Verborragia sem concessões

October 28, 2007

FUTEBOL. SÓ ISSO, FUTEBOL.

Filed under: futebol - Carlos @ 12:53 am

Dei uma volta na quadra hoje. Foi minha única saída desde quarta-feira, quando descobri estar com rubéola. Uma semana em casa, mas não agüentei. Foi só uma volta, num sábado à tarde, que eu nunca tenho livre. É impressionante a atmosfera de um sábado à tarde, mas provavelmente ninguém dá o valor necessário. Só quando eles não fazem mais parte da tua rotina.

Na rua de trás, uns piás batiam uma bola, ali na calçada. Observei um pouco e fiquei com aquela inveja de ter 12 anos pra poder fazer o que realmente a gente tem vontade. Jogar bola na calçada, no meio da rua, sem compromisso. Suar muito, correr, rir. Um era o Pato, o outro era o Tuta (?). Um encarava o outro, driblava, um guri fazia falta. Tinha um goleiro. Era o velho esquema um contra um, quem fizer gol entra. Ou quem fizer três, o outro vai pro gol. Não era “três dentro-três fora”. Juro que eu queria espantar a rubéola pro alto, pegar a bola e sair limpando a piazada, já chamar um velho pra fazer as vezes de zagueiro, botar um suador no corpo e brincar que eu era, sei lá, o EDMUNDO (SESSÃO FLASHBACK: minha maior atuação como jogador foi numa partida em Curitiba, futebol de campo, eu usava por baixo a camisa número 7 do Palmeiras/Parmalat, utilizada por Edmundo na época. Meu, joguei muito naquele dia, incorporei o animal, numa posição que nem era a minha, a de segundo atacante. Vale lembrar que no campo, eu atuava como lateral-direito: forte no apoio porém FRAQUÍSSIMO NA MARCAÇÃO)

Futebol é mais do que uma questão de vida ou morte, uma vez alguém escreveu. Eu concordo. A atitude de um homem em campo é que define o caráter dele. E a atitude de um homem ao se apaixonar por uma partida de futebol também diz muito. Quando comecei a trabalhar NO MEIO, passei a encarar a “paixão” de uma maneira “profissional”. O futebol virou trabalho. Quando estou de férias (ou enjaulado) tudo se transforma. Zapeei rapidamente e até consegui assistir a um pouco de MOGI MIRIM x MARÍLIA, na Rede Vida, pela Copa FPF. Jogo de bosta, mas era uma partida de futebol, com todas as alternativas e até um desejo de quem sabe estar no Estádio Papa João Paulo II em Mogi-Mirim. Coisa de quem não é muito certo. Ou coisa de quem é apaixonado por isso.

O fato é que depois de tudo isso, eu volto à minha infância. Aos jogos sexta-feira no recreio da Escola do Salvador, no ginásio de cimento, quinze minutos peleados que a gente torcia para que fossem vinte ou trinta. Ou aquelas manhãs ali na COHAB, que nem era na COHAB, um campo de terra violento onde a gente jogava apenas pra se divertir. Ou a tarde num estádio, torcendo, bebendo cerveja e passando o domingo todo envolvido em ir num jogo. Eram dois ônibus pra ir e dois pra voltar na época, mas tudo feito com um prazer espetacular.

Pra mim, brincadeira de guri é jogar bola. Feliz é quem pode fazer isso por diversão, volta e meia. Feliz é quem pode se apaixonar pelo futebol, sempre agregando novos ídolos, novas manias e novas felicidades. Essa é a terapia do homem de verdade: jogar bola. Talvez esse seja um desejo enorme na minha vida quando eu tiver um filho. Ensiná-lo a jogar futebol. Ensiná-lo a se apaixonar pelo futebol, como eu sou apaixonado. A entender de futebol, a consumir futebol, a participar de qualquer evento que envolva o futebol.

Eu juro que no dia em que ele estiver assistindo a MOGI-MIRIM x MARÍLIA, eu até faço companhia. Aí eu vou saber que pelo menos nesse aspecto, eu vou ter acertado.

October 19, 2007

EXÉRCITO DE UM HOMEM SÓ

Filed under: amor(?) - Carlos @ 5:48 am

Quando jovens, não conseguimos dimensionar o tamanho das perdas. Perdi meu avô quando eu tinha 15 anos e pra mim aquilo foi a coisa mais grave de todos os tempos. Logo ele, que me ensinou a amar o futebol, a ler, a me virar, a ter esse prazer desperocupado de que a vida é apenas uma passagem e a gente nem deve levar tão a sério isso aqui. Foi a primeira.

Depois vieram outras. Na maioria, gente que acaba de distanciando de ti pra seguir seu rumo próprio, dando aquela sensação de que na vida adulta somos todos independentes. Ninguém é dono de ninguém. E ninguém precisa tanto de ninguém assim como a gente pensa. Quem sabe isso muda quando eu for pai. É, vai mudar quando eu for pai e tiver uma coisa muito maior do que eu pra depender de mim.

Estou perdendo minha maior parceira. Ela vai embora, vai pra longe. Minha confidente, minha irmã, a melhor companheira de trabalho que eu já tive, meu braço direito. Tá indo pra uma melhor, contando com toda minha torcida, sabendo que é o melhor pra ela nesse momento. É o que vai deixá-la feliz, por mais que eu vá morrer de saudade. E já estou morrendo. Desde já.

A ficha caiu hoje. Confesso que sem ela, as coisas aqui vão ser bem mais sem graça. Bem mais chatas. O que era um saco vai piorar. Como me disseram hoje, eu vou virar “o exército de um homem só”. Sabe, já estou me acostumando com essa sina. De ser um multi-tudo.

Nossa vida fica bem mais pobre em talento, alegria, humanidade, honestidade, lealdade. Sorte da cidade maravilhosa, que ganha uma pessoa com a cara dela. Abre bem os braços com o Cristo, loira má. Ele tá te esperando sem saber direito tudo o que tu significa. Deixa que eu edito. Deixa que eu seguro as pontas por aqui. Ninguém te substitui. Ninguém.

Que bom que tu foi ser feliz. Eu te amo, do fundo do meu coração. E isso TODO MUNDO que me conhece sabe.

PS: Quem sabe o nome da pessoa citada no post, favor não colocar em comentários, senão será deletado. Obrigado.

October 17, 2007

MELA CUECA

Filed under: comportamento, amor(?) - Carlos @ 5:48 am

Acho que todo mundo deveria ter um pequeno momento de mela-cueca pelo menos uma vez por semana. É quase um manifesto pra dizer que a mela-cueca é necessária como um exercício físico, uma visita ao sol, uma ida ao cinema ou uma saída com os amigos. É um momento pra deixar tua alma e teu coração conversarem numa boa, só os dois, sozinhos, e deixar que o resto do corpo vá nessa breguice fundamental.

Eu não menti quando eu escrevi que assisti a SEIS comédias românticas na seqüência depois de uma fossa estupenda em 2003. Recém havia saído de um relacionamento de um ano. Quem me conhece em relacionamentos, sabe como eu sou. Eu não poupo esforços para ver uma pessoa que eu gosto feliz. É porque eu estou feliz, me sinto feliz. Tinha sido também a primeira vez, de fato, que alguém havia “terminado” comigo quando eu achava que estava no auge da relação. Hoje eu admiro esta pessoa e sei que ela teve todos os motivos do mundo pra não continuar comigo. O jogo é assim, ninguém é obrigado a absolutamente nada, é fato. Não teve falta de respeito, só um final de namoro comum, como o que você já teve algumas vezes.

No entanto, eu sofri pra caralho. Não sofreria, talvez, se fosse hoje. Ao invés de naturalmente seguir o meu curso de afundamento no poço de maneira desenfreada bebendo com amigos, pagando alguma mulher, ligando pra antigos casos, caindo na balada, preferi jogar todos os vírus da fossa dentro do meu corpo, na veia, sem anestesia. Pra ver se os anticorpos fariam efeito. Taquei SEIS comédias românticas em um dia de folga, sozinho em Porto Alegre e emendei uma na seqüência da outra. Telefone desligado. Telefone de casa silencioso. Computador fora da tomada. Mundo bem longe. Eu, uma televisão e filmes românticos, uma mela-cueca em doses cavalares, pra ver se eu seria capaz de assimilar uma série semelhante a uma seqüência de cruzados do Mike Tyson (entre 1985 e 1989) no meio da minha fuça. Era isso que eu queria. A doença estava ali? Pois então joga mais pra dentro de mim pra que acabe tudo de uma vez por todas.

Não lembro de todos os filmes, mas sou capaz de rememorar cada detalhe daquela noite em março de 2003. Sábado pra domingo. À tarde, um calor infernal após um empate do Inter com o Juventude em 3 a 3, quando Nilmar fazia sua estréia como titular do colorado. Cheguei às 20h e fui pra frente da TV. A maratona só parou às oito da manhã do dia seguinte. Eu era persistente na época, ainda mais quando se tratava de filmes. Chorei, na época em que eu chorava. Gritei, bradei, sofri, ensaiei umas ligações, mas eu permaneci ali, forte, resistente. Um massacre que vinha em formas coloridas, bonitinhas, cheio de finais felizes, uma reação que eu precisava ter para que um tipo de casca formasse numa ferida que eu tinha no momento.

A diferença é que eu não estou mais em 2003. Nesse meio tempo, minha vida deu voltas. Hoje, por exemplo, debati profundamente um projeto de lei que quer aumentar o tempo de contribuição previdenciária para os 40 anos. Fiz já as contas de quando eu vou me aposentar. Pela lei atual, aos 56 anos. Contas pra se aposentar e o que dá pra fazer depois de aposentado, vejam só. Fiz as contas da prestação de um carro. Senti de fato que as responsabilidades se multiplicam depois que a gente se forma, que tem gente mais nova que tu e esta gente precisa de orientação. E esta orientação vem de ti. Ao invés de ser guiado, já há situações em que tu deve ser o condutor. Ainda inexperiente pra uma série de coisas, mas certamente com alguma cancha pra dizer pra quem tem alguns anos a menos que tu que a estrada é complicada, parceiro. A trajetória é recheada de bons e maus momentos. Que a gente cai, mas a queda é só uma parte disso, ela passa, você se levanta e segue o baile, porque a banda nunca vai parar de tocar. Um exercício de infinitude temporária, que não nos dá mais aquele tempo dos nossos 18 anos em que a gente parava tudo por um longo período pra observar que rumo a gente tá tomando. Fora que, naquela época, a gente nem pensava em observar esse rumo.

Cria-se uma casca, uma proteção natural que faz com que as porradas que chegam não nos derrubam tanto assim. Por outro lado, há toda uma vida pra se criar, fazer valer minha passagem pra alguma coisa. Uma confusão que não te deixa em paz. A não ser que tu saia dessa esfera onde tu tá metido e olhe por cima, uma espécie de satélite espiritual que te localize no planeta e enxergue os diversos caminhos pra seguir em frente. E isso dá medo.

Tenho medo de virar workaholic. Algo que eu lutava em não ser pode acontecer e eu nem perceber. Mas acho que tem um antídoto pra isso. Sair e observar, a lá Ferris Bueller, parar e dar uma olhada no mundo porque senão ele passa rápido demais sem que tu se dê conta. Ou então, permitir-se ser mela-cueca por um dia.

Como eu fiz em março de 2003. Ali, eu achava que tinha motivos. Oras, tem motivo pra ser mela-cueca? Mela-cueca é só de vez em quando uma permissão para observar como o amor pode existir no meio da papelada de contas. É não ter vergonha de cantar “Always” do Bon Jovi em voz alta, acompanhando com o violão. É fazer videoclipe na beira da praia com alguém que você gosta. É gravar um CD com músicas preferidas pra alguém. É brincar com os nomes dos filhos no futuro. É, quem sabe, chorar.

A minha casca é grossa. Virei casca grossa. Mas hoje eu resolvi ver novamente um filme chamado “Um Amor Para Recordar” (A Walk to Remember), um dos SEIS de amor que eu vi em 2003. Foi o meu momento mela-cueca, pra que eu durma bem e tente acordar com essa casca um pouco menos grossa amanhã. Abrir o coração e ainda lutar contra essa praga workaholic que toma conta da gente diariamente.

No final das contas, dinheiro se consegue. O difícil é ser duro sem perder a ternura. Acho que nessa história, os mela-cuecas são bem mais felizes que os workaholic.

October 14, 2007

FRAÇÃO

Filed under: amor(?) - Carlos @ 7:23 am

Homens falam sobre mulher, futebol e cerveja, nessa ordem. Mas talvez homens deveriam falar mais sobre amor. A conotação de viadagem pra esse assunto nos afasta do debate, nos colocando da superficialidade de tratar o assunto com desdém e apenas nos referir às mulheres do jeito que elas acham que a gente fala delas. Mas não é bem assim.

Um dos meus melhores amigos chorou assistindo “Doce Novembro”, aquele, com a Charlize Theron e o Keanu Reeves. Eu vi o filme numa fossa do caralho em 2003, o famoso dia das SEIS comédias românticas em seqüência após o término de um namoro. Outro amigo meu chegou a um detalhe que me obriga a dizer que a percepção masculina sobre as “coisas relacionadas a paixão/amor” é bem mais aguçada do que uma simples incursão no mundo da putaria. Afinal, mulher é bem mais que isso. E mais complexa, interessante e profunda.

Certa vez, chegamos à conclusão sobre o assunto. O melhor momento da vida de um homem dura exatamente a distância percorrida da casa da mulher até a tua casa, após uma noite que a gente julga perfeita. Às vezes é uma eternidade deliciosa, uma meia hora curtida em cada acorde da música que toca naquele momento, um sublime e singelo detalhe que fica na tua memória pra sempre. Em alguns momentos, essa eternidade dura somente uns dez minutos, prolongados com um gosto único determinando um caminho mais longo, uma velocidade mais lenta, só porque a gente sabe que essa eternidade acaba no simples instante em que a vida real te manda dormir.

É a perfeição: tu e uma memória recente que ainda treme tuas pernas, acelera teu coração, dispara tua adrenalina e liberta todaa euforia contida por um tempo enorme de mesmice e cotidiano que te obrigam. A vida é pagar contas, mas eu pago todas elas se for pra ter instantes como este novamente. Um simples deslocamento em que tu faz previsões de como agir pra frente, tomado por uma insegurança deliciosa; cercado por memórias de dez minutos atrás que tu queria que naquele momento fossem eternas, duradouras; detalhes como uma roupa, um cheiro, um raio de sol, um sorriso. Sim, sorrisos. É uma música, uma lista, uma piada. Um beijo. Um não-beijo. Uma descoberta. A simplicidade.

É essa fração de tempo dentro da tua existência que vai fazer com que toda a porrada que a vida te traz valha a pena. É uma plenitude absolutamente inexplicável. Talvez seja até orgânico e um dia a ciência explique toda a profusão de substâncias que teu cérebro manda pro teu corpo naquele momento. Acho até que a ciência explica, não quis pesquisar sobre isso. Prefiro ficar nessa idéia lúdica e quase infantil de que minutos sozinho após um encanto súbito vão pagar todas as horas de vida real que te pega e te detona aos poucos.

Depois isso até pode virar ilusão, frustração, decepção. Mas naquele momento, naquele trajeto, naquele deslocamento, naqueles poucos minutos, nada disso passa pela cabeça. É pleno. É, finalmente, voltar a sentir. Sentir. Isso aí.

October 9, 2007

BARBAS REVOLUCIONÁRIAS

Filed under: fuçando pra aprender - Carlos @ 4:20 am

Por que todos que se dizem “revolucionários de esquerda” usam barba? Além de serem contra as (glup! isso dói) INSTITUIÇÕES DE DITADURA DE COMUNICAÇÃO, será que a nossa estimada Gillette, empresa de tantos e tantos serviços que depila rostos e afins dos seres humanos há sei lá quanto tempo também tá no ESQUEMÃO? Sei lá, eu sou tão fã da Gillette, até da BIC.

O fato é que quando tem uma manifestação que SAI DO NADA PRA IR PRA LUGAR NENHUM, tipo a que foi realizada na frente da RBS na última sexta-feira, nota-se, pelas fotos, que a maioria dos seus componentes parecem ser os melhores amigos do MARCELO CAMELO, do Los Hermanos. Barba feia, camisa pólo surrada e toda adesivada, num dinheiro que teria melhor proveito com outra coisa certamente.

Todo metido revolucionário pós-moderno, esse que tem barba e ouve Los Hermanos e Chico Buarque pré-78, que pede o fim da ditadura da mídia comercial, é quase um EMO. O EMO é aquele que a gente ainda tem a esperança de que um dia vai crescer. O metido a revolucionário não cresce.

De fato, a infância deles é quase a de um emo. A diferença é que ele leu uma base teórica considerável para qualquer estudioso respeitável de esquerda (aqueles que FAZEM BARBA e usam TERNO E GRAVATA, pasmem!) enquanto o emo escutava o JARED LETO fazer pose na frente de sua banda, chamada 30 Seconds to Mars. Aí essa gurizada resolve vadiar um pouco, brincando de Robin Hood sem a coragem pra roubar, deixando um pouco aquela vida de playboy de colégio particular pra brincar de Che Guevara.

Desta manifestação ocorrida sexta em frente ao prédio da ZH, a única respeitável é quanto às rádios comunitárias. Ali dá pra ver que o pessoal batalha mesmo. Chamar a mídia convencional de “ditadura dos veículos de imprensa” é não saber o que se passa dentro delas. A Rede Globo de Televisão faz um jornalismo perfeito no meu ponto de vista. Feito por gente multipartidária, por gente que batalhou pra caralho pra estar lá dentro e por pessoas com altíssima competência. Um redator do Jornal Nacional não é um “vendido ao sistema”, conforme pregam os nossos revolucionários modernos. É um cara que passou por mil testes, mandou trocentos currículos, trabalhou dia e noite pra alcançar esse status, provavelmente tem família e comete os mesmos defeitos que qualquer ser humano, de qualquer área.

No entanto, jamais condenaria esse tipo de coisa. É o barato da democracia. Enquanto uns podem fazer o protesto, dentro do prédio havia gente mais preocupada em botar a “ditadura da mídia” pra funcionar, pegar alguma coisa no final do mês e tocar a vida tanto quanto quem protestava. O que eu questiono é a eficácia desse tipo de manifestação. Aconteceu alguma coisa? Vai mudar o quê?

Eu comparo o sistema como uma grande pica, esperando pra mais cedo ou mais tarde entrar no teu cu. O segredo da felicidade tá em simplesmente saber como essa pica vai entrar em ti de um jeito que doa menos. Ela entra, amigo, entra afudê. Não adianta ser mais esperto que o sistema. Ele te engole brincando. É simples. É como tu chegar e arranjar uma manha de como não tomar multa no pardal. Tu passa umas vezes, mas depois ele te pega e te multa. É como tentar burlar o SPC. O SPC te tira tudo depois.

Um exemplo prático disso foi a de um guri que eu vi tentando fugir sem pagar de um lugar na capital no último sábado. O guri largou fincado pro meio do MATO. Os seguranças pedalaram atrás e enquadraram o cara. Enquadraram bonito. É o sistema sendo mais esperto que o guri. A vergonha foi tanta que esse cara nunca mais tenta sair sem pagar. Ponto para o sistema. Os manifestantes de sexta avançaram até a polícia intervir. Se quisessem passar por cima da BM e invadir o prédio, meia dúzia iria sentir um suspiro diferente no cangote no XILINDRÓ. Sistema vence.

Aliás, é curioso ver os esquerdistas se voltando contra as instituições estabelecidas. Não li em nenhum blog “socialista” algum tipo de revolta contra a CPMF ou contra deputados que votaram a favor de um tarifaço absurdo (a maioria deles, de esquerda). Nunca li a indignação contra gente como os senhores José Dirceu e José Genoíno (revolucionários célebres). Ou contra o presidente Lula, o governante do país na época em que mais teve caso de corrupção em todos os tempos. Por sinal, nada mais ditatorial do que o sistema socialista. Isso é comprovado. No Brasil, comprovadamente, nenhuma televisão é estatal. Imagina televisões estatais. No governo Lula, por exemplo. Não, melhor que não aconteça. Melhor que a Revista Veja (burguesa Veja) continue denunciando e tacando contra o governo como faz.

Mas eles estão no direito de pensar e fazer qualquer tipo de protesto, desde que seja civilizado e não atinja ninguém. Só que esse tipo de coisa é como aquela maldita CAVALGADA DO LITORAL. Uma jornada que sai do NADA rumo a LUGAR NENHUM. E todo ano eles voltam pra fazer alguma coisa. Não tenho nada contra quem se diz revolucionário. Não tenho nada contra os emos também. Só acho que, pelo fato de terem mais dinheiro que eu, por exemplo, vendido ao sistema e funcionário da mídia convencional, poderiam comprar aparelhos de barbear ou umas camisas novas né. Não precisa ser em shopping center, gente. Americano demais né. Vai ali no centro e tem duas lâminas por um real. O barbear não é tão SUAVE quando uma SENSOR EXCEL. Mas vão deixar vocês mais limpinhos, garanto.

October 1, 2007

TROPA DE ELITE

Filed under: cinema, brasil - Carlos @ 5:24 am

PARA QUEM QUISER LER ESTE TEXTO:

Ele foi escrito exatos dez minutos depois de ter visto “Tropa de Elite”. Muito do que está colocado abaixo se deve ao impacto que eu tive ao ver o filme. Nunca subi num morro de verdade. Nunca peguei numa arma. Nunca conheci um bandido. Nunca conheci um policial de elite. Conheço vários playboys de classe média do jeito que são descritos no texto. É o lado que eu posso analisar melhor.

Uma frescura minha, que talvez eu considere um princípio, é não baixar filmes no computador. Pelo menos não filmes para eu assistir pela primeira vez. Filme bom tem que ser visto no cinema. Ou a cópia original, bonitinha, em DVD original. A pirataria comercial é uma saída rápida e barata para quem quer adiantar a ordem natural das coisas. Foi o que me levou a assistir ao filme mais impressionante produzido no Brasil desde “Cidade de Deus”. Aliás, eu baixei o filme, não comprei.

Ainda com a cabeça fervendo e sem conseguir pegar no sono, apesar do horário avançado, vou tentar escrever sobre este filme. Começo por uma das cinco maiores atuações que eu vi no cinema brasileiro. Wagner Moura, que por sinal já havia dado um show no último capítulo de “Paraíso Tropical” (e na novela toda), faz do Capitão Nascimento uma interpretação memorável. Inacreditável, eu diria. A realidade com que ele conseguiu vestir o policial chega a dar medo. Um homem que acredita acima de tudo em seu trabalho. A lealdade com que conduz seus homens. A confiança numa justiça que ele crê como a mais correta, uma maneira brusca de acabar com aquilo que lhe foi ordenado. Um ser humano que tem dificuldades em acertar a própria casa e está perdendo sua mulher e seu filho recém nascido. Mas acima de tudo, um cara que acredita. Que coloca sua crença acima de qualquer oferta. E é esta confiança que leva os policiais do BOPE a selecionarem quem vai fazer parte desse esquadrão de elite. Que escolhe seus homens conforme suas regras, algumas beirando a tortura. Mas acima de tudo, preferindo a formação do caráter e a força do espírito. Mesmo que pra isso a dor seja necessária. Tráfico de drogas não é brincadeira. É guerra. E para a guerra, é preciso estômago. É preciso força. E para que a força seja obtida, há de se ter todo o sacrifício e sofrimento possíveis (sou cristão, definitivamente, tudo é uma repetição da crucificação de Cristo. e eu admiro).

Não concordo exatamente com os métodos de Nascimento, aquela coisa de “bandido bom é bandido morto”. Mas entendo perfeitamente um homem como ele pensar dessa maneira. Queiram ou não, droga hoje é vendida por bandido no Brasil. Quem quiser ficar doidão, vai comprar de marginal. É dinheiro reto, direto e vivo chegando na mão de gente que te mataria num piscar de olhos. Ou que roubaria teu carro, que tu levou 36 meses pra pagar, que tá com o seguro pendurado, só pra fugir da polícia e depois desmontar pra não deixar rastros. Que, numa emboscada, pegaria alguém da sua família como refém por horas, sem se preocupar se a pessoa é cardíaca, recém ganhou filho ou não consegue caminhar. É pra ele que você, quando compra um simples baseado, está dando dinheiro.

Esse lado do “playboy” usuário é o que mais me chamou atenção no filme. Até porque é o que eu mais convivi. Um grupo de estudantes, alguns deles completamente chapadões, ajudam uma ONG num morro do Rio. Um deles é bruxo do dono do morro, fazendo a ponte e levando o fumo pra dentro de uma universidade. É o “espírito social” da nossa linda burguesia de hoje. É lindo se envolver com alguma coisa, não? Que tal então começar pelo básico? Infelizmente para a maioria, a droga é ilegal no país. Mais que isso, é fabricada, negociada e transportada pra cima e pra baixo por gente que caiu nessa e aprendeu a fazer a própria lei. Na lei deles, matar é permitido. Matar playboy que dá dinheiro pra eles é prazer. E aí, o trabalho social, o posicionamento político, a caridade na vila, meu velho, vai pro espaço. Tua única preocupação é fumar um pra rir com teus parceiros, cheirar uma carreira pra enlouquecer a noite toda sem parar, tomar uma bala numa rave pra sair da casinha. Mal sabe você que é aí que começa a corrente. E você nem percebe.

Mas o pior mal está lá, no topo da cadeia. Você ainda acha que peixe grande vai neste país? Não, eu desisti. Eu nem protesto mais. Eu fico na minha, digo o famoso “eu já sabia” e no máximo voto em branco nas eleições (desde 2004 é assim, quando eu desacreditei no único partido que um dia eu pensei que fosse mudar alguma coisa, esse aí de todos os “trabalhadores” e “afins). Não me sinto revoltado pela absolvição de Renan Calheiros. “Eu já sabia”. Não protesto mais, portanto.

A virada da mesa, o início da condenação de Calheiros e outros se dá nos pequenos atos. Mas eu também já acho que quem entra pra política tá a fim do glamour da vida pública, da sensação imediata de poder que é a razão do ser humano se sentir alguma coisa importante nessa vida. Para ser importante, é preciso poder e ambição. Ao menos aqui. Por isso eu nunca seria político. Fora minha completa falta de aptidão para abrir concessões, pra fazer lobby, não tenho nehuma vocação sociológica prática pra levantar qualquer bandeira que seja. Eu não participo de nenhuma instituição de caridade. Eu não sou anti-nada nem pró-nada. É bom ser alienado, não considero isso um defeito. Alienado, justo e honesto. Bem simples assim. Bem cristão.

Acho que a mudança começa nos pequenos atos, mas eu realmente acho que a gente é muito estúpido e egoísta pra perceber isso. É mais fácil culpar a… a…. ah… ah SOCIEDADE, certo? “Descriminalização é o caminho”, “álcool e tabaco são promovidos por grandes indústrias e matam tanto quanto o tráfico”, “o governo financia e os usuários são os culpados”, “é um caso de saúde pública”… e por aí vão as desculpas de gente que adora condenar o lado social ERRADO do país (do mundo, melhor dizendo) ao invés de simplesmente fazer atos simples de bondade e justiça.

Talvez nesse sentido a força bruta do BOPE seja mais eficaz do que o altruísmo dos Direitos Humanos ou a sensibilidade do Greenpeace ou o engajamento dos sindicatos ou até mesmo a caridade das ONGs. Talvez esse texto seja de alguém impressionado com o que viu e esteja quase que revelando um manifesto “volta ditadura”, o que não é o caso. Acredito na democracia e nesse sistema que o mundo absorveu de uma forma menos selvagem do que qualquer outro que é o capitalismo. Não é o melhor, mas é o que temos para o momento. E acho que com humanidade é possível fazer um mundo melhor. Quanto mais as pessoas consigam dormir de consciência limpa, é sinal que os tempos estão melhorando.

Por isso, pela minha suposta alienação, pela falta de “manifestação social”, eu não vou pregar o discurso de “participe, exerça sua cidadania”. Jamais. Não peço um livro, uma árvore e um filho. Eu peço que usem a cabeça. A de cima, de preferência.

PS: a cópia vista não está à venda nem será emprestada. Vejam no cinema.

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