Verborragia sem concessões

November 14, 2006

O ANO EM QUE MEUS PAIS SAÍRAM DE FÉRIAS

Filed under: cinema - Carlos @ 2:56 am

Falei sobre filmes sensíveis e um desses quase arrancou lágrimas que há tempos não chegam por aqui. “O Ano em que meus pais saíram de férias” é uma resposta absolutamente VIOLENTA pra aqueles leigos, idiotas, preconceituosos e vazios que persistem em dizer que “cinema nacional é só pra mostrar o lado podre do país, e que o único bom é Cidade de Deus”. Bom, essa gente deve ter gostado de OLGA.

“O ano em que meus pais” se passa em 1970. Se para o mundo 67 e 68 foram OS ANOS, certamente no Brasil esse reflexo chegou em 70. Coincidentemente à barra mais pesada de todas nos anos de chumbo, com prisões, torturas e pânico sem qualquer tipo de concessão, apresentamos ao mundo o maior time de futebol já feito na história.

E é essa divisão que é retratada de uma forma absolutamente sublime pelo diretor Cao Hamburguer, aquele do Castelo Rá-Tim-Bum. A história: um menino é deixado na casa de seu avô pelos pais, que vão pra luta armada contra a ditadura. O avô morre e ele tem que ser cuidado por um judeu, num prédio de judeus, num bairro de judeus.

A partir desse argumento, o confronto étnico normal pelo garoto não ser gói, pegando pelo lado cômico. Mas o mais divertido mesmo é o conflito que o povo brasileiro vivia na época. De um lado, a discussão: “Pelé e Tostão podem jogar juntos?”, uma desesperança com o país e com o time do Brasil. Começa a Copa e um momento resume tudo o que era o país. O personagem de Caio Blat afirma: “Quero que a Tchecoslováquia vença. Seria bom para o socialismo”. No entanto, o BRASILEIRO Caio Blat, depois de vibrar pouco com o gol tcheco, enlouqueceu com os quatro gols brasileiros na estréia.

O menino passa por descobertas, faz amizades e não entende direito o que acontece. O filme mostra direitinho a formação de personalidade de alguém que sequer sabia o que significava toda aquela repressão, só querendo os pais de volta. Uma atuação emocionante, uma direção de arte belíssima, resultando num filme sublime, mágico, singelo e emocionante. Confesso que ao ver os gols do Brasil algumas lágrimas quase surgiram, meio que me remetendo virtualmente àquela época, desejando imensamente estar de perto pra conferir o Brasil censurado e o Brasil de Pelé. Os dois Brasis, dois países divididos, entre a paixão e a vontade de ir e vir.

Foi a primeira Copa transmitida ao vivo para o Brasil. Talvez a que mais o torcedor brasileiro vibrou. Justamente pra soltar de dentro algum tipo de orgulho que eles tinham do país.

Nessas horas eu me irrito com quem não gosta de futebol. Será possível não perceberem que, coletivamente, é a maior paixão do nosso povo? A única coisa que pode unir milhares de pessoas que aparentemente só tem uma razão: torcer para a vitória. Um triunfo de seu clube, de seu país, é algo inimaginável, transcendental. O futebol é foda. Queria estar ali em 70, talvez nem tanto, porque eu estava em 94, quando o Brasil foi tetra. E a vibração foi a mesma, aos 15 anos. Senão chorei, me arrepiei profundamente em umas cinco seqüências do filme. Talvez por pensar como qualquer torcedor apaixonado e saber que depois do amor, o futebol é o que me desperta esse sentimento. Junto com a música, certamente.

Outra coisa interessante no filme é o ESMERO com que são colocados atos do dia a dia. O menino ajeitando o goleiro do time de botão, o velho colocando açúcar no café, o goleiro preparando-se pra defender um pênalti. Detalhes são bonitos: uma moça dobrando a roupa, um músico afinando um instrumento, um senhor lavando o carro com cuidado, uma professora caprichando na letra corrigindo provas, uma velhinha regando plantas, crianças jogando bola na rua. São esses os detalhes mais bonitos da vida.

“O ano em que meus pais…” é um filme de pequenos detalhes, que emocionam. E um filme de conflitos, em que nenhum momento apela para maneirismos visuais. É simples. E bem cuidado. E nada é mais bonito na vida do que uma simplicidade bem caprichosa. Capricho, essa é a palavra que emociona.

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