DEVER SENTIMENTAL
Existem dois tipos de pessoas, basicamente: as que algum dia ouviram Iron Maiden e as que não entendem absolutamente nada de música. Mais uma vez fecho no meu mundinho aqui ó: minha faixa etária e predominantemente masculino (metal pra guria no início dos anos 90 era muito coisa de guri). Tendo entre 25 e 32 anos e gostando de música, alguma vez o Iron Maiden já foi a banda mais importante da sua vida. Ou uma das mais. Se não foi, sério, reveja alguns conceitos. Ou então tu é do tipo de curte aquele violãozinho cachorro de boteco caro com um cara mandando ver no “EU TE DEVORO” do Djavan né? Bom, resumindo, tu não entende de música. Vamos ao Iron.
A banda toca aqui em Porto Alegre dia 5 de março. Eu particularmente não ouço nada produzido por alguém do Iron desde “Tears of the Dragon”, baladaço explodido pelo Bruce Dickinson em trabalho solo de 1994, com belo videoclipe que ainda emociona volta e meia. Nunca mais ouvi Iron Maiden desde então, ou melhor, nunca mais ouvi alguma coisa nova do Iron Maiden. Em 1992, comprei a fita original de “Fear of the Dark”, sendo este disco de valor sentimental único. Ali tinha Be Quick or Be Dead, Afraid to Shoot Strangers, a porrada da faixa título e a melosa Wasting Love. Gostava de ouvir esse disco, o que me projetou para outros trabalhos da banda, com destaque para “Number of the Beast” e “Powerslave”.
Admito que com o passar do tempo, aquela mística do Iron Maiden me pareceu mais uma brincadeira de adolescente se descobrindo musicalmente. Foi assim que aconteceu comigo. Eu ouvia Bon Jovi também e gosto pra caralho de discos como “Slippery When Wet” e o “Keep the Faith” mora no meu coração até hoje, era a época, eu acho. Digamos que o Iron Maiden, como o Bon Jovi ou como naquela época o Metallica serviram de iniciação musical, uma espécie de introdução na porrada para um mundo muito maior do que o Eddie (a caveira) ou o baixo do Steve Harris (que é o cara da banda). Uma “primeira vez”, como se fosse a primeira transa, liberando o guri para se entregar a paixões avassaladoras, casinhos de ocasião e uma imensidão de amores eternos, como várias bandas são pra mim até hoje. Antes era só beijinho e pegar na mão, ainda quando eu gostava e me emocionava com “Astronauta de Mármore” em 1989.
Aliás, estranho esse mundo de idolatria. Quarta série, gincana. Prova: a melhor interpretação de uma música ganhava o prêmio. Uma menina chamada Renata (ou seria Juliana, sei lá), dois anos mais velha que eu, cantou “Astronauta de Mármore”, em 89, e ganhou a prova. Me apaixonei pela música, com nove anos. Platonicamente pela menina, acho. Comprei uma fita do Legião Urbana e outra dos Engenheiros do Hawaii. Já gostava de RPM, mas de canto. Mas antes do Guns e antes do Iron Maiden, eu ouvia aquela versão de Starman (genial, genial) e nem sabia quem era David Bowie. Foi há 18 anos. Hoje, o cara que fez essa versão, o vocalista da banda, me encomendou dois trabalhos, sobre o Inter campeão da Libertadores e do Mundial. Me pagou, direitinho. O cara que cantou uma música que me abriu algum tipo de encantamento foi meu “patrão”.
Não ouço mais Nenhum de Nós, mas gosto ainda de Cascavelletes. Pra mim, a maior banda já surgida no Rio Grande do Sul. Engenheiros fica em segundo lugar. Cascavelletes era absolutamente genial pra proposta que apresentava. Letras absolutamente impressionantes, uma performance espetacular e uma precisão de banda que até hoje é reconhecida. Entrevistei sábado o Nei Van Sória e confesso que não conseguia pensar em outra coisa a não ser nele como vocalista do Cascavelletes.
Em 2002, recém contratado, não era plantão. Era um produtor e aos poucos fui fazendo algumas reportagens. Naquele mesmo ano, entrevistei o Felipão, o Parreira (dois campeões mundiais), o Ortega (jogador da Argentina, quando o River jogou contra o Grêmio aqui) e em 2005 fiz uma entrevista por telefone com o Edmundo, talvez meu maior ídolo de adolescência no futebol. Ancorei a cobertura da TAM sem qualquer experiência, transitando numa área que não era exatamente a minha. Não tremi em nenhuma dessas vezes. Nem quando era inexperiente, nem quando falei com meu ídolo e nem quando entrei num terreno desconhecido. Por mais leve que estivesse o papo, por mais cancha que eu já tenha, confesso que o Nei Van Sória na minha frente era muito mais o guitarrista dos Cascavelletes do que um entrevistado jornalístico. Não parava de pensar que era o cara que fazia parte da banda que me ensinou a palavra PUNHETA, por exemplo. Ou o que era MENSTRUAÇÃO. Que ele tinha sido muito mais educativo (mesmo que às avessas) do que a maioria dos professores que eu tive.
Foi quando eu pensei no Thedy e percebi que eu estava trabalhando pra ele. O cara que um dia cantou “Astronauta de Mármore” e fez com que eu me arrepiasse aos 9 anos, ainda não tirando minha “virgindade”, mas já indicando onde estava a “porta do paraíso”.
É justamente por isso que eu PRECISO ver o Iron Maiden. Mais que o Led Zeppelin, mais que o Police, apesar de eu saber e gostar bem mais dessas duas bandas do que a respeito do próprio Iron. Mas a banda do Bruce Dickinson e do Steve Harris, cujo material novo eu não sei há 15 anos, banda que não entraria numa lista de 200 bandas que eu ouviria numa ilha deserta, merece a minha audiência. O Nei Van Sória merece um abraço meu. O Márcio Petracco (que eu também entrevistei) merece um abraço meu. O Thedy Correa merece um agradecimento meu.
Não são ídolos de fato. É como se eles fossem conselheiros inconscientes da minha formação musical. A formação que eu me orgulho e que gerou boa parte da minha personalidade. Vocês têm culpa. Obrigado. Iron Maiden, eu não sei mais cantar nada que seja depois de 92, me perdoem, ok? Mas a missão de vocês comigo foi cumprida bem direitinho quando eu tinha 13 anos. Vou retribuir. Me esperem dia 5 de março.
