EU TENHO SAMBA NO PÉ
Ainda não cheguei à conclusão a respeito de quem critica o carnaval. Na verdade, eu simplesmente respeito aqueles que apenas não gostam da festa. É um pensamento contrário do meu, mas eu também não gosto de exposição de arte e não pretendo ser alvo de críticas por causa disso. Há de se entender perfeitamente as pessoas que acham a festa um saco, não curtem as músicas, não vêem sentido na necessidade de se divertir, preferem outro tipo de festa, ou até mesmo o silêncio.
Particularmente, eu sou fã do carnaval. Eu tive a minha época anti-folia, mas era só uma forma de rebeldia patética numa época em que eu tinha inveja de quem se divertia mais do que eu. Hoje passou e eu comecei a assimilar o carnaval como um daqueles períodos em que eu preciso estar sintonizado com o que acontece em fevereiro. Portanto, se eu tiver que tomar algum partido, certamente ergo minha bandeira pró-Carnaval. É uma das poucas manifestações populares que ainda me faz arrepiar. Me faz sorrir e interagir o máximo de tempo.
Mesmo com um hiato nessa idolatria, sempre me posicionei adequadamente quanto a uma questão que insistem em levantar. A maior hipocrisia de todas, algo que beira o nojento, é atribuir ao Carnaval um rótulo de festa para esconder os podres do Brasil.
Os bodes expiatórios caem sempre no futebol e no carnaval. A contradição das pessoas que criticam estas duas expressões artísticas chega a dar pena. As duas maiores alegrias do povo brasileiro são condenadas por pessoas que justamente pregam uma melhor condição para este povo. E essas críticas vêm dos mais diversos lados. Dizem as feministas que “a festa pagã que prega a exploração da mulher, o culto ao sexo, à prostituição e à promiscuidade”. Já os moralistas de plantão afirmam que “o carnaval serve para desencaminhar os jovens e desestruturar as famílias”. O pior são os metidos a justiceiros sociais. Estes têm uma série de argumentos tortos e imbecis, do tipo “enquanto se passa fome no Brasil, todo mundo só pensa em Carnaval”, ou “gente pobre que só é lembrada nos dias de folia”. E pra fechar, tem o porto-alegrense recalcado, que diz que a cidade melhora no carnaval porque fica vazia. Um ponto de vista que gera uma pena enorme em mim, que considera um prazer estupendo o fato de pessoas simplesmente estarem mais felizes, usando um pretexto simples, como o Carnaval. Mesmo que imposta, se é que ela é nesse caso, mas empregando um contexto usado por esta gente, felicidade à flor da pele é algo que enche os olhos. De qualquer um, mesmo que haja tanta gente triste e sem graça nesse mundo.
O país tem inúmeros problemas, mas certamente não é evitando as celebrações coletivas que eles vão ser solucionados. Pelo contrário, ele traz mobilização de comunidades, união entre quem é carente, alegria para quem espera o ano todo por isto, e com todas as dificuldades do mundo, esquecem por um momento das adversidades no intuito de simplesmente festejar.
Além disso, carnaval é arte. Observe um desfile carioca e você estará de cara com uma arte revigorada, moderna, atual e incrivelmente bem feita. Carnaval é cultura, basta reparar no que estes gênios carnavalescos fazem com os enredos. E, acima de tudo, carnaval é festa. E onde há festa (em qualquer lugar no planeta), há uma óbvia conotação sexual para a data. É parte da festa: o sexo, a pouca roupa, a descontração, o exagero, o despudor, a entrega. Tudo isso é maravilhoso, e eu me orgulho demais que seja no Brasil. Que a gente exporte a beleza de um desfile da Mangueira, a beleza das nossas mulheres e a nossa gostosa sem-vergonhice, que nada mais é do que um desapego a todo tipo de chatice e caretice que toma conta desse mundo. Um antídoto contra um mau humor permanente que insiste em tomar conta do planeta, e pior, de gente jovem que prossegue nessa cavalgada de execrar toda liberação e alegria.
No final das contas, é um bando de gente chata e triste. Desprezam e avacalham uma festa que brinda a felicidade, mas ajudam quem eles acham que precisa muito menos qualquer membro de comunidade carente. É o tipo de gente que tem tanta crítica ao país, mas não mexe um dedo pra fazer bosta nenhuma. Pior (ou melhor, pra mim): ao invés de contribuir, seguem com as críticas ao Brasil, mas quando deitam a cabecinha no travesseiro, o único sonho é sair daqui. Que bom. Enquanto isso, todo fevereiro eu vou ver um pouco do desfile da Globo, se der dou uma pulada, vejo gente, estou junto das pessoas e fico um pouco mais feliz com a leveza desta grande brincadeira que é o carnaval.