MINHA COPA INESQUECÍVEL
Talvez não seja a sua, mas a minha Copa do Mundo de futebol inesquecível não terminou com vitória brasileira. Pelo contrário, fechou com aquele vexame em Saint-Dennis, quando o Brasil de Ronaldo tomou três da França do Zidane.
Depois de uns sete anos eu voltei a assistir a um jogo da seleção brasileira em casa, sem estar trabalhando. Vale lembrar que eu fui, por exemplo, plantão em todos os jogos do Brasil na Era Dunga (exceto este, contra o México). Nos últimos dois mundiais, eu trabalhei incessantemente (2002 e 2006), ao passo que também jamais vou deixar de lembrar aquelas coberturas inesquecíveis de seleção brasileira. Principalmente a de 2002, com 45 dias virando a madrugada, com minha vida transformada no fuso horário japonês, mas vivendo no Brasil. É claro, eu também volto a 1994, quando o Brasil foi tetra e eu quebrei a parede do meu apartamento com uma voadora, na comemoração.
Mas 98 tem alguns aspectos singulares. Foi a minha primeira e única Copa do Mundo acompanhada em idade “adulta”, com uma certa “independência” e sem encargos de ser um “profissional da área”. Ainda não trabalhava em 98. Estudava apenas, somente no turno da manhã, o que me deixava o resto do dia livre simplesmente para esquecer do mundo e assistir aos jogos. Em 2002, eu assisti a TODOS os jogos da Copa. TODOS, não só do Brasil. Mas eu também trabalhei em TODOS. Em 98, eu vi vários, mas deixei de acompanhar alguns.
Talvez a lembrança desta Copa seja bem mais particular do que o Mundial em si. Durante Espanha x Nigéria, pela primeira vez eu conectei meu PC à internet, com conexão discada do provedor hotnet. Em Brasil x Dinamarca, eu, com carteira recém tirada, atrasado para a partida, peguei uma “carona” na ambulância do Hospital Cristo Redentor para poder me livrar do trânsito. Em Holanda x Argentina, de tardezinha, deixei a sacada do meu prédio aberta com uma bola à disposição só pra chutar enquanto o jogo estava no intervalo. Em França x Paraguai, eu me atrasei para uma festa que eu tinha só para ver a decisão do jogo. Em Brasil x Marrocos, eu recebi uma ligação.
Principalmente, quem sabe a Copa de 98 seja um pequeno rasgo no tempo. Como em 1993, quando eu cresci repentinamente, em 1998, eu passava a ser de fato mais adolescente do que eu era, aproximando uma vida aparentemente sem limites de uma inexperiência gritante. Um marco da liberdade que se tem aos 19 anos, de ter a sensação de que algo importante pode acontecer e você também pode fazer parte disso.
Por isso que toda vez que vejo a seleção, eu lembro da Copa de 98. Rito de passagem, grito de felicidade. Uma linha dividindo o que eu era e o que eu passei a ser a partir daquele ano. Ninguém vai entender nada, mas um pouquinho dessa minha personalidade passou por aqueles gramados franceses. E o pior é que eu nem lembro direito dos gols do Brasil.