Verborragia sem concessões

February 21, 2007

EU TENHO SAMBA NO PÉ

Filed under: comportamento, música, brasil, alegria - Carlos @ 3:30 am

Ainda não cheguei à conclusão a respeito de quem critica o carnaval. Na verdade, eu simplesmente respeito aqueles que apenas não gostam da festa. É um pensamento contrário do meu, mas eu também não gosto de exposição de arte e não pretendo ser alvo de críticas por causa disso. Há de se entender perfeitamente as pessoas que acham a festa um saco, não curtem as músicas, não vêem sentido na necessidade de se divertir, preferem outro tipo de festa, ou até mesmo o silêncio.

Particularmente, eu sou fã do carnaval. Eu tive a minha época anti-folia, mas era só uma forma de rebeldia patética numa época em que eu tinha inveja de quem se divertia mais do que eu. Hoje passou e eu comecei a assimilar o carnaval como um daqueles períodos em que eu preciso estar sintonizado com o que acontece em fevereiro. Portanto, se eu tiver que tomar algum partido, certamente ergo minha bandeira pró-Carnaval. É uma das poucas manifestações populares que ainda me faz arrepiar. Me faz sorrir e interagir o máximo de tempo.

Mesmo com um hiato nessa idolatria, sempre me posicionei adequadamente quanto a uma questão que insistem em levantar. A maior hipocrisia de todas, algo que beira o nojento, é atribuir ao Carnaval um rótulo de festa para esconder os podres do Brasil.

Os bodes expiatórios caem sempre no futebol e no carnaval. A contradição das pessoas que criticam estas duas expressões artísticas chega a dar pena. As duas maiores alegrias do povo brasileiro são condenadas por pessoas que justamente pregam uma melhor condição para este povo. E essas críticas vêm dos mais diversos lados. Dizem as feministas que “a festa pagã que prega a exploração da mulher, o culto ao sexo, à prostituição e à promiscuidade”. Já os moralistas de plantão afirmam que “o carnaval serve para desencaminhar os jovens e desestruturar as famílias”. O pior são os metidos a justiceiros sociais. Estes têm uma série de argumentos tortos e imbecis, do tipo “enquanto se passa fome no Brasil, todo mundo só pensa em Carnaval”, ou “gente pobre que só é lembrada nos dias de folia”. E pra fechar, tem o porto-alegrense recalcado, que diz que a cidade melhora no carnaval porque fica vazia. Um ponto de vista que gera uma pena enorme em mim, que considera um prazer estupendo o fato de pessoas simplesmente estarem mais felizes, usando um pretexto simples, como o Carnaval. Mesmo que imposta, se é que ela é nesse caso, mas empregando um contexto usado por esta gente, felicidade à flor da pele é algo que enche os olhos. De qualquer um, mesmo que haja tanta gente triste e sem graça nesse mundo.

O país tem inúmeros problemas, mas certamente não é evitando as celebrações coletivas que eles vão ser solucionados. Pelo contrário, ele traz mobilização de comunidades, união entre quem é carente, alegria para quem espera o ano todo por isto, e com todas as dificuldades do mundo, esquecem por um momento das adversidades no intuito de simplesmente festejar.

Além disso, carnaval é arte. Observe um desfile carioca e você estará de cara com uma arte revigorada, moderna, atual e incrivelmente bem feita. Carnaval é cultura, basta reparar no que estes gênios carnavalescos fazem com os enredos. E, acima de tudo, carnaval é festa. E onde há festa (em qualquer lugar no planeta), há uma óbvia conotação sexual para a data. É parte da festa: o sexo, a pouca roupa, a descontração, o exagero, o despudor, a entrega. Tudo isso é maravilhoso, e eu me orgulho demais que seja no Brasil. Que a gente exporte a beleza de um desfile da Mangueira, a beleza das nossas mulheres e a nossa gostosa sem-vergonhice, que nada mais é do que um desapego a todo tipo de chatice e caretice que toma conta desse mundo. Um antídoto contra um mau humor permanente que insiste em tomar conta do planeta, e pior, de gente jovem que prossegue nessa cavalgada de execrar toda liberação e alegria.

No final das contas, é um bando de gente chata e triste. Desprezam e avacalham uma festa que brinda a felicidade, mas ajudam quem eles acham que precisa muito menos qualquer membro de comunidade carente. É o tipo de gente que tem tanta crítica ao país, mas não mexe um dedo pra fazer bosta nenhuma. Pior (ou melhor, pra mim): ao invés de contribuir, seguem com as críticas ao Brasil, mas quando deitam a cabecinha no travesseiro, o único sonho é sair daqui. Que bom. Enquanto isso, todo fevereiro eu vou ver um pouco do desfile da Globo, se der dou uma pulada, vejo gente, estou junto das pessoas e fico um pouco mais feliz com a leveza desta grande brincadeira que é o carnaval.

February 16, 2007

WINSTON - RECORTES DE VIDAS COMUNS

Filed under: música - Carlos @ 7:32 pm

Só agora eu me sinto à vontade para fazer uma resenha deste disco, que foi lançado em 2002. Decidi escrever a respeito depois que vi o CD parado na minha prateleira, esperando ansiosamente por uma audição, que talvez não aconteça de forma completa há uns bons quatro anos.

Toquei na winston por um ano e pouco. Junto com o Tiago, fiz a famosa demo azul plagiando descaradamente (e propositalmente) o primeiro disco do Weezer (1994). A demo foi lançada no verão de 1999, gravada no finalzinho de 1998. Deste embrião, apenas “Me Chamo winston” foi aproveitada no CD (2002). O resto ficou de fora, apesar das ótimas “Quando eu for Deus” e “Eu quero beber”.

“Recortes de vidas comuns” é o único disco desta banda que acabou em 2004. E é incrivelmente bom. Com oito faixas bem produzidas, o disco é o resultado do esforço e do sonho dos que participaram direta e indiretamente da banda. Lembro que foram quase dois anos de ensaios e gravações jogadas fora até que saísse este resultado, completamente diferente da demo.

Se na fita, o que primava era a tosqueira, as guitarras estouradas, erros não corrigidos, vocais mal mixados, desafinação, bateria, guitarra e baixo fora de tempo e solos compostos na hora, no CD tudo isso é tratado como um passado juvenil-amador e dá lugar a um profissionalismo invejável.

A mudança se deu principalmente depois da chegada do Dudu na banda. Um dos melhores guitarristas que eu conheço, ele deu o toque acadêmico que faltava. Se na fita, o winston era a banda do Tiago letrista, no CD o winston passou a ser a banda do Dudu músico. Ele produziu o disco junto com o Pedro Veríssimo (Tom Bloch) e meteu um espelho de guitarras arrebatador em todas as músicas. É um disco de guitarras fortes e excepcionalmente bem tocadas, de solos certos bem escalados, com um baixo econômico e uma bateria discreta (fosse o primeiro baterista, Peter, quem tivesse gravado, tudo seria diferente, tamanha era a sua monstruosidade no instrumento).

Os destaques são “Me Chamo winston”, um quase-hino para menores de 21, uma letra imbatível, com uma base simples, e que iria muito mais longe que foi; “O Casamento”, uma pérola punk-pop escrita pelo Mini, da Walverdes; “A Carta”, que na época soava como um plágio de alguma coisa e que hoje é um petardo romântico tocado às últimas conseqüências; e “Herói Invisível”, a melhor do disco. Aliás, eu gostaria que alguma banda emo nova ouvisse esta música e gravasse. Pararia nas rádios na hora. Pérola pop, uma letra maravilhosa e nuances de genialidade na guitarra.

Sei de todos os problemas que a banda enfrentou, desde a troca constante de formação até mudanças repentinas na sonoridade. As músicas mais recentes, por exemplo, remetiam ao metal do Deftones. No início, a gente tava ouvindo muito lo-fi e a tosqueira permeava tudo. No meio do caminho, um certo flerte com o pop meloso da Bidê ou Balde influenciou o pessoal. Isso talvez tenha atrapalhado a trajetória de uma banda das mais queridas em 1999. Quem sabe faltou persistência para que se seguisse num caminho único, para que canções como “Herói Invisível” fossem mais respeitadas.

O disco, claro, é irregular. A melhor letra, “Anoréxica”, se transformou numa música comum, com um arranjo bem diferente do que eu tinha pensado (vale lembrar que eu fiz a música com o Tiago no verão de 1999 e quando ela foi gravada, eu já estava fora da banda). “Eu sou outro” é uma música completamente desnecessária e “O que você já sabe” tem uma frase inicial igual a “Debaser”, do Pixies e uma linha de baixo semelhante a de centenas de músicas indie espalhadas por aí.

Apesar destes equívocos, é uma pena o winston ter acabado. Principalmente pelo que a banda significava para a gente no início. Neste disco, Tiago, Meigo, Pepe e Noronha são os participantes. Depois, Marcos Ludwig assumiu o baixo, além do que a bateria já pertenceu a Zed e a Peter.

Minha participação na banda durou até o final de 1999, quando passei a exercer minha atividade atual. Até o final, seguia indo aos shows, me perguntando o tempo todo por que diabos não permaneci tocando, me aprimorando e tendo idéias.

O que fica é esta memória gostosa. De shows antológicos, como no Bailão do COL em 1999, no Garagem Hermética, ou um acústico bem feito, no Ocidente em 2001. Ou ainda a quebradeira feita na PUC em 1999, ensaios onde fica a atual Fun House, na Barros Cassal, onde era um estúdio. Gravações lá na Zona Sul, no Cristal, e uma história que se confundia com a nossa própria trajetória de vida entre 1999 e 2003.

Mas o que eu mais lembro é do início, de como a gente fez oito músicas em um dia, ensaiando num calor insuportável no Jardim Lindóia, com muita cerveja e depois banho de piscina. Ou as participações do Felipeta nos shows, algo que eu jamais vou esquecer.

Sobre o que deu errado, eu lamento. Fica um disco, que é muito bom, apesar de eu achar às vezes que ele é um pouco subestimado pelos próprios integrantes. E ficam estas composições, feitas por guris de 19 anos, para gente de 19 anos e que hoje, passados oito anos, soam datadas, infantis, piegas. No entanto, foram feitas com uma sinceridade inquietante, numa época em que nos apaixonávamos mais, vibrávamos mais e éramos mais irresponsáveis e criativos. Numa época em que até bancavam as nossas contas e o prazer fundamental era passar toda aquela síndrome de início de vida adulta em forma de canções.

Sou capaz de dizer que estas músicas, assim, meio tortas, são melhores do que qualquer coisa que os integrantes fizeram depois (inclusive as que vieram no final da banda). Talvez não em termos de qualidade, mas inegavelmente no aspecto da honestidade. Agora, a gente sabe como funciona o esquema, e aí, tem que seguir esta linha pra buscar algo. A revolta que a gente tinha não cabe mais no nosso mundo. Que bom que um dia a gente teve isso. Que bom que eu participei na hora certa.

February 8, 2007

COMO SER UM BOM DJ EM 92

Filed under: música, saudosismo - Carlos @ 7:01 am

Este é um post musical, mas não vou colocá-lo no outro blog porque a proposta dele não é essa.

No meu tempo, baladeiro não era sinônimo de boêmio. Baladeiro era o cidadão que gostava de balada romântica (e eu não sei que nomenclatura usam hoje em dia pra esse tipo de som, até porque ele não é mais feito). Ou era balada ou música lenta. Porque era assim né. Reunião dançante tinha música rápida (pra esquentar) e música lenta. Pois então, vou fazer aqui um pequeno manual de como funcionava um DJ juvenil (12 ou 13 anos) no início dos anos 1990.

O local
Reunião dançante boa em 92 é em garagem. O resto vira amontoado de gente ou gente de menos. O espaço ideal para uma reunião dançante é a garagem de uma casa. De preferência espaçosa, com um pátio considerável, espaço para conversinhas de canto e um banheiro no local mesmo. A porta que dá acesso à casa deve estar fechada, para evitar dispersão, como gente querendo ver os filmes bagaceiros no SBT ou na Bandeirantes. Só o anfitrião e dois de confiança podem ter acesso à cozinha, pra evitar assaltos indesejados. Em um canto, o aparelho de som. Perto, uma mesa com os comes e bebes. No mais, um espaço vazio para todos dançarem, com cadeiras distribuídas estrategicamente da seguinte forma, bem simples: de um lado, meninos; de outro, meninas. O local também dispensa estacionamento, porque ninguém dirige e os pais levam e buscam a pirralhada.

Comes e bebes
Reunião dançante é refrigerante e cachorro quente. Nada de churrasco. No máximo, alguns salgadinhos. Mas o bruto é refri e dog. Só. E um ou dois que levam, no mocó, cigarro e cerveja. Mas aí é só pra diretoria. Ninguém de 12 anos tem a maldade de embebedar uma mina pra levar pra cama, isso é coisa de adulto.

Os convidados
O ideal é que todos sejam da mesma turma, mas aí tem uma manha que funciona. O anfitrião pode convidar uns cinco “forasteiros” pra dar graça. As gurias vão querer dançar (ou ficar) com os forasteiros e os guris vão em cima das de fora, mas é mais pra ciuminho mesmo, já que na sexta série todo mundo é apaixonado por alguém da turma, não obstante, todos pela mesma.

O DJ
É bom que chegue cedo. Ele não vai ter tempo de comer e beber direito, aí ele pega a melhor parte, quando o rango é recém feito. É de bom tom que ele durma na casa do anfitrião, para que tenha música até o fim da festa. Ele aceita sugestões musicais, mas a seleção é basicamente a sua.

A seleção musical
Em 92, o DJ é tão fera que ele coloca fita pra rodar. Isso mesmo, fita. Vinil é trabalhoso. CD é artigo de luxo. Então, vai na base da fita. Como fazer? Na semana que antecede a festa, compre umas oito fitas virgens no camelô. Pega a BASF, é a que tem o melhor som. 60 minutos. Faça seleções que variam entre hits do rádio, resquícios do rock nacional, uns anos 80 dançantes, alguma coisa de anos 50 e 60 e muitas baladas. O predomínio deve ser de baba. Guns N’Roses, Skid Row, Bon Jovi, Scorpions e Winger. No início, coloque as agitadas. É a que dá coragem pra galera ao menos se levantar. Pense que não haverá contato dos meninos com as meninas até que a primeira lenta toque. Aí capriche. Vá de Patience. Ela é mortal. E quando o primeiro corajoso tirar a primeira pra dançar, aí o estrago já está feito. E lembre-se: o povo quer as lentas. Aceite os pedidos, é importante para quem solicita.

O equipamento
O ideal seriam dois rádios separados, mas aí é muito complicada a montagem. Então, pegue um rádio de dois decks. Um pra deixar as músicas no ponto e outro só pra soltar. Ou apele para um walkman para voltar as faixas. Não importa se houver espaço entre as músicas. O barato da festa é dançar, respirar, contar pros amigos da dança e depois voltar para outra.

O tempo da festa
Quando forem duas da manhã, a galera não estará mais por lá. Então, lembre-se, o tempo é curto. Não dá pra comer mosca. É música atrás de música, respeitando as conversas, os pedidos e a pausa pro lanche.

O rescaldo
É inevitável. Suas fitas vão sumir. Por isso, não leve aquela raridade do novo do Queensryche que você gravou do amigo de um amigo. Pegue a faixa que você quer e coloque na seleção.

Roxette
Essa é a chave. Roxette salva qualquer marasmo em festa. Importantíssimo lembrete. Se você não tiver pelo menos Fading Like a Flower, Spending My Time, Joyride, She’s Got the Look, How do you do, It Must Have Been Love e Dressed For Sucess, corre sério risco. Quando tudo parecer perdido, solta uma delas e veja o resultado. Redenção para qualquer DJ. Roxette é a bengala necessária para a salvação de uma reunião dançante em 92.

As lentas
No outro blog, dez músicas obrigatórias para uma festa bem sucedida em 92.

As rápidas
Outra salvação é a seguinte: recorra à dance music da época. Ace of Base, Lisa Stansfield, Corona, Double You, Paula Abdul, C & C Music Factory são outros coringas na manga.

Posto de responsabilidade
Lembre-se, você é o DJ. Mas DJ em 92 não significa nada não. Se hoje, DJS levam cantadas em raves, na época, tu só é o cara que topou em ficar sentado botando música para os outros dançar. Galo é quem tira elas e chega juntinho na manha. Portanto, a tua diversão não é das maiores (se bem que eu me divertia, até porque era mangolão e curtia música bastante na época, além de ter uma vergonha incrível de chegar em mulher; acho que a coisa se inverteu hoje em dia, enfim).

Portanto, tá aí o guia para uma reunião dançante perfeita. Se quiserem saber como fazer uma festa de verdade hoje em dia, eu não sei responder. NO MEU TEMPO, ali entre 90 e 94, eu tinha a manha. Hoje, acho melhor perguntar pro Fatboy Slim.

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