WINSTON - RECORTES DE VIDAS COMUNS
Só agora eu me sinto à vontade para fazer uma resenha deste disco, que foi lançado em 2002. Decidi escrever a respeito depois que vi o CD parado na minha prateleira, esperando ansiosamente por uma audição, que talvez não aconteça de forma completa há uns bons quatro anos.
Toquei na winston por um ano e pouco. Junto com o Tiago, fiz a famosa demo azul plagiando descaradamente (e propositalmente) o primeiro disco do Weezer (1994). A demo foi lançada no verão de 1999, gravada no finalzinho de 1998. Deste embrião, apenas “Me Chamo winston” foi aproveitada no CD (2002). O resto ficou de fora, apesar das ótimas “Quando eu for Deus” e “Eu quero beber”.
“Recortes de vidas comuns” é o único disco desta banda que acabou em 2004. E é incrivelmente bom. Com oito faixas bem produzidas, o disco é o resultado do esforço e do sonho dos que participaram direta e indiretamente da banda. Lembro que foram quase dois anos de ensaios e gravações jogadas fora até que saísse este resultado, completamente diferente da demo.
Se na fita, o que primava era a tosqueira, as guitarras estouradas, erros não corrigidos, vocais mal mixados, desafinação, bateria, guitarra e baixo fora de tempo e solos compostos na hora, no CD tudo isso é tratado como um passado juvenil-amador e dá lugar a um profissionalismo invejável.
A mudança se deu principalmente depois da chegada do Dudu na banda. Um dos melhores guitarristas que eu conheço, ele deu o toque acadêmico que faltava. Se na fita, o winston era a banda do Tiago letrista, no CD o winston passou a ser a banda do Dudu músico. Ele produziu o disco junto com o Pedro Veríssimo (Tom Bloch) e meteu um espelho de guitarras arrebatador em todas as músicas. É um disco de guitarras fortes e excepcionalmente bem tocadas, de solos certos bem escalados, com um baixo econômico e uma bateria discreta (fosse o primeiro baterista, Peter, quem tivesse gravado, tudo seria diferente, tamanha era a sua monstruosidade no instrumento).
Os destaques são “Me Chamo winston”, um quase-hino para menores de 21, uma letra imbatível, com uma base simples, e que iria muito mais longe que foi; “O Casamento”, uma pérola punk-pop escrita pelo Mini, da Walverdes; “A Carta”, que na época soava como um plágio de alguma coisa e que hoje é um petardo romântico tocado às últimas conseqüências; e “Herói Invisível”, a melhor do disco. Aliás, eu gostaria que alguma banda emo nova ouvisse esta música e gravasse. Pararia nas rádios na hora. Pérola pop, uma letra maravilhosa e nuances de genialidade na guitarra.
Sei de todos os problemas que a banda enfrentou, desde a troca constante de formação até mudanças repentinas na sonoridade. As músicas mais recentes, por exemplo, remetiam ao metal do Deftones. No início, a gente tava ouvindo muito lo-fi e a tosqueira permeava tudo. No meio do caminho, um certo flerte com o pop meloso da Bidê ou Balde influenciou o pessoal. Isso talvez tenha atrapalhado a trajetória de uma banda das mais queridas em 1999. Quem sabe faltou persistência para que se seguisse num caminho único, para que canções como “Herói Invisível” fossem mais respeitadas.
O disco, claro, é irregular. A melhor letra, “Anoréxica”, se transformou numa música comum, com um arranjo bem diferente do que eu tinha pensado (vale lembrar que eu fiz a música com o Tiago no verão de 1999 e quando ela foi gravada, eu já estava fora da banda). “Eu sou outro” é uma música completamente desnecessária e “O que você já sabe” tem uma frase inicial igual a “Debaser”, do Pixies e uma linha de baixo semelhante a de centenas de músicas indie espalhadas por aí.
Apesar destes equívocos, é uma pena o winston ter acabado. Principalmente pelo que a banda significava para a gente no início. Neste disco, Tiago, Meigo, Pepe e Noronha são os participantes. Depois, Marcos Ludwig assumiu o baixo, além do que a bateria já pertenceu a Zed e a Peter.
Minha participação na banda durou até o final de 1999, quando passei a exercer minha atividade atual. Até o final, seguia indo aos shows, me perguntando o tempo todo por que diabos não permaneci tocando, me aprimorando e tendo idéias.
O que fica é esta memória gostosa. De shows antológicos, como no Bailão do COL em 1999, no Garagem Hermética, ou um acústico bem feito, no Ocidente em 2001. Ou ainda a quebradeira feita na PUC em 1999, ensaios onde fica a atual Fun House, na Barros Cassal, onde era um estúdio. Gravações lá na Zona Sul, no Cristal, e uma história que se confundia com a nossa própria trajetória de vida entre 1999 e 2003.
Mas o que eu mais lembro é do início, de como a gente fez oito músicas em um dia, ensaiando num calor insuportável no Jardim Lindóia, com muita cerveja e depois banho de piscina. Ou as participações do Felipeta nos shows, algo que eu jamais vou esquecer.
Sobre o que deu errado, eu lamento. Fica um disco, que é muito bom, apesar de eu achar às vezes que ele é um pouco subestimado pelos próprios integrantes. E ficam estas composições, feitas por guris de 19 anos, para gente de 19 anos e que hoje, passados oito anos, soam datadas, infantis, piegas. No entanto, foram feitas com uma sinceridade inquietante, numa época em que nos apaixonávamos mais, vibrávamos mais e éramos mais irresponsáveis e criativos. Numa época em que até bancavam as nossas contas e o prazer fundamental era passar toda aquela síndrome de início de vida adulta em forma de canções.
Sou capaz de dizer que estas músicas, assim, meio tortas, são melhores do que qualquer coisa que os integrantes fizeram depois (inclusive as que vieram no final da banda). Talvez não em termos de qualidade, mas inegavelmente no aspecto da honestidade. Agora, a gente sabe como funciona o esquema, e aí, tem que seguir esta linha pra buscar algo. A revolta que a gente tinha não cabe mais no nosso mundo. Que bom que um dia a gente teve isso. Que bom que eu participei na hora certa.
Ótimo texto.
(Eu assumi o baixo, não a guitarra. Corrija lá, por gentileza).
Comment by Marcos Ludwig — February 16, 2007 @ 8:39 pm
bah, perdão irmão
vou corrigir
Comment by Carlos — February 17, 2007 @ 3:13 am
Flash back sentimental.
Mesmo com um atraso na leitura deste texto em quase 2 anos, as devidas correções devem ser feitas: nunca gravei “recortes de vidas comuns”, apesar de meu nome estar estampado na prensagem.
Minha contribuição com a winston sempre foi ao vivo, já em sua fase final.
Abs.
Comment by Noronha — February 8, 2009 @ 2:55 am