casa, como em Garden State. Vendo tudo de um pedestal, de um ponto máximo, como espectador de vidas que fizeram parte de seu crescimento. Mas, mais do que nada, voltando-se para si, somente ele, mais ninguém. É como um road movie, sem sair muito do lugar. Sair fora, voar, sentir-se livre e nesse momento, imaginar tudo o que de real aconteceu. E se sentir real, mesmo parecendo solitário. Uma auto-análise que te coloca em diversas estradas, para você seguir o rumo que desejar. Uma é a certa. Do not miss the 60B.
Eu acho que o verdadeiro amor próprio se encontra quando estamos sozinhos. Descobri que eu me suporto muito bem. Eu gosto de mim, de todas as minhas neuras, das minhas manias e do que eu sou. Do meu conhecimento e das minhas lembranças. Do meu folclore, como quer que definam, do meu jeito às vezes insuportável e das minhas críticas a todos. Aprendi isso olhando para o céu. Aprendi isso lembrando das coisas. Aprendi isso sozinho. Aprendi me encontrando, nesses caminhos, ouvindo esses discos, conversado com essas pessoas.
Amanhã é outro dia, tem tanta coisa pra fazer. Mas os dias acabam, têm só 24 horas. E se não for pedir demais, mate-me em dezembro, porque semana que vem eu tenho compromisso. Marquei um encontro. Não é com os Beastie Boys, nem com meus amigos. Marquei um encontro comigo. Por um tempo, comigo.
Simples assim. Este é o medidor da felicidade. Se você se pegar, na rua, do nada, olhando para o céu, acredite meu amigo: você é feliz. É pouco, não? Uma grana, uma bonita vista e um punhado de lembranças, que até fazem você acreditar naquele velho compositor baiano que dizia que tudo é divino, tudo é maravilhoso. Talvez seja. Talvez seja assim mesmo. Como nos filmes. Não é quando eu recebo multa, quando o computador estraga, quando o SERASA me descobre, quando eu não fecho a pauta, quando sou cobrado, quando falta dinheiro, quando eu brigo com amigos, quando eu durmo pouco, quando o cabelo precisa ser cortado, as unhas aparadas, quando chove, tem trânsito, tem assalto, quando eu espirro. Mas nesses momentos todos, em todos, todos eles, é um filme.
Esse é o meu filme. Uma série de acontecimentos curtos ao longo de uma vida absolutamente normal. E, acreditem, eu gosto desse filme. E eu faço ele do meu jeito. Um grande filme, com inúmeros coadjuvantes, alguns atores secundários e outros principais.
Mas a estrela máxima, nesse filme, sou eu. Desta vez, olhando para o céu. E me lembrando de tudo, tudinho. E abrindo um sorrisão, aquele, de orelha a orelha, com os olhos brilhando e anunciando, pra mim mesmo, que eu tô é bem demais.
O texto acima tem referências a diversos filmes e músicas que, de alguma forma, fizeram e fazem sentido pra mim.
Trilha do post:
Ryan Adams - Come pick me up
Belchior - Apenas um rapaz latino americano
The Shins - New slang
Imogen Heap - Hide and seek
Wilco - Sunken treasure
Jeff Buckley - Lover, you should’ve come over
Snow Patrol - Chocolate
Weezer - Island in the sun
Elton John - Tiny Dancer
Lisa Loeb and Nine Stories - Stay
Cary Brothers - Ride
Damien Rice - The Blower’s Daughter
Aimee Mann - Today’s the day
U2 - Stay (Far away, so close)
Pulp - Like a Friend
Smashing Pumpkins - Thirty Tree
Neil Young - Keep On Rockin In the Free World