DA PORTO BELO À MARAMBAIA*
No início dos anos 1990, mataram um cara em Atlântida Sul. Ou melhor, o corpo foi encontrado em dunas atrás do clube AVAS. Acho que eu tinha uns 12 anos na época quando a notícia se espraiou pelas ruas ainda de paralelepípedo do balneário. Chamei meus amigos da rua, os do início e os do fim, quando a Guarujá no verão era habitada por uma gurizada de 9 a 15 anos, muito antes daquela sensação de que a praia era pequena pra gente e da debandada geral para locais mais agitados, como Atlântida e Capão da Canoa. Peguei minha bicicleta e fui até as dunas. A polícia já estava lá, fazendo a perícia e nada podíamos ver a não ser um cadáver coberto por uma lona preta.
Certamente, na seqüência eu já estava jogando Shinobi no Fliperama Scorpion, que ainda existe por lá, pra uma partida de taco depois, aquecendo para as peleias no campinho da praça, onde a gente dava duro.
Passaram-se 15 anos desde então e tudo continua por lá: o flíper, a praça, as partidas de futebol na praça e a gurizada jogando taco.
Desde 1999 eu não passava mais do que uma semana em Atlântida Sul. Entre 2000 e 2002, não tive férias. Em 2003, fiquei uma semana completa e fui pro Rio. Em 2004, os dias de férias foram gastos no Nordeste, no ano anterior. Em 2005, fui pro Rio novamente e fiquei um tempo em Curumim. Ano passado, gastei bons dias em Porto Alegre e viajei a Santa Catarina.
Portanto, a decisão de passar duas semanas seguidas em Atlântida Sul foi muito mais ampla do que qualquer conceito de férias. Acima de tudo, foi uma busca pela minha própria reconciliação. Era ver novamente todos aqueles lugares que me fizeram muito feliz há um tempo e enxergar neste compêndio de memórias um pouco do que eu me tornei. Porque parte do que sou é também um pequeno fragmento de todos estes acontecimentos que tornaram este lugar inesquecível.
Assim fiquei 13 dias e meio em Atlântida Sul. Ficaria mais, um mês até. Compensando momentos de tédio com uma afirmação momentânea de que este tédio e esse tempo de nada será útil para que eu enfrente o ano melhor. Foi assim, exatamente assim. Neste período, fiz exatamente o que sempre fiz em Atlântida Sul. Corri muito, caminhei mais ainda. Tomei sol, joguei bola e até tentei surfar (o que foi lamentável). Dirigi pouco, mas fui à outras praias. Saí à noite. Revi pessoas e procurei por outras, que estavam seguindo no piloto automático natural da vida adulta.
Neste reencontro com Atlântida Sul, um reencontro com a minha própria essência e identidade. Eu já tenho esses conceitos formados e certamente não é uma visita à minha praia que vai mudar. Funciona mais como um túnel do tempo. Afinal, eu gosto de jogar futebol, eu gosto de ouvir axé e pagode na praia, eu gosto de pegar sol, eu gosto de tomar banho de mar, não há sensação alguma do que o pé tocando a areia da praia e na minha intimidade eu sou isso mesmo: leve, relaxado e de bem com a vida.
O problema é que eu já sabia disso. O que eu não sabia era a saudade que eu fosse sentir de andar de bicicleta, de jogar taco, de reunir uma gurizada pra jogar carta em dia feio comendo bolinho de chuva, de lembrar dos primeiros amores, primeiro porre, músicas que fizeram sucesso no verão de dez anos atrás, campeonatos de futebol no AVAS ou na beira da praia, passeios de buggy emprestados, invasão na casa dos outros pra tomar banho de piscina sem permissão, carrinho de sorvete da ALPI, rapadura de Maquiné, casquinha e afiador de faca, milho verde na praia, buracos na interpraias, rede, os mesmos moradores de sempre, o Becker, o cara com dois dedos no pé direito, o dono do flíper, o Barbanty e uma compilação linda de coisas, objetos e pessoas que fazem de Atlântida Sul ser algo próximo do paraíso pra mim.
Foi esta urgência de sentir saudade que me fez ficar ali por este tempo (repito que não fazia isso há oito anos). A estratégia caiu direitinho. Peguei toda essa saudade, acolhi de uma forma absurdamente carinhosa e transformei isso em um pouco mais de leveza pra mim. O clima tava pesado demais. Então, absorvi tudo o que eu senti nesse tempo e joguei pra mim, tendo a convicção de que se eu senti saudade de tudo isso é porque eu só tenho boas lembranças de toda a minha formação.
Assim que a gente volta e meia se lembra de quem a gente é. Se a idade pede uma crise de identidade, vou fazer o contrário. Não vou me acovardar e fugir. Vou olhar pra trás, sendo uma testemunha visual do que me fez bem até hoje. Vou ter este confronto com os bons momentos do passado. Pra que eu possa ter a consciência tranqüila de que eu fiz tudo certo. E mais do que isso, ouvir uma voz dizendo pra seguir em frente, tolerar e não se desesperar.
É a voz mais importante de todas: a minha. Com um tom sereno, relaxado e sobretudo confiante. E pela primeira vez em muito tempo, eu não hesito em ouvir com um sorrisão o recado que ela tá me passando.
* Porto Belo é a primeira rua de Atlântida Sul e Marambaia a última
** A repercussão musical deste post está no outro blog.