YOU ARE MY SWEETEST DOWNFALL
Eu nunca vi algo como isso.
Não sei o nome dessa menina, acho que é Elena, pelo username. Pode não ser. É norte-americana. Aos 14 anos, ela toca com perfeição uma das minhas músicas preferidas: Samson, da Regina Spektor. Ainda por cima canta muito.
Não bastasse isso, ainda tem um vídeo dela tocando A Thousand Miles, da Vanessa Carlton e um outro em que ela faz uma paródia inacreditavelmente criativa do myspace.
Ela tem 14 anos, gosta de jogar futebol, toca piano e canta demais. Ela nasceu em 92, no máximo em 91. Significa que quando, por exemplo, eu entrei na Rádio Gaúcha ela tinha apenas SETE ou OITO anos. Aos 14, com METADE da minha idade praticamente, ela tem mais talento que eu. Certamente, estudou piano desde cedo. Não creio que tenha sido por obrigação, afinal ela leva isso por gosto, como hobby. Por simples facilidade em assimilar o instrumento, por aptidão, foi levada aos estudos. Ainda por cima, interpreta como gente grande, acolhendo uma verve artística e de forma alguma sabotando sua própria vocação.
Eu tenho cinco amigas no orkut que foram minhas colegas no Salvador, já falado e comentado devidamente aqui. Três são mães. Uma tá grávida. Elas poderiam estar tocando piano, fazendo micagem, escrevendo, desenvolvendo alguma aptidão. Uma delas jogava handebol pra caralho. Tá grávida e se formou dentista. Não sei que caminho as outras seguiram. Mas handebol não é sério, e mesmo ela quase sendo atleta profissional, abandonou pra cuidar de dentes.
Não é preciso ter talento pra ser profissional. Eu acredito que eu posso ser um bom advogado, por exemplo. É só estudar o mesmo que os outros que todo mundo se forma naturalmente. Eu não conheço ninguém que tenha negado essa trajetória natural da vida e rumou para um caminho completamente diferente.
Meu amor e ódio por Porto Alegre, o meu sentimento bipolar por esta cidade que me deu cria e hoje me fode, mais uma vez se manifesta. Por que diabos ninguém aqui consegue ser original? Por que todo mundo gosta das mesmas coisas de um lado e das mesmas coisas de outro? Por que não tem alguém que conseguiu se livrar do vício do convívio, dessa mesquinharia de referências? Por que não existe alguém que, por exemplo, toca piano, canta, faz palhaçada e joga futebol?
Eu acho que o primeiro mundo nos ganha nisso de lavada. Eles acreditam em sonhos. A gente pensa que sonha. No fundo, a gente só segue o trilho do trem. Nos fazem um teste vocacional, não nos apontam nossos talentos e a gente cai nesse baú cheio de referências torpes de cidade chinfrim, mesmo que eu queira admitir que possa ser, volta e meia, cosmopolita.
É aquilo: ou se vai no Ocidente, ou se vai no Pipe ou se vai num lugar que toque pagode. Nos dão três opções: Kaiser Chiefs, Shakira ou Revelação. Só. Se preferir, Comunicação Social, Engenharia ou Direito ou área da saúde. Ou então, fica em casa cuidando do primeiro filho que teve aos 18.
Desculpem-me leitores, amigos, ex-namoradas, pretendentes, inimigos, porto-alegrenses, brasileiros, conhecidos ou qualquer um que tá lendo isso. Mas a pessoa mais original que eu vi nos últimos meses eu vi em três vídeos, tem 14 anos e eu sequer conheço. Talvez ela seja igual a vocês, mas então que coloquem a porra de um vídeo assim no youtube e me surpreendam, tá? Ou sei lá, entrem para um circo, toquem Neil Young no violão, pilotem um Fórmula Um, sapateiem, dancem de verdade, filiem-se ao PV, construam um telescópio, escalem a chaminé do gasômetro, joguem xadrez com os velhinhos da Praça da Alfândega, sei lá, não importa. Mudem, fujam desse marasmo produzido em série que é Porto Alegre. Sejam diferentes, originais. Porque esta menina, lá de não sei onde, foi a única que conseguiu despertar algum tipo de SÍNTESE DE VIDA nos últimos meses. O resto? Ah, meu, nessa escola que vocês acham que tão abafando, eu já fui até JUBILADO.
Dica: Regina Spektor - Samson