PANIS ET CIRCENSIS
Jamais falaria mal de um filme dirigido pelo Robert Redford porque simplesmente fazer cinema pra ele é fácil. Atuando e dirigindo há 40 anos certamente lhe deram experiência suficiente pra ter a manha de filmar. Por isso não vou analisar “Leões e Cordeiros” sob a ótica cinematográfica, e aí vão alguns exageros de interpretação e uns clichês de cinema, como um sobe-som em momentos cruciais ou até deslizes de patriotada no roteiro.
Confesso que consegui me enxergar na figura de um jovem perto dos 20 anos cheio de idealismo, com um vigor absurdo para contestar. E que depois desiste de qualquer tipo de contestação, alegando primeiro que as garotas e a vida social atrapalhavam seu desempenho nas aulas de Ciência Política. Mas o real motivo de seu abandono de gostar da polêmica e simplesmente seguir o rumo de todos os seus colegas menos brilhantes foi o mesmo que eu tive quando parei de questionar o que está acontecendo. Contestação x conforto? Quem vence? Vence o conforto, sempre.
Até que ponto vale provocar, polemizar, questionar, alfinetar, quando depois de uma visita ao shopping a gente tem vontade de comprar um ipod com mais capacidade, fazer outra tatuagem, comprar um livro de 100 reais, uma calça legal ou uma camiseta bacana? Uma viagem pra fora, um carro novo. Um apartamento maior. Uma boa educação para os filhos. Eu não conheço ninguém que consiga tudo isso sem abrir as pernas para o sistema. Contestadores não ganham e esse espírito consumista, me desculpem, pega todo mundo de calças curtas. Maturidade, talvez. Mas uma constante e dolorosa perda de valores que faziam tanto sentido lá atrás, mas que agora parecem coisa de gente que tinha um backup imenso nas costas. Entretanto, as coisas mudaram. O backup se foi, chegam contas, chegam desejos de consumo e o idealismo passa a ser outro. O de formar uma vida estável, confortável, sentar na poltrona no dia de domingo e não se mexer muito pelas coisas.
É a história da decepção pela política. Eu voto em branco ou nulo. Confesso que não acredito mais em ninguém que se candidata a um cargo público. Não confio pelo simples fato de que essa pessoa quer algum tipo de poder. Que até pode ser para ajudar os outros, lutar em nome de alguma causa nobre e coletiva. No entanto, quando se está no poder, de alguma forma aquilo vira tédio e o desejo de mais, mais, mais poder acaba entrando na cabeça de quem tá eleito. É a história do flat, cemitério, apartamento. Conforto vence e quem contesta?
Admito que é um dilema violento. Como o enfrentado também pela jornalista (Meryl Streep) que percebe que o senador (Tom Cruise) lhe chamou para o “furo do ano”, uma nova operação militar no Afeganistão que sacrifica jovens recrutas para justificar um projeto. Aquela coisa: “eu ao menos faço alguma coisa e mentes que realmente querem fazer a diferença pagam o pato”. Percebendo que a idéia genial é um trampolim dele pra se candidatar à presidência, mais uma vez o dilema. Publico o furo, talvez a matéria do ano, uma entrevista exclusiva de um senador com uma novidade bombástica? Ou tenho o discernimento de ao menos não dar tanto merchandising pra um cara que visivelmente busca mais (olha aí) PODER?
Não escrevo muito sobre jornalismo aqui, tenho minhas razões. Logo após a sessão, tive a sensação plena de que aquilo que o Diogo Mainardi disse uma vez, de que “a função da imprensa é incomodar o poder”, é conversa pra boi dormir. O próprio Diogo Mainardi nada mais é do que uma mosquinha chata no ouvido do poder. No final das contas, quem está com a bunda sentada no ar condicionado, com faixas reluzindo as cores da bandeira do Brasil, com ternos caros, motorista e mil assessores vence a parada. Porque eles mandam. A imprensa (ou o Diogo) só tenta incomodar.
No final do filme, quando o cara zapeando a TV só pára pra ver a notícia da separação de dois popstars e baixa o volume quando fala da guerra (SIM, HÁ UMA GUERRA NO ORIENTE, SABIAM?) me dá um tapa na cara. Pão e circo. Quem faz o pão e reparte de acordo com o soprar do vento não é a imprensa. No máximo, alguns recusam o pão ou esfarelam a sua migalha. Alguns, poucos, da nossa imprensa. Nosso negócio é circo. Só falta ver quem é o malabarista, o anão, o domador de leões e o palhaço. Como dizem que eu sou engraçado…
Fiquei curiosa para assistir esse filme. Entendo perfeitamente o que tu queres dizer. Ia escrever sobre isso numa perspectiva menos cinematográfica e mais real, mas ainda tenho que elaborar certas coisas que andei vendo nos últimos dias.
Comment by Vica — November 14, 2007 @ 11:44 am
Belo post, Guimarães.
É a velha história, ou tu te enquadra, ou te enquadram.
E, pra mim, o Diogo Mainardi é um BAITA chato, pesquisador de Google, farsante, burguês e oportunista.
Comment by alessandra (apoiando o OOF) — November 18, 2007 @ 7:58 pm