Verborragia sem concessões

March 13, 2007

O CÉU DE SUELY - TRILHA SONORA

Filed under: cinema, música - Carlos @ 4:53 pm

Ainda preciso escrever um pouco mais sobre este filme emocionante. Filmes brasileiros especialmente me comovem. Foi assim com “O Ano em Que Meus Pais Saíram de Férias”. No caso, uma identificação esplêndida com uma paixão de criança que supera e pula todas as adversidades: o futebol. O fanatismo pela seleção brasileira em uma Copa do Mundo, as primeiras descobertas, andar de bicicleta, colar figurinha em álbum. A lindeza de uma fase única e inesquecível.

Em “O Céu de Suely”, o que me tocou foi o sonho da menina de 21 anos dividida entre a angústia de criar um filho sem dinheiro e o sonho de ganhar o mundo.

Sobre a trilha sonora do filme, eu escrevo no outro blog.

O CÉU DE SUELY

Filed under: comportamento, cinema, brasil - Carlos @ 5:21 am

É tão bom quando a gente vê um filme genuinamente brasileiro. Ultimamente, ficamos mal acostumados com os chamados blockbusters nacionais, estes filmes patrocinados pela Globo Filmes que deram esta estética um tanto globalizada para o nosso cinema. “O Céu de Suely” nos remete ao “CINEMA NOVO DA RETOMADA”, um rótulo que nos remete ao velho Cinema Novo: a opção por mostrar a brasilidade na tela, longos planos fechados, fotografia estourada, valorização de paisagens, simplicidade nos diálogos e temáticas locais.

Além da alegria em ver este tipo de cinema brasileiro, que particularmente me agrada muito e já foi objeto de estudo acadêmico por mim, é com um grande prazer que eu recebo o cenário colocado no filme. A cidade de Iguatú fica no meio do sertão cearense. Em 2003, na minha tour nordestina, a linha de ônibus que liga Fortaleza a Jericoacoara parou num local chamado Morrinhos, que fica no sertão. A cena é a mesma, idêntica. Crianças na rua, de pés descalços, pequenas casas velhas de alvenaria, com uma calçada minúscula, uma rua estreita de paralelepípedo, uma eterna meia luz nos postes e um calor seco insuportável contrastando com um céu estrelado e límpido. Lindeza pura.

Hermila (Hermila Guedes, a atriz que fez Elis Regina no especial do verão da Globo, por sinal excepcional atriz) é uma jovem de 21 anos com um filho de dois. Depois de um período “fugida” em São Paulo, retorna para Iguatú (CE). Seu marido não volta para revê-la e ali está ela, com o filho, na casa da avó, numa cidade pequena do interior do nordeste.

O espírito de inadequação toma conta da garota, que pretende sair dali a qualquer custo. É quando ela decide rifar o próprio corpo. Comprando um bilhete por 15 reais, o cidadão concorre a uma noite com ela. Tudo para juntar 400 reais e vir para… PORTO ALEGRE (o lugar mais longe possível).

É impossível não traçar um paralelo com o que acontece hoje em dia com a classe média porto alegrense. O realismo empregado no filme assusta e por um momento, aquela guria pobre, que sonha apenas em ir “para o lugar mais longe possível” me leva ao que tantas pessoas do meu meio pretendem fazer. Parece que ninguém quer pertencer ao lugar onde está.

Por um lado, esta ambição jovem é saudável. Mas por outro, eu fico pensando se não é tão bom também criar raízes e obter uma estabilidade.

Eu já critiquei muito essa vontade obsessiva que os porto alegrenses de classe média têm em simplesmente querer sair daqui. Não bato nesta tecla, até porque eu mesmo fui tomado por esta sensação de inadequação. O que me assusta é que cada vez mais o jovem está mais ambicioso e inadaptado. Não sei de quem é a culpa. Mas isso pode gerar daqui a algum tempo uma falta de limites absurda, quando valores como família, amizades estabelecidas e vínculos afetivos podem ir por água abaixo simplesmente porque a gente sempre vai querer mais e mais e mais.

É aquela história: mais vale ficar em Londres ilegal limpando chão do que casar em Porto Alegre e constituir família. Ou mais vale para Hermila (ou Suely) vir pra (opaa, respira) PORTO ALEGRE no escuro, sem nada na mão, trabalhando provavelmente de faxineira ou prostituta, do que permanecer em Iguatú, com sua família, namorar aquele cara que sempre gostou dela e construir um futuro simples, sem luxo, mas com dignidade, amor, amigos verdadeiros.

O céu de Suely era Porto Alegre. O céu do pessoal é a Europa, pelo jeito. O céu é o limite mesmo? Ou você sempre vai querer mais? Aliás, o que é este MAIS que você tanto quer? É a pergunta que fica, tanto para Hermila quanto para quem está lendo isso aqui.

FRAGMENTOS

Filed under: saudosismo - Carlos @ 2:40 am

Este texto foi escrito há aproximadamente um mês e eu não ia publicá-lo. Como duas das três pessoas citadas já leram e não fizeram grandes dramas, aí vai ele.
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Descobri qual é a mulher dos meus sonhos. Descobri QUAL é e não QUEM é. Minha mulher ideal é um cyborg. É um ser mutante derivado de transformações de três pessoas diferentes, estas reais, de carne osso e que eu conheço muito bem. A minha mulher ideal é a mistura bem feita das minhas três ex-namoradas.

Eu coloquei no orkut que eu admiro minhas ex-namoradas. E neste caso, eu coloco as três com quem fiquei mais tempo, ignorando as que estiveram comigo por menos de um ano. É, de fato, efetivamente assumi mais namoros que estes três, mas no final das contas, percebi que não passavam de ficadas prolongadas. Portanto, com total ausência de demagogia, admiro as três, com todas suas diferenças, seus defeitos, suas qualidades e com a certeza de que eu conheço bem as três.

Claro que não vou citar os nomes. Das três, uma certamente vai ler este texto (e já tomou conhecimento do conteúdo dele). Outra, pode ser que leia. Volta e meia ela está por aqui. Quanto à terceira, esta tenho quase certeza que não vai ler.

Esta idéia imbecil e absolutamente doentia surgiu numa corrida em Atlântida Sul. Observando os casais passeando na praia, comecei a dividí-los pela sintonia. É assim que funciona a fórmula mágica do amor. É tudo uma questão de SINTONIA. Ou tem, ou não. Partindo do princípio da primeira impressão, fiz esta a avaliação na praia. Alguns casais tinham uma sintonia perfeita. Outros nem tanto. Foi quando eu percebi que eu talvez não tivesse mais uma sintonia exata com ninguém. A minha sintonia era com fragmentos destas três ex-namoradas. O gosto por cinema de A, a parceria para viajar de B, o banho de mar com a C, o gosto musical da A, o companheirismo da B, a determinação da C, as piadas internas da A, a paciência de B e a simplicidade da C e até pegando coisas mais pontuais, como a mescla da vida caseira da A, da disposição da B e do clima familiar da C. Não criei uma imagem desta mulher cyborg, até porque particularmente eu acho as três muito bonitas. Detive-me apenas nas figuras psicológicas delas.

Assim que eu fui criando minha mulher ideal, misturando características tão antagônicas das três, e que juntas se tornariam algo que eu não posso conceber que seja alguma coisa diferente da definição de PERFEIÇÃO.

Obviamente, elas possuem semelhanças, além do fato de terem CAÍDO NO MEU CONTO. Mas tenho certeza que não foi nas semelhanças que elas fizeram com que eu me apaixonasse por elas. Foram as peculiaridades, estes detalhes que só uma delas tem e as outras deixam a desejar. Ah, malditos detalhes, um sorriso bem colocado, uma manha bem feita, uma idéia mirabolante, um afago na hora certa. Coisas que a gente não sabe muito bem explicar, mas que quando nos toca, como aconteceu nestes três momentos separados da minha vida, a gente chega bem perto do que se imagina como felicidade.

E eu pensei no meu início com as três. E em como eu me divertia com qualquer bobagem que elas faziam pra mim. E em como isso passou e eu não soube aproveitar o que seria “marasmo” e transformar em simplesmente “intimidade”. Eu preferi acreditar que algo estava morrendo ao invés de ter a consciência de que era apenas um elo bem mais forte e eterno que se encaixava.

Foi quando eu cheguei à conclusão que deu origem ao texto. Eu tinha sintonia com as qualidades delas e perdi a sintonia pelo que eu considerava defeito delas. Talvez eu tivesse exigido muita coisa. Ou pior, talvez eu tivesse deixado a desejar ou tivesse pisado feio na bola.

Justamente por isso, não sei se eu daria certo com uma mulher com defeitos, qualidades, ranços, manias, gostos, antipatias, medos, traumas, caras-de-bunda, má vontade, desejos incompatíveis, sonhos diferentes, TPM, etc. Talvez tenha me faltado maturidade pra conviver mais longamente com uma pessoa normal como qualquer uma das três, as mais fantásticas e admiráveis mulheres que eu conheci até hoje.

Aí, feito adolescente bobo, criei meu amor platônico: a mistura dessas três pessoas que eu vou gostar para o resto da minha vida, pegando só o que eu julgo ser qualidade delas, e já me arrependendo amargamente por ainda não compreender o que pra mim são seus defeitos.

Acho que eu nunca vou entendê-los mesmo. Enquanto isso não acontece e como não existe esta mulher, essa é a maneira, do meu jeito, meio errada, complicando tudo, de prestar um tributo por quem eu realmente me apaixonei, pra rotular de uma vez por todas o que vocês são para mim: inesquecíveis.

LABIRINTO DO FAUNO

Filed under: cinema - Carlos @ 2:35 am

Confesso um total desleixo com o cinema neste início de ano. Não vi vários filmes dos que concorreram ao Oscar. Entre eles, a indicação geral da nação “O Labirinto do Fauno”.

Algumas pessoas que eu conheço indicaram o filme mexicano como o melhor do ano. E eu entendo as razões. Provavelmente, “O Labirinto do Fauno” seja o filme mais belo que eu já vi. Pelo menos no aspecto visual, nunca vi tamanho encantamento com os planos, cores e imagens colocados na tela.

Além disso, é o filme mais triste que eu vi nos últimos tempos. A sensação de quem vê o filme é de uma melancolia permanente, que só cessa quando tem alguma outra coisa que a interrompa. A mistura de fábula com barbárie, a pureza de quem acredita na fantasia misturada com a crueldade de quem defende um ideal, a falta de sensibilidade de quem cresceu alternando com a imaginação de quem sabe o que está acontecendo, mas tem fé de que possa haver um mundo onde ela era princesa, habitado por fadas, com labirintos e portas que se abrem com giz.

O personagem do fauno, a criatura com dedos nas mãos, os insetos nojentos, um sapo gigante, todas criaturas fantásticas e horripilantes são bem menos monstruosos do que um simples ser humano, que comete as piores atrocidades simplesmente porque acredita. É a contradição da crença. De todas as crenças. A crença do capitão no novo governo e em se tornar à altura do que foi seu pai, dos rebeldes que ainda acham possível a revolução, da mãe que só quer um futuro melhor para os filhos e a crença da menina (ótima atriz), que consegue enxergar uma saída única num maravilhoso mundo de fantasia e ilusão.

Um filme que perturba e que emociona. E, repito, com uma fotografia deslumbrante, uma direção de arte de encher os olhos e efeitos especiais de primeira.

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