COUVERT DOZE REAIS
Confesso que o post embaixo me inspirou a fazer um pequeno protesto. Enfim, me irritei, deu raiva, gosto do sentimento de raiva, acho ele bem mais nobre do que pena, compaixão ou tristeza. Dos sentimentos ruins, a raiva é o melhor deles porque é o único que MOTIVA. Os outros são letárgicos, inoperantes, deprimentes. Raiva ou ódio traz uma certa força sobrenatural que, por pior que seja, agrega uma força de vontade para que os argumentos continuem, mesmo que sejam destrutivos. É uma merda que puxa o lado ruim da pessoa, por vezes absolutamente animal. Mas é o único que FAZ alguma coisa, pelo menos. Enfim, antes raiva do que resignação. Ou pena, esse o pior de todos. Síndrome do coitadismo.
Mas não é contra o coitadismo que eu vou protestar. Isso vale um outro post, outro dia. O protesto se faz contra as pessoas que respondem isso:
“Que tipo de música tu gosta?”
“Ah, eu sou eclético, gosto um pouco de tudo”.
Isso me lembra o mestre Abílio dos Reis. Não conhece, né? Seu Abílio, já falecido, era o cara do Inter que revelava garotos lá pelos anos 60 e 70. Falcão é cria dele. Seu Abílio perguntava para a galera:
“Em que posição você joga?”
“Ah, eu jogo em todas.”
Resultado: NÃO JOGA NADA.
Talvez tenha sido outro mestre, ÊNIO ANDRADE, o autor da pérola, mas enfim, pesquisa nessa hora tá complicada. Vai assim, no chutômetro saudável, que não dá nada.
Pois bem. Como eu ando numa fase extremamente musical e absolutamente contrariado com pessoas NÃO MUSICAIS (ah, música é música e só), a principal irritação é essa do ecletismo.
Mas tem uma pior que eu lembrei:
“Ah, eu gosto daquela do U2… putz, não lembro o nome, é aquela que eles tocaram no show em Buenos Aires que eu fui, sabe? Ah, eu adoro aquela música. Bah, desculpa, sou tri ruim pra lembrar nome de música.”
Isso é praticamente uma facada no meu peito. Eu ouvi isso. Primeiro, a pessoa foi no show do U2 por algumas razões. A primeira é pelo EVENTO. A segunda é porque tinha dinheiro e a terceira porque a MÚSICA (SHOW, MÚSICA, PEGOU?) era o que menos importava naquela altura do campeonato. Duas fotinhos no orkut e eu lembro que estava em Atlântida Sul numa TV 14 polegadas pegando mal o show e essa pessoa no entanto estava em Buenos Aires vendo o show. A propósito, eu refresquei a memória da pessoa. A música era “ONE”, do disco “ACHTUNG BABY”, de 1991. Provavelmente uma das três mais conhecidas do U2. E segundo que ir a um show do U2 e não saber que ONE É O NOME DE UMA MÚSICA DELES é como achar que o JAPÃO fica no continente AFRICANO.
Depois, eu perguntei que mais a pessoa gostava além de U2. Ela disse “Seu Jorge”, “Marisa Monte”, “samba de raiz” e “Rolling Stones”. Mas que ela era “ECLÉTICA” e “GOSTAVA DE TUDO UM POUCO”.
Não sou melhor do que a pessoa “eclética” em nada. Vai ver ela só acha que música é algo que entra no ouvido, agrada e não contribui em nada pra vida dela não saber que ONE é o nome daquela música. Pra mim, música é muito mais que isso. Eu escrevi no post abaixo.
Cada um preza por qualidades nas pessoas. Uma pessoa “musical”, no meu ponto de vista, é muito mais interessante do que as “ecléticas”. E esse lado musical COMUM às vezes passa tanto do limite que chega a irritar. Ao menos a raiva serve pra isso né: escrever um post.