A ROLETA RUSSA DO ISMAEL
Tinha um cara que jogava bola comigo na COHAB, pelos idos de noventa e dois, noventa e três que se chamava ISMAEL. Pode ser ISRAEL, mas era um alemãozinho meio marginal que andava com um pessoal suspeito ali do Barão do Caí-COHAB-Passo Da Mangueira. Onde desfilei a arte na lateral direita em manhãs frias de sábado, pegando o COSTA E SILVA ou o VILA LEÃO, posteriormente descendo pela Zeferino Dias, até o Tumelero, ou SE PÁ subindo até a Baltazar pra pegar qualquer um que passava por ali.
Quando eu tinha 13 ou 14, o Ismael morreu. Fez uma roleta russa com amigos e deu azar. No seis contra um, deu o um, e os aproximadamente 18% de chances que ele tinha de uma bala furar sua boca acabaram acontecendo. Nunca me esqueci disso. Afinal, foi a primeira pessoa da minha idade que, de fato, foi vítima de uma fatalidade. Ou de uma estupidez, uma burrice fenomenal.
No Salvador, tinha um cara chamado Caloy, que era um alemão bem gente boa. Era um ano mais velho. Fiquei sabendo que ele foi vítima de um acidente de moto há algum tempo atrás. Fatal.
Trabalhei com um outro cara, também gente boa, que foi vítima de leucemia. Durante esse tempo todo, convivi com a morte de familiares próximos. Meu avô, que era a pessoa que eu mais admirava nesse mundo, e que me ensinou basicamente tudo o que eu sei, por exemplo, sobre futebol, e mais uns outros segredos que ajudaram a formar muito do meu caráter e personalidade, faleceu em 95. Eu tinha 16 anos e abruptamente fui oficializado como homem. Não tinha pai, por motivos que eu não gosto de falar. Era eu o mais velho da casa e de certa forma, de um dia pro outro, passei ao menos a tomar as rédeas masculinas do lar, por mais que minha mãe tenha um talento extraordinário para aglutinar essas funções (e MUITO BEM, diga-se de passagem).
Talvez eu rejeite por isso o rótulo de “guri de apartamento”. Não fui exatamente criado assim. Tive algumas dificuldades e diversos medos numa idade em que o certo era pensar em sair, tomar uns tragos e dar uns beijos. Minha família é pequena e essas perdas me fortaleceram consideravelmente. Descobri que precisava de um rumo aos dezesseis, quando tudo poderia se perder, vivendo sem uma figura paterna forte e cercado por uma vizinhança nem sempre recomendável. Mas não. A morte de meu avô me deu estímulo para seguir numa carreira e de certa forma vencer nela. Eu teria de ser a prova de orgulho, já que era o mais velho homem da família. Não tenho primos, tinha uma tia direta que morreu e não me dou com a família do lado de lá, no caso os Guimarães (apesar de usar o nome, mas só porque é mais sonoro do que Soeiro).
O que ninguém sabe é que, por mais que minha mãe seja uma supermãe, a melhor do mundo, ela tem um braço direito que faz das suas, mas é confiável. Um bom auxiliar, uma segunda voz na hora de decidir, às vezes uma primeira voz. E não é de agora. É desde a adolescência.
A minha irresponsabilidade é mais uma de minhas fraudes. Mais uma das minhas lendas. Eu sou muito responsável. Por mais que eu já tenha batido meu carro bêbado num reveillón ou que eu tenha estourado minha cabeça num poste, ou ter ficado mamado umas 300 vezes e feito fiascos, eu cumpro direitinho minhas obrigações. E não deixo o cu na reta.
Volta e meia, é preciso de um baque. E nesse baque, eu me questiono a respeito das minhas responsabilidades. Estarei eu seguro? Eu sou realmente responsável? Eu corro o risco? Há algum tempo não pensava na morte. O acidente com o Gabriel me fez pensar isso. Me lembrou o Ismael. E me fez perceber que eu carrego uma carga muito maior do que possam imaginar. A carga de não decepcionar mais. De vacilar menos. De me concentrar para que os dependem de mim (e isso eu falo no sentido AFETIVO da situação) não sofram mais.
De alguma maneira, esse grande choque que foi saber de um guri legal, com sonhos, com um futuro brilhante, cheio de amigos e muito querido teve um reflexo enorme sobre mim. Passei o dia todo mal, mas mais do que isso, eu pensei bastante. E todo aquele sentimento de solidão e vazio dá lugar a uma overdose de responsabilidade e medo. O tempo passa e o medo cresce. Deve ser a percepção definitiva de que eu não sou eterno. Nem os que me amam são eternos.
Hoje, eu queria abraçar todo mundo que eu gosto. Mesmo. E, por mais que eu pensasse no Gabriel e em tudo o que a família dele deve estar sofrendo, eu lembrei muito mais do meu avô. E de como seria legal saber dele a seleção do brasileiro, coisa que a gente fazia quando eu era pequeno. E da opinião dele sobre o Fernandão, de como ele teria visto a Copa. Se seria que nem em 94, quando ele viu todos os jogos comigo e deu um salto na cadeira de balanço quando o Branco deu aquela paulada contra a Holanda. Pensei nele e se desse, voltaria no tempo só pra perguntar um monte de coisa e aprender mais ainda.
Podem ter certeza, o aprendizado aqui foi muito grande. O dia 4 de dezembro marca uma evolução na minha maturidade. A consciência de que não há eternidade. De que a inconseqüência só vale a pena mesmo quando se tem um backup violento nos dando proteção. E, amigos, tenham certeza de que, quanto mais o tempo passa, mais desprotegidos ficamos. E aí, pessoal, não tem mais espaço algum para a inconseqüência. E mais dá vontade de estar com quem a gente gosta.