Verborragia sem concessões

December 29, 2007

ANO NOVO

Filed under: alegria - Carlos @ 10:14 pm

Bom, esse é meu último post de 2007. Desta vez aproveito pra desejar a todos um bom ano de 2008.

Ao invés de pedir paz, amor, saúde, dinheiro, essas coisas, vou simplificar. Que em 2008, você PEGUE MAIS LEVE. Exatamente, PEGA LEVE. Esse é o segredo da vida. É só pegar leve com tudo. Com os excessos, com as eventuais injustiças suas e dos outros. Não exige tanto de ti, nem do outro. Em geral, as pessoas erram, mas duvido que todo mundo tenha má intenção. E se tiver, pega leve também. Vai com calma na estrada, no amor, na vida. Não te enfia de cabeça, vai mais solto, mais leve. Porque aí, se não der certo, pelo menos a queda não é tão grande.

Garanto que essa é a melhor dica. Amor e dinheiro é algo que a gente DESEJA, mas vá lá, nem sempre eles chegam como a gente quer, não é mesmo. Agora, PEGAR LEVE depende só da gente. Menos drama. Menos aflição. Menos sofrimento. Mais sol. Mais luz. Mais sorriso. Mais leveza de espírito, de corpo, de coração.

Faz o seguinte. Pára um minuto e compara as palavras: LEVE x PESO. A palavra LEVE é bem mais bonita, não? Então, não é difícil ser leve. É barbada.

Esses são os votos pra todos que lêem, todos que não lêem e todos que eu gosto. E se aplica a mim também. Sei que pego pesado com as pessoas às vezes, mas é algo que eu não gosto e que eu pretendo mudar. É o segredo pra construção de uma vida melhor. Difícil às vezes? Nossa, nem me fala. Mas tentando, errando, caindo, batendo, tomando, a gente aprende. Espero ter aprendido. Espero pegar leve. Espero o mesmo de vocês.

Valeu.

December 26, 2007

O GOOGLE ME MATOU

Filed under: literatura - Carlos @ 5:06 am

Acho que um dos primeiros passos pra 2008 é terminar com esse blog. Eu não enjoei de escrever. Gosto de estabelecer algumas discussões que, pretensiosamente, tento colocar em prática por aqui. Paciência pra escrever eu tenho. Poderia alegar falta de tempo, o que de fato é uma boa desculpa, visto que é complicado achar um assunto que eu tenha vontade de dissecar. O tempo é curto e o tempo curto livre dificilmente é encontrado para sentar e achar algo legal para escrever. E não é cu doce, definitivamente.

Minha vontade de parar com o blog (com este ao menos) é que está havendo um desgaste natural desta fórmula na internet. O sitemeter indica que 80% das pessoas que lêem este blog chegaram através do google. Como meu vocabulário é altamente VULGAR em alguns momentos, pelo menos dois terços destas pessoas estavam atrás de PUTARIA VIRTUAL e chegaram até aqui digitando coisas como “IRLANDESAS FEIAS”, “BRIGA DE MULHERES SEM ROUPA” ou “MULHERES BRASILEIRAS NO PORTO GOSTOSAS”. Sem contar um pedófilo filho da puta que entrou aqui e não merece nem crédito citar o que ele digitou ali no google. De certa forma, isso me irrita. Das últimas CEM entradas, apenas 19 entraram pra ler o blog. Dezenove. Algumas entraram mais de uma vez, certamente. O resto, tudo pelo google, à procura da tal putaria que NÃO VÃO ENCONTRAR AQUI ou então querendo saber de coisas como “a extravagância de Wanessa Camargo” ou “como beber e não fazer cagadas”. Difícil aceitar esse tipo de coisa. Logo, se torna um pouco ridículo manter um endereço na internet onde eu me proponho a falar sério e continuar tendo vontade para prosseguir publicando meus textos (bons, ruins, péssimos).

Um outro fator que está me desestimulando é algo que eu ainda preciso saber o que é, mas já começo a desconfiar. Estou envelhecendo. E junto com o natural amadurecimento dos metais, está chegando um modo diferente de usar a internet. Como pouca coisa aqui é no CHUTE, reli textos meus de 2003/2004, quando eu publicava e produzia muito mais. Eram diferentes. Mais curtos, mais objetivos, menos medrosos. Mais infantis. Mais descompromissados. Um pouco mais sarcásticos. Mais atraentes. Talvez melhores. Hoje, a internet serve como um instrumento de informação propriamente dito. A maior parte do tempo eu gasto lendo as notícias diárias. Outra grande parte do tempo eu gasto baixando músicas e lendo sobre música. Eu leio muito sobre música. Não baixo filmes. Pesquiso a respeito. Vejo vídeos, muitos. Não gosto dos vídeos “consagrados” da internet, geralmente utilizo o youtube pra conhecer alguma apresentação rara, diferente ou novidades musicais. No resto do tempo, o msn para conversas esporádicas semanais. E o orkut, que eu ainda acho que tem vida longa. E eu gosto do orkut, ainda não larguei de mão.

Notem que os blogs não estão na lista. Pois é, acho que é o formato se esgotando. Prezo pelos meus leitores habituais. Sei que tenho vários. Sei que gostam dos meus textos. Sei que ainda há leitores novos. Sei que a repercussão de algum texto meu aqui é maior do que no outro blog, que afinal, é sobre música, pouco polêmico, meio amador. Mas no momento é onde eu mais gosto de escrever.

Infelizmente, os dias estão contados. Uma frustração imensa de cair na real e admitir que nada se aprende de novo na internet e nos blogs. Antes que a fórmula se esgote, acho que vou cair fora. É aquela história do veterano em final de carreira. Melhor sair enquanto ainda consegue correr do que morrer em campo e largar o futebol na decadência. E o que eu sinto é que este tipo de fórmula tá se esgotando e indo rumo ao fundo do poço.

Ainda não decidi. Mas estou prestes a fechar as contas. Não vou parar de escrever. O “cowboy in the sand” permanecerá vivo. Mas acho que as pessoas estão muito pouco interessadas em saber o que eu penso sobre qualquer coisa. Com toda razão. A fatia consumidora da internet está enjoando dos blogs. Os números mostram. Quem tá na rede e quem busca a rede não quer blog. Só chegam neles através de buscas sem sucesso no google. Então, para que eu não passe por esse tipo de constrangimento, que me desculpem os seis ou sete que estão lendo este texto porque QUEREM, mas vou largando aos poucos pra que nenhum pervertido leia meu texto.

December 17, 2007

MAIS RETROSPECTIVA

Filed under: fuçando pra aprender - Carlos @ 5:15 pm

No outro blog. Agora 10 faixas de rock. Depois, as 50 do ano.

NOSTALGIA EM VHS. DEZEMBRO DE 1993.

Filed under: saudosismo - Carlos @ 4:17 am

O Bial deu a dica pro futuro: usem filtro solar. Eu dou a minha então: não joguem fora seus videocassetes. Por mais que o formato da fita esteja ultrapassado, mantenham seus videocassetes, ainda que velhos, em pleno funcionamento. A dica se estende para toca-fitas e logicamente, toca-discos. Por mais que a internet nos coloque todas as músicas do mundo à disposição, saber que aquela fitinha que eu gravei em 1992 do Temple of The Dog ainda está aqui e toca é uma terapia nostálgica inigualável. Sem falar no Facelift, do Alice In Chains, vinil, comprado em 1991. Ou os clipes do Pixies no especial do Lado B em 1995, todos gravados em fita, com apresentação e comentários do Fábio Massari, uma relíquia pessoal que eu nunca achei no youtube (não com os comentários do Massari, não naquele programa, aquela madrugada, com o REC funcionando sem parar, com intervalos da época e com o meu acompanhamento pessoal).

Eu pensei que meu videocassete não funcionava mais. Mas meu irmão, que é bem mais genial que eu, conseguiu fazer a trolha tocar. Era tudo uma questão de IN/OUT, entradas e saídas, limpar cabeçote, paninho na poeira e tentar. Pois o videocassete estava funcionando perfeitamente e eu precisava ver uma FITA, das minhas.

Fui até meu armário e peguei uma fita vermelha, sem rótulo, mas que eu sabia o conteúdo. Algo que eu não via há mais de uma década, com certeza absoluta. Era o VHS de despedida da oitava série.

Poderia estar escrevendo aqui sobre as minhas impressões de um ano atrás, o título histórico do Internacional e de como eu vivi os dias 16 e 17 de dezembro intensamente, talvez um dos dez dias inesquecíveis da minha vida. Como profissional, a maior cobertura que já participei, e olha que eu já trabalhei em duas Copas. Resolvi reviver um dezembro mais antigo ainda. Voltei 14 anos no tempo.

14 anos. Idade de um adolescente. Há 14 anos não tinha internet, ninguém sabia o que era um blog, a Madonna nem quarentona era, o técnico do Grêmio era um tal de Felipão, que não era penta nem campeão da América. Romário era o cara, hoje é técnico. Edmundo era meu ídolo, hoje tá centrado. Jeff Buckley ainda não havia lançado Grace, meu álbum preferido de todos os tempos. Jeff Buckley estava vivo. Eu era virgem. Hoje, minha namorada de quatro anos já está casada. Eu ouvia os meus atuais colegas como apreciador de futebol, numa distância que eu jamais poderia imaginar que fosse tão curta, ao ponto de ir à casa deles, ao casamento deles, a conhecer a família deles. Eu era magro. Eu era cabeludo. E eu era trinta vezes mais tímido. Eu escrevia melhor do que meus colegas da época, mas bem pior do que eu escrevo hoje. E eu vivi, naquele final de 1993, os melhores dias da minha vida. Talvez os finais de 1998 e de 2003 tenham chegado perto, o que indica que o ciclo de cinco em cinco anos me dará um 2008 promissor.

Voltei a 1993 para analisar a fita de final de ano da oitava. Ela tem onze minutos e eu perdi uma hora e meia assistindo. Resolvi rever cada traço que me envolvia nas paredes da Escola do Salvador. Cada buraco na vidraça, cada sorriso de ex-colega, cada detalhe na classe, a localização da sala de aula, a secretaria, a escada antes de passar pela reforma que eu nunca vi. Um colégio pequeno que hoje já tem segundo grau e que certamente não tem mais o mesmo charme de antigamente. E que pra mim era o mundo. Um mundo pequeno e eu não tinha nenhuma vontade de sair dele. Ali todas as minhas ambições da época estavam presentes.

Pra quê ganhar o mundo? Pra quê trocar de turma se tudo o que eu quero são aqueles amigos? Pra quê sair numa festa com gente diferente, se tudo o que eu queria era uma simples reunião dançante na garagem de alguém pra ver as mesmas pessoas que eu via de segunda à sexta? Pra quê uma guria nova se minha paixão platônica estava ali, do meu lado? Pra quê ir pra Porto Seguro, se uma viagem pra SANTA TEREZINHA era o suficiente pra se tornar tão inesquecível quanto as piscinas naturais de Porto de Galinhas? Não precisavas disso. Éramos jovens. E ingênuos. E homogêneos. Não era como uma turma de oitava série do Rosário, por exemplo, bem mais globalizada.

A fita é extremamente amadora e só alguém que lida com o negócio pode saber disso. Certamente se fosse eu o responsável por fazer um “filme” de despedida, seria tudo diferente. A começar pela edição, de corte seco, brusco e com erros seríssimos de continuidade. Um operador de câmera péssimo, esbanjando de zoom na hora errada. Um editor que hoje deve estar em outra atividade, porque pra cortar as “TOMADAS” daquele jeito não pode seguir na profissão. Uma locução antiga, com um texto fraquíssimo, que não aproveitou o potencial da turma mais extraordinária que eu já estudei. E uma trilha sonora que não faz sentido algum, abrindo com “VALE TUDO”, do Tim Maia, talvez uma mensagem subliminar de quem montou o vídeo, realçando a parte do “SÓ NÃO VALE DANÇAR HOMEM COM HOMEM E NEM MULHER COM MULHER”. Bom, em 1993 eu jogava botão e sapatão eu só tinha ouvido na música “Maria Sapatão”, em algum baile infantil de carnaval. Hoje, gurias de 14 anos passeiam de mãos dadas no Parque Germânia sábado à tarde. E pra finalizar o quadro do horror, os “apresentadores” em questão eram dois colegas meus, um bem mais desenvolvido que a gente, o Tiago, e um que tava ali porque tinha contratado o cara, o Leandro. Nenhum roteiro específico e o resultado foi sofrível. Ou “nas coxas”.

Mas sabe, a gente não sabia o que se passava na época. E, confesso, com todos estes defeitos técnicos, eu me apavorei com a minha reação. O vídeo é lindo. A nossa turma da oitava funcionava da seguinte forma: de um lado, os guris. Do outro, as gurias. No meio, um vazio enorme. Uma sala razoavelmente grande, com uma turma pequena. Não existia guri e guria juntos. Era uma separação brutal, um hiato aparente de afinidades e amizades. Que se desfazia quando tinha uma festa ou uma viagem. No fundo, éramos 25 pessoas que simplesmente achavam que aquilo ali era pra sempre. Não havia nem um tipo de preocupação com o futuro. Os nossos pais se preocupavam com o nosso futuro. A gente não. A gente tinha muito mais o que fazer. A gente tinha que se divertir.

Eu não lembro de ter estudado em casa na época do Salvador. Era só o primeiro grau e era quase uma aberração rodar naquele colégio. Minhas notas eram boas. Então, tudo que eu queria era fazer o que o vídeo mostra. Tocar papelzinho no outro, encher de porrada quem tava de aniversário, correr pro recreio pra jogar bola na sexta-feira, jogar bola numa quarta pela manhã de graça em alguma praça do Lindóia ou da COHAB, que na real era só o Jardim Barão do Caí. Colar numa prova. Xingar as gurias. E, nessa época, ou um pouco antes, comprar estoques de bixiguinha pra tacar na cabeça da gurizada. Uma sensação incrível de não ter um amanhã.

Passados 14 anos, eu analiso tecnicamente a fita, eu planejo uma corrida na redenção pra baixar o final de semana, eu planejo o financiamento do carro novo, minhas férias, leio os resumos dos programas feitos no final de semana, vibro com a produção do especial de um ano do Inter campeão do mundo que ficou muito bom e, por lazer, preparo a retrospectiva musical do ano. Dos 28, eu falo volta e meia com dois. Falo bem pouco com mais três. Sei que quatro das gurias já tem filhos. Talvez cinco. Meu melhor amigo da época se casou. Outros planejam casamento. Uns três já têm filhos. O paradeiro de outros é completamente desconhecido.

Se eu forçar a memória, eu lembro da lista de chamada inteira daquela turma. Aline, Ana Lúcia, Andréia, Bibiana, Camila, Carlos, Clarissa, Cristian, Christiane, Daniel, Eduardo B., Eduardo M., Eduardo T., Fabiano, Fabrício, Julio, Karina, Leandro, Leonardo, Marcelo, Marco, Morgana, Tatiana, Tiago, Wagner. Acho que não esqueci de ninguém. Eram 25, somente 25 alunos na 8ªB do Salvador de 1993.

Adoraria ligar para qualquer um daqueles meus colegas de oitava série pra fazer uma sessão fechada, só nossa, desse vídeo. Mas eu prefiro escrever. Talvez um dia este texto chegue até um deles. Talvez o texto esteja longo demais. Por enquanto, eu fico com a imagem da Tatiana dando “tchau” para a câmera e para o corte no cartaz de “Boas Férias” que estava estampado na entrada do colégio. Eu disse que éramos ingênuos. Mal a gente sabia que as nossas férias seriam eternas. E que o aceno da Tatiana, acho que nem ela sabe, foi um definitivo e doloroso “adeus”. Nos restam as memórias e as fitas VHS pra resgatar essa nostalgia que, tenho certeza, martelou em algum momento da vida a cabeça daqueles guris. Por via das dúvidas, resolvi digitalizar essa fita. Para que aquele final de 1993 fique para sempre comigo, esteja eu onde estiver.

TRILHA DO POST:
4 Non Blondes - What’s Up
Sublimes - Boneca de Fogo
Pearl Jam - Black
Culture Beat - Mr Vain
Ace of Base - All That She Wants
Guns N’Roses - Patience
Skid Row - In a Darkened Room
Roxette - Fading Like a Flower
Titãs - Será que é isso que eu necessito?
Blind Mellon - No Rain

RETROSPECTIVA MUSICAL 2007

Filed under: fuçando pra aprender - Carlos @ 2:20 am

Bom, esse blog segue com os assuntos habituais. Depois desse post sem sentido sobre os melhores jogadores de 2007, a RETROSPECTIVA REAL tá no outro blog.

Dá uma conferida. A partir de agora, até o final do ano, um resumo do que melhor eu ouvi na “temporada”.

December 13, 2007

MELHORES DE 2007 (1)

Filed under: esportes - Carlos @ 3:44 am

Pois é gente, entramos na época das retrospectivas. A musical (dividida em VÁRIOS setores) estará no outro blog. Aqui, começo com a retrospectiva FUTEBOL 2007. Começando pelos 10 melhores jogadores da temporada 2007.

10- Frank Ribéry (FRA - Bayern Munich)
9- Cesc Fabregas (ESP - Arsenal)
8- Didier Drogba (CMF - Chelsea)
7- Rogério Ceni (BRA - São Paulo)
6- Riquelme (ARG - Boca Juniors)
5- Ibrahimovic (SUE - Inter de Milão)
4- Pirlo (ITA - Milan)
3- Messi (ARG - Barcelona)
2- Cristiano Ronaldo (POR - Manchester United)
1- Kaká (BRA - Milan)

December 7, 2007

ALMA

Filed under: música, saudosismo - Carlos @ 6:48 am

É coisa de mulher o que eu vou escrever, mas foda-se. Como disse uma amiga minha esses tempos: “Tem que ser muito macho pra dançar uma coreografia da Spice Girls em público. E ainda por cima ficar macho fazendo as coreografias”. Gostei disso, de qualquer maneira.

Pequenas coisas mudam a nossa vida. A gente nem percebe e um momento, um instante, um lampejo e pah! Muda tudo, as percepções se alteram e algum horizonte se abre. Ninguém nota, né? Geralmente dão valor ao emprego novo, ao carro novo, ao relacionamento novo, às conquistas novas. Mas ninguém dá bola para os pequenos momentos. Tu e tua alma.

Praia de Oásis, 2003. Depois do fim de um relacionamento de um ano em pleno carnaval daquele ano, procurei um amigo meu do colégio, meu melhor amigo do colégio. O cara se casou recentemente, fui no casamento e fui obrigado a dizer que ele era foda pra caralho. Um dos melhores amigos que eu já tive na minha vida. Em 2003, ele namorava uma menina que tinha uma casa em Oásis, litoral gaúcho, que pra mim, àquela altura, tinha sido apenas um antro de bebedeira no verão de 1999. Se Atlântida Sul é a minha residência oficial dos grandes momentos da minha vida, coloco em segundo lugar Oásis. Na frente de Atlântida e Capão da Canoa, que eu jamais subestimo, colocando estas praias num inestimável valor sentimental de crescimento, aprendizado e mil e vinte e cinco experiências inesquecíveis e antológicas (quem vai pra rua do Ibiza sabe do que eu estou falando).

Assim que estacionei o recém comprado Palio em Oásis algum aparelho de som do centrinho daquela praia tocava a música “Alma”, da Zélia Duncan. Eu nunca gostei da Zélia Duncan, nem tive um período de redescoberta súbita após o boom da Ana Carolina, que eu acho talentosa, mas sapatona demais pro meu gosto. De som sapatão prefiro KD Lang ou Melissa Etheridge. Entretanto “Alma” estava tocando. Acho que em 2003 eu nunca tinha ouvido a música. Parei, numa noite quente, estrelada e absurdamente linda. Talvez fosse o efeito das três cervejas compradas no caminho de Atlântida Sul até Oásis. Se eu me lembro, foram no BECKER (Atlântida Sul), algum posto em Imbé e num bar no centro de Nova Tramandaí.

“Alma”. Zélia Duncan. Olhei pro céu e ao invés de pedir um Jesus and Mary Chain eu comprei outra cerveja pra prestar atenção na letra. Nunca as coisas foram tão claras. Aquele momento, da “alma”, eu e a”alma”, o céu, as pessoas comendo crepe, as crianças no parque de diversões, os adultos discutindo o futuro da dupla Grenal no bar, uma caminhada breve até a casa do meu amigo. Acho que pela primeira vez eu soube o significado de alma. Acho que ali talvez tenha sido um dos momentos mais marcantes da minha vida. O momento em que eu soube o real significado da ALMA. De como as coisas às vezes, do nada, fazem bem mais sentido do que uma conquista nova.

Às vezes o que você planeja é muito menor do que a força do acaso. Eu juro que se essa música não tivesse tocado naquele momento, se o céu não brilhasse tanto como naquele dia, se o trajeto até Oásis não fosse tão esclarecedor quanto naquela noite, se as pessoas não parecessem tão radiantes quanto naquele instante, eu não estaria escrevendo sobre isso agora. Acreditem, estes cinco minutos e meio de estacionar o carro e ir até a casa do meu amigo mudaram a minha vida. Pela primeira vez eu acreditei na minha alma. É nela que eu me baseio até hoje e é nessa força que eu passei a crer irremediavelmente desde a segunda-feira de carnaval de 2003.

O que é melhor? Não se trata de ninguém. Sou eu. O buraco é mais embaixo. Uma conjunção de fatores que mudam para sempre uma filosofia de vida. Uma confluência de fatos que modificam a personalidade de uma pessoa. Noite, movimento, calor, felicidade, uma música. Acho que estes são os verdadeiros meios que te fazem enxergar o fim. As conquistas? São o fim.

Zélia Duncan, quem diria. Depois eu devo ter ouvido uma overdose de axé, funk ruim e marchinha de carnaval. Eu fico com a “Alma”. A minha alma.

December 1, 2007

CADA UM COM SEU PRECONCEITO

Filed under: comportamento - Carlos @ 5:57 am

O Marcelo Nova, aquele que era do Camisa de Vênus, é uma figura folclórica. Sabe aqueles que sempre dão uma opinião mas no final das contas ninguém acaba levando a sério. Parece que ele fala certas coisas só pela polêmica em si, pela vontade de causar algum tipo de aborrecimento. Só que ele é baiano, cantava Sílvia Piranha e é pai da Penélope. Aí até ele puto da cara fica engraçado. Mas ele é massa. Certa vez, criou uma pérola. Não sei se foi ele que cunhou a frase, mas ouvi da boca dele: “Preconceito é que nem prega. Faço questão de manter e não abro mão dele”.

Concordando com a frase e certamente prezando muito pelas minhas pregas, admito todo o tipo de preconceito do mundo. Preconceito, genericamente falando, e não etimologicamente (aquela do pré-conceito), é certa aversão a algum tipo de coisa que a gente presencia no cotidiano. Confesso que nem penso mais em preconceito contra minorias. Tenho opiniões formadas a respeito destas polêmicas gerais (negros, homossexuais, drogados). O que não me impede de ter amigos racistas, gays e junkies. E de adorá-los. Não, não falei “amigos negros” porque aí era só olhar no espelho ou então enxergar a árvore familiar pra ter a convicção de que o homem que me criou era negro. E foda pra caralho.

A questão é outra. Tenho um profundo preconceito contra quem segue um estilo de vida diferente do que eu penso ser correto. Melhor dizendo, eu tenho uma incrível dificuldade em aceitar certas diferenças de conduta. Já escrevi por aqui que eu sou cristão e por mais que interpretem mal isso tudo, eu sou um profundo admirador da doutrina. Acredito que para alcançar a chamada “glória” é sempre necessário o “sacrifício”. Crucificação, saca? A plenitude só vem se a gente esfolar muito o rabo para que isso aconteça. Acredito no amor e no trabalho, seja ele qual for. Em encarar as dificuldades, quaisquer que sejam, para atingir determinado objetivo. Que no final das contas vira felicidade.

Dentro dessa filosofia que eu adoto, não consigo mais admitir vagabundagem. Não entra mais no meu mundo gente que consegue ganhar as coisas de um jeito fácil. Aí tá o preconceito. Existe gente - e MUITA gente - que vive do chamado tráfico de relações. O que importa no caso não é o chamado “sacrifício”, a investida na busca por um aperfeiçoamento pessoal que vem do conjunto de aptidão, talento, esforço próprio, estudo, algum sofrimento, algumas rejeições. Assim se constrói uma identidade, uma personalidade, um caráter. Uma associação de fatores que unidos vão te levar a algum objetivo. Vida real.

Outras pessoas buscam a opção de simplesmente se “relacionar bem”. Os amigos certos na hora certa. Tem muita gente com grana por aí. Quando eu era pequeno, achava que era balela a história do executivo chegar em casa e tomar um uísque pra relaxar. Hoje eu vejo que esse lance de tirar a gravata e bebericar é bem real. Certamente as pessoas que se aproximam destes “monstros capitalistas” nem sabem que pra poder tomar um uísque do bom eles tiveram que ralar muito. E pra construir um império, nem basta ter berço. Só berço não dura. Ajuda. Mas só se solidifica com muito trabalho (sacrifício, cristão, eita!).

Estes levam com eles uma ralé de gente que não tem berço. E decidiu optar por “relacionar-se bem”. Sem muito talento e tampouco vontade em desenvolver qualquer que seja a aptidão, os chamados ASPONES, puxa-sacos de plantão e alpinistas sociais invadem o cerco dessa gente. Ah, e quem não gosta de ter o saco puxado. Ego é foda. Aí, criou-se este pequeno globo de pessoas que são as “bem relacionadas”. Elas até que se esforçam um pouquinho. Procuram ser apresentadas para as pessoas certas e viver esta rede de influências às custas dessa gente.

Admito que tem que ter carisma pra isso. Eu não teria. Como não tenho compreensão pra entender esse tipo de atitude. Como não tenho compreensão pra perdoar e aceitar esse tipo de “emergência social”. Pouco importa o passado. Eu admiro o trabalho, até acho graça do “jeitinho brasileiro”, mas no final das contas, não consigo suportar a idéia de alguém estar passando bem o tempo todo sem fazer nada enquanto eu estou aqui dando um duro desgraçado pra poder realizar meus sonhos de consumo.

E parece que nisso tudo, eles são inatingíveis. E invencíveis. Inabaláveis. Podem brincar de casinha de bonecas, de Disney fora de época, de continho de fadas, de “love is in the air and nothing else matters”. Mas o mundo não é Manhattan. O mundo é maior que teu quarto, que tua praia, que tua felicidade - esta que aparentemente independe de qualquer estado ruim que as pessoas que te amam possam estar passando.

É só um outro tipo de filosofia e eu juro, deveria respeitar. Mas eu não consigo. E aos poucos consigo entender a indignação de gente que realmente defende os outros. Enquanto eu estou digitando aqui, tem gente com frio debaixo de uma marquise a alguns metros de casa. Ou meninas de 15 anos na rua tentando buscar uma grana a mais para a casa. Estes certamente têm raiva da gente, de quem tá lendo isso ou de quem tá escrevendo isso. Parecida com a raiva que eu tenho de quem neste momento tá numa balada de 100 reais a noite, bombando com empresários emergentes de “ESTRELAS” (ou ex-BBBs???) tomando champagne francês de graça e saindo com o dia raiando sem gastar um tostão. Deve ser porque eu jamais vou conseguir isso numa boa.

E se eu passasse a fazer isso, certamente minha consciência iria dar gritos tão fortes que eu não conseguiria dormir. Só de pensar que não é EU que estou fazendo por mim. São os OUTROS. E que os meus meios que justificaram este fim não foram os mais corretos do mundo, de renegar coisas que realmente importam: a minha trajetória, os meus amigos e o meu passado. Hoje, eu sou dependente de todos eles. Do que eu fui e do que os outros representam pra mim. Talvez porque eu não tenha estas barbadas. Talvez porque eu não saiba que, quem sabe, dinheiro e vida mansa compram até a consciência. E acho que a minha função era só entender tudo isso e mandar à puta que pariu. Mas eu não consigo entender, não adianta. Esse é o preconceito que me mata. Tomara que eu esteja enganado. Tomara.

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