Verborragia sem concessões

November 14, 2006

NOTA DE CABEÇALHO (no caso)

Filed under: cinema - Carlos @ 4:15 am

Comentário a respeito de “O Ano em que meus pais saíram de férias”, de um crítico estrangeiro:

Masterpiece, maybe the best Brazilian movie since City of God

Concordo.

SOU MAIS O GUAÍBA

Filed under: porto alegre - Carlos @ 3:24 am

Caminhei na Beira-Rio, do Estádio até o Gasômetro. Piques de corrida. A pé até a redenção. Passei pelo meio da Cidade Baixa antes. Antes, fui de carro até Ipanema. Dias atrás, visitei a Feira do Livro. Vi o Gasômetro. Fui no velho centro. Atravessei a Praça da Matriz. Gosto da Redenção. Corri duas voltas no Parcão. Passei de carro no Olímpico. Fui até Ipanema de carro. Entrei de carro na Borges, passei por debaixo do viaduto. Cruzei o Marinha do Brasil. Gosto do Largo da Epatur e do cruzamento da Venâncio com a Osvaldo, ali, quando depois vira Protásio. Jantei no Barranco. Dei voltas e voltas na Encol. Dobrei na Edu Chaves pra pegar a Avenida dos Estados, antes do Aeroporto. Vi de longe, chegando pela 116 ou pela 290. Passei por debaixo da ponte do Guaíba.

Só troco Porto Alegre por Rio e São Paulo no Brasil. Não conheço BH, não posso dizer. Mas das outras, Curitiba, Florianópolis, Recife, Salvador, Fortaleza, Brasila (onde não sou eterno), dessas eu posso dizer. Fora outras menos cotadas, como Natal, João Pessoa, Maceió e Aracaju, onde também estive. E repito: Porto Alegre é a terceira melhor cidade do Brasil. Perde pra São Paulo, por seu espírito cosmopolita e sua abertura de mercado excepcional, especialmente na minha área, e perde para o Rio (mas qualquer coisa perde pro Rio, é incomparável).

O problema de Porto Alegre são os porto-alegrenses que passaram muito tempo no computador escutando bandas inglesas e acham que o Brasil é uma merda. O problema de Porto Alegre são os porto-alegrenses que acham que Porto Alegre é um ovo. O problema de Porto Alegre são as panelas culturais que acham que só ELES conseguem fazer alguma coisa de produtiva (mesmo que não sejam reconhecidos além-Mampituba). O problema de Porto Alegre são aqueles que acham que a cidade é um OVO, só porque não saem dos mesmos lugares e obviamente cruzam sempre com os que vão nos mesmos lugares. O problema de Porto Alegre são as pessoas que delimitaram um cotidiano que não sai dos seguintes limites: a oeste, o Guaíba. Siga para o sul, até a Ipiranga, Pela Ipiranga, trace uma linha reta que vai até mais ou menos a Terceira Perimetral. Sobe a Perimetral, aí ela vira Carlos Gomes e vai até a 24 de outubro. Desça a 24 de outubro, dá uma pegadinha na Bordini à direita, e a Cristóvão à esquerda, até a elevada da Conceição encontrar o Rio. Um grande quadrilátero, com alguns vizinhos conhecidos, mas que não foge disso. Fora disso, tem a ZONA NORTE DELES (Iguatemi e Bourbon Country), a ZONA SUL DELES (Beira-Rio e Ipanema, quando tem sol) e a ZONA LESTE DELES (PUC). São os limites do porto alegrense que acha que a cidade é um OVO.

Resumindo: o problema de Porto Alegre é o povo que não gosta de Porto Alegre. E que ao invés de ficar sonhando em falar inglês com sotaque britânico, deveria aproveitar as diversidades diurnas e noturnas dessa cidade que me pariu, me criou, me formou e me deu alma.

O ANO EM QUE MEUS PAIS SAÍRAM DE FÉRIAS

Filed under: cinema - Carlos @ 2:56 am

Falei sobre filmes sensíveis e um desses quase arrancou lágrimas que há tempos não chegam por aqui. “O Ano em que meus pais saíram de férias” é uma resposta absolutamente VIOLENTA pra aqueles leigos, idiotas, preconceituosos e vazios que persistem em dizer que “cinema nacional é só pra mostrar o lado podre do país, e que o único bom é Cidade de Deus”. Bom, essa gente deve ter gostado de OLGA.

“O ano em que meus pais” se passa em 1970. Se para o mundo 67 e 68 foram OS ANOS, certamente no Brasil esse reflexo chegou em 70. Coincidentemente à barra mais pesada de todas nos anos de chumbo, com prisões, torturas e pânico sem qualquer tipo de concessão, apresentamos ao mundo o maior time de futebol já feito na história.

E é essa divisão que é retratada de uma forma absolutamente sublime pelo diretor Cao Hamburguer, aquele do Castelo Rá-Tim-Bum. A história: um menino é deixado na casa de seu avô pelos pais, que vão pra luta armada contra a ditadura. O avô morre e ele tem que ser cuidado por um judeu, num prédio de judeus, num bairro de judeus.

A partir desse argumento, o confronto étnico normal pelo garoto não ser gói, pegando pelo lado cômico. Mas o mais divertido mesmo é o conflito que o povo brasileiro vivia na época. De um lado, a discussão: “Pelé e Tostão podem jogar juntos?”, uma desesperança com o país e com o time do Brasil. Começa a Copa e um momento resume tudo o que era o país. O personagem de Caio Blat afirma: “Quero que a Tchecoslováquia vença. Seria bom para o socialismo”. No entanto, o BRASILEIRO Caio Blat, depois de vibrar pouco com o gol tcheco, enlouqueceu com os quatro gols brasileiros na estréia.

O menino passa por descobertas, faz amizades e não entende direito o que acontece. O filme mostra direitinho a formação de personalidade de alguém que sequer sabia o que significava toda aquela repressão, só querendo os pais de volta. Uma atuação emocionante, uma direção de arte belíssima, resultando num filme sublime, mágico, singelo e emocionante. Confesso que ao ver os gols do Brasil algumas lágrimas quase surgiram, meio que me remetendo virtualmente àquela época, desejando imensamente estar de perto pra conferir o Brasil censurado e o Brasil de Pelé. Os dois Brasis, dois países divididos, entre a paixão e a vontade de ir e vir.

Foi a primeira Copa transmitida ao vivo para o Brasil. Talvez a que mais o torcedor brasileiro vibrou. Justamente pra soltar de dentro algum tipo de orgulho que eles tinham do país.

Nessas horas eu me irrito com quem não gosta de futebol. Será possível não perceberem que, coletivamente, é a maior paixão do nosso povo? A única coisa que pode unir milhares de pessoas que aparentemente só tem uma razão: torcer para a vitória. Um triunfo de seu clube, de seu país, é algo inimaginável, transcendental. O futebol é foda. Queria estar ali em 70, talvez nem tanto, porque eu estava em 94, quando o Brasil foi tetra. E a vibração foi a mesma, aos 15 anos. Senão chorei, me arrepiei profundamente em umas cinco seqüências do filme. Talvez por pensar como qualquer torcedor apaixonado e saber que depois do amor, o futebol é o que me desperta esse sentimento. Junto com a música, certamente.

Outra coisa interessante no filme é o ESMERO com que são colocados atos do dia a dia. O menino ajeitando o goleiro do time de botão, o velho colocando açúcar no café, o goleiro preparando-se pra defender um pênalti. Detalhes são bonitos: uma moça dobrando a roupa, um músico afinando um instrumento, um senhor lavando o carro com cuidado, uma professora caprichando na letra corrigindo provas, uma velhinha regando plantas, crianças jogando bola na rua. São esses os detalhes mais bonitos da vida.

“O ano em que meus pais…” é um filme de pequenos detalhes, que emocionam. E um filme de conflitos, em que nenhum momento apela para maneirismos visuais. É simples. E bem cuidado. E nada é mais bonito na vida do que uma simplicidade bem caprichosa. Capricho, essa é a palavra que emociona.

Get free blog up and running in minutes with Blogsome | Theme designs available here