Verborragia sem concessões

February 8, 2007

COMO SER UM BOM DJ EM 92

Filed under: música, saudosismo - Carlos @ 7:01 am

Este é um post musical, mas não vou colocá-lo no outro blog porque a proposta dele não é essa.

No meu tempo, baladeiro não era sinônimo de boêmio. Baladeiro era o cidadão que gostava de balada romântica (e eu não sei que nomenclatura usam hoje em dia pra esse tipo de som, até porque ele não é mais feito). Ou era balada ou música lenta. Porque era assim né. Reunião dançante tinha música rápida (pra esquentar) e música lenta. Pois então, vou fazer aqui um pequeno manual de como funcionava um DJ juvenil (12 ou 13 anos) no início dos anos 1990.

O local
Reunião dançante boa em 92 é em garagem. O resto vira amontoado de gente ou gente de menos. O espaço ideal para uma reunião dançante é a garagem de uma casa. De preferência espaçosa, com um pátio considerável, espaço para conversinhas de canto e um banheiro no local mesmo. A porta que dá acesso à casa deve estar fechada, para evitar dispersão, como gente querendo ver os filmes bagaceiros no SBT ou na Bandeirantes. Só o anfitrião e dois de confiança podem ter acesso à cozinha, pra evitar assaltos indesejados. Em um canto, o aparelho de som. Perto, uma mesa com os comes e bebes. No mais, um espaço vazio para todos dançarem, com cadeiras distribuídas estrategicamente da seguinte forma, bem simples: de um lado, meninos; de outro, meninas. O local também dispensa estacionamento, porque ninguém dirige e os pais levam e buscam a pirralhada.

Comes e bebes
Reunião dançante é refrigerante e cachorro quente. Nada de churrasco. No máximo, alguns salgadinhos. Mas o bruto é refri e dog. Só. E um ou dois que levam, no mocó, cigarro e cerveja. Mas aí é só pra diretoria. Ninguém de 12 anos tem a maldade de embebedar uma mina pra levar pra cama, isso é coisa de adulto.

Os convidados
O ideal é que todos sejam da mesma turma, mas aí tem uma manha que funciona. O anfitrião pode convidar uns cinco “forasteiros” pra dar graça. As gurias vão querer dançar (ou ficar) com os forasteiros e os guris vão em cima das de fora, mas é mais pra ciuminho mesmo, já que na sexta série todo mundo é apaixonado por alguém da turma, não obstante, todos pela mesma.

O DJ
É bom que chegue cedo. Ele não vai ter tempo de comer e beber direito, aí ele pega a melhor parte, quando o rango é recém feito. É de bom tom que ele durma na casa do anfitrião, para que tenha música até o fim da festa. Ele aceita sugestões musicais, mas a seleção é basicamente a sua.

A seleção musical
Em 92, o DJ é tão fera que ele coloca fita pra rodar. Isso mesmo, fita. Vinil é trabalhoso. CD é artigo de luxo. Então, vai na base da fita. Como fazer? Na semana que antecede a festa, compre umas oito fitas virgens no camelô. Pega a BASF, é a que tem o melhor som. 60 minutos. Faça seleções que variam entre hits do rádio, resquícios do rock nacional, uns anos 80 dançantes, alguma coisa de anos 50 e 60 e muitas baladas. O predomínio deve ser de baba. Guns N’Roses, Skid Row, Bon Jovi, Scorpions e Winger. No início, coloque as agitadas. É a que dá coragem pra galera ao menos se levantar. Pense que não haverá contato dos meninos com as meninas até que a primeira lenta toque. Aí capriche. Vá de Patience. Ela é mortal. E quando o primeiro corajoso tirar a primeira pra dançar, aí o estrago já está feito. E lembre-se: o povo quer as lentas. Aceite os pedidos, é importante para quem solicita.

O equipamento
O ideal seriam dois rádios separados, mas aí é muito complicada a montagem. Então, pegue um rádio de dois decks. Um pra deixar as músicas no ponto e outro só pra soltar. Ou apele para um walkman para voltar as faixas. Não importa se houver espaço entre as músicas. O barato da festa é dançar, respirar, contar pros amigos da dança e depois voltar para outra.

O tempo da festa
Quando forem duas da manhã, a galera não estará mais por lá. Então, lembre-se, o tempo é curto. Não dá pra comer mosca. É música atrás de música, respeitando as conversas, os pedidos e a pausa pro lanche.

O rescaldo
É inevitável. Suas fitas vão sumir. Por isso, não leve aquela raridade do novo do Queensryche que você gravou do amigo de um amigo. Pegue a faixa que você quer e coloque na seleção.

Roxette
Essa é a chave. Roxette salva qualquer marasmo em festa. Importantíssimo lembrete. Se você não tiver pelo menos Fading Like a Flower, Spending My Time, Joyride, She’s Got the Look, How do you do, It Must Have Been Love e Dressed For Sucess, corre sério risco. Quando tudo parecer perdido, solta uma delas e veja o resultado. Redenção para qualquer DJ. Roxette é a bengala necessária para a salvação de uma reunião dançante em 92.

As lentas
No outro blog, dez músicas obrigatórias para uma festa bem sucedida em 92.

As rápidas
Outra salvação é a seguinte: recorra à dance music da época. Ace of Base, Lisa Stansfield, Corona, Double You, Paula Abdul, C & C Music Factory são outros coringas na manga.

Posto de responsabilidade
Lembre-se, você é o DJ. Mas DJ em 92 não significa nada não. Se hoje, DJS levam cantadas em raves, na época, tu só é o cara que topou em ficar sentado botando música para os outros dançar. Galo é quem tira elas e chega juntinho na manha. Portanto, a tua diversão não é das maiores (se bem que eu me divertia, até porque era mangolão e curtia música bastante na época, além de ter uma vergonha incrível de chegar em mulher; acho que a coisa se inverteu hoje em dia, enfim).

Portanto, tá aí o guia para uma reunião dançante perfeita. Se quiserem saber como fazer uma festa de verdade hoje em dia, eu não sei responder. NO MEU TEMPO, ali entre 90 e 94, eu tinha a manha. Hoje, acho melhor perguntar pro Fatboy Slim.

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