ALMA
É coisa de mulher o que eu vou escrever, mas foda-se. Como disse uma amiga minha esses tempos: “Tem que ser muito macho pra dançar uma coreografia da Spice Girls em público. E ainda por cima ficar macho fazendo as coreografias”. Gostei disso, de qualquer maneira.
Pequenas coisas mudam a nossa vida. A gente nem percebe e um momento, um instante, um lampejo e pah! Muda tudo, as percepções se alteram e algum horizonte se abre. Ninguém nota, né? Geralmente dão valor ao emprego novo, ao carro novo, ao relacionamento novo, às conquistas novas. Mas ninguém dá bola para os pequenos momentos. Tu e tua alma.
Praia de Oásis, 2003. Depois do fim de um relacionamento de um ano em pleno carnaval daquele ano, procurei um amigo meu do colégio, meu melhor amigo do colégio. O cara se casou recentemente, fui no casamento e fui obrigado a dizer que ele era foda pra caralho. Um dos melhores amigos que eu já tive na minha vida. Em 2003, ele namorava uma menina que tinha uma casa em Oásis, litoral gaúcho, que pra mim, àquela altura, tinha sido apenas um antro de bebedeira no verão de 1999. Se Atlântida Sul é a minha residência oficial dos grandes momentos da minha vida, coloco em segundo lugar Oásis. Na frente de Atlântida e Capão da Canoa, que eu jamais subestimo, colocando estas praias num inestimável valor sentimental de crescimento, aprendizado e mil e vinte e cinco experiências inesquecíveis e antológicas (quem vai pra rua do Ibiza sabe do que eu estou falando).
Assim que estacionei o recém comprado Palio em Oásis algum aparelho de som do centrinho daquela praia tocava a música “Alma”, da Zélia Duncan. Eu nunca gostei da Zélia Duncan, nem tive um período de redescoberta súbita após o boom da Ana Carolina, que eu acho talentosa, mas sapatona demais pro meu gosto. De som sapatão prefiro KD Lang ou Melissa Etheridge. Entretanto “Alma” estava tocando. Acho que em 2003 eu nunca tinha ouvido a música. Parei, numa noite quente, estrelada e absurdamente linda. Talvez fosse o efeito das três cervejas compradas no caminho de Atlântida Sul até Oásis. Se eu me lembro, foram no BECKER (Atlântida Sul), algum posto em Imbé e num bar no centro de Nova Tramandaí.
“Alma”. Zélia Duncan. Olhei pro céu e ao invés de pedir um Jesus and Mary Chain eu comprei outra cerveja pra prestar atenção na letra. Nunca as coisas foram tão claras. Aquele momento, da “alma”, eu e a”alma”, o céu, as pessoas comendo crepe, as crianças no parque de diversões, os adultos discutindo o futuro da dupla Grenal no bar, uma caminhada breve até a casa do meu amigo. Acho que pela primeira vez eu soube o significado de alma. Acho que ali talvez tenha sido um dos momentos mais marcantes da minha vida. O momento em que eu soube o real significado da ALMA. De como as coisas às vezes, do nada, fazem bem mais sentido do que uma conquista nova.
Às vezes o que você planeja é muito menor do que a força do acaso. Eu juro que se essa música não tivesse tocado naquele momento, se o céu não brilhasse tanto como naquele dia, se o trajeto até Oásis não fosse tão esclarecedor quanto naquela noite, se as pessoas não parecessem tão radiantes quanto naquele instante, eu não estaria escrevendo sobre isso agora. Acreditem, estes cinco minutos e meio de estacionar o carro e ir até a casa do meu amigo mudaram a minha vida. Pela primeira vez eu acreditei na minha alma. É nela que eu me baseio até hoje e é nessa força que eu passei a crer irremediavelmente desde a segunda-feira de carnaval de 2003.
O que é melhor? Não se trata de ninguém. Sou eu. O buraco é mais embaixo. Uma conjunção de fatores que mudam para sempre uma filosofia de vida. Uma confluência de fatos que modificam a personalidade de uma pessoa. Noite, movimento, calor, felicidade, uma música. Acho que estes são os verdadeiros meios que te fazem enxergar o fim. As conquistas? São o fim.
Zélia Duncan, quem diria. Depois eu devo ter ouvido uma overdose de axé, funk ruim e marchinha de carnaval. Eu fico com a “Alma”. A minha alma.