Verborragia sem concessões

November 2, 2006

BEASTIE BOYS - 31/10 - CURITIBA

Filed under: música - Carlos @ 3:35 am

Eu realmente acredito que as grandes bandas só conseguem atingir este status quando se vê de perto. Chegar para ver Beastie Boys era apenas uma confirmação desta expectativa. No entanto, o que se viu na noite do dia 31 de outubro foi uma apresentação absolutamente antológica dos três MC’S e um DJ nova-iorquinos. Mas antes de falar disso, daquela catarse, de uma seleção impecável de carisma com seqüência de hits, há de se analisar mais profundamente o TIM FESTIVAL, ao menos o que chegou a Curitiba.

Perdi Nação Zumbi. Realmente, o festival começou às 19h. Não acreditamos, é fato, mas até tava legal consumir SOL garrafa por 1,50, ali, perto da Visconde de Nacar com Augusto Stenffeld. Ou algo assim. Chegamos e os pernambucanos, que eu queria conferir, já tinham deixado o palco.

Hora do DJ Shadow. Eu sou absolutamente leigo em música eletrônica. Logo, o DJ Shadow pra qualquer um que coloque som em rave perto do aeroporto dá no mesmo pra mim. Não tive como analisar, mas acho que seria melhor um outro ambiente pra ele. Mas tinha um MC, o que dá qualquer qualidade para as bases colocadas.

Eu gosto da Patti Smith. Acho que a platéia não conhecia muito, a não ser o Tonho Crocco, que tava na minha frente cantando as músicas e sendo reconhecido. Mas é meio foda ver a Patti Smith, que concebeu uma obra chamada Horses (1977) sendo ESQUENTA pra, por exemplo, os Yeah Yeah Yeahs. Um Iggy Pop de saias, com um incrível domínio de voz e alternância de punks com violões e alguns hits (uma das frases da noite: e essa música aí que ficou ETERNIZADA na voz de Natalie Merchant, alguém referindo-se a Because The Night, que estourou num acústico pra MTV dos 10000 Maniacs). Extremamente agradável e respeitosa com o público. É a idade, a experiência, os anos e os maravilhosos serviços prestados ao bom róque.

A experiência que fez Patti Smith ter uma postura digna deve ter deixado na própria Patti uma sensação de “Ihhh, garota, um dia tu aprende” quando ela olhou para Karen O, vocalista do Yeah Yeah Yeahs e sua performance de rock-star-vejam-como-estou-chapada. Yeah Yeah Yeahs não é de todo ruim. Tem uma guitarra muito boa, boa mesmo. Algumas melodias interessantes, um pequeno potencial de médio prazo, mas só. Os indies que estavam lá (pasmem, não era maioria. SALVE BEASTIE BOYS!) adoraram e sabiam cantar músicas que eu nunca tinha ouvido antes. O problema é a própria performance da menina. Cheia de maneirismos, investe em clichês como enfiar o pedestal entre as pernas, não articular frases, tomar água e cuspir pra cima e outras peculiaridades do gênero. Assim, isso é velho. Se ela controlar isso e os gritos, pode começar dar certo.

E aí vieram os Beastie Boys. Não é exagero algum dizer que o show do BB está entre os cinco melhores shows que eu vi em 27 anos. O DJ, Mike Master Mix, é um monstro. Os três, vestidos de terninho, perfeitamente integrados, soltaram um hit após o outro. Um show de RAP, puro, contundente, de fala, de recado. Com coreografias impagáveis, estilo e muito, mas muito carisma. Os três, já há mais de 20 anos na estrada, sabem exatamente o que estão fazendo. E dá pra notar que estão ali para se divertir. Brincadeiras com o prefeito da cidade, pedindo a chave da cidade, solicitando mais interação do público, separado inaceitavelmente por um fosso que deixava o espectador mais próximo a uns 10 metros de distância do palco. Piadas internas, bolo de aniversário para Ad-Rock e no mais, rap velho, rap vindo de três brancos judeus que conseguem fazer isso mais do que qualquer banda no mundo. Pausa para o bis e aí vem a paulada. Os três pegam instrumentos, baixo + guitarra + bateria + DJ pra mandar um final apoteótico, com “Sabotage” fechando o show e explodindo com a Pedreira Paulo Leminski. Indescritível e uma sensação de que realmente Beastie Boys é a melhor banda de rap de todos os tempos. E são brancos.

Sobre o público em Curitiba, uma curiosidade. A diversidade fez com que o lugar estivesse mais agradável. Lá estavam manos, skatistas, surfistas e normais, misturados ao domínio indie na tendência mundial e a alguns fãs de música eletrônica. Isso foi bom. Ver indies cantando Yeah Yeah Yeahs, tão meiguinhos e depois ver todo mundo alucinado com mãos erguidas, rimando e fazendo pose de mano.

É nessa hora que se separa o joio do trigo. Aí a gente vê quem é gente grande e quem manda o recado. E quem saiu da noite de ontem da Pedreira Paulo Leminski teve essa sensação. No maior show de 2006, Beastie Boys tacou-lhe hit atrás de hit, porrada atrás de porrada, só na fala. E ainda por cima deu aula, num final mais rock do que qualquer coisa surgida nos últimos anos, mesmo sendo uma banda de rap. E fica o ensinamento dos três, MCA, AdRock e Mike D: atitude, meu velho, não se compra. Não se olha em catálogo, não se repara nos outros e imita. Atitude e talento é só pra quem pode. Pass the Mic, And Rock Y’All.

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