Verborragia sem concessões

December 1, 2007

CADA UM COM SEU PRECONCEITO

Filed under: comportamento - Carlos @ 5:57 am

O Marcelo Nova, aquele que era do Camisa de Vênus, é uma figura folclórica. Sabe aqueles que sempre dão uma opinião mas no final das contas ninguém acaba levando a sério. Parece que ele fala certas coisas só pela polêmica em si, pela vontade de causar algum tipo de aborrecimento. Só que ele é baiano, cantava Sílvia Piranha e é pai da Penélope. Aí até ele puto da cara fica engraçado. Mas ele é massa. Certa vez, criou uma pérola. Não sei se foi ele que cunhou a frase, mas ouvi da boca dele: “Preconceito é que nem prega. Faço questão de manter e não abro mão dele”.

Concordando com a frase e certamente prezando muito pelas minhas pregas, admito todo o tipo de preconceito do mundo. Preconceito, genericamente falando, e não etimologicamente (aquela do pré-conceito), é certa aversão a algum tipo de coisa que a gente presencia no cotidiano. Confesso que nem penso mais em preconceito contra minorias. Tenho opiniões formadas a respeito destas polêmicas gerais (negros, homossexuais, drogados). O que não me impede de ter amigos racistas, gays e junkies. E de adorá-los. Não, não falei “amigos negros” porque aí era só olhar no espelho ou então enxergar a árvore familiar pra ter a convicção de que o homem que me criou era negro. E foda pra caralho.

A questão é outra. Tenho um profundo preconceito contra quem segue um estilo de vida diferente do que eu penso ser correto. Melhor dizendo, eu tenho uma incrível dificuldade em aceitar certas diferenças de conduta. Já escrevi por aqui que eu sou cristão e por mais que interpretem mal isso tudo, eu sou um profundo admirador da doutrina. Acredito que para alcançar a chamada “glória” é sempre necessário o “sacrifício”. Crucificação, saca? A plenitude só vem se a gente esfolar muito o rabo para que isso aconteça. Acredito no amor e no trabalho, seja ele qual for. Em encarar as dificuldades, quaisquer que sejam, para atingir determinado objetivo. Que no final das contas vira felicidade.

Dentro dessa filosofia que eu adoto, não consigo mais admitir vagabundagem. Não entra mais no meu mundo gente que consegue ganhar as coisas de um jeito fácil. Aí tá o preconceito. Existe gente - e MUITA gente - que vive do chamado tráfico de relações. O que importa no caso não é o chamado “sacrifício”, a investida na busca por um aperfeiçoamento pessoal que vem do conjunto de aptidão, talento, esforço próprio, estudo, algum sofrimento, algumas rejeições. Assim se constrói uma identidade, uma personalidade, um caráter. Uma associação de fatores que unidos vão te levar a algum objetivo. Vida real.

Outras pessoas buscam a opção de simplesmente se “relacionar bem”. Os amigos certos na hora certa. Tem muita gente com grana por aí. Quando eu era pequeno, achava que era balela a história do executivo chegar em casa e tomar um uísque pra relaxar. Hoje eu vejo que esse lance de tirar a gravata e bebericar é bem real. Certamente as pessoas que se aproximam destes “monstros capitalistas” nem sabem que pra poder tomar um uísque do bom eles tiveram que ralar muito. E pra construir um império, nem basta ter berço. Só berço não dura. Ajuda. Mas só se solidifica com muito trabalho (sacrifício, cristão, eita!).

Estes levam com eles uma ralé de gente que não tem berço. E decidiu optar por “relacionar-se bem”. Sem muito talento e tampouco vontade em desenvolver qualquer que seja a aptidão, os chamados ASPONES, puxa-sacos de plantão e alpinistas sociais invadem o cerco dessa gente. Ah, e quem não gosta de ter o saco puxado. Ego é foda. Aí, criou-se este pequeno globo de pessoas que são as “bem relacionadas”. Elas até que se esforçam um pouquinho. Procuram ser apresentadas para as pessoas certas e viver esta rede de influências às custas dessa gente.

Admito que tem que ter carisma pra isso. Eu não teria. Como não tenho compreensão pra entender esse tipo de atitude. Como não tenho compreensão pra perdoar e aceitar esse tipo de “emergência social”. Pouco importa o passado. Eu admiro o trabalho, até acho graça do “jeitinho brasileiro”, mas no final das contas, não consigo suportar a idéia de alguém estar passando bem o tempo todo sem fazer nada enquanto eu estou aqui dando um duro desgraçado pra poder realizar meus sonhos de consumo.

E parece que nisso tudo, eles são inatingíveis. E invencíveis. Inabaláveis. Podem brincar de casinha de bonecas, de Disney fora de época, de continho de fadas, de “love is in the air and nothing else matters”. Mas o mundo não é Manhattan. O mundo é maior que teu quarto, que tua praia, que tua felicidade - esta que aparentemente independe de qualquer estado ruim que as pessoas que te amam possam estar passando.

É só um outro tipo de filosofia e eu juro, deveria respeitar. Mas eu não consigo. E aos poucos consigo entender a indignação de gente que realmente defende os outros. Enquanto eu estou digitando aqui, tem gente com frio debaixo de uma marquise a alguns metros de casa. Ou meninas de 15 anos na rua tentando buscar uma grana a mais para a casa. Estes certamente têm raiva da gente, de quem tá lendo isso ou de quem tá escrevendo isso. Parecida com a raiva que eu tenho de quem neste momento tá numa balada de 100 reais a noite, bombando com empresários emergentes de “ESTRELAS” (ou ex-BBBs???) tomando champagne francês de graça e saindo com o dia raiando sem gastar um tostão. Deve ser porque eu jamais vou conseguir isso numa boa.

E se eu passasse a fazer isso, certamente minha consciência iria dar gritos tão fortes que eu não conseguiria dormir. Só de pensar que não é EU que estou fazendo por mim. São os OUTROS. E que os meus meios que justificaram este fim não foram os mais corretos do mundo, de renegar coisas que realmente importam: a minha trajetória, os meus amigos e o meu passado. Hoje, eu sou dependente de todos eles. Do que eu fui e do que os outros representam pra mim. Talvez porque eu não tenha estas barbadas. Talvez porque eu não saiba que, quem sabe, dinheiro e vida mansa compram até a consciência. E acho que a minha função era só entender tudo isso e mandar à puta que pariu. Mas eu não consigo entender, não adianta. Esse é o preconceito que me mata. Tomara que eu esteja enganado. Tomara.

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