28
Vou fazer 28 agora, em maio. Acho que com a aproximação dos 30 anos, a linearidade da tua vida só é quebrada se houver uma ruptura brusca, tão intensa quanto às primeiras descobertas sexuais, como a primeira namorada, a primeira vez que tu pegou um ônibus sozinho, a primeira viagem de avião, o primeiro emprego, a formatura, passar no vestibular.
Aos 28, eu já tenho uma amostra considerável das experiências mais usuais da vida. Já houve paixões arrebatadoras, início e fim de relacionamentos, euforia, sensação de acomodação e expectativa por ascensão profissional, decepções na mesma área, uma certa desistência de sonhos impossíveis e a convicção de outros sonhos, bem mais realizáveis. Já sei que um pardal multa mesmo quem passa de 80 km/h na estrada, que cerveja em excesso causa ressaca, que uma semana de atrasos dá demissão, que o teu talento não é de forma alguma sabotado, que tua carreira é o teu talento, e é nisso que tu deve investir. Já tenho a idéia de quem são nossos amigos, que muitos nos decepcionaram e que a gente já decepcionou muitos. E que a vida é uma rotina às vezes nostálgica, um vai-e-vem de acordar, exercer alguma atividade que te cause bem estar físico ou financeiro, um eterno rodar pela cidade até chegar ao local onde vai gastar um pouco de algum atributo do teu corpo em troca de uma recompensa que chega dia 5. E que à noite, uns amigos podem beber comigo, ou então a gente vai no cinema ver Homem Aranha 3. Senão, me toco num inferninho, num exercício bárbaro de solidão cosmopolita, arranjando uns quinze conhecidos na noite dançando coisas que eu tenho em casa. Fingindo estar dançando.
É isso que eu sei aos 28. Uma constante e eterna busca por uma diversão completamente abstrata, tão seca e dura quanto a ressaca do dia seguinte, e uma sensação ilusória de diversão instantânea. E efêmera, porque morre, na maioria das vezes, nem penetra na memória, apagada como nos cinco segundos que tu demorou pra dormir completamente cansado pelas incontáveis horas de rotina natural de trabalho, contas e trânsito. Ou cerveja, música ruim e lugar apertado.
Não chorava há algum tempo quando vi um pai com uma menina de uns 7 anos no Borubon Country segunda feira à tarde. Tentei adivinhar a vida do cara. Separado, estava com a criança no seu dia de guarda. Ou então, simplesmente pegou a guria depois do colégio dela e deu um tempo no shopping, entrando na Livraria Cervo para comprar alguma coisa, depois de comer um doce numa cafeteria. E depois, iria pra casa, encontrar a esposa e o irmão mais novo. Sentariam à beira da televisão, talvez a guria fosse pra internet, ele faria algumas ligações combinando o dia seguinte, ela pra amigas, jantariam, tomariam banho, fariam as crianças dormir, depois de uma bronca, evitando de ficar até tarde na internet. E dormiriam, juntos, na cama de casal. O relógio desperta às sete, tomam um banho, se barbeia, ela se ajeita um pouco mais, pega o carro, acorda as crianças e cada um toma seu rumo, em parte um rumo que eu sei, o de estudante primário. Em outra parte, um rumo completamente desconhecido pra mim. O de pai de família trabalhador, que deve ser diferente do meu. Enquanto eu combino campeonatos de videogame, eles apresentam a seriedade necessária digna de um pai de família, contando as horas para chegar em casa e ver os filhos crescendo. Passando um domingo levando na casa de amigos para dormir fora, indo ao parque, a algum restaurante lotado da cidade ou planejando um feriado fora de casa. Ou até mesmo ficando em casa, ensinando coisas bacanas, aquelas coisas que a gente fazia quando era criança e que só tem a vontade de repassar, de seguir em frente, como se não fosse mais possível da gente fazer, mas precisasse de um herdeiro, um filho.
Isso eu não sei aos 28. E pela primeira vez em público, despindo a carranca pseudo-bagaceira-chinelona que cerca a minha aura pra quem me vê de fora, eu tenho essa vontade. Como naquele filme brasileiro tão bonito que eu vi na noite anterior, “tão difícil, mas tão bom. é sempre tão bom, mas é sempre tão difícil”.
Queria dar adeus definitivo a essa adolescência tardia. Eu sou fanático por videogames, por ouvir bandas adolescentes e compreender o universo mágico que cerca esse bando de gente que ainda tem pelo menos no mínimo dez anos de estrada pra acumular o que eu tenho e cair na real, que noventa por cento dos sonhos vão sendo até inconscientemente esquecidos com o passar dos tempos.
Eu não vou ser músico, não vou tocar para uma multidão, não vou ser produtor musical, talvez seja famoso, merecidamente pelo meu talento verdadeiro e bruto, que é minha profissão, sendo que não era um sonho meu. O meu sonho, hoje, ao ver aquele pai no shopping, era ter um pouquinho dele naquele momento. Talvez ele pense o mesmo que eu, que queria um dia sair até tarde com os parceiros sem dar satisfação pra ninguém e recolher um pouco das economias gastas em colégio, roupas, alimento para, sei lá, fazer uma viagem de moto pelos Andes, ou participar de um torneio de golfe.
Os nossos sonhos são o fruto da nossa insatisfação atual. É uma barbada falar sobre os países que a gente conheceu ou sobre a festa da noite anterior ou sobre a vitória do nosso time. Difícil é admitir essa frustração. De que a França não vai sair do mapa, de que a noite sempre vai existir e de que nosso time vai umas vezes ganhar e outras perder. A gente sabe disso. Aos 28, eu sei disso.
O que eu não sei é a sensação de ter algo maior para me dedicar. Algo que supere todos estes valores, para alguns sonhos, para muitos a realização de uma vida perfeita, porém completamente egoísta. Acho que estou preparado para esse algo maior, tão grande, tão inacreditável que seria a única ruptura que eu considero válida pra quebrar um amontoado de “já sei como funciona” da minha vida. Talvez aí eu consiga voltar a me emocionar de verdade com alguma coisa que eu tenha feito de fato e com orgulho.