QUASE UM KZUKA*
Chega de enganação. Desistam. Eu sou uma fraude. É sério, eu sou uma fraude.
Tava pensando nisso quando assistia ao programa Qual é a Música? com a participação de lendas artísticas do Brasil, num qualificado cast que tinha o velho Luiz Ayrão (não sabe quem é? procura!) como o mais conhecido de todos. Mas como domingo pra mim não é domingo, resolvi que este teria um pouco de domingo e assisti ao programa tentando adivinhar os sons e as charadas produzidas pela equipe do (mestre) Sílvio Santos.
À noite, chego em casa e minha mãe assiste a um programa chamado “Café Filosófico” na TV Cultura. Ela estava gostando. Ela é inteligente, eu não. Foram dois minutos e eu larguei fora, desisti de tentar compreender a análise psicanalítica dos tímidos na pré-adolescência e das primeiras bebedeiras, na intenção de liberar um pouco de coragem presa por uma transição normal de identidade. Este sou eu. Eu troco mil vezes uma conversa inteligente, de onde eu poderia aprender alguma coisa, por um programa de auditório barato e divertidíssimo.
Talvez seja um pouco de pretensão minha. Já estou meio que fechando com a minha visão de mundo a respeito das coisas e não sinto nenhuma necessidade em ter um embasamento teórico-especialista para que eu evolua ou retifique meus pontos de vista. Não quero saber os efeitos de nada. Odeio palestras. Acho um saco seminários. Não tenho nenhuma vontade em me especializar em qualquer tipo de assunto relevante para o espectro cultural-social-filosófico. A não ser que me paguem. Não sinto nenhuma vontade em ser uma pessoa com mais cultura se não vão me dar nada em troca. E vou continuar com minhas teorias, minhas bobagens, minhas idéias definitivas a respeito de qualquer assunto. Não sinto mais nenhum medo de perder discussão, tampouco a necessidade de vencê-las. Inteligência não me dá mais medo, nem mais nem menos. Quem sabe me provoca admiração, mas nunca idolatria. Jamais vou babar o ovo de alguém que eu ache muito inteligente, justamente por isso, por eu ser tão, mas tão preguiçoso, que eu realmente acredite que ele não tenha nada para me oferecer (tira dinheiro fora, por favor).
É uma visão extremamente egocêntrica, prepotente e vaidosa. Eu sei disso. Não me importo. É a mais pura verdade e vocês sabem que não estou aqui pra agradar ninguém. É isso, eu gosto de cultura pop (popular, seja como for). Eu acho graça do Teste de Fidelidade do João Kléber. Eu vibro com o Qual é a Música. Eu compro o novo single do Smashing Pumpkins. Eu quero comprar Brothers in Arms, pro Play2. Eu até curti o novo do Arctic Monkeys. Meu livro preferido é “Mate-Me Por Favor” (a primeira parte) . Eu me divirto à beça com Piratas do Caribe. Eu odeio música clássica. Acho a bossa nova um saco. Sou fã de gangsta rap. Danço “A Fuego Lento”. Acho fotografias bonitas, mas não tenho saco pra me masturbar com uma imagem parada. Nem com filmes franceses do final da década de 60. Nem com os italianos, nem com os russos. Nunca li um russo. Se eu fosse lembrar três russos importantes para a história, eu citaria Boris Yelstin (por causa da vodka), Lev Iashin (o “aranha negra”) e Roman Abramovich (o dono do Chelsea). Não sei diferenciar Stálin de Lênin. Nem Picasso de Dalí. Às vezes ainda penso que Van Gogh era um pianista. Mas sei quem é Mitch Mitchell, J. Mascis, Juliana Hatfield e Stone Grossard. Eu sei qual o time do Flamengo campeão brasileiro de 1987 (com os reservas, claro). Eu não consigo ler Nietschze. Não consigo nem escrever Nietschze.
É isso que eu sou. Um cara sem saco para aprender as coisas que realmente importam na vida. Alguém que não consegue manter uma discussão em um nível intelectual aceitável. Um amontoado de referências pop perdidas numa fraude imensa que não articula uma idéia absolutamente nova nem estabelece um pressuposto teórico para qualquer bobagem que vá falar. Porque não sabe. Porque também não quer, sejamos sinceros. E cá pra nós, é muito chato ser de outro jeito. Sou mais eu. Mesmo sendo praticamente um KZUKA.
*para quem é de fora do RS: veículo de imprensa do Sul destinado aos adolescentes e pré adolescentes.