Verborragia sem concessões

August 30, 2007

A BANALIZAÇÃO DO TARJA PRETA

Filed under: comportamento - Carlos @ 6:22 am

Um semanário de moda britânico fez um editorial com modelos com a temática junkie. Mulheres que servem de inspiração para a beleza sugerindo um certo problema com drogas. O título? Rehab. Por sinal, título da (diga-se de passagem, independente da POSTURA PATÉTICA, uma ótima canção) Amy Winehouse, a nova queridinha do pop mundial. A diferença é que ela se droga e foge da clínica para passear no Caribe, enquanto que, caso eu tivesse este problema, não sairia sequer do meu quarto.

Eu não vou escrever aqui um texto falando sobre drogas, nem sobre minha postura sobre o assunto. Não é o mérito. A humanidade mostra que elas estiveram presentes em todos os momentos da história, cada uma no seu tempo, com até uma devida importância na evolução criativa das artes e da contestação ao sistema, por exemplo. Ou, na maior parte, uma fuga dos diversos percalços que a vida começa a trazer desde as primeiras rejeições, ali na adolescência, passando para um estágio complicado de dependência ou então simplesmente para diversão.

O que me preocupa, no entanto, é a glamourização da tarja preta. Parece que as pessoas ostentam um certo orgulho num ato que dói de tão simplório: ingerir alguma coisa química pra ficar melhor. A estética junkie é a estética para se admirar. O bonito hoje é ver gente pálida, esquálida, cheia de tremelique e que pretende levar o corpo até às últimas conseqüências para ver onde vai dar. Ou então pra aparecer, acho que é melhor assim. Tipo a Amy. Uma puta cantora, resolveu aparecer toda lanhada depois de uma briga com o namorado pra reafirmar o conceito de garota problema. E aí vem um batalhão de fotógrafos pra provavelmente no final do ano alguém eleger a cantora como o “ícone pop do ano”.

O reflexo disso é na legião de jovens que enxergam em Amy Winehouse (ao menos esteticamente) um exemplo a ser seguido. Se ela é assim, não faz mal tomar um tarja preta, uma chapadinha sintética, um sobe-desce de euforias e depressões, uma adrenalinazinha sequer no meio de tanto tédio que se arrasta pela vida dos jovens de hoje em dia. Os remédios nos salvarão. E por aí, conseguimos genéricos por preços bons e pilhas de receita falsa, ou nem a receita, já que os donos de farmácia são mais parceiros da gente do que o cara do mercadinho. O bonito é ser doente. É bonito ser doente. E mais ainda, chamo a atenção para dizer pra todo mundo que eu sou doente.

Eu tomo um remédio para dormir, este prescrito e medicado após uma pequena arritimia e subida de pressão que eu tive há algum tempo. Já sofri com inúmeras rejeições, com críticas, com abandonos, com golpes. Por mais que eles tivessem deixado marcas, eu superei todos eles. Alguns porres pra esquecer e só. Creio que fora os remédios, há umas formas mais saudáveis de evitar a “depressão momentânea”: presença de amigos, um bom porre (tu se recupera dois dias depois no máximo, desde que não dirija), distrações aleatórias, como filmes, livros, músicas e (a melhor de todas) principalmente TER O QUE FAZER. Se a Amy dá um tempo e vai pro Caribe “arejar” eu já tenho que pensar no que fazer no dia seguinte pra poder receber muito menos do que ela recebe no final do mês. Ter o que fazer é o antídoto para o mal do século: a popularização da tarja preta.

Por outro lado, esses medicamentos são a salvação da psiquiatria. Deixei um pouco de confiar nesta atividade. Acho que os remédios estão aí um pouco para mascarar a incompetência do profissional em realizar uma terapia bem feita. Manda o remédio para a goela e tu vive no mundo do morango com chantilly. Até serviria de cobaia não fosse o meu medo impressionante pela ingestão de medicamentos. Não gosto de remédios. Eles servem como tratamento de algum tipo de doença. Aí sim eu apoio isso quando há a CONFIRMAÇÃO da depressão por parte do paciente. Mas será que os psiquiatras examinam coerentemente a pessoa para saber se ela tem depressão ou não? A depressão química? A depressão doença? Aposto que muitos, pra economizar lábia e juntar clientes, já tasca a maldita fluoxetina na terceira consulta, para a satisfação total do paciente e o filme muito bem feito, “salvando uma vida obscura de tristeza e choradeira”, trocada hoje por um mundo mais “shinny happy people”.

No orkut tem uma comunidade “Fluoxetina: a pílula da felicidade”. Andei pesquisando sobre a tarja preta e são vários perfis que colocam “paixões: remédios tarja preta”. Não sei, acho tão triste, solitária e vazia a idéia de que a felicidade da pessoa está diretamente relacionada a um comprimido. Ah, pra saber. Nos perfis, fotos de viagens à Europa, cargos bem sucedidos, pessoas bem vestidas, carrões desfilando, famílias bonitas e bem estruturadas. Ou seja, nenhum guri que passa frio no inverno ou que rala três turnos trabalhando pra poder alimentar dois filhos aos 21 anos, ou aquele que abandona o sonho da faculdade para ajudar a mãe doente internada numa clínica. Não. Isso aí é coisa pra gente forte. Sinal de que fortaleza na educação independe de classe social, por exemplo.

É óbvio que eu isento todos que precisam do remédio. Mas eu tenho certeza que estes não têm orgulho em dizer que tomam. Um alcoólatra não tem orgulho em dizer que é dependente da bebida. É uma vergonha para ele. Um drogado internado várias vezes não tem orgulho de ter sido recluso em clínicas para largar um vício filho da puta. Assim são os depressivos. Os que possuem a doença, comprovadamente possuem, jamais teriam orgulho em mostrar um “jeitinho brasileiro” de comprar tarja preta sem receita e reverenciar o “comprimido para a felicidade”. Estes lutam eternamente contra a doença que os outros, às vezes, tratam como um esporte. É quase igualar o “Eu tomo cerveja e faço fiasco” com o “Eu amo remédio de tarja preta”. Virou uma diversãozinha mirim esse hobbie de mandar um comprimido e sair saltitante.

E aqui, pra não haver nenhuma interpretação errada, eu não sou CONTRA os antidepressivos. Sou favorável desde que haja a comprovação e a necessidade de seu consumo. Eu sou contra o ORGULHO de quem toma pra tirar dor de corno, ficar feliz numa rave, desinibir na hora certa ou até mesmo ver umas estrelinhas coloridas no céu.

E é esta popularização que vem mudando alguns conceitos meus, especialmente quanto à legalização de drogas. Assunto que tinha uma aprovação minha teve uma reflexão diferente após este BOOM da estética junkie. Se agora ainda se tem a dificuldade de subir um morro e ver um trabuco na mão do traficante pra pegar alguma coisa, no dia em que as farmácias venderem, vai ser um estouro geral.

Isso que eu nem falei do imbecil do Pete Doherty, um paspalho que nunca fez nada que preste pra música mundial e também é modelo pra muita gente, não? Afinal, todo fudido, ele come a Kate Moss, coisa que qualquer maratonista que toma iogurte às oito e meia da noite antes de dormir nunca vai chegar perto de fazer. Mas como eu quero durar ainda um bom tempo, se tivesse que fazer uma opção, eu colocaria até granola no iogurte.

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