PARA QUEM QUISER LER ESTE TEXTO:
Ele foi escrito exatos dez minutos depois de ter visto “Tropa de Elite”. Muito do que está colocado abaixo se deve ao impacto que eu tive ao ver o filme. Nunca subi num morro de verdade. Nunca peguei numa arma. Nunca conheci um bandido. Nunca conheci um policial de elite. Conheço vários playboys de classe média do jeito que são descritos no texto. É o lado que eu posso analisar melhor.
Uma frescura minha, que talvez eu considere um princípio, é não baixar filmes no computador. Pelo menos não filmes para eu assistir pela primeira vez. Filme bom tem que ser visto no cinema. Ou a cópia original, bonitinha, em DVD original. A pirataria comercial é uma saída rápida e barata para quem quer adiantar a ordem natural das coisas. Foi o que me levou a assistir ao filme mais impressionante produzido no Brasil desde “Cidade de Deus”. Aliás, eu baixei o filme, não comprei.
Ainda com a cabeça fervendo e sem conseguir pegar no sono, apesar do horário avançado, vou tentar escrever sobre este filme. Começo por uma das cinco maiores atuações que eu vi no cinema brasileiro. Wagner Moura, que por sinal já havia dado um show no último capítulo de “Paraíso Tropical” (e na novela toda), faz do Capitão Nascimento uma interpretação memorável. Inacreditável, eu diria. A realidade com que ele conseguiu vestir o policial chega a dar medo. Um homem que acredita acima de tudo em seu trabalho. A lealdade com que conduz seus homens. A confiança numa justiça que ele crê como a mais correta, uma maneira brusca de acabar com aquilo que lhe foi ordenado. Um ser humano que tem dificuldades em acertar a própria casa e está perdendo sua mulher e seu filho recém nascido. Mas acima de tudo, um cara que acredita. Que coloca sua crença acima de qualquer oferta. E é esta confiança que leva os policiais do BOPE a selecionarem quem vai fazer parte desse esquadrão de elite. Que escolhe seus homens conforme suas regras, algumas beirando a tortura. Mas acima de tudo, preferindo a formação do caráter e a força do espírito. Mesmo que pra isso a dor seja necessária. Tráfico de drogas não é brincadeira. É guerra. E para a guerra, é preciso estômago. É preciso força. E para que a força seja obtida, há de se ter todo o sacrifício e sofrimento possíveis (sou cristão, definitivamente, tudo é uma repetição da crucificação de Cristo. e eu admiro).
Não concordo exatamente com os métodos de Nascimento, aquela coisa de “bandido bom é bandido morto”. Mas entendo perfeitamente um homem como ele pensar dessa maneira. Queiram ou não, droga hoje é vendida por bandido no Brasil. Quem quiser ficar doidão, vai comprar de marginal. É dinheiro reto, direto e vivo chegando na mão de gente que te mataria num piscar de olhos. Ou que roubaria teu carro, que tu levou 36 meses pra pagar, que tá com o seguro pendurado, só pra fugir da polícia e depois desmontar pra não deixar rastros. Que, numa emboscada, pegaria alguém da sua família como refém por horas, sem se preocupar se a pessoa é cardíaca, recém ganhou filho ou não consegue caminhar. É pra ele que você, quando compra um simples baseado, está dando dinheiro.
Esse lado do “playboy” usuário é o que mais me chamou atenção no filme. Até porque é o que eu mais convivi. Um grupo de estudantes, alguns deles completamente chapadões, ajudam uma ONG num morro do Rio. Um deles é bruxo do dono do morro, fazendo a ponte e levando o fumo pra dentro de uma universidade. É o “espírito social” da nossa linda burguesia de hoje. É lindo se envolver com alguma coisa, não? Que tal então começar pelo básico? Infelizmente para a maioria, a droga é ilegal no país. Mais que isso, é fabricada, negociada e transportada pra cima e pra baixo por gente que caiu nessa e aprendeu a fazer a própria lei. Na lei deles, matar é permitido. Matar playboy que dá dinheiro pra eles é prazer. E aí, o trabalho social, o posicionamento político, a caridade na vila, meu velho, vai pro espaço. Tua única preocupação é fumar um pra rir com teus parceiros, cheirar uma carreira pra enlouquecer a noite toda sem parar, tomar uma bala numa rave pra sair da casinha. Mal sabe você que é aí que começa a corrente. E você nem percebe.
Mas o pior mal está lá, no topo da cadeia. Você ainda acha que peixe grande vai neste país? Não, eu desisti. Eu nem protesto mais. Eu fico na minha, digo o famoso “eu já sabia” e no máximo voto em branco nas eleições (desde 2004 é assim, quando eu desacreditei no único partido que um dia eu pensei que fosse mudar alguma coisa, esse aí de todos os “trabalhadores” e “afins). Não me sinto revoltado pela absolvição de Renan Calheiros. “Eu já sabia”. Não protesto mais, portanto.
A virada da mesa, o início da condenação de Calheiros e outros se dá nos pequenos atos. Mas eu também já acho que quem entra pra política tá a fim do glamour da vida pública, da sensação imediata de poder que é a razão do ser humano se sentir alguma coisa importante nessa vida. Para ser importante, é preciso poder e ambição. Ao menos aqui. Por isso eu nunca seria político. Fora minha completa falta de aptidão para abrir concessões, pra fazer lobby, não tenho nehuma vocação sociológica prática pra levantar qualquer bandeira que seja. Eu não participo de nenhuma instituição de caridade. Eu não sou anti-nada nem pró-nada. É bom ser alienado, não considero isso um defeito. Alienado, justo e honesto. Bem simples assim. Bem cristão.
Acho que a mudança começa nos pequenos atos, mas eu realmente acho que a gente é muito estúpido e egoísta pra perceber isso. É mais fácil culpar a… a…. ah… ah SOCIEDADE, certo? “Descriminalização é o caminho”, “álcool e tabaco são promovidos por grandes indústrias e matam tanto quanto o tráfico”, “o governo financia e os usuários são os culpados”, “é um caso de saúde pública”… e por aí vão as desculpas de gente que adora condenar o lado social ERRADO do país (do mundo, melhor dizendo) ao invés de simplesmente fazer atos simples de bondade e justiça.
Talvez nesse sentido a força bruta do BOPE seja mais eficaz do que o altruísmo dos Direitos Humanos ou a sensibilidade do Greenpeace ou o engajamento dos sindicatos ou até mesmo a caridade das ONGs. Talvez esse texto seja de alguém impressionado com o que viu e esteja quase que revelando um manifesto “volta ditadura”, o que não é o caso. Acredito na democracia e nesse sistema que o mundo absorveu de uma forma menos selvagem do que qualquer outro que é o capitalismo. Não é o melhor, mas é o que temos para o momento. E acho que com humanidade é possível fazer um mundo melhor. Quanto mais as pessoas consigam dormir de consciência limpa, é sinal que os tempos estão melhorando.
Por isso, pela minha suposta alienação, pela falta de “manifestação social”, eu não vou pregar o discurso de “participe, exerça sua cidadania”. Jamais. Não peço um livro, uma árvore e um filho. Eu peço que usem a cabeça. A de cima, de preferência.
PS: a cópia vista não está à venda nem será emprestada. Vejam no cinema.