MELA CUECA
Acho que todo mundo deveria ter um pequeno momento de mela-cueca pelo menos uma vez por semana. É quase um manifesto pra dizer que a mela-cueca é necessária como um exercício físico, uma visita ao sol, uma ida ao cinema ou uma saída com os amigos. É um momento pra deixar tua alma e teu coração conversarem numa boa, só os dois, sozinhos, e deixar que o resto do corpo vá nessa breguice fundamental.
Eu não menti quando eu escrevi que assisti a SEIS comédias românticas na seqüência depois de uma fossa estupenda em 2003. Recém havia saído de um relacionamento de um ano. Quem me conhece em relacionamentos, sabe como eu sou. Eu não poupo esforços para ver uma pessoa que eu gosto feliz. É porque eu estou feliz, me sinto feliz. Tinha sido também a primeira vez, de fato, que alguém havia “terminado” comigo quando eu achava que estava no auge da relação. Hoje eu admiro esta pessoa e sei que ela teve todos os motivos do mundo pra não continuar comigo. O jogo é assim, ninguém é obrigado a absolutamente nada, é fato. Não teve falta de respeito, só um final de namoro comum, como o que você já teve algumas vezes.
No entanto, eu sofri pra caralho. Não sofreria, talvez, se fosse hoje. Ao invés de naturalmente seguir o meu curso de afundamento no poço de maneira desenfreada bebendo com amigos, pagando alguma mulher, ligando pra antigos casos, caindo na balada, preferi jogar todos os vírus da fossa dentro do meu corpo, na veia, sem anestesia. Pra ver se os anticorpos fariam efeito. Taquei SEIS comédias românticas em um dia de folga, sozinho em Porto Alegre e emendei uma na seqüência da outra. Telefone desligado. Telefone de casa silencioso. Computador fora da tomada. Mundo bem longe. Eu, uma televisão e filmes românticos, uma mela-cueca em doses cavalares, pra ver se eu seria capaz de assimilar uma série semelhante a uma seqüência de cruzados do Mike Tyson (entre 1985 e 1989) no meio da minha fuça. Era isso que eu queria. A doença estava ali? Pois então joga mais pra dentro de mim pra que acabe tudo de uma vez por todas.
Não lembro de todos os filmes, mas sou capaz de rememorar cada detalhe daquela noite em março de 2003. Sábado pra domingo. À tarde, um calor infernal após um empate do Inter com o Juventude em 3 a 3, quando Nilmar fazia sua estréia como titular do colorado. Cheguei às 20h e fui pra frente da TV. A maratona só parou às oito da manhã do dia seguinte. Eu era persistente na época, ainda mais quando se tratava de filmes. Chorei, na época em que eu chorava. Gritei, bradei, sofri, ensaiei umas ligações, mas eu permaneci ali, forte, resistente. Um massacre que vinha em formas coloridas, bonitinhas, cheio de finais felizes, uma reação que eu precisava ter para que um tipo de casca formasse numa ferida que eu tinha no momento.
A diferença é que eu não estou mais em 2003. Nesse meio tempo, minha vida deu voltas. Hoje, por exemplo, debati profundamente um projeto de lei que quer aumentar o tempo de contribuição previdenciária para os 40 anos. Fiz já as contas de quando eu vou me aposentar. Pela lei atual, aos 56 anos. Contas pra se aposentar e o que dá pra fazer depois de aposentado, vejam só. Fiz as contas da prestação de um carro. Senti de fato que as responsabilidades se multiplicam depois que a gente se forma, que tem gente mais nova que tu e esta gente precisa de orientação. E esta orientação vem de ti. Ao invés de ser guiado, já há situações em que tu deve ser o condutor. Ainda inexperiente pra uma série de coisas, mas certamente com alguma cancha pra dizer pra quem tem alguns anos a menos que tu que a estrada é complicada, parceiro. A trajetória é recheada de bons e maus momentos. Que a gente cai, mas a queda é só uma parte disso, ela passa, você se levanta e segue o baile, porque a banda nunca vai parar de tocar. Um exercício de infinitude temporária, que não nos dá mais aquele tempo dos nossos 18 anos em que a gente parava tudo por um longo período pra observar que rumo a gente tá tomando. Fora que, naquela época, a gente nem pensava em observar esse rumo.
Cria-se uma casca, uma proteção natural que faz com que as porradas que chegam não nos derrubam tanto assim. Por outro lado, há toda uma vida pra se criar, fazer valer minha passagem pra alguma coisa. Uma confusão que não te deixa em paz. A não ser que tu saia dessa esfera onde tu tá metido e olhe por cima, uma espécie de satélite espiritual que te localize no planeta e enxergue os diversos caminhos pra seguir em frente. E isso dá medo.
Tenho medo de virar workaholic. Algo que eu lutava em não ser pode acontecer e eu nem perceber. Mas acho que tem um antídoto pra isso. Sair e observar, a lá Ferris Bueller, parar e dar uma olhada no mundo porque senão ele passa rápido demais sem que tu se dê conta. Ou então, permitir-se ser mela-cueca por um dia.
Como eu fiz em março de 2003. Ali, eu achava que tinha motivos. Oras, tem motivo pra ser mela-cueca? Mela-cueca é só de vez em quando uma permissão para observar como o amor pode existir no meio da papelada de contas. É não ter vergonha de cantar “Always” do Bon Jovi em voz alta, acompanhando com o violão. É fazer videoclipe na beira da praia com alguém que você gosta. É gravar um CD com músicas preferidas pra alguém. É brincar com os nomes dos filhos no futuro. É, quem sabe, chorar.
A minha casca é grossa. Virei casca grossa. Mas hoje eu resolvi ver novamente um filme chamado “Um Amor Para Recordar” (A Walk to Remember), um dos SEIS de amor que eu vi em 2003. Foi o meu momento mela-cueca, pra que eu durma bem e tente acordar com essa casca um pouco menos grossa amanhã. Abrir o coração e ainda lutar contra essa praga workaholic que toma conta da gente diariamente.
No final das contas, dinheiro se consegue. O difícil é ser duro sem perder a ternura. Acho que nessa história, os mela-cuecas são bem mais felizes que os workaholic.