Verborragia sem concessões

November 23, 2006

CÊ, de CAETANO VELOSO

Filed under: música - Carlos @ 7:15 pm

Caetano Veloso por si só é um evento. Um disco do Caetano de inéditas então nem se fala. O de 2006 é “Cê”, anunciado por todos como o disco de rock do Caetano. Nenhuma novidade para quem conhece a carreira do baiano.

Em 84, ele lançou “Velô”, que tinha “Podres Poderes”, um disco altamente sintonizado com o que acontecia na época. Com influências do pós punk, da new wave e das bandas britânicas da época, Caetano no período misturou Ritchie, Gang 90, Gang of Four, Clash, B-52’s e Metrô, realizando um disco honestíssimo, com excelentes letras e fugindo completamente do Caê natureba da Outra banda da Terra, no final dos anos 70. Os 80 chegaram e Caetano seguiu um rumo completamente diferente do escudeiro Gilberto Gil, este flertando ainda com a MPB e muito com o reggae.

Vinte anos depois e Caetano se repete. Enquanto Gil dá palestras, é ministro e não consegue lançar nada que preste desde “Quanta”, vide exageradas incursões no forró e nas covers de Bob Marley, Caetano não perde o prumo. Podem falar o que quiser do cara, mas certamente uma qualidade do cantor é o fato dele ser ANTENADO. Em entrevistas, fala livremente sobre Kings of Leon, Arctic Monkeys e Arcade Fire.

Em “Cê”, Caetano seguiu essa onda. Ainda mais agora que o hype do momento, Devendra Banhart, confessou ser um fã do compositor brasileiro. Ele foi na esteira. Lançou um disco de baixo, bateria, guitarra e piano, fugindo um pouco do marasmo que ele vinha colocando na sua época Jaques Morelenbaum. Pra lembrar, nos últimos tempos Caetano foi crooner (A Foreign Sound, 2004), foi neo-bossa (Prenda Minha, 1998), foi latino (Fina Estampa, 1994), foi italiano (trilha para o Quatrilho, 1995), foi concretista (Livro, 1997), foi nordestino (Noites do Norte, 2000), foi caça-níquel (Tropicália 2, 1993), foi brega (Você não me ensinou a te esquecer, 2001), mas esqueceu-se, acima de tudo, de ser Caetano Veloso. O cara da onda, o ótimo compositor, afiado em alguns hits, desafiador em alguns momentos, com rompantes de brilhantismo em outros.

“Cê” é Caetano Veloso. Só muda a roupagem. As letras estão ali, as construções aparentemente sem sentido estão no disco, as métricas caetanísticas com origem lá nos anos 60 estão ali. O que muda é o que está por trás do papel onde a gente lê as letras. Tem uma banda de rock moderna. E das boas.

O disco não é pesado. Nem tão moderno assim. Ele remete a algumas referências do final dos anos 90, com um acabamento bem mais fino do que as bandas gringas atuais. Tudo é um pano de fundo para que Caetano diga a todos que está com sessenta e está bem, sabe das coisas, consegue captar o que acontece e que o mau humor da idade não traz reflexos para a composição da obra.

O destaque é a faixa “Rocks”, um roque de volume baixo. Caetano não grita, mantém a mesma voz de influência de bossa, para um desfile de guitarra reta, baixo e bateria competentíssimos, num arranjo limpo. Um rock baixo e limpo, mas extremamente eficiente. É a mais “pesada” do disco, mas a melhor composição.

“Cê” é o disco mais Caetano Veloso desde Circuladô (1991). É, igualmente, o melhor disco de Caetano desde Circuladô. Ele precisa ser Caetano pra ser bom. É um camaleão que sente o mesmo. Se for pegar a essência de “Cê”, a gente consegue recuperar coisas que chegam até os anos 60 (como na homenagem Waly Salomão, o que é característico de sua obra).

Bom que foi assim. Caetano chega a 40 anos de carreira atual, sincronizado, moderno. Sendo o que ele foi há muito tempo e esquecera de ser nos últimos 15 anos. Aliás, esse disco lembra muito “Cosmotron”, o excepcional álbum lançado pelo Skank em 2003. Mesmas construções e influências. É a MPB de qualidade descobrindo que a simplicidade do rock bom rende muita coisa.

2 Comments »

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  1. belo post :)

    Comment by alessandra — November 23, 2006 @ 9:32 pm

  2. Pow, eu gosto do caetano por isso tudo. Quando ele é ele mesmo e quando não o é. Pelo ser e pelo não ser. Pela possibilidade e pela experimentação.
    gostei do texto!

    Comment by beto lins — November 28, 2006 @ 9:39 pm

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