Verborragia sem concessões

January 30, 2007

DA PORTO BELO À MARAMBAIA*

Filed under: comportamento, saudosismo - Carlos @ 7:31 pm

No início dos anos 1990, mataram um cara em Atlântida Sul. Ou melhor, o corpo foi encontrado em dunas atrás do clube AVAS. Acho que eu tinha uns 12 anos na época quando a notícia se espraiou pelas ruas ainda de paralelepípedo do balneário. Chamei meus amigos da rua, os do início e os do fim, quando a Guarujá no verão era habitada por uma gurizada de 9 a 15 anos, muito antes daquela sensação de que a praia era pequena pra gente e da debandada geral para locais mais agitados, como Atlântida e Capão da Canoa. Peguei minha bicicleta e fui até as dunas. A polícia já estava lá, fazendo a perícia e nada podíamos ver a não ser um cadáver coberto por uma lona preta.

Certamente, na seqüência eu já estava jogando Shinobi no Fliperama Scorpion, que ainda existe por lá, pra uma partida de taco depois, aquecendo para as peleias no campinho da praça, onde a gente dava duro.

Passaram-se 15 anos desde então e tudo continua por lá: o flíper, a praça, as partidas de futebol na praça e a gurizada jogando taco.

Desde 1999 eu não passava mais do que uma semana em Atlântida Sul. Entre 2000 e 2002, não tive férias. Em 2003, fiquei uma semana completa e fui pro Rio. Em 2004, os dias de férias foram gastos no Nordeste, no ano anterior. Em 2005, fui pro Rio novamente e fiquei um tempo em Curumim. Ano passado, gastei bons dias em Porto Alegre e viajei a Santa Catarina.

Portanto, a decisão de passar duas semanas seguidas em Atlântida Sul foi muito mais ampla do que qualquer conceito de férias. Acima de tudo, foi uma busca pela minha própria reconciliação. Era ver novamente todos aqueles lugares que me fizeram muito feliz há um tempo e enxergar neste compêndio de memórias um pouco do que eu me tornei. Porque parte do que sou é também um pequeno fragmento de todos estes acontecimentos que tornaram este lugar inesquecível.

Assim fiquei 13 dias e meio em Atlântida Sul. Ficaria mais, um mês até. Compensando momentos de tédio com uma afirmação momentânea de que este tédio e esse tempo de nada será útil para que eu enfrente o ano melhor. Foi assim, exatamente assim. Neste período, fiz exatamente o que sempre fiz em Atlântida Sul. Corri muito, caminhei mais ainda. Tomei sol, joguei bola e até tentei surfar (o que foi lamentável). Dirigi pouco, mas fui à outras praias. Saí à noite. Revi pessoas e procurei por outras, que estavam seguindo no piloto automático natural da vida adulta.

Neste reencontro com Atlântida Sul, um reencontro com a minha própria essência e identidade. Eu já tenho esses conceitos formados e certamente não é uma visita à minha praia que vai mudar. Funciona mais como um túnel do tempo. Afinal, eu gosto de jogar futebol, eu gosto de ouvir axé e pagode na praia, eu gosto de pegar sol, eu gosto de tomar banho de mar, não há sensação alguma do que o pé tocando a areia da praia e na minha intimidade eu sou isso mesmo: leve, relaxado e de bem com a vida.

O problema é que eu já sabia disso. O que eu não sabia era a saudade que eu fosse sentir de andar de bicicleta, de jogar taco, de reunir uma gurizada pra jogar carta em dia feio comendo bolinho de chuva, de lembrar dos primeiros amores, primeiro porre, músicas que fizeram sucesso no verão de dez anos atrás, campeonatos de futebol no AVAS ou na beira da praia, passeios de buggy emprestados, invasão na casa dos outros pra tomar banho de piscina sem permissão, carrinho de sorvete da ALPI, rapadura de Maquiné, casquinha e afiador de faca, milho verde na praia, buracos na interpraias, rede, os mesmos moradores de sempre, o Becker, o cara com dois dedos no pé direito, o dono do flíper, o Barbanty e uma compilação linda de coisas, objetos e pessoas que fazem de Atlântida Sul ser algo próximo do paraíso pra mim.

Foi esta urgência de sentir saudade que me fez ficar ali por este tempo (repito que não fazia isso há oito anos). A estratégia caiu direitinho. Peguei toda essa saudade, acolhi de uma forma absurdamente carinhosa e transformei isso em um pouco mais de leveza pra mim. O clima tava pesado demais. Então, absorvi tudo o que eu senti nesse tempo e joguei pra mim, tendo a convicção de que se eu senti saudade de tudo isso é porque eu só tenho boas lembranças de toda a minha formação.

Assim que a gente volta e meia se lembra de quem a gente é. Se a idade pede uma crise de identidade, vou fazer o contrário. Não vou me acovardar e fugir. Vou olhar pra trás, sendo uma testemunha visual do que me fez bem até hoje. Vou ter este confronto com os bons momentos do passado. Pra que eu possa ter a consciência tranqüila de que eu fiz tudo certo. E mais do que isso, ouvir uma voz dizendo pra seguir em frente, tolerar e não se desesperar.

É a voz mais importante de todas: a minha. Com um tom sereno, relaxado e sobretudo confiante. E pela primeira vez em muito tempo, eu não hesito em ouvir com um sorrisão o recado que ela tá me passando.

* Porto Belo é a primeira rua de Atlântida Sul e Marambaia a última

** A repercussão musical deste post está no outro blog.

January 15, 2007

FÉRIAS

Filed under: comportamento - Carlos @ 1:17 am

No ano passado, eu escrevi que meu vizinho da praia ouvia Inimigos da HP e eu achava suportável. Neste ano, fui além. Pedi para minha amiga Paula, a da Atlântida, que fizesse uma seleção de pagodes, funks e axés para que eu gravasse e levasse à praia.

Pela primeira vez na minha vida, eu acredito em estado de espírito. Nunca fui muito ligado nessas associações de música ouvida com roupas ou predileções com a alma. Na verdade, nunca acreditei em muita coisa na minha vida.

Desde novembro, passo boa parte do meu tempo livre sozinho. Esta aparente solidão me fez repensar certas coisas. As mudanças repentinas são sempre de se desconfiar, por isso que eu ainda estou aprendendo. Desde então, eu tento correr ao menos três vezes por semana. Parei com doces, perdi 5 kg, adquiri algum condicionamento e até não fiz nenhum fiasco com a bebida (mesmo sabendo que a cerveja, meu caro, é meu fraco). Mas as corridas, estas sim, me fazem um bem inexplicável. É uma renovação diária, uma limpeza completa no organismo, um pedido de reconciliação com os próprios erros e abusos com o corpo e a consciência.

E aí eu começo a acreditar nesse pensamento de relacionar estado de espírito com vestimenta, música e astral. Foi um período musical intenso também. E na busca pela experimentação de qualquer ritmo, me livrando de preconceitos, de influências e jabás, me permiti ouvir de tudo.

Numa dessas, na praia, estava ouvindo o pagode do meu vizinho e decidi que queria fazer um CD desses. Repito, por mais um ano, o que escrevi ano passado: não acho ruim. Sábado, por volta de dez da noite, logo após o banho, depois do lanche da noite, com a Av. Saquarema lotada em Atlântida Sul, depois de um dia lindo de sol, deitado em uma rede, um pagode tocando, anunciando uma noite que pode chegar na companhia de amigos, com uma cerveja gelada, ar puro e um céu estrelado. O ritmo precisa ser integrado com esse estado de paz, descanso e de reconciliação com a alma. Precisa ser alegre, aberto, contagiante.

Esse sintoma de aparente bunda-molice musical (onde eu não ligo, realmente, basta ver que eu tô indo do Inimigos da HP a Klaxons ou de Kreator a Zeca Pagodinho, ou se tu quiser de Mr.Bungle a Fergie) chegou ao ápice durante a transmissão do Planeta Atlântida-SC, onde ouviram de mim as seguintes sentenças:

“O Armandinho é um cara talentoso. Tá colocado em horário errado pro tamanho que ele adquiriu.”
“Até dançaria com o Jeito Muleke.”
“Entre a pagoderia e o dia emo, eu iria no dia do pagode.”

Isso sem contar os posts colcando a música da Pitty como a melhor pop rock no Brasil em 2006 ou então quando eu simplesmente elevo Lulu Santos ao posto de gênio, isso no outro blog.

Eu não estou mentindo, eu falei tudo isso mesmo. Depois de um certo tempinho estudando a música, ouvindo, lendo, consolidando gosto e entendendo razoavelmente, me dou no direito de expressar esse tipo de opinião. O que eu quero que entendam é que, neste caso, não se trata de música. Se trata de estado de espírito. O que menos importa é a música. O que mais me contagiou e até me emocionou no Planeta SC foi, pra ser bem clichê, uma multidão jovem, bonita, disposta, pulando e simplesmente fazendo coisas que as pessoas se esquecem: diversão descompromissada.

E é disso que eu estou falando. Talvez seja a proximidade dos trinta. Ver a gurizada de 17 ou 18 anos já não soa mais tão ridículo como na época em que eu tinha 23 e achava um absurdo essa gente estar na rua. É o estado de espírito que eu tinha na época que eu quero de volta. É possível. Talvez não os gostos, as inexperiências, as novidades e as apreensões, medos e falta de responsabilidade. Mas eu quero aquele humor, a disposição, o sorriso fácil e um pouco da saúde, claro.

Outros acontecimentos foram importantes para ratificar tudo o que eu escrevi. Comprei roupas e um tênis no final do ano passado. Nenhuma era escura. Todas claras e leves. O tênis que eu comprei era branco. Bermudas mais claras e até uma floreada, estampada. E a tatuagem, é claro.

Esse montante de coisas vai, certamente, me dar o melhor verão dos últimos anos. Ao som de sabe-se lá o quê. Do hit do momento, daquilo que vai durar pra mim 15 dias e que sempre vai me lembrar o verão de 2007. Da festa em qualquer lugar, com um monte de gente que eu desprezava há um tempo atrás, mas hoje até me dá uma ponta de inveja. Desse mundo que eu não convivo nos outros meses e que está por aí, consumindo coisas diferentes das minhas, livres desse cotidiano que me esgotou e que necessita de uma urgente renovação.

Penso em desligar meu celular durante esses 15 dias que eu ficarei na praia. Começa terça. Mas não, vou deixar que me liguem à vontade e que permitam que minha consciência diga sim ou não pra quem me chamar. É uma questão de feedback, sintonia. Minha antena tá só captando as melhores vibrações. Se tu tá nessa barca também, vem junto que será bem vindo.

Sei não, mas tô achando que eu vou ficar mais leve em 2007. Agora eu torço pra que a Paula capriche nessa seleção que vai, na ordem, me desintoxicar, me alegrar, tirar um peso na consciência, pra depois deixar que eu enjoe, descarte e me renove. Afinal, não foi pra isso que foram feitos os hits ou os amores de verão?

January 9, 2007

ETERNIZEI O CLASH NA CANELA

Filed under: música - Carlos @ 3:19 am

Teria dificuldades em escolher os dez maiores álbuns da minha vida. Mas certamente entre eles estaria London Calling, do Clash.

London Calling é uma daquelas obras primas, irretocável, perfeito, próprio para uma época em que havia a necessidade de revolucionar.

No entanto, saberia dizer qual a capa que sintetiza o rock. A capa de London Calling.

Já há algum tempo eu queria fazer essa tatuagem. O London Calling foi escolhido para ser meu companheiro até o final da minha passagem por aqui. Na canela, bem grande. E ficou bom. Mais tarde eu coloco uma foto.

Dói pra caralho, mas acho que valeu a pena.

January 4, 2007

RETROSPECTIVA 2006 - ATO FINAL - CINEMA

Filed under: cinema - Carlos @ 11:37 pm

Deixei o cinema por último admitindo uma defecção nesta área. Vi menos filmes do que deveria, principalmente no primeiro semestre, por causa de monografia e outras coisas.
Mas aí vai a minha lista dos 10 melhores filmes PRODUZIDOS em 2006. Nota: não vale filme feito em 2005, apenas os de 2006.

1- Os Infiltrados
Já falaram que é o Scorcese a qualquer custo querendo um Oscar, que ele não estava com a mão cheia. Pouco importa. “Os Infiltrados” é uma aula de cinema, conduzido por um dos cinco maiores diretores vivos. É o filme do ano.

2- Pequena Miss Sunshine
É o filme sentimental de 2006. Nada foi tão singelo e bonito quanto visto nesse filme. Filme com historinha? De redenção familiar? É, tudo isso. E absolutamente perfeito. Elenco afinado, momentos de riso com uma incrível vontade de chorar em certas cenas. Só perde pra Infiltrados sendo racional, porque no íntimo, bate qualquer coisa que eu vi.

3- O Ano em que meus pais saíram de férias
O melhor nacional desde “Cidade de Deus”. A história de um menino deixado por seus pais, que vão combater a ditadura com a guerrilha armada, na época da Copa de 70 traz, com brilhantismo, a dúvida entre a saudade paterna e a paixão pelo futebol. Quando Rivelino fez contra a Tchecoslováquia, admito, saíram lágrimas.

4- Volver
Demorou pra cair a ficha a respeito de Volver. Afinal, eu tenho alguns poréns a respeito de Almodóvar, admito. Mas ver a Penelope Cruz cantar daquele jeito, interpretar daquele jeito me fez repensar tudo e dizer que Volver é quase obra prima.

5- Vôo United 93
Um realismo impressionante com uma direção competentíssima. Vôo 93 é o filme merecedor de todas as honras que obteve. Cinema de verdade, filme de verdade.

6- O Plano Perfeito
Spike Lee fazendo entretenimento com Clive Owen atuando de forma magnífica sem mostrar o rosto. Se tivesse surgido antes de “Um Dia de Cão”, seria clássico. Roteiro impecável.

7- O Albergue
Melhor filme de terror ultraviolento da década. Não preciso dizer mais nada.

8- O Diabo Veste Prada
A melhor comédia do ano. E uma aula de como se faz comédia no cinema. Tá certo, a Meryl Streep contribuiu muito para o sucesso do filme, mas a história é muito boa.

9- Piratas do Caribe 2: o Baú da Morte
É bem pior que o primeiro. Mesmo. Agora, como o primeiro é o filme que mais me divertiu desde “De Volta Para o Futuro”, a continuação não pode ficar fora da lista. E a essência está ali.

10- Miami Vice
Pra compensar a péssima atuação do Colin Farrel, deixa que o melhor diretor de ação em atividade resolve. Michael Mann é o meu preferido há bastante tempo. O que ele faz com as imagens e as seqüências impressiona. Grande remake.

E O MEU OSCAR VAI PARA…
Filme: “Os Infiltrados”
Direção: Martin Scorcese, “Os Infiltrados”
Ator: Leonardo Dicaprio, “Os Infiltrados”
Atriz: Penelope Cruz, “Volver”
Ator coadjuvante: Mark Wahlberg, “Os Infiltrados”
Atriz coadjutante: Abigail Breslin, “Pequena Miss Sunshine”
Roteiro: “Pequena Miss Sunshine”
Filme nacional: “O ano em que nossos pais saíram de férias”

Pior filme do ano: “A Dália Negra”

January 2, 2007

PARAÍSO

Filed under: comportamento - Carlos @ 3:05 pm

O melhor momento da virada foi ter colocado os pés descalços na grama da minha casa da praia, na Rua Guarujá, em Atlântida Sul. Mais até do que cravá-los na areia ou no mar. Eram quase duas da tarde do domingo quando eu cheguei, tirei a roupa, coloquei uma bermuda confortável e meti os pés na grama. Onze meses depois, eu via minha casa da praia, conseguia olhar para o céu completamente azul e o sol maravilhoso e tive, talvez mais até do que quando avistei a lagoa mais transparente do mundo (Jericoacoara - CE - 2003), a sensação de que estava no paraíso.

O momento em que virou o ano, por si só, foi igual a todos, e isso eu já presenciei vinte vezes, pelo menos. Não ganhar folga e querer passar o reveillón longe de casa te motiva pra fazer uma espécie de intensivão praiano. Eu corri duas vezes na beira do mar, fui pra praia só pra pegar sol, comi churrasco, bebi, comi ceia de ano novo, dirigi pelos principais pontos, fui a Capão, a Tramandaí, visitei amigos, comi sorvete, deitei na rede, ouvi música e bati bola de brincadeira. Claro, só não dormi. Não deu tempo pra dormir. Tinha muita coisa pra fazer e eu não me importava em estar cansado.

Claro, em todas essas corridas, eu pensei. Pensei nesse blog. Por que diabos eu sigo mantendo um blog que ninguém lê? Ou então, um blog em que ninguém comenta? Acho que ainda é aquela coisa de querer atingir meus leitores por alguns textos. Reli o que eu escrevia há muito tempo, ainda nos anos noventa. Reli o que eu escrevia no início da década. Cara, eu era bom. Eu ainda mantinha aquela inocência pré adolescente, uma mistura de idealismo com olho de tigre pra encarar o mundo real. Sonhos que me permitiam dizer que eu era jovem e que eu poderia ser absolvido por qualquer erro. Eu poderia ser sarcástico e conseguia determinar minha censura. Eu era mais justo com os outros e bem mais alegre e simpático. Eu já era um arremedo de mesa de bar, porém mais convicto. Eu gostava mais das pessoas e talvez me importasse mais com elas. Eu cuidava menos da minha saúde. Eu era menos irritado, e se houvesse uma irritação, ela era até bem vinda. Era menos conformado. Eu tinha mais raça, mais pegada.

Pela primeira vez, meu único projeto pra 2007 é iniciar um processo de estabilização. Abandonei qualquer tipo de sonho em troca de uma rotina que vai me envelhecer e me focar em algo que é urgente nessa aproximação dos 30 anos. Na verdade, acho que eu estou muito cansado pra abandonar o que eu tenho e o que eu gosto. Para deixar pra trás as coisas que foram construídas e embarcar em alguma nova viagem. O meu projeto pra 2007 é não ter projetos. É a manutenção de certas coisas. E se tudo se tornar chato, eu piso na grama da minha casa da praia e as coisas melhoram na hora.

Ah, eu sou menos paciente também. Bem menos. Como as pessoas me cansam, vou mandar um recado pra quem AINDA lê este blog. Se alguém comentar simplesmente “Praia é tudo mesmo”, isso vai ser deletado e essa pessoa riscada das minhas relações. Eu falo sério.

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