O Bial deu a dica pro futuro: usem filtro solar. Eu dou a minha então: não joguem fora seus videocassetes. Por mais que o formato da fita esteja ultrapassado, mantenham seus videocassetes, ainda que velhos, em pleno funcionamento. A dica se estende para toca-fitas e logicamente, toca-discos. Por mais que a internet nos coloque todas as músicas do mundo à disposição, saber que aquela fitinha que eu gravei em 1992 do Temple of The Dog ainda está aqui e toca é uma terapia nostálgica inigualável. Sem falar no Facelift, do Alice In Chains, vinil, comprado em 1991. Ou os clipes do Pixies no especial do Lado B em 1995, todos gravados em fita, com apresentação e comentários do Fábio Massari, uma relíquia pessoal que eu nunca achei no youtube (não com os comentários do Massari, não naquele programa, aquela madrugada, com o REC funcionando sem parar, com intervalos da época e com o meu acompanhamento pessoal).
Eu pensei que meu videocassete não funcionava mais. Mas meu irmão, que é bem mais genial que eu, conseguiu fazer a trolha tocar. Era tudo uma questão de IN/OUT, entradas e saídas, limpar cabeçote, paninho na poeira e tentar. Pois o videocassete estava funcionando perfeitamente e eu precisava ver uma FITA, das minhas.
Fui até meu armário e peguei uma fita vermelha, sem rótulo, mas que eu sabia o conteúdo. Algo que eu não via há mais de uma década, com certeza absoluta. Era o VHS de despedida da oitava série.
Poderia estar escrevendo aqui sobre as minhas impressões de um ano atrás, o título histórico do Internacional e de como eu vivi os dias 16 e 17 de dezembro intensamente, talvez um dos dez dias inesquecíveis da minha vida. Como profissional, a maior cobertura que já participei, e olha que eu já trabalhei em duas Copas. Resolvi reviver um dezembro mais antigo ainda. Voltei 14 anos no tempo.
14 anos. Idade de um adolescente. Há 14 anos não tinha internet, ninguém sabia o que era um blog, a Madonna nem quarentona era, o técnico do Grêmio era um tal de Felipão, que não era penta nem campeão da América. Romário era o cara, hoje é técnico. Edmundo era meu ídolo, hoje tá centrado. Jeff Buckley ainda não havia lançado Grace, meu álbum preferido de todos os tempos. Jeff Buckley estava vivo. Eu era virgem. Hoje, minha namorada de quatro anos já está casada. Eu ouvia os meus atuais colegas como apreciador de futebol, numa distância que eu jamais poderia imaginar que fosse tão curta, ao ponto de ir à casa deles, ao casamento deles, a conhecer a família deles. Eu era magro. Eu era cabeludo. E eu era trinta vezes mais tímido. Eu escrevia melhor do que meus colegas da época, mas bem pior do que eu escrevo hoje. E eu vivi, naquele final de 1993, os melhores dias da minha vida. Talvez os finais de 1998 e de 2003 tenham chegado perto, o que indica que o ciclo de cinco em cinco anos me dará um 2008 promissor.
Voltei a 1993 para analisar a fita de final de ano da oitava. Ela tem onze minutos e eu perdi uma hora e meia assistindo. Resolvi rever cada traço que me envolvia nas paredes da Escola do Salvador. Cada buraco na vidraça, cada sorriso de ex-colega, cada detalhe na classe, a localização da sala de aula, a secretaria, a escada antes de passar pela reforma que eu nunca vi. Um colégio pequeno que hoje já tem segundo grau e que certamente não tem mais o mesmo charme de antigamente. E que pra mim era o mundo. Um mundo pequeno e eu não tinha nenhuma vontade de sair dele. Ali todas as minhas ambições da época estavam presentes.
Pra quê ganhar o mundo? Pra quê trocar de turma se tudo o que eu quero são aqueles amigos? Pra quê sair numa festa com gente diferente, se tudo o que eu queria era uma simples reunião dançante na garagem de alguém pra ver as mesmas pessoas que eu via de segunda à sexta? Pra quê uma guria nova se minha paixão platônica estava ali, do meu lado? Pra quê ir pra Porto Seguro, se uma viagem pra SANTA TEREZINHA era o suficiente pra se tornar tão inesquecível quanto as piscinas naturais de Porto de Galinhas? Não precisavas disso. Éramos jovens. E ingênuos. E homogêneos. Não era como uma turma de oitava série do Rosário, por exemplo, bem mais globalizada.
A fita é extremamente amadora e só alguém que lida com o negócio pode saber disso. Certamente se fosse eu o responsável por fazer um “filme” de despedida, seria tudo diferente. A começar pela edição, de corte seco, brusco e com erros seríssimos de continuidade. Um operador de câmera péssimo, esbanjando de zoom na hora errada. Um editor que hoje deve estar em outra atividade, porque pra cortar as “TOMADAS” daquele jeito não pode seguir na profissão. Uma locução antiga, com um texto fraquíssimo, que não aproveitou o potencial da turma mais extraordinária que eu já estudei. E uma trilha sonora que não faz sentido algum, abrindo com “VALE TUDO”, do Tim Maia, talvez uma mensagem subliminar de quem montou o vídeo, realçando a parte do “SÓ NÃO VALE DANÇAR HOMEM COM HOMEM E NEM MULHER COM MULHER”. Bom, em 1993 eu jogava botão e sapatão eu só tinha ouvido na música “Maria Sapatão”, em algum baile infantil de carnaval. Hoje, gurias de 14 anos passeiam de mãos dadas no Parque Germânia sábado à tarde. E pra finalizar o quadro do horror, os “apresentadores” em questão eram dois colegas meus, um bem mais desenvolvido que a gente, o Tiago, e um que tava ali porque tinha contratado o cara, o Leandro. Nenhum roteiro específico e o resultado foi sofrível. Ou “nas coxas”.
Mas sabe, a gente não sabia o que se passava na época. E, confesso, com todos estes defeitos técnicos, eu me apavorei com a minha reação. O vídeo é lindo. A nossa turma da oitava funcionava da seguinte forma: de um lado, os guris. Do outro, as gurias. No meio, um vazio enorme. Uma sala razoavelmente grande, com uma turma pequena. Não existia guri e guria juntos. Era uma separação brutal, um hiato aparente de afinidades e amizades. Que se desfazia quando tinha uma festa ou uma viagem. No fundo, éramos 25 pessoas que simplesmente achavam que aquilo ali era pra sempre. Não havia nem um tipo de preocupação com o futuro. Os nossos pais se preocupavam com o nosso futuro. A gente não. A gente tinha muito mais o que fazer. A gente tinha que se divertir.
Eu não lembro de ter estudado em casa na época do Salvador. Era só o primeiro grau e era quase uma aberração rodar naquele colégio. Minhas notas eram boas. Então, tudo que eu queria era fazer o que o vídeo mostra. Tocar papelzinho no outro, encher de porrada quem tava de aniversário, correr pro recreio pra jogar bola na sexta-feira, jogar bola numa quarta pela manhã de graça em alguma praça do Lindóia ou da COHAB, que na real era só o Jardim Barão do Caí. Colar numa prova. Xingar as gurias. E, nessa época, ou um pouco antes, comprar estoques de bixiguinha pra tacar na cabeça da gurizada. Uma sensação incrível de não ter um amanhã.
Passados 14 anos, eu analiso tecnicamente a fita, eu planejo uma corrida na redenção pra baixar o final de semana, eu planejo o financiamento do carro novo, minhas férias, leio os resumos dos programas feitos no final de semana, vibro com a produção do especial de um ano do Inter campeão do mundo que ficou muito bom e, por lazer, preparo a retrospectiva musical do ano. Dos 28, eu falo volta e meia com dois. Falo bem pouco com mais três. Sei que quatro das gurias já tem filhos. Talvez cinco. Meu melhor amigo da época se casou. Outros planejam casamento. Uns três já têm filhos. O paradeiro de outros é completamente desconhecido.
Se eu forçar a memória, eu lembro da lista de chamada inteira daquela turma. Aline, Ana Lúcia, Andréia, Bibiana, Camila, Carlos, Clarissa, Cristian, Christiane, Daniel, Eduardo B., Eduardo M., Eduardo T., Fabiano, Fabrício, Julio, Karina, Leandro, Leonardo, Marcelo, Marco, Morgana, Tatiana, Tiago, Wagner. Acho que não esqueci de ninguém. Eram 25, somente 25 alunos na 8ªB do Salvador de 1993.
Adoraria ligar para qualquer um daqueles meus colegas de oitava série pra fazer uma sessão fechada, só nossa, desse vídeo. Mas eu prefiro escrever. Talvez um dia este texto chegue até um deles. Talvez o texto esteja longo demais. Por enquanto, eu fico com a imagem da Tatiana dando “tchau” para a câmera e para o corte no cartaz de “Boas Férias” que estava estampado na entrada do colégio. Eu disse que éramos ingênuos. Mal a gente sabia que as nossas férias seriam eternas. E que o aceno da Tatiana, acho que nem ela sabe, foi um definitivo e doloroso “adeus”. Nos restam as memórias e as fitas VHS pra resgatar essa nostalgia que, tenho certeza, martelou em algum momento da vida a cabeça daqueles guris. Por via das dúvidas, resolvi digitalizar essa fita. Para que aquele final de 1993 fique para sempre comigo, esteja eu onde estiver.
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