Comprei um tênis. Um PUMA, o que eu queria. Foi estranha a tarde da folga, principalmente pela espera. Mas valeu. Decidi que assistiria a Little Miss Sunshine. Não só vi o filme como simplesmente assisti ao melhor filme de 2006 até o momento. Superou o brilhantismo e a quase perfeição de “Um Plano Perfeito”, que era até então o melhor do ano.
“Pequena Miss Sunshine” é uma pequena obra-prima do cinema da sutileza. Há muito não via um filme onde TODAS as interpretações são absolutamente sublimes. Greg Kinnear, como o pai obcecado pelo espírito do sucesso a qualquer preço; Toni Colette como a mãe insatisfeita com o marido e que tolera qualquer desvio da família em nome de não se incomodar; Paul Dano, o filho que não fala mas consegue expressar uma dor de ser incompreendido; Alan Arkin, que, pra mim, merece uma indicação pra ator coadjuvante, numa atuação impagável como o avô viciado em heróina; e Abigail Breslin, no papel de Olive Hoover, a menininha que vai concorrer ao Miss Sunshine, pra mim a melhor atuação de uma criança nos últimos dez anos. E o MESTRE Steve Carell, mostrando uma versatilidade impressionante, um quase Bill Murray, mais do que Jim Carrey no drama, com uma veia impressionante para comédia e para a tragédia. Um elenco afinadíssimo, que enche os olhos de qualquer um que goste de cinema.
O filme brinca com o americano obstinado pelo sucesso. No final das contas, todos da família são fracassados, mas são comuns. Se amam, se odeiam, vão mal, mas no final das contas, se sabe que é tudo uma questão de REDENÇÃO. Os valores permanecem, ninguém é absolvido por completo de suas culpas. Mas em um momento, a redenção, a família unida, o amor que aparentemente não é mostrado, esquecido, camuflado pelos objetivos egoístas, ele reaparece. Depois é esquecido, mas e aí, azar. Já comoveu todo mundo. Lindo de se ver.
Aliás, ultimamente o que mais me chama atenção nas telas é o cinema mínimo e singelo. Outro grande filme visto foi “A Lula e a Baleia”, uma pérola melancólica, direta e comovente. Um chute na hipocrisia, mas sem violência. Quase um SOPRO nessa hipocrisia, com um contraste tocante a respeito das descobertas adolescentes e de seus dramas após uma ruína familiar. A mentalidade de dois meninos completamente alterada após eles perceberem que aquela estabilidade e normalidade, a fortaleza da família, era apenas uma fachada, construída para a proteção deles mesmos. Outra obra recomendável.
Ando meio familiar ultimamente. Eu penso bastante a respeito da minha família e inacreditavelmente é um assunto que não me deixa nem um pouco confortável para falar ou escrever. Eu meio que falo o que eu quero, mas não é bem assim, existem coisas que a gente não toca pra se proteger.
Sou filho de pais separados e entendo perfeitamente o processo de desmistificação existente após uma separação. Afinal, todos somos de formação cristã. Basicamente, aprendemos que o certo para o crescimento é pai-mãe-avôs-avós-filhos. Depois, a ficha cai e a gente vê que não é tão sólida assim essa construção. A base familiar tem como importância fundamental fazer a criança acreditar que há essa tal base. Às vezes, há. Em outras, é um caos. Nos dois filmes, este é o exemplo. De como nossos heróis viram uma decepção de uma hora pra outra quando eles estão perdidos em suas próprias confusões, dúvidas e desgostos.
Mas aí vem, como eu disse, a redenção. Aquele pequeno momento em que simplesmente a gente esquece nossos próprios pecados, nossos erros com os outros, nossas desavenças, nossos vacilos e se entrega, num curto espaço de tempo, defendendo com unhas e dentes quem a gente ama, mesmo que a gente tenha feito mal pra essas pessoas.
Se tu for ver, de perto, todas as famílias são iguais. E se aproximar mais ainda essa lente, num zoom máximo, a gente vai ver que todos os relacionamentos são iguais. Quaisquer que sejam.