Verborragia sem concessões

January 10, 2008

COUVERT DOZE REAIS

Filed under: comportamento, música - Carlos @ 5:25 am

Confesso que o post embaixo me inspirou a fazer um pequeno protesto. Enfim, me irritei, deu raiva, gosto do sentimento de raiva, acho ele bem mais nobre do que pena, compaixão ou tristeza. Dos sentimentos ruins, a raiva é o melhor deles porque é o único que MOTIVA. Os outros são letárgicos, inoperantes, deprimentes. Raiva ou ódio traz uma certa força sobrenatural que, por pior que seja, agrega uma força de vontade para que os argumentos continuem, mesmo que sejam destrutivos. É uma merda que puxa o lado ruim da pessoa, por vezes absolutamente animal. Mas é o único que FAZ alguma coisa, pelo menos. Enfim, antes raiva do que resignação. Ou pena, esse o pior de todos. Síndrome do coitadismo.

Mas não é contra o coitadismo que eu vou protestar. Isso vale um outro post, outro dia. O protesto se faz contra as pessoas que respondem isso:
“Que tipo de música tu gosta?”
“Ah, eu sou eclético, gosto um pouco de tudo”.

Isso me lembra o mestre Abílio dos Reis. Não conhece, né? Seu Abílio, já falecido, era o cara do Inter que revelava garotos lá pelos anos 60 e 70. Falcão é cria dele. Seu Abílio perguntava para a galera:
“Em que posição você joga?”
“Ah, eu jogo em todas.”

Resultado: NÃO JOGA NADA.
Talvez tenha sido outro mestre, ÊNIO ANDRADE, o autor da pérola, mas enfim, pesquisa nessa hora tá complicada. Vai assim, no chutômetro saudável, que não dá nada.

Pois bem. Como eu ando numa fase extremamente musical e absolutamente contrariado com pessoas NÃO MUSICAIS (ah, música é música e só), a principal irritação é essa do ecletismo.

Mas tem uma pior que eu lembrei:
“Ah, eu gosto daquela do U2… putz, não lembro o nome, é aquela que eles tocaram no show em Buenos Aires que eu fui, sabe? Ah, eu adoro aquela música. Bah, desculpa, sou tri ruim pra lembrar nome de música.”

Isso é praticamente uma facada no meu peito. Eu ouvi isso. Primeiro, a pessoa foi no show do U2 por algumas razões. A primeira é pelo EVENTO. A segunda é porque tinha dinheiro e a terceira porque a MÚSICA (SHOW, MÚSICA, PEGOU?) era o que menos importava naquela altura do campeonato. Duas fotinhos no orkut e eu lembro que estava em Atlântida Sul numa TV 14 polegadas pegando mal o show e essa pessoa no entanto estava em Buenos Aires vendo o show. A propósito, eu refresquei a memória da pessoa. A música era “ONE”, do disco “ACHTUNG BABY”, de 1991. Provavelmente uma das três mais conhecidas do U2. E segundo que ir a um show do U2 e não saber que ONE É O NOME DE UMA MÚSICA DELES é como achar que o JAPÃO fica no continente AFRICANO.

Depois, eu perguntei que mais a pessoa gostava além de U2. Ela disse “Seu Jorge”, “Marisa Monte”, “samba de raiz” e “Rolling Stones”. Mas que ela era “ECLÉTICA” e “GOSTAVA DE TUDO UM POUCO”.

Não sou melhor do que a pessoa “eclética” em nada. Vai ver ela só acha que música é algo que entra no ouvido, agrada e não contribui em nada pra vida dela não saber que ONE é o nome daquela música. Pra mim, música é muito mais que isso. Eu escrevi no post abaixo.

Cada um preza por qualidades nas pessoas. Uma pessoa “musical”, no meu ponto de vista, é muito mais interessante do que as “ecléticas”. E esse lado musical COMUM às vezes passa tanto do limite que chega a irritar. Ao menos a raiva serve pra isso né: escrever um post.

COUVERT OITO REAIS

Filed under: comportamento, música - Carlos @ 4:41 am

Eu odeio barzinho que toca voz e violão e cobra couvert de oito reais pra músicas da MPB tradicional. Simplesmente porque todo mundo faz a batida do mesmo jeito. É horrível, de um mau gosto, mal tocada, feio o jeito de interpretar, praticamente assassinando toda a harmonia de músicas excelentes. As cinco músicas mais tocadas em bares (e prontamente assassinadas, com o chamariz de MÚSICA AO VIVO - COUVERT) são as seguintes:

1- Cláudio Zoli - Noite do Prazer
Aquela, “na madrugada vitrola rolando um BLUES, dançando BB King sem parar”. É uma musiquinha pop relativamente chata que enjoa o primeiro gole de chope quando é tocada, seja no ambiente mais agradável possível. Um saco de música.

2- Djavan - Eu te Devoro
NUNCA vi alguém tocar bem essa música.

3- Caetano Veloso - Sozinho
Como ninguém consegue fazer as viradas da harmonia, fica um troço monotônico.

4- Ana Carolina - Quem de Nós Dois
A versão é excelente pra música italiana. Mas estragam de uma maneira que irrita.

5- Cássia Eller - Malandragem
Já não curto a versão acústica da própria Cássia. O acústico cover amador do acústico então fica um lixo.

Mas enfim, o POVO gosta. Na verdade é o tipo de música que entra por um ouvido e sai pelo outro. E é o tipo de música que as pessoas mais gostam. Ninguém na noite tem o hábito de PENSAR a música. Não. É só um fator circunstancial, um efeito sonoro que não atrapalha o bate papo, não influencia na conversa e não estimula o flerte. Justamente por essas razões, eu não consigo gostar de bar que toca o diabo de MÚSICA AO VIVO. Música ao vivo não é atrativo nenhum. Um show sim. Uma festa cuja atração principal seja exatamente a banda no palco. Senão, mete um DJ e põe a versão original que funciona muito melhor.

A chatice das músicas-ao-vivo-em-bares-MADUROS está cada vez pior. Na Padre Chagas, por exemplo, que é uma rua agradável, pelo menos 80% dos bares fazem esse tipo de coisa, cobrando um couvert simbólico para um cara que tá ali, vivendo daquilo, ESTRAÇALHANDO com a obra dos outros pra simplesmente agradar a um público pouco exigente nesse quesito. Eu meio que desisti de tentar convencer as pessoas que a música vai muito além da própria música. Talvez porque eu tenha feito uma trilha musical da minha própria vida. E em nenhum momento, nestes 28 anos, um cidadão tocando “SE”, do Djavan, em ritmo de SAMBA ROCK, batida pra lá e pra cá, fez parte desta trilha. E eu só lembro porque era ruim demais. Tá aí um passo pra me convencer, mas que até pode se tornar divertido. Se alguém quiser me convidar pra fazer alguma coisa, jamais me leve a um bar com música ao vivo tocando “clássicos” da MPB. Músicas que eu adoro, como por exemplo “Chão de Giz”, do Zé Ramalho, são melancolicamente detonadas.

A culpa não é dos músicos. É do público. E esse público, o consumidor deste tipo de local, me irrita mais do que patricinha metida a funkeira. É aquele pessoal na faixa dos 30 anos, já bem sucedidos em seus empregos, seja lá quais forem. Que tem uma certa pretensão em soar “cool”, que utilizou boa parte do conhecimento próprio pra estabelecer uma carreira e lutar por esse tipo de coisa sem ter tido tempo pra pensar se é realmente de qualidade aquilo que estão consumindo. Mais ou menos: pago 5 reais por um chope de 300 ml num lugar agradável, mas eu não entendo muito de música e nem tenho tanto discernimento pra livros, cinema e (até) política. Mas o carro é bom, a janta é por minha conta e minhas histórias são as mesmas da mesa do lado. Eu cresci, me estabeleci, me formei. Viajei pra Europa uma vez, onde provavelmente não fiz nada de interessante. Vou aos jogos no Olímpico ou no Beira-Rio. Moro sozinho e sou independente. Pós graduei. E gosto das malditas MÚSICAS AO VIVO MAL TOCADAS, tomando-me 8 reais que, ah, não fazem falta.

É uma irritação paranóica, quase obsessiva por esse estilo de vida. No final das contas, a música ao vivo é um símbolo de uma geração que procurou fazer tudo certo e não tem nenhuma história pra contar. É o carro-chefe dessa gente BACANA, de CARA LIMPA, mas que pra funcionar precisa ser banhada num caldeirão de sal pra que tenham algum tipo de tempero que chame a atenção.

Sinceramente, ao menos nessa parte os pagodeiros são mais honestos. Existe um público que consome e gosta. Um público que, bem ou mal, não toma suas músicas como um zumbido qualquer que ALIVIA os ouvidos em happy hours do Moinhos de Vento. Não gosto de pagode, mas admiro pessoas que pensam que (mais uma vez) MÚSICA é muito maior do que MÚSICA. Música é uma parte considerável e substancial da sua alma, um definidor de personalidade, uma poesia constante do inconsciente, um catalisador de vontades, necessidades e possibilidades, é vento, é ar, oxigênio, é uma das poucas coisas que faz rir, chorar, muda humor, esculhamba corações, rompe e une relações. E eu não posso conceber que mandem músicas boas À MERDA.

Pra fechar, um exemplo disso. Pego leve. A música “Inverno”, da Adriana Calcanhoto, é a minha preferida dela. A letra é de Antonio Cícero e acho absolutamente perfeita. Observem a interpretação de Adriana Calcanhoto:


E agora uma cover da música:

Respondam-me. PRA QUÊ ESSA BATIDINHA SAMBA ROCK IRRITANTE E ESSE TIMBRE POBRE NUMA MÚSICA CUJA HARMONIA EM NENHUMA PARTE PEDE ISSO?

E não me venham defender esses fazedores de couvert porque eu nunca ouvi um que prestasse. Não é importante a trilha sonora numa noite pra você? Mude este conceito, aposto que você será bem mais feliz. Ou então põe a versão original, ao menos não tem um desrespeito artístico nessa questão.

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